Um Amor Para Recordar
34 Capítulo 9 — Senhor Extravagância
Notas iniciais
Perseus
A biblioteca municipal foi à melhor opção desde o inicio.
Afinal, é uma biblioteca e isso combina perfeitamente com Annabeth. E era o único prédio que alugavam. E eu nem tenho certeza de que é um prédio medieval. Mas ele é antigo, então vale. Tive a idéia de alugá-lo depois que assisti “Sex and the City”. Nele, a protagonista, Carrie, aluga a biblioteca para seu casamento.
Não me julgue por assistir esse filme, eu me interessei pelo nome.
Estava sentado na grande mesa quando ouvi passos atrás de mim, me virei e encontrei com Charles. Ele estava vestido de mordomo britânico.
— Essa roupa “penica” — ele reclamou sentando-se ao meu lado — E ai, como você esta?
— Eu? Eu estou bem...
— Então porque você tem uma pizza de suor?
— Certo, eu estou completamente desesperado. Não sei o que deu em mim! — exclamei — Porque eu inventei essas frufurices todas Annabeth não gosta disso! Eu sou um completo imbecil! Porque eu não pensei? É obvio que ela só aceitou a lista para fugir disso tudo e eu estou fazendo totalmente o contrario do propósito original dessa merda de lista! Você acha que eu sou um completo imbecil?
— Você me obrigou a aperfeiçoar o meu sotaque britânico para isso — ele lembrou — Com certeza te considero um completo imbecil.
Respirei fundo.
— Com amigos como você, quem precisa de inimigos? — brinquei.
— Vamos lá, pare de reclamar.
Ele se levantou ao ouvir os saltos de Silena subindo a escada.
— Ela chegou — a garota avisou.
Levantei rapidamente, e isso me causou tonturas.
— Eu vou buscá-la — Charles avisou e saiu.
Silena veio até mim e segurou meu braço.
— Fica calmo! — ela repreendeu.
— Esta bem, esta bem, eu fico calmo — murmurei e sentei-me de volta — Silena, você tem noticias de Clarisse? — perguntei num misto de preocupação e necessidade de me manter distraído.
— Ela esta bem e Chris vai buscá-la amanhã no hospital — ela contou — E parece que vai ter que ficar alguns dias na cadeira de rodas, o que, com certeza, será uma verdadeira luta para Clarisse. Não consigo imaginá-la parada o dia inteiro e sentada. Você consegue?
Tentei imaginar a cena e era realmente impossível.
— Não, não consigo — respondi.
— Percy, você vai ouvir mesmo meus conselhos?
Lembrei-me da noite passada, depois da pizza quando Silena literalmente me prendeu contra a parede e me obrigou a passar meia hora da minha vida ouvindo conselhos sobre “como começar um relacionamento”. Fora terrível, mas sensato.
— Eu ainda não decidi — sussurrei, com medo.
— Percy! Esta na cara que você ainda gosta dela e que ela ainda gosta de você — ela hesitou — É obvio que em todo esse tempo vocês sempre guardaram um restinho do amor de vocês. Então, acho bom que você me ouça e tente fazer esse relacionamento dar certo.
Ouvi os saltos no inicio da escada e me levantei, ficando ereto. Silena dissera que tínhamos que esperá-la em pé, puxar a cadeira para a donzela (ela realmente disse donzela) se sentar e depois nos sentávamos. Decidi seguir as suas ordens.
Quando tive o primeiro relance de Annabeth, meu coração disparou. Ela estava linda como eu nunca a vi antes. Seu cabelo estava preso numa trança grega e ela usava o vestido que eu mandei. Eu tinha razão, salmão realmente combinava com sua pele. Seu rosto não tinha muita maquiagem, era algo tão básico que nem era perceptível.
Assim que me viu, sorriu para mim.
— Olá.
— Oi.
Ficamos parados nos encarando, quando ouvi o pigarro de Silena. Ela apontava freneticamente para a cadeira e então me lembrei das ordens. Puxei a cadeira para Annabeth se sentar e depois me sentei.
— Você esta linda — elogiei.
— Obrigada — ela agradeceu — Você também.
Fomos envolvidos por um silencio constrangedor.
— Você realmente pensou em tudo — Annie disse — Alugar a biblioteca municipal... Isso é fantástico.
— Agradeça a Carrie Bradshaw.
— A protagonista de Sexo e a cidade? — ela indagou incrédula.
— Sim, ela mesma.
— Então esta bem — Annabeth riu — O bom é que depois do jantar eu posso passar lá embaixo e alugar um bom livro. — ela brincou.
Infelizmente eu havia decidido bebericar o vinho e acabei cuspindo ele. As nossas risadas foram inevitáveis. E apesar de toda a excentricidade do jantar, estávamos sendo nós mesmos.
— Me desculpe — sussurrei.
— ‘Tá ok.
Annabeth soltou um longo suspiro e aquilo me deixou mais nervoso ainda. Suspirei de volta e ela me mandou um sorriso consolador. Aquilo só podia significar uma coisa: ela só estava ali para não fazer desfeita comigo.
Depois daquele sorriso, não pensei, apenas agi.
Levantei-me abruptamente e me ajoelhei ao lado da sua cadeira.
— Olha, eu entendo perfeitamente que você esta odiando completamente tudo isso — comecei e hesitei ao ver seu olhar, ele era de confirmação. Não ia me arrepender daquilo. Suspirei e continuei — Eu também estou me odiando por ter te envolvido nessa palhaçada. Gastei dez mil dólares nisso e estou me arrependendo. Não fique ofendida, é que é um encontro da lista, mas não segue o propósito da lista. Eu sei que sou um completo imbecil.
Ela soltou um sorriso amarelo.
— Sim, você é um completo imbecil — Annie concordou.
— Obrigado — disse entre dentes.
— Não, não fique ofendido. Mas... Você realmente saiu do contexto.
Respirei fundo e me levantei. Tentei desesperadamente pensar em um jeito de fugir daquilo e consegui. Se fosse um desenho animado, teria uma lâmpada na cabeça.
— Annabeth, você aceita sair correndo por aquelas escadas e fazer algo completamente diferente? No contexto da lista? — convidei.
Ela riu.
— Sim, eu aceito Percy.
Ela tirou seus saltos e levantou a barra do vestido com a outra mão e a outra entrelaçou na minha. Saímos correndo e descendo as escadas. Por sorte a biblioteca estava vazia aquela hora da noite. Corremos até chegar ao carro, Chris estava falando no celular numa banca de jornal ali perto e mal teve tempo de objetar ou perguntar o que estávamos fazendo, pois já havíamos entrado no carro e eu havia saído em disparada na direção do campo.
Sim, direção do campo.
Annabeth não conseguia parar de rir e sua gargalhada era contagiosa, mas depois de uns 5 minutos comecei a questionar o porquê de estar fazendo aquilo.
— Annabeth... — a chamei.
— Sim? — ela disse, ainda gargalhando.
— Porque estamos rindo? — hesitei — Ou melhor, porque você esta rindo? — me corrigi.
Ela parou de rir e me olhou.
— Porque Percy, você esta seguindo a lista. — ela explicou e se ajustou no banco — Pra que tantos saiotes nesse vestido?
— Era assim que as mulheres usavam. — falei, ainda tentando discernir o que ela tinha falado.
— Coitadas.
Concentrei na estrada e tentei me lembrar do caminho da cachoeira. Sim, uma cachoeira. Eu tive a ideia ao ver um quadro na parede. Era um lugar perfeito.
Na minha infância em Nova York eu e minha mãe sempre íamos lá, variávamos entre a cachoeira e a praia. Eu simplesmente amava água. Depois nós fomos para Santa Monica, na Califórnia, quando eu tinha cerca de doze anos. Nós nunca voltamos para cá e a cachoeira era uma das coisas que eu mais sentia falta. Quando vim para NY me instalei aqui com a banda, eu já era um cara egoísta, que pagava de machão e bad boy. Nem por um minuto a cachoeira me passou pela cabeça.
— Porque tanto congestionamento numa quarta-feira? — ela perguntou.
— As quartas têm desconto nos cinemas do subúrbio — expliquei.
— Na próxima quarta nós devíamos ir ao cinema do subúrbio.
— Ou deveríamos assistir a sua peça. — sugeri — Hoje não tem?
— Não, o Zac quebrou a perna e o substituto ainda esta ensaiando.
— Humm... Quando vocês voltarem a se apresentar, eu estarei lá.
— Aposto que vai adorar ver-me fantasiada de gata — ela brincou.
Quando chegamos perto da cachoeira, tivemos que descer do carro. 16 anos e ainda havia uma valeta impossível de se passar pouco antes de chegar.
— Péssima ideia usar saltos — murmurei.
— Você tinha combinado um jantar medieval e não uma ida a... Onde estamos indo?
— Uma cachoeira — respondi — É um dos lugares que eu visitava com a minha mãe quando morávamos aqui.
— Você morou aqui antes de ir para Santa Monica e nunca me contou? — ela indagou — Percy!
— Desculpe, é que eu nunca havia conseguido superar que havia saído de NY. — expliquei e peguei sua mão — Vem, por aqui é melhor.
— Certo, eu te perdôo, mas é porque eu nunca te contei certas coisas minhas também.
— Essa me parece uma boa hora para contar.
— São coisas pessoais demais para se contar agora — Annabeth falou, sem fôlego.
Entendia-a, quando você visitava a cachoeira pela primeira vez o caminho parecia mesmo cansativo.
— Estamos chegando! — avisei — Me conte apenas uma coisa sobre você que nunca me contou.
— Eu morava em São Francisco com meus pais, e eles se mudaram para Santa Monica por causa do trabalho da minha mãe. E meu pai tinha um caso em SF e por isso ele nos abandonou e foi para lá.
— Sinto muito — sussurrei.
— Não sinta.
Decidi que era hora de mudar de assunto.
— Já percebeu como tem cidades com São ou Santa na Califórnia?
— São Francisco.
— São Diego.
— Santa Monica. — ela riu — E Los Angeles seria algo como “os anjos”.
— Quem quer tenha dado o nome a essas cidades com certeza era muito religioso.
Finalmente chegamos à cachoeira, e ela era simplesmente divina.
— Chegamos — anunciei, sorrindo.
Annabeth estava fantasiada.
— Fantástico — ela balbuciou.
— Sou obrigado a concordar — falei.
Cruzei os dedos, naquela noite, eu ia seguir os conselhos de Silena e conseguir dar um avanço no meu relacionamento com Annabeth.
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