Um Amor Sem Fronteiras
16 Desvendando Alguns Mistérios - Parte II
Notas iniciais
Samantha saiu muito pensativa da casa de dona Lucinete. O que teria acontecido dentro do casarão que havia levado Bianka a perder a fala? Deveria ter sido muito assustador!
Vagarosamente caminhou pela casa e entrou pela porta da frente. O casarão estava mergulhado em silêncio.
– Jurema... – chamou do corredor.
– Estou aqui, na cozinha...
Samantha foi até lá.
– A Luna ainda não chegou?
– Não...
– Ela está demorando tanto!
– Quando ela se encontra com os amigos de Bela Vista, esquece o caminho da casa. Estou cansada de saber como é.
Samantha puxou um banquinho e sentou-se.
– Como é a Luna? Quero dizer, de que jeito ela é?
– E eu que sei?! – perguntou a empregada estranhando. – Vocês duas não são parentes, você já deve esta cansada de saber qual é o jeitão dela?!
– Eu sei jurema, e que apesar de sermos parentes eu e a Luna nuca convivemos muito e depois nós ficamos uns seis anos longe sem se ver. E gostaria de saber como ela era antes deu vir pra cá...
Nisso, gemendo e reclamando do reumatismo, chegou dona Geralda, com o latão de leite e foi direto para a pia.
– Fale a senhora pra ela, dona Geralda – disse Jurema enxugando as mãos no avental.
–Falar o quê? – perguntou dona Geralda surpresa.
– Ela quer saber como é a Luna. A senhora é empregada nesta casa mais tempo que eu e deve saber melhor.
– Ora, que bobagem! – exclamou Samantha, sem graça, por que não tinha tanta intimidade com a empregada mais velha. – perguntei só por perguntar...
Dona Geralda despejou o leite na leiteira e pôs o latão na pia.
– A Luna? – e encolheu os ombros. – Às vezes até penso que ela é meio... boba
– Nossa dona Geralda, se dona Olivia escutasse a senhora falando isso ia ficar muito zangada! – observou Jurema.
– Eu não estou falando mal dela e nem estou dizendo que ela tem algum problema! – protestou dona Geralda. – Eu só queria dizer que ela é muito... como se diz mesmo? Um Maria-vai-com-as-outras.
– Influenciável, não é isso que a senhora quer dizer? – perguntou Samantha.
– Se isso aí significa pessoa que não tem ideia própria, acertou Às vezes parece que ela não sabe o que quer, age de modo confuso... Veja, quando foi pra resolver que curso deveria cursar para tirar um diploma, vivia perguntando a todo mundo qual curso deveria fazer. Você acha que isso é jeito de um garota daquele tamanho e que sempre teve uma educação tão boa?
– Bem, nem sempre os jovens sabem que curso ou qual profissão desejam seguir – explicou Samantha procurando suavizar a coisa.
– Em geral, os jovens são muito confusos porque não é fácil a gente deixar de ser criança para se transformar em adulto, dona Geralda. – A grande maioria é assim mesmo, sabia?
–Pode ser, mas com meus filhos não aconteceu desse jeito porque desde pequenos – e olhe que tive nove! – já sabiam o que desejavam e brigavam por aquilo que queriam. Às vezes eram até malcriados. Mas a Luna...?
– Ela não brigava pelo que queria?
– Não precisava.
– Não entendi.
– É que bastava ela querer uma coisa e Vivi já corria para fazer a vontade dela. – Eu ficava com uma raiva! Era só a Luna espernear fazendo birra, e pronto, Vivi dava um jeito de fazer tudo o que ela queria. Aí, ela parava de chorar. Era uma garota muito manhosa.
Samantha então pensou no abraço que tinha visto na estrebaria. Vivi deveria ter dito a verdade. Toda a vez que Luna tinha algum problema ia chorar no ombro dela. Só podia ser isso.
– Bem, agora ela já cresceu e já deve saber o que quer ou qual careira vai seguir, decerto mudou – observou Samantha procurando continuar o assunto.
– Tomara que sim, mas eu não acho não. – prosseguiu dona Geralda lavando o latão. – Pensa que a Vivi deixou de ser o pano de lagrimas dela? Nada! Resultado: hoje ela leva a Luna pelos beiços, igual touro que tem argola no nariz. Faz com ela o que quer.
– A senhora trabalha aqui há muito tempo?
– Faz seis anos, mais ou menos.
– Há seis anos, visitei a fazenda – calculou Samantha. – A senhora ainda não trabalhava aqui.
– Vai ver que comecei logo depois da sua visita.
Samantha mordeu os lábios:
– A senhora sabe por que Bianka ficou muda?
Dona Geralda olhou para Jurema disfarçadamente e franziu a sobrancelha.
– Bem, é um assunto que agente não gosta muito de comentar.
– Fiquei sabendo que foi por causa de um susto aí no casarão do lado – emendou Samantha.
– Ora, se você sabia, então por que me perguntou? – respondeu dona Geralda ofendida.
– Bem, acontece que eu gostaria de saber direitinho como aconteceu.
– Pois eu não sei direitinho porque não estava lá dentro. Nem os pais de Bianka nem ninguém sabe. Só as três crianças sabem, e tudo o que sabiam, Luna e Vivi contaram para os adultos. E assunto encerrado, não gosto de falar nisso porque dona Olivia pode pensar que estou fofocando. E não me interessa fofocar.
– Não, eu também não estou fofocando – declarou Samantha procurando manter o ritmo da conversa. – Só queria ver se eu podia ajudar em alguma coisa.
– Você ajudar? Como se nem os médicos não conseguiram?
– Bem, a gente nuca sabe, não é? Às vezes, uma pessoa que parece não ter nada com isso, acaba encontrando o fio do novelo e desenrola a historia.
Dona Geralda não respondeu. Dirigindo-se ao fogão, ajeitou os paus de lenha. Samantha foi até a janela e deu uma olhada na paisagem. O sol já começava a inclinar alongando as sombras. Ela suspirou.
– A senhora acredita que o fantasma de Ana Beatriz anda por ai assombrando os outros? – perguntou à queima-roupa.
– Ave Maria, lá vem ela de novo falando em fantasmas! – gemeu Jurema deixando cair à concha. – Morro de medo de fantasma!
– Que bobeira ter medo de assombração! – reprovou dona Geralda.
– Bobeira é da senhora que se faz de machona, mas que também morre de medo da falecida! – respondeu Jurema, ofendida. – Pensa que não sei daquela vez que a senhora foi sozinha buscar uma toalha no casarão e voltou mais branca do que vela?
– Voltou, é? – repetiu Samantha interessada. – E posso saber por quê?
– Bobagem dessa faladeira – rebateu dona Geralda.
– Bobagem coisa nenhuma! – teimou Jurema. – A senhora me contou que tinha encontrado um punhado de rosas brancas fresquinhas no retrato da falecida. E ninguém entrava naquela casa porque seu Vinicius só faltava engolir a chave pra ninguém pegar ela!
– Verdade, dona Geralda? – insistiu Samantha.
– E não foi só o punhado de rosas, não. – A senhora também encontrou os sapatos de Ana Beatriz em cima da cama. Como se ela tivesse acabo de passear com eles!
– Também isso? –perguntou Samantha super curiosa. – Que sapatos? Aonde? Ainda existem sapatos de Ana Beatriz?
– Existem os sapatos e umas roupas velhas guardadas no guarda-roupa do quarto da baronesa, mas ninguém mexe lá porque tem medo – falou Jurema. E como aqueles sapatos foram parar na cama, dona Geralda? Passeando, quer me enganar?
– Ora, Jurema, alguém deve ter mexido neles, sei lá! – respondeu a outra empregada irritada.
– Alguém? Pois é, a senhora saiu voando do casarão quando viu a coisa, chegou aqui tão assustada que precisou beber água com açúcar, me contou tudo, dona Olivia escutou, achou que era pura invenção... e os sapatos tinham misteriosamente voltado para dentro do guarda-roupa sem ninguém entrar lá porque, ao sair, a senhora trancou a porta. Verdade ou mentira?
– Verdade, verdade!
– E a chave estava no bolso da senhora. Então, quem ia entrar lá? Só podia mesmo ser alguém capaz de atravessar paredes e que não precisa de chaves: um fan-tas-ma!
– Nossa, aconteceu mesmo tudo isso? – perguntou Samantha perplexa.
– Tai esta vendo o que você fez sua boca-de-gamela? – resmungou dina Geralda zangada. – Botou medo em Samantha!
– Não, eu não estou com medo – protestou Samantha. – estou muito admirada, só isso.
– Ainda bem!
– Alguém já viu o fantasma? –arriscou Samantha, depois de alguns momentos de silêncio.
– Uma vez a senhora me contou que a Luna costumava dizer que conversava com ela – continuou Jurema, muito xereta. – Lembra-se daquela vez que ela falou até que tinham passeado juntas de bicicleta?
– Isso foi bobagem de criança, jurema! – declarou dona Geralda, disposta a encerrar o assunto. – Criança inventa cada coisa!
–A Luna falou mesmo isso? – insistiu Samantha. – Ela passeou com... o fantasma de Ana Beatriz?
Dona Geralda pôs as mãos na cintura:
– Você não acredita em tudo que criança diz, acredita? Tenha a paciência, Samantha! Se criança jurar que viu o Papai Noel, você vai achar que ela falou a verdade? Escute aqui: A Luna sempre foi uma sonhadora, vivia contando tantas historias impossíveis que a gente nem ligava mais. Assim, dizer que tinha passeado com o fantasma foi só mais uma historia dela. Pura invenção.
– Mas aquela vez que ela falou que tinha visto um disco voador, a senhora também não quis acreditar. Depois, quando chegou em casa, seu marido também estava falando que tinha visto o disco. Ai, a senhora acreditou. – concluiu Jurema em tom de desafio.
– Chega de falar de bobagens! – implorou dona Geralda pondo as mãos na cabeça. – Querem saber de uma coisa? Tenho trabalho mais serio a fazer do que ficar aqui batendo papo sobre as bobagens que crianças dizem! Preciso ver a roupa no tanque.
E saiu sem olhar para trás.
Samantha saiu para a sala, dali foi à biblioteca e, depois, para o alpendre onde ficou observando a capelinha branca. Em seguida, desviou os olhos para a colônia. Estava confusa, não queria pensar em nada... mas seus pensamentos continuavam fixos em tudo aquilo!
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