Um Amor Sem Fronteiras
14 Ana Beatriz?!... Será?!
Notas iniciais
De madrugada a febre de Samantha cedeu, ela pôde dormir bem.
– Estou com o corpo meio dolorido – disse, chegando à sala, na manha do dia seguinte, para o café. – Bom dia!
– Menina do céu, você deveria estar na cama, de repouso – falou Vinicius quase deixando cair à xícara.
– Quer ter uma recaída? – perguntou Olivia com ar crítico.
– Por favor, não fiquem preocupados – disse Samantha sentando-se. – Estou bem e agradeço a atenção que tiveram comigo. Obrigada!
– Não precisa agradecer minha querida somos seus tios e nos preocupamos com você! –respondeu Olivia. Apenas procure evitar se expor novamente do jeito que se expôs. Seria muito desagradável se tivéssemos que avisar seus pais que você estava doente... por sorte não houve complicação, mas...
– Desculpe tia Olivia, eu agi como uma tola, não foi?
Olivia sorriu e pôs a mão no braço dela:
– Oh! Meu bem os jovens pensam que são indestrutíveis, mas não são, minha querida. Ninguém é indestrutível, nem velhos, nem jovens, nem adultos, nem crianças. Todos são de carne e osso e devem cuidar-se. Agora, com licença preciso ir até Acácia com seu tio. Você tem certeza de que está mesmo bem?
– Estou ótima. Podem ir despreocupadíssimos.
– Qualquer coisa que precisar pesa a dona Geralda ou a Jurema. Ou a Vivi, se a encontrar. Voltaremos à noitinha.
– Luna... não está? – arriscou Samantha
– Foi até Bela Vista, mas deve voltar logo. Quer alguma coisa da capital?
– Não, obrigada. Apenas boa viagem...
Olivia beijou-a, depois, saiu com o marido. Samantha continuou sozinha naquela sala imensa, a olhar para a mesa posta. Não sentia fome, sequer queria tocar nos alimentos. Jurema porem apareceu e já foi dando a “bronca”:
– Pode tratar de encher o estomago que, se der em você outro faniquito do que deu ontem à noite que vai dar um faniquito sou eu!
– Faniquito? – perguntou Samantha estranhando.
– Sim, claro. Não se lembra?
– Não, claro que não! O que me aconteceu?
– Dona Olivia disse que foi delírio por causa da febre. Eles estavam ai, vendo um filme, quando de repente, você começou a gritar, e todo mundo correu. Você estava chorando de medo, assustada olhava para a janela e dizia que... Ana Beatriz tinha aparecido pra você!
– Meu Deus! – e Samantha se arrepiou. Nossa!
– O que foi? O que aconteceu? – perguntou Jurema assustada com a palidez que, de repente, tomou conta de Samantha. – falei alguma bobagem? Ou já começou a dar outro faniquito?
Samantha ficou algum tempo com a mão comprimindo a testa, até que, lentamente afastou-a e voltou a abrir os olhos.
– Não, Jurema, não é outro faniquito. É que... eu tinha pensado que tudo não havia passado de um sonho...
– Dona Olivia acha que foi provocado pela febre.
– E você, o que acha?
– Eu? Eu não sei! O que eu sei é que o pessoal daqui dizia que o fantasma de Ana Beatriz vivia assombrando o casarão, sim senhora. Dona Olivia queria eu dormisse aqui, mas eu, hein? Vê se sou boba! Nem com porta trancada não durmo neste museu! Sabe não me admira nada se ela não apareceu mesmo pra você... com febre do jeito que você estava, podem achar que foi um sonho, dona Olivia acredita nisso, mas eu... – baixou a voz e olhou assustada para os lados antes de concluir sinistra. – não me admira de que tenha sido um fantasma, não senhora!
Samantha ajuntou as mãos e ficou de cabeça baixa pensativa, assustada. Jurema resmungou mais meia dúzia de coisas e, em seguida, começou a tirar a mesa.
Havia parado de chover. Na parte da manha, Samantha não viu ninguém na casa. Por isso ficou lendo na biblioteca. Às onze e meia, Vivi chegou. Vinha bem disposta, falante e entusiasmada. Ao ver Samantha, sorriu e abraçou-a.
– Que bom! Já de pé?
– Desde cedo. Estive com tia Olivia e tio Vinicius antes deles irem para Acácia...
– Esta se sentido bem?
– Ótima obrigada. Onde você esteve?
– Aproveitei a estiada e fui dar uma volta a cavalo... Que delícia cavalgar! Você precisa aprender. Já almoçou?
– Estava esperando alguém para me fazer companhia. Luna também não está...
– Não, não está. Foi a Bela Vista, prometeu voltar cedo, mas duvido. Quando encontra com a turma...
– Vivi... – e Samantha olhou suplicante – Você acha que... eu e a Luna ainda vamos ficar juntas?
Vivi sorriu:
– Minha querida e apresada priminha, calma que o mundo não foi feito em um dia. Coisas do amor são muito complicadas. Aí estou morrendo de fome! O que temos para o almoço?
– Não sei...
– Tem jiló, que você odeia – gritou Jurema, da cozinha. – Prepare-se.
– Jurema tem orelha de metro – cochichou Vivi caindo na risada. Depois, em voz alta: – Está bem, serviço clandestino de escuta, pode colocar seus horríveis jilós na mesa que voltarão do jeitinho que vierem!
Em seguida, elas almoçaram.
Depois do almoço Vivi convidou Samantha para darem umas voltas. Samantha agradeceu, mas disse que preferia ficar lendo. Vivi, então saiu.
A verdade, porem, não era bem essa. Samantha estava morrendo de curiosidade de ir à capela e visitar o lugar onde Ana Beatriz estava sepultada e que havia sido visitado, na véspera, por Luna. Sentia uma estranha curiosidade, era compelida por uma atração inexplicável, mas não queria dizer a ninguém, nem mesmo a Geralda que, na ausência da patroa, exercia o papel de zeladora da casa.
O céu estava brilhando e não havia nuvens no céu azulíssimo. Da terra lavada subia um cheiro gostoso, não havia poeira e nem fazia tanto calor. Samantha sentia-se fisicamente bem. Por isso, certificando-se de que as empregadas estavam Às voltas com mamões para fazer doce, saiu para o alpendre e lá, ficou por um tempo indecisa. Até que, afinal, ganhando coragem, desceu para o jardim.
A chuva da véspera havia despetalado quase todas as flores. Samantha seguiu pelo mesmo caminho da do dia anterior. Estava tensa. Por quê? Não sabia. Era uma sensação angustiante, quase como a de que ia fazer algo proibido, pecaminoso.
Seguiu pelo caminho da colônia, cumprimentou pessoas e viu que a sua passagem, as pessoas cochichavam. “Aposto que elas devem estar pensando que sou louca ou coisa assim” – concluiu.
Não custou para chegar à capelinha que estava aberta. Ali parou na porta e sentiu um calafrio. A igreja, por dentro, era azul — clara e tinha piso a ladrilhado. Bem ao meio via-se um altar com três imagens de santos e uma mesa de madeira onde celebravam as missas. A cada lado, um arco. Devagar, Samantha dirigiu-se ao da esquerda e olhou lá dentro. Era uma salinha com mesa, cadeira, armário e cabide. Depois, viu que o arco da direita era fechado por um portãozinho de ferro, em cujo centro havia um coração em relevo. Aproximando-se devagar, o coração batendo forte, espiou. Lá dentro, em bem meio, havia um jazido de mármore branco. Sobre ele, uma lápide com uma inscrição em dourado. Um vitral, em tons de azul, com rosas estampadas, deixava filtrar uma luz mortiça naquele interior.
Sabrina encostou-se no portão que se abriu com o peso do corpo. Mais que depressa, puxou-o, fechando, com medo de colocar os pés ali dentro. Depois de passado o susto, olhou para a inscrição dourada e leu em voz alta:
Adeus, querido anjo celestial,
De todas, a filha mais querida!
Repouse em paz em seu leito angelical
De brancas pétalas de rosas.
Embaixo, nome e data. Samantha ficou magnetizada a observar o jazido, imaginando que debaixo daquela fria lápide deveria haver uma garota, de sua idade, adormecida para sempre. Ali estava o corpo... mas onde estaria o espírito? Por acaso, estaria Ana Beatriz vendo-a naquele momento? E se estivesse, o que estaria pensando a seu respeito? E por que teria aparecido a ela na noite anterior? E por que Luna teria ficado do jeito que ficou ao vê-la nas roupas da morta? Por quê? Por quê?
Samantha teve a impressão de que ia ficar maluca diante de tantas indagações, sentiu um aperto na nuca, teve a impressão de que a terra ia abrir-se, de que Ana beatriz ia sair daquela tumba para olhá-la com olhos tão vivos quanto os do retrato... e foi ai que de repente, viu um braço que se estendeu de comprido, em cima da lápide, na parte posterior da sepultura.
Samantha congelou-se da cabeça aos pés, sentiu que a vista fugia e, então, tombou desmaiada de pavor.
Fale com o autor