Um Amor Sem Fronteiras
13 Apenas um Delírio?!
Notas iniciais
Uma fortíssima lufada de vento bateu contra ela e, nisso, Samantha viu Luna afastar-se cambaleante como se estivesse drogue. Enquanto ela se afastava pelo caminho da colônia em direção a casa, ela continuava imóvel, no mesmo lugar, olhando perplexa porque não conseguia entender o que estava acontecendo.
– Eu preciso descobrir... eu preciso descobrir... – repetia desnorteada.
Desabou um aguaceiro, cobrindo a natureza com uma cortina cor-de-cinza. Samantha, porem, não sentia a água no corpo. Começou a caminhar maquinalmente enquanto repetia:
– Preciso descobrir... preciso descobrir...
A chuva apertou ainda mais. Samantha continuou caminhando devagar, hipnoticamente repetindo as mesmas palavras. Quando uma mulher a viu passando, ficou preocupada e a chamou:
– Menina, menina! Entre que esta um chuvaréu danado e você vai ficar doente!
Samantha não ouviu. Seguiu adiante sempre a repetir a mesma coisa. Com isso a mulher encolheu os ombros e disse:
– Se quiser ficar doente, que fique. Essa moçada da cidade é mesmo desparafusada!
– Menina do céu, você esta toda encharcada! Falou Olivia quando Samantha chegou. – O que aconteceu?
Tremula e assustada, Samantha se encolheu e disse:
– Eu... acho que tomei chuva...
– Sua maluquinha! – murmurou Olivia apreensiva. – Por que saiu sem guarda-chuva? Por que não se escondeu em uma casa da colônia? Ai, se você ficar doente! Vá depressa para o banheiro e tome um banho bem quente, que eu levarei roupas secas!
– Depois de empurrar a garota pro banheiro, correu até a cozinha;
– Jurema, faça um chá!
– Chá de que, dona Olivia?
– De qualquer coisa que cure um resfriado antes dele vir.
─ Mas do que eu vou fazer um chá que cure resfriados antes de vir?
– Eu não sei Jurema... Olha, faça um chá de qualquer coisa e ponha alho dentro.
– Alho? Credo!
Olivia virou nos pés e levou a roupa para Samantha. Minutos depois, deitada e coberta, Samantha olhava para o chá amarelado na xícara de louça.
– O cheiro revira mesmo o estomago – comentou Jurema. – Mas dona Olivia disse que alho é um santo remédio para resfriado que ainda não resfriou. Deus me livre, mas eu prefiro o resfriado a beber essa porcaria!
Samantha fez esforço, mas só conseguiu tomar um gole. Jurema insistiu que ela tomasse tudo, mas o cheiro impediu Samantha de obedecer.
– Agora, fique aí quietinha e vamos esperar que o resfriado não venha – disse Jurema retirando-se.
Depois que fechou a porta falou baixinho:
– Essas mocinhas da cidade são todas malucas. Ai, ai, ainda bem que sou mocinha da fazenda!
E se mandou para a cozinha.
Na hora do jantar Samantha não apareceu. Olivia e Vivi foram vê-la.
– Estou com dor no corpo – queixou-se Samantha.
– Mandarei trazer um prato de sopa para você – falou Olivia.
– Não, obrigada, não estou com fome. Sinto uns arrepios...
Dobrando o corpo, Olivia pôs a mão na testa da sobrinha:
– Acho que você esta com febre. Vivi, apanhe o termômetro.
Vivi apanhou. Samantha tremia, apesar dos cobertores. O termômetro foi colocado, e Olivia conferiu:
– Quase 39 graus. Um belo febrão, minha filha!
– O chá de alho não adiantou... – comentou Samantha baixinho.
– Vivi apanhe mais cobertores, que vou dar um jeito nisso – falou Olivia retirando-se.
Vivi cobriu Samantha com tantos cobertores que a garota ficou sufocada
Dali a pouco Olivia entra com um comprimido e um copo d’ água.
– Tome isso. – disse – telefonei para o medico e ele prescreveu este tratamento.
Samantha engoliu o comprimido e puxou as cobertas até a cabeça.
– Repouse minha querida! – disse Olivia retirando-se. – Deixarei a porta aberta. Se precisar e só chamar.
Olivia e Vivi chegaram à sala onde Luna estava assistindo televisão com o pai. Vivi foi para o quarto e Olivia sentou-se ao lado do marido.
– Ela está melhor? – perguntou Vinicius.
Luna olhou disfarçadamente.
– Está com um febrão. Estou preocupada, Vinicius e se piorar?
– Deixe de bobagem, querida! – e o marido passou o braço sobre o obro da esposa. – Crianças e jovens são como passarinhos, dali a meia hora estão ótimos. Não vê nossas filhas?
Olivia sorriu:
– É pode até ser, mas ela é nossa sobrinha e de certa forma também é como se fosse minha filha e eu me preocupo horas. Mas por que será que Samantha tomou toda aquela chuva desta tarde? Onde será que ela foi? O que terá acontecido?
– Ora, vamos deixe de se preocupar! Todos os jovens são assim, é a fase dos mistérios. Você também passou por ela. Agora, relaxe e vamos assistir a um bom filme que vai começar.
Olivia aninhou-se nos braços do marido e, lá fora a chuva chorona continuou caindo.
Em um dos intervalos Olivia foi dar uma olhada em Samantha. Voltou preocupada:
– Ela continua queimando em febre, Vinicius. E esta delirando.
– Muito?
– um pouco. Que horas são?
– Dez e meia.
– Eu deveria ter pedido ao Dr. Moreira que desse um pulo até aqui. Agora é tarde para tirá-lo da cama e pedir que faça uma viagem até a fazenda, não acha?
– Vamos esperar um pouco mais querida. Dê tempo para o medicamento fazer efeito. Se for preciso, eu tiro o carro e trarei o médico. Deu-lhe o outro comprimido?
– Dei, mas ela não queria tomar. Além de tudo, é teimosa!
Olivia suspirou e sentou-se novamente ao lado do marido.
O filme a via recomeçado apouco, quando eles ouviram um grito.
– É Samantha! – falou Olivia com um salto, correndo na direção do quarto. Vinicius e Luna correram atrás. Lá chegando, viram Samantha sentada, o rosto apavorado. Banhado em suor, olhava, encolhida, para a janela.
– foi ela! Foi ela! Foi ela! – respondia agarrada ao cobertor.
– Ela quem, querida? O que aconteceu? – perguntou Olivia sentando-se ao seu lado e passando o lenço na testa suada.
– Ana Beatriz!
– Quem?
– Na janela! Me espiando e rindo!
Olivia olhou para o marido, Luna olhou para a janela.
– Delirando, Vinicius – murmurou Olivia para o marido. Depois, virou-se para Samantha: – Tudo bem, querida, descanse agora. Vou ficar aqui com você para ela não vir aborrecê-la novamente. Vinicius feche a janela. Não sei por que não a fechei antes. Está um calor terrível, apesar da chuva...
Vinicius fechou a janela enquanto Olivia procurava convencer Samantha de deitar-se.
– Vamos, vamos, foi só impressão...
– Não, não foi! Ela estava lá, olhando e rindo de mim! Eu vi, ela estava de azul e tinha rosas no cabelo!
– Está bem, querida, agora relaxe e procure dormir. Ficarei aqui tomando conta de você para que ninguém mais a assuste...
Ao ouvir aquelas palavras de Samantha, Luna sentiu um calafrio, porem não demonstrou. Enquanto o pai e a mãe conversavam, ela saiu e, seguindo pelo corredor, abriu a porta da frente. Apenas uma fraca luminosidade, vindo do único poste do jardim iluminava o alpendre. Silenciosamente, Luna foi até em frente à janela do quarto de Samantha, que se abria para o alpendre e olhou para o chão. Para sua surpresa, encontrou uma rosa branca amassada bem em baixo. Perplexa, abaixou-se devagar e colheu a flor, sem, porem, sentir o choque da vez anterior.
– Ana Beatriz... – murmurou num sopro de voz, levando a flor até os lábios. – Será possível que você esteja... com ciúmes?
Continuou pensativa por mais alguns momentos, até que, aproximando-se do gradil que circundava o alpendre, nele se encostou e ficou olhando de longe, tentando enxergar o que estaria acontecendo na escuridão. A chuva mansa caindo fazia uma cortina na noite e, batendo contra as folhas das plantas, produzia um som tranquilizante. Luna continuou ali, meditativa, até que, de repente, fechando a flor amassada na mão, tornou a entrar.
A porta do quarto de Samantha continuava aberta, e Olivia, recostada numa cadeira, lia à luz do abajur. Tudo parecia ter voltado à normalidade... menos para Luna que continuava imaginando Ana Beatriz viva em alguma parte.
Poderia isso ser verdade?
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