Um Amor Definitivamente Inumano
9 Omissão
Notas iniciais
Eu tento encontrar os olhos dele, mas ele está encarando a polida mesa, como se nunca tivesse visto uma mesa antes. Nora parece ter perdido a fala, apesar de não soltar o objeto, tampouco.
–Como você tem certeza? – Patch pergunta, sem alterar sua voz calculista. – Faz muito tempo desde...
Como resposta, Scott enfia a mão debaixo da blusa, no lugar onde sei que debaixo de pele e músculos está seu coração, e retira um colar idêntico ao sobre a mesa. Eu solto um gemido sufocado e Nora deixa o colar cair no chão.
–Mas o que... – ela começa, mas Patch a interrompe.
–Scott... – Patch se levanta e começa a andar de um lado para o outro ansiosamente. É a primeira vez que o vejo perder sua postura durona desde que ele achou que Nora ia morrer dentro da casa de espelhos do Delphic (uma longa história...). – Talvez seu pai tenha comentado algo sobre ser anjo quando vocês moravam juntos...
–Ele me disse que foi possuído... – ele diz isso com um pouco de raiva. – Por um da mesma espécie... – ele cospe no chão com repulsa. – Isso é o tipo mais sério de traição. Nunca vou perdoar o anjo que fez isso, nem sua prole nojenta...
Eu sinto um calafrio na espinha. Nora parece ter chegado a mesma conclusão que eu, porque aperta meus dedos. Meu pai, Adam... Ele possuiu um anjo caído... E se...
–Hm... Entendo... – Patch conclui, mas seus olhos estão impunes de emoções.
–Por que? Você tem alguma conclusão? – os pelos do meu braço ficam arrepiados. Se Patch disser a Scott sobre meu pai, ele provavelmente nunca irá me perdoar. O ódio em seus olhos quando ele disse sua prole nojenta foi quase palpável e se ele começasse a me olhar com nojo eu não suportaria. Temos uma conexão real. Senti isso no momento em que nos abraçamos. Eu contraio meu maxilar direito involuntariamente, como se estivesse prestes a levar um soco.
–Na verdade, não... – Patch me lança um olhar significativo e eu quase solto um suspiro de alívio, mas me contenho. – Acho melhor eu e detetive Basso continuarmos as investigações. Nora, venha, vou te deixar em casa.
Nora me lança um último olhar confuso e segue Patch para fora do apartamento.
Eu encaro Scott, mas seus olhos estão voltados para a praia escura lá fora. Eu me aproximo dele, preocupada com o que dizer, mas para minha surpresa é ele quem começa o assunto.
–Ele me ensinou a andar de bicicleta... – ele diz. Eu apenas abraço meu peito e fico ao lado dele, olhando para as estrelas sobre o mar negro. – Quando ele foi embora eu senti medo. Ele foi meu primeiro amigo. Por isso eu vivia molhando as calças... Tinha medo de não ter... de não ter ninguém.
Eu abro a minha boca, mas ele me interrompe.
–Mas sei que não faz parte da natureza deles... Esse vínculo com os humanos... Patch... Ele é uma exceção.
Ele se vira para me olhar nos olhos.
–Juro que se um dia eu encontrar algum dos filhos imundos de Arthuriel... – eu congelo ao ouvir o nome do meu pai. – Vou fazê-lo pagar...
Antes que eu me contenha, lágrimas quentes enchem meus olhos. Eu olho para a lâmpada fluorescente do lustre da sala para conte-las, mas Scott já percebeu.
–Por que você está chorando? – ele pega meu queixo e vira meu rosto em sua direção. Eu pisco descontroladamente, lutando para que não escorram pelo meu rosto.
–É a maresia... Eu... Hm... Tenho intolerância a ficar muito tempo no ar marítimo. – não é exatamente uma mentira, só não é a verdade que se encaixa a essa pergunta.
Ele me lança um olhar desconfiado, mas não comenta nada. Ele apenas desce as mãos para os meus ombros e encara meus olhos.
–Sabe... – eu me perco no castanho infinito que há lá, descobrindo pintinhas verdes e cílios obscenamente longos. – Você é especial para mim, Sky.
Eu encaro o chão, ruborizando automaticamente. Mas ele puxa meu rosto em sua direção novamente, e eu não consigo desviar.
–Nunca me senti assim com outra garota, Vee... – ele dá um sorriso torto. – Ao mesmo tempo em que sinto vontade de te beijar, sinto que só estar ao seu lado é suficiente.
Se ele soubesse o sangue que corre em minhas veias, aposto que sentiria nada mais que repulsa...
–Mas acho que não consigo mais suportar... – ele diz, o desejo escurecendo seus olhos para um tom quase negro.
Eu sorrio timidamente.
–E o que te impede?
Ele sorri cafajestemente.
Então eu fecho os olhos e sinto os lábios dele nos meus. No primeiro momento é só isso. Nossas bocas suavemente friccionadas, conhecendo a textura e a temperatura uma da outra. Então eu enlaço meus dedos em seus cabelos curtos e macios, minha outra mão firme em seu pescoço; ele desce as mãos perigosamente para os meus quadris e intensificamos o beijo. Eu abro meus lábios com fervor e minha língua e a dele se encontram, sedentas por contato. Eu sinto seu gosto maravilhoso, mas além disso, sinto faíscas em meu peito, como se um cabo elétrico tivesse sido ligado. Parecemos ter perdido a necessidade de respirar. Entretanto, Scott interrompe o beijo, e desce sua boca para o meu pescoço, onde minha jugular pulsa descontrolada. Eu solto um gemido de prazer e ele desce as mãos ainda mais, me carregando até a bancada de mármore com as mãos na parte debaixo das minhas coxas nuas.
Eu enlaço minhas pernas em sua cintura e fecho meus olhos, me concentrado na brisa noturna e nos seus lábios quentes, agora em meu maxilar. Ele morde meu lábio inferior suavemente e eu me descontrolo. Agarro a parte da frente de sua camisa e colo nosso lábios. Ele fica subindo e descendo os dedos pela minha cintura e enfim interrompemos de vez a ligação. Eu deito a cabeça na curva de seu pescoço e sorrio, escondida do mundo. Ele massageia meus cabelos e beija o topo da minha cabeça com carinho. Sem duvida esse...
–Foi o melhor beijo da minha vida. – ele sussurra, lendo meus pensamentos. Eu retiro, mesmo que contra-vontade, minha cabeça de seu ombro e sorrio.
–Sério? – pergunto.
–Sério. E sabe por que?
–Hm... – eu coloco um dedo em meus lábios e finjo estar pensando. – Não faço a menor ideia.
–Primeiro, porque foi com você. – ele dá uma piscadinha e eu enrubesço. –Segundo porque eu senti algo aqui. – ele aponta para o próprio peito, exatamente no lugar em que outrora se encontrava o colar de seu pai. Eu sinto um desconforto no estomago. Ele deveria me fazer sofrer, e não me beijar de maneira que eu flutuasse. Me sinto suja por omitir a verdade...
Ele enlaça os dedos nos meus e eu quase esqueço a culpa amarga.
–Bem... – ele dá um sorriso torto. – Nora deve estar preocupada. Acho melhor eu te levar para casa.
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