Um Amor Para Recordar
40 Capítulo 15 — Não seja abelhuda
Notas iniciais
Annabeth
O engraçado da vida é: apesar de estar bem destacado nas embalagens de manteiga que “NÃO CONTEM GORDURA TRANS” ninguém se importa com o fato de que há 6,5g de gorduras totais; 2,0g de gorduras saturadas; 1,4g de gorduras monoinsaturadas e 3,0g de gorduras poli saturadas.
Larguei a pequena embalagem em cima da mesa e mordi meu pão seco.
— O que aconteceu? — Thalia indagou — Você adora passar manteiga no pão.
— Você já viu o tanto de gordura que tem nessas coisas?
— Não contem gordura trans.
— Sim, eu sei disso, porque — peguei o pacote e coloquei meu dedo embaixo do grande anuncio da policia da gordura — esta escrito bem aqui. Mas ninguém presta atenção nessa tabelinha aqui bem pequenininha que diz existir muita gordura nessa manteiga.
Thalia maneou a cabeça.
— OK, você pirou de vez.
— Eu não pirei, só decidi começar a dar mais atenção nas tabelinhas.
Arqueei a sobrancelha para ela. Ficamos nos encarando por longos segundos e começamos a rir.
— Olha só para deixar bem claro — Thali começou — Existe muita chance dessas tabelas estarem errada.
— Então acho que devemos processa-los e ficarmos ricas.
Piper sentou-se e na mesa e era bem óbvio a sua ressaca.
— Por favor, sem comentários.
— Hoje é terça. — lembrei-a — Trabalho!
— Eu sei disso, mas é que... Depois do segundo copo, não dá para parar.
Terminei de tomar meu café da manhã e me levantei da mesa. Caminhei até o quarto e tomei um banho rápido, ao sair do banho. Parei para observar meu corpo. É, nada de barriga. Se ela começasse a crescer eu teria que abandonar meu emprego.
Suspirei.
— Vamos para a batalha — motivei-me e calcei meus sapatos.
***
Sentei-me no chão e tomei um grande gole d’água. Piper se aproximou e sentou do meu lado.
— Se eu já estou quase morrendo de calor assim, imagina como vamos ficar com aquelas fantasias — ela suspirou.
— Eu nem quero imaginar. Estou com uma rede de pizzarias debaixo dos braços.
— Ai Annie, você é nojenta.
Ri e levantei-me. O diretor estava me esperando.
— O senhor disse que queria falar comigo — disse.
— É eu queria. — ele respondeu com desdém — Piper me contou seus planos de abandonar o emprego.
Piper...
— Me diga o porquê — ele pediu.
— Eu estou grávida.
Ele olhou para a minha barriga, que estava a mostra com a minha blusa amarrada.
— Onde?
— A barriga ainda não cresceu, mas eu estou. E... Uma gata gravida não seria bom na peça certo?
O diretor parou de mexer em seus papéis e levantou seus óculos, para me olhar melhor.
— Enquanto essa sua barriguinha estiver pequena e disfarçável você fica. — ele disse, e soou como uma ordem.
— Mas...
— Algum problema?
Maneei a cabeça, deixando para lá. Seu tom dizia “nada de objeções mocinha, agora trabalhe”.
— Agora você vai para casa descansar um pouco e volta as quatro para um ultimo ensaio e para a apresentação. Hoje a casa estaria tão cheia que terá gente de pé.
Assenti e obedeci a suas ordens. Peguei as minhas coisas e voltei para casa no carro com Piper.
— Será que Thalia está livre? — perguntei.
— Com certeza, por quê?
— Quero pegar os resultados do exame.
Piper suspirou longamente.
— O que foi?
— Você e Percy tiveram aquela “conversa séria”?
— Não... Ainda não — neguei — Ele teve problemas, mas... Ele disse que quando formos conversar, será mais do que sério.
— Quem diria que ele é tão maduro?
— Na realidade, não o acho maduro porque não caio nessa história de “estou com problemas”.
— Você não cai porque é uma chata.
— Ei!
— É verdade — Piper replicou — Já parou para pensar que ele é um artista famoso mundialmente e que tem varias coisas para fazer?
— Mas é o nosso filho!
— Não é confirmado.
Resmunguei qualquer coisa, e fiquei encarando a janela o resto do caminho. Chegamos a clinica de Thalia e encontramos com ela na recepção apoiada num balcão conversando com um cara... Gato.
— Quem é ele?
— É o namorado dela, esqueceu?
— Ah, claro, claro. É só que... Esqueça.
Ela virou-se e quando nos viu veio nos abraçar.
— Oi minhas meninas.
— Porque esta tão feliz? — perguntei.
— Porque eu tenho um namorado... Maravilhoso. — ela suspirou — Bem... Agora, eu já até sei por que você esta aqui. Vamos.
Ela nos encaminhou até uma sala e começou a mexer em alguns arquivos. Quando chegou em “Chase, Annabeth” retirou uma pequena pasta e me entregou o envelope.
— Você vai abrir agora? — Pip indagou.
— Acho melhor não... O resultado pode me desconcentrar durante a apresentação.
— E a curiosidade também — Thalia relembrou.
— Eu não faço o tipo abelhuda.
— Está bem...
Girei o envelope em minhas mãos e os entreguei para Thalia.
— Eles ficam com você até eu voltar da peça
— Vou usa-los como lembrete para não engravidar. — ela riu.
Tentei ignorar aquele comentário.
— Certo, acho bom mesmo.
Piper tirou os olhos da revista que segurava.
— A Katy Perry é muito sortuda. Olha o namorado dela! Que gato!
Peguei a revista de suas mãos e a guardei.
— Acho melhor largar isso.
— Vocês estão livres para almoçar? — Thalia perguntou — Eu estou com muita fome e inaugurou um restaurante chinês ótimo naquela rua paralela a nossa.
— Jason e eu estávamos pensando em ir lá, mas acho que não tem problema ir primeiro com as minhas amigas — Pip hesitou — Para provar a comida.
Pegamos nossas coisas e saímos.
***
A cortina estava fechada e aquela pelugem estava me dando coceira.
— Annabeth se acalma — Zac, meu parceiro, pediu.
— Ah se você soubesse o que me espera em casa não falaria isso — sussurrei.
Aquele famoso “friozinho na barriga” tomou conta de mim, não era mais só na barriga, era no corpo todo. Eu costumo ficar nervosa antes de entrar em cena, mas não desse jeito. O problema não era o palco, era o que me esperava quando eu saísse dali.
A droga do resultado.
— Eu deveria ter aberto antes — murmurei para mim mesma.
— Nada de arrependimentos agora Annie. — Pip murmurou no meu ombro — Você tem que ficar bem para entrar no palco.
Deuses, de onde aquela garota sairá?
— Oh obrigada. Isso realmente me ajuda.
Ela sorriu.
— Denada.
Não importa como eu estava me sentindo a minutos atrás, sempre que eu entrava no palco tudo melhorava. A única sensação era prazer. Fazer algo que você gosta e ver que todas aquelas pessoas estão aprovando o seu trabalho, não há sensação melhor.
Quando as luzes se apagaram, o medo tomou conta de mim novamente. O resultado do exame estava me assombrando. Corri até os bastidores e encontrei Piper.
— Eu vou ir de taxi hoje. Você quer ir comigo? — convidei.
Ela franziu o cenho.
— Esta tudo bem?
— Sim, esta. Eu só... Quero chegar a casa mais cedo.
— Então OK. Eu vou ir com o pessoal.
Assenti e fui me trocar. Peguei o primeiro taxi e em poucos minutos estava na porta do meu prédio. Paguei o taxista e desci.
O caminho do elevador pareceu ainda maior. Finalmente estava a porta de casa e assim que abri encontrei Thalia transpirando.
— Você abriu não? — foi a primeira coisa que eu disse.
Ela suspirou, um suspiro mais longo que o normal.
— Sim.
Ri.
— Eu sabia que você faria isso. Esta tudo bem.
Guardei as minhas coisas e quando a olhei de novo, seu olhar continuava assustado. Ou era só a maquiagem carregada que ela usava desde que eu a conhecera.
— Thali, está tudo bem. Eu não estou brava.
— Eu sei Annie, mas... — ela hesitou — Onde esta Piper?
— Eu vim de taxi.
Estiquei a mão para pegar o exame em suas mãos, repentinamente ela o escondeu atrás de seu corpo.
— Deixe-me ver o resultado. Ou você quer me falar? — sorri e sentei-me — Me fala!
Eu estava mais animada que o normal.
As marcas de expressões em seu rosto estavam tão marcadas, ela estava tão preocupada. Mas por quê?
— Deu positivo não?
Ela não reagiu.
— Se deu positivo, você não precisa ficar preocupada. Eu e Percy vamos conversar... Tudo vai se resolver...
— Não estou preocupada com isso.
— Então esta preocupada com o que?
— Estou preocupada com você, Annie.
Estudei-a por um minuto. Sua expressão corporal, tudo. Ela estava fervilhando por dentro, sua mente não parava de trabalhar. Médicos...
— Annabeth, você me disse que tinha certeza absoluta que estava gravida. Que estava com as tonturas, os enjoos, que Percy e você tinham transado sem proteção no seu período fértil. Você me disse que era concreto e que estava gravida e que só ia fazer o exame para confirmar.
— Sim, eu disse.
Thalia passou a encarar o chão.
— É por isso que eu estou preocupada Annie.
— O que diz o exame? — indaguei já nervosa.
— Deu negativo.
— Como? — não pude evitar o tom de deboche em minha voz. Negativo? Faça-me o favor!
— Você não esta gravida.
Minha cabeça começou a girar, meu estomago a embrulhar. Me levantei abruptamente e perde o equilíbrio, caindo no chão.
— Annie!
Thalia se pôs sobre mim.
— Eu estou gravida sim! — gritei.
— O resultado diz que não.
— Pouco me importa esse resultado!
Sentei-me e olhei em seus olhos.
— Você esta mentindo!
— Estou mentido? Pois confira você mesma!
Ela me entregou o papel, virei e revirei a folha procurando o resultado. E lá estava a palavra “negativo”.
— Negativo... — murmurei.
— Annie, eu acredito que tenha sido gravidez psicológica.
— Não pode ter sido isso.
— É muito comum isso acontecer. Existem tantos casos... Você pode ter ficado tão assustada ao se lembrar que não usaram a proteção que começou a formular hipóteses e por acreditar tão fielmente na gravidez, ela passou a ser — ela fez aspas — Verdade.
Fiquei em silencio pensando. Aquele exame devia estar errado. Não era capaz. Eu não podia estar tão louca a ponto de formular uma gravidez em minha mente.
— Você não ficou louca — ela disse como se lesse meus pensamentos — Gravidez psicológica não é sinônimo de insanidade.
— Thalia, me leve ao médico.
Ela suspirou.
— Levante-se.
Segurei sua mão e a deixei guiar-me até o carro. Sentei no banco de trás e fiquei esperando ela entrar. Thalia estava no celular, assim que entrou o desligou.
— Estava falando com quem?
— Com Robert, meu namorado. — ela me olhou — Ele vai conversar com você. É psicólogo.
— Esta bem...
O percurso até a clinica foi rápido e silencioso. Assim que chegamos, o namorado de Thalia apareceu na porta.
— Precisa de ajuda?
— Ela ainda sabe andar!
Sai do carro e o acompanhei até sua sala.
A sala era bonita, toda decorada com tons em marrom e cinza. Havia um sofá tão aconchegante que me sentei nele antes mesmo que Robert me pedisse.
— Psicólogos fazem plantão?
Ele me encarou, não entendendo.
— Você esta aqui ainda e já são 10 da noite.
— Não sei se eles fazem, mas cirurgiões sim. — ele respondeu, risonho.
— Mas Thalia disse...
— Ela acha que eu daria um ótimo psicólogo.
— Eu não sei por que estou aqui então. No que você pode me ajudar?
Ele comprimiu os lábios.
— Bem... Você pode me dizer o que esta acontecendo.
— Thalia me disse que estou com gravidez psicológica.
— Eu entendo.
— Entende?
Ele sorriu.
— Minha mãe teve isso.
— Pois eu acho que não tenho.
— Ela me disse a mesma coisa por anos — ele contou — Anos mesmo. Mesmo depois dos supostos nove meses de gestação ela continuou dizendo que estava gravida.
— Eu não estou maluca! — exclamei.
— Ninguém disse que você esta.
Levantei-me e peguei minhas coisas.
— Eu tenho certeza de que estou gravida, e os seus exames não vão me fazer pensar diferente.
— Annabeth, você precisa confiar na medicina.
Suspirei.
— Me desculpe, eu não posso. Porque eu sei que tem um filho dentro de mim! E não vou desistir dele!
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