Um Amor Arranjado
13 O Lobo e Sua Fortaleza
Notas iniciais
Já não se importou mais com a maldição que sua família jogara-lhe sobre suas costas, nem mesmo com futuras pragas que com certeza iriam vir a açoitar sua vida. Apenas apreciou aquele momento e a estranha sensação de ter em mãos algo que sempre ansiou, porém nunca admitira a si mesmo. Aqueles lábios tinham um gosto tão doce acompanhado de uma pitada de inocência. Era como ingerir um fruto proibido de tão gracioso que aqueles lábios cheios demonstravam ser.
Shaoran passara sua língua delicadamente pelos lábios da moça, como permissão para sua entrada, fazendo Sakura aceitar, deixando-se levar pelo estranho momento. Sobressaltou-se ao toque da língua de seu marido com a sua, reconhecendo as sensações desconhecidas que tudo aquilo lhe proporcionara. Não sabia ao certo o que deveria ser feito, talvez tenha lido em um livro ou outro de como deveria agir, mas não encontrou algum pensamento coerente naquele momento. Porém, deixou-se levar. O chinês afastou-se devagar, enquanto sua mão passara para o rosto da flor, acariciando seus lábios delicadamente com o polegar. Sakura abriu seus olhos os encarquilhando, não contendo o leve suspiro que escapara de seus lábios. Deparou-se com um Li rubro, de olhos fechados, absorto nos últimos segundos. Encontrava-se ofegante, deixando sua pesada respiração visível.
Shaoran abrira seus olhos bruscamente, olhando em volta completamente aturdido. “Oh meu Deus, o que eu fiz?” questionou-se enquanto levantava-se em um pulo.
– Bem senhorita Kinomoto, tenho que ir. Estarei a aguardando no salão. – pigarreou virando-se de costas rapidamente.
Sakura manteve-se paralisada, com os olhos vidrados enquanto o escuro desenhava as sombras das árvores de forma sombria. Sua boca encontrava-se aberta, enquanto sua mão pressionava o seio sentindo o seu coração bater de forma incoerente.
– Mas o que houve aqui? – questionou-se elevando o tom de sua voz. Não se encontrava disposta psicologicamente para adentrar naquele salão novamente. Continuou estática vislumbrando as estranhas sensações com espanto. Logo após de alguns minutos, retirou-se do local com passos hesitantes.
– Sakura-chan, onde esteve? – perguntou Eriol assim que visualizou a jovem entre as portas que davam no belo jardim.
– Ah bem, eu...
– Esqueça. Shaoran a aguarda no salão. – Sakura assentiu com as bochechas coradas. Direcionou-se para o salão se deparando com o seu marido. O mesmo continha um olhar paralisado diante a porta de entrada, sua postura estava ereta, e não havia nenhuma expressão em seu belo rosto. Sakura pôs-se ao lado de Shaoran, o retirando de seus devaneios.
– Ele chegou... – sussurrou.
– O que? – disse Sakura confusa. Porém, logo a resposta vira a tona. A porta de entrada fora aberta dando um basta na música do local. Revelara um homem com aproximadamente 50 anos, alguns cabelos grisalhos e uma enorme barba em cada lado de seu rosto. Atrás do senhor, encontrava-se dois homens de fisionomias distintas. Um deles era loiro, com belos olhos azuis. Quanto ao outro, tinha cabelos pretos e olhos avermelhados.
Shaoran deu mais um passo, segurando fortemente a mão de sua mulher. Sakura o olhou com espanto, tentara manter a calma e passa-la descontraidamente para seu marido, porém ambos não controlaram o nervosismo.
– Shaoran. – cumprimentou o homem amargamente.
– Senhor Fei Reed. – retribuiu o rapaz com o mesmo sabor azedo em seus lábios ao pronunciar tal nome.
– É um prazer revê-lo.
– O prazer é meu em recebê-lo. – disse falsamente.
– Não irá me apresentar esta bela jovem? – perguntou Fei Reed sorrindo para a Sakura.
– Fei Reed, está é a minha esposa Sakura. – Shaoran dera uma pausa suspirando pesadamente, — Sakura, este é meu tio. – disse por fim.
– É um prazer. – reverenciou a jovem sorrindo educadamente.
– O prazer é todo meu. – contrapôs Fei Reed, segurando na mão da flor e a beijando.
– Por favor, não a toque. — falou Shaoran revirando os olhos. O homem riu exageradamente, balançando sua cabeça negativamente.
– Só estou sendo educado. E o que houve com a música? Vamos continuem. – pediu Fei Reed mais alto. Assim, dera inicio a música, levando todos os convidados para o meio do salão com os seus parceiros. Shaoran pegou na cintura de sua mulher desajeitadamente, enquanto afastava-se de seu tio.
– Vamos dançar. – pediu sorrindo nervosamente. Sakura assentiu colocando suas mãos de forma delicada sobre o ombro do rapaz. Shaoran a conduziu na dança, porém, sua atenção encontrava-se em um estranho homem no salão. A flor colocou suavemente sua mão no rosto do marido, o acariciando.
– Acalme-se. – suplicou com sua doce voz. Shaoran voltou seus olhos para o rosto de sua flor, encontrando um belo sorriso em seus lábios. O chinês assentiu suspirando. Passaram a dançar mais descontraídos, aproveitando o momento de troca de olhares e sorrisos bobos.
Sakura abaixou sua cabeça, pensativa. – Não tenha medo, está certo? Eu... Eu estou aqui. – sussurrou Shaoran levantando o rosto de sua mulher. A mesma sorriu largamente ao encontrar o brilho daqueles âmbares.
– Me daria à honra dessa dança? – pediu Fei Reed, curvando-se diante de Sakura. A jovem olhou perplexa para o seu marido, que abaixou a cabeça suspirando exasperado.
– Ãn, por que não? – Sakura aceitou a mão do homem que logo a envolveu em seus braços, conduzindo-a em uma dança.
– A senhorita é muito bela.
– Obrigada. – agradeceu a jovem desviando o olhar.
– Conte-me um pouco sobre você, minha jovem. – pediu o homem sorrindo.
– Ah bem, o que gostaria de saber?
– Hum, o que gosta de fazer no seu tempo livre? – perguntou.
– Ler.
– Muito bem, vejo que é culta. Qual é o seu autor preferido?
– Ernest Hemingway. – respondeu a jovem.
– A senhorita veio de que família? – Fei Reed sorriu amarelo.
– Eu sou uma Kinomoto, senhor. – o homem arregalou os olhos com espanto, parando bruscamente com a dança.
– Uma Ki-no-nomoto? – a jovem assentiu o observando, curiosa.
– Mas o que o Shaoran tinha na cabeça? – questionou-se para si afastando-se da jovem.
– Senhor? – disse Sakura o vendo galgar apressadamente entre os convidados.
– Senhor? – repetiu o seguindo. O homem parou diante de seu sobrinho, fitando-o com um semblante aborrecido.
– Enlouqueceu? Casou-se com uma Kinomoto? – esbravejou para o jovem Li.
– O que quer dizer com isto? – questionou Shaoran.
– Esta família não é digna de juntar-se a nós. É uma família baixa.
– Não ouse falar assim de minha esposa. – retrucou o chinês aborrecido.
– Estou falando somente a verdade. Não é atoa que a mãe daquela jovem... – Reed limitou as suas palavras ao reparar nas esmeraldas que o fitavam assombrada.
– O que tem a minha mãe? – disse Sakura franzindo a testa.
– Não é do seu interesse. – o homem deu de ombros.
– Claro que é do meu interesse, é a minha mãe! – esbravejou a jovem batendo o pé no chão e chamando a atenção de alguns por perto. Shaoran arregalou os olhos, nunca vira sua esposa elevar o doce tom de sua voz daquela forma.
– Não importa, um dia saberá... – disse Fei Reed, dando ás costas e partindo. Sakura o observou até desaparecer por completo entre a multidão. Suspirou pesadamente fechando os olhos, e perdendo a força de suas pernas indo diretamente de joelhos aos azulejos.
– Sakura, você está bem? – perguntou Shaoran ajoelhando-se ao lado de sua mulher.
– Estou, só preciso me retirar para o quarto. – respondeu a jovem soluçando.
– Deixe que eu a ajudo. – Shaoran a pôs delicadamente em seus braços, acolhendo sua dor. Sakura afundou seu rosto no peito do marido, deixando as lágrimas rolar sobre seu rosto e se perderem nas vestes do jovem.
Shaoran ignorara os olhares dos convidados, preocupando-se somente na flor que se encontrava em suas mãos. Tão delicada tão indefesa. No quarto, colocou-a na cama a observando com certo pesar em seus olhos.
– Fique. – replicou a jovem segurando o braço de seu marido. Shaoran aproximou-se mais limpando uma lágrima de sua mulher.
– Eu irei. – sussurrou em resposta. Sakura sorriu desajeitadamente tentando ignorar as lágrimas que ainda teimavam em cair de seus olhos. Shaoran sentiu-se aliviado ao ver aquele sorriso, era tão caloroso.
Deitou ao lado de sua esposa, abraçando-a fortemente enquanto a mesma colocava sua cabeça sobre o peito de seu marido, permitindo a saída de suas lágrimas. Fechou os olhos, acalmando-se ao sentir a fragrância de seu chinês, e o delicado carinho que o mesmo fazia em suas costas. Logo o sono a dominou, levando-a para longe.
Acordara com o sol batendo em seu rosto. Bocejou pondo sua mão sobre a boca, enquanto seus olhos rodavam pelo quarto. Ansiava encontrar o jovem marido ali, mas não houvera nenhum sinal, deixando-a desapontada. Levantou-se rapidamente estranhando a sensação de frustração que se encontrava em seu seio. Dirigiu-se para o andar de baixo, sentando-se á mesa posta para o café da manhã.
– Chun, onde está o Shaoran? – perguntou franzindo o cenho.
– Oh, o senhor Li e o seu tio foram para o trabalho de manhã cedo. – Trabalho? Sakura riu consigo mesma.
– Por que pergunta Sakura-chan? – A jovem corou excessivamente, balbuciando palavras incertas. Chun riu compreendendo a situação, e afastou-se indo para a cozinha.
Sakura fez seu desjejum, logo após pegou um livro e sentou-se sobre a grama de seu jardim, embaixo da querida cerejeira.
– Sakura-chan.
– Yukito-san. – cumprimentou a jovem levantando-se rapidamente.
– Como está, minha cerejeira? – perguntou o jardineiro sorrindo amigavelmente.
– Estou muito bem, e o senhor?
– Estou ótimo. – sorriu Yukito, provocando a ruborização das bochechas da flor.
– Yukito, eu gostaria de sua ajuda.
– Para que, Sakura-chan? – questionou.
– Eu quero ver a Tomoyo e a Shiyu novamente. – pediu a jovem juntando as duas mãos.
– Ah, isso não será nenhum problema. Mas a senhorita poderá ir? – Sakura olhou para a mansão reflexiva, mas logo abrira um sorriso assentindo.
– Então vamos! – exclamou Yukito oferecendo seu braço. A jovem aceitou segurando-o e dirigindo-se para o objetivo da viagem.
Encontravam-se diante da cidade novamente, observando a beleza das diferenças sociais e físicas da pequena população. Logo pararam em frente a uma especifica porta de uma casa amarela, que fora aberta pela mesma Tomoyo. Cumprimentaram-se aos abraços e sorrisos, expressando a afeição de serem amigos.
– Tomoyo, é muito bom revê-la, mas cadê a Shiyu-chan? – a jovem dos olhos violeta riu baixinho, apontando para o sofá da sala principal.
– Shiyu-chan! – exclamou Sakura.
– Sakura-chan!- disse a pequena jogando-se nos braços da jovem flor. — Como é bom vê-la novamente.
– Digo o mesmo, minha pequenina. – respondeu Sakura fazendo cócegas na pequena.
– O que me conta de novo, minha criança?
– Ah bem, a Tomoyo-chan fez um monte de roupinhas para as minhas bonecas. – falou Shiyu sorrindo.
– Devem ter ficado belíssimas! – exclamou Sakura apertando-a mais em seus braços. Shiyu assentiu desajeitadamente provocando risos dos que se encontravam presentes na sala.
Passara-se mais uma boa parte de sua vida naquela casa amarela, deliciando-se com o fato de ter amigos e poder confiar nestes.
– Desculpem, mas eu preciso ir.
– Mas já? Fique para o almoço. – pediu a Tomoyo.
– Desculpe, eu não posso. – disse levantando-se e dirigindo-se a porta.
– Deixe-me que eu a leve de volta. — retrucou Yukito.
– Não precisa, eu já aprendi o caminho. – sorriu Sakura.
– Então deixe que eu a leve até a metade do caminho.
– Tudo bem. – suspirou a jovem derrotada. Yukito sorriu, abrindo a porta e saindo acompanhado da jovem flor.
Na metade do caminho Sakura virou-se para o Yukito, provocando um basta em ambos os passos.
– Por aqui está ótimo. – disse sorrindo.
– Tem certeza? – questionou o jardineiro sorrindo amarelo.
– Claro. – respondeu. Sakura depositou um beijo na bochecha do jovem, que corou levemente em resposta.
– O que é isto? – perguntou Akizuki.
– Akizuki-chan, o que faz aqui? – questionou Yukito arregalando os olhos acinzentados.
– Foi por isso que terminou com a nossa relação? Por ela? Pela nova Li? – disse Akizuki aos gritos, prendendo a atenção das pessoas ao redor.
– Por favor, não faça isso. – suplicou o jovem jardineiro.
– Eu não acredito no que foi capaz de fazer conosco. Como pôde? Aposto que a alma dela é tão suja quanto à de seu marido. – retrucou a moça, provocando burburinho entre as pessoas.
– Ela é uma Li? – questionavam-se perplexos.
– Eu concordo com esta moça. Essa jovem não é digna de pisar no vosso chão. – disse uma voz feminina, e logo após inúmeras outras concordando com a afirmação.
Não muito distante encontrava-se um Li observando tudo com certa confusão estampada em sua face.
– O que é isso tudo?
– Não sei. Vamos nos aproximar mais um pouco. – disse Eriol. Ambos aproximaram-se se deparando com a jovem flor ao meio.
– Saia de nossas ruas. – retrucou uma voz masculina.
– Eu...
– Não dite uma única palavra, sua Li. – falou Akizuki virando-se para a flor indefesa.
– Deixe isto comigo. – respondeu uma voz masculina aproximando-se. Sakura arregalou os olhos visualizando seu marido se aproximar com passos largos e firmes.
– Não ousem tocar nela, nem ao menos proferir uma palavra contra esta jovem. – disse Shaoran asperamente. Todos se calaram afastando-se, enquanto suas faces eram dominadas pela expressão do medo.
Shaoran volveu seu corpo para sua mulher, olhando-a com rispidez. – Eu disse para ficar em casa. – esbravejou.
– Me desculpe. – respondeu a jovem de cabeça baixa.
– Você não aprende mesmo, não é? Eu supliquei para que não se colocasse em encrenca e é a primeira coisa que faz. – disse puxando a flor pelo braço.
– Pare, por favor. Isto machuca. – pediu Sakura.
– Pare, está machucando ela. – disse Yukito perplexo.
– Não se meta seu jardineiro. – falou Shaoran entredentes. – Vamos para a casa. – disse o chinês por fim, arrastando-a para longe.
– Está me machucando. – sussurrou Sakura entre soluços.
– Eu já ouvi isto, fique quieta! – exclamou o jovem puxando-a com mais força.
O caminho teria sido silencioso, pelo simples fato de uma pequena flor tentar conter suas lágrimas e seus soluços involuntários. Logo Shaoran encontrava-se em sua mansão, dirigindo-se ao seu escritório ainda com a Sakura por perto. Soltou-a, virando-se de costas para a mesma. A jovem sentou-se ao chão, limpando suas lágrimas.
– Perdoe-me.
– Não é a primeira vez que ouço isso do senhor. – respondeu.
– Eu lhe disse, eu não posso me controlar. – retrucou colocando a mão na testa. – As pessoas estão certas, eu sou um monstro. – disse. Sakura levantou-se, se aproximando de seu marido. Shaoran fitou o rosto da jovem arregalando os olhos ao deparar-se com um semblante sereno.
– Eu acho que elas estão erradas. – sussurrou Sakura acariciando o rosto de seu marido.
– O que? – questionou Shaoran engolindo suas lágrimas.
– Chore, não precisa ser forte o tempo todo. – sorriu a moça aproximando os seus rostos e colando suas testas. Shaoran a olhou franzindo o seu cenho. Revirou o olhar inúmeras vezes, não contendo suas lágrimas deixou-as brotar em seus olhos e decaírem. Sakura olhou nos âmbares como se conversasse com a alma do rapaz. A jovem limpou suas lágrimas delicadamente como carícia. O chinês fechou os olhos, suspirando levemente.
– Eu sei que não és assim. – disse a moça baixinho.
– Senhor Li, Touya Kinomoto o aguarda. – anunciou Chun arregalando os olhos e logos após sorrir ao ver a cena. – Me perdoem.
– Tudo bem, — disse Shaoran limpando o rosto. – mande entrar aqui no escritório mesmo. – Chun assentiu retirando-se do cômodo.
– Meu irmão? – questionou Sakura. – Shaoran, por favor. Prometa-me que não irá machuca-lo.
– Eu prometo. – sussurrou.
A porta fora aberta em um estrondo, dando origem a um Touya vermelho de tamanha irritação.
– Seu idiota. Como pôde tratar minha irmã daquela maneira? – questionou aproximando-se com passos fortes.
– Touya, pare! Ele não fez por mal. – suplicou Sakura pondo-se a frente do marido.
– Como não? Todos na cidade estão falando da forma grotesca em que você fora tratada, minha irmã. – falou empurrando sua irmã para o lado e aproximando-se do chinês.
– Como pôde? Responda seu moleque. – vociferou segurando Shaoran pela gola.
– Me desculpe. – disse o Li. Touya balançou a cabeça negativamente, esmurrando a cara do rapaz sem piedade.
– Revide, seu covarde. — gritou o irmão da flor.
– Não posso. – falou Shaoran limpando o sangue que saia de suas narinas.
– E tratar minha irmã daquele jeito é permitido? – questionou Touya zombeteiro.
– Pare meu irmão. Por favor, eu imploro! – suplicava sua irmã. Touya continuou sua agressão, enquanto gritava exasperado.
– Seu covarde. Revide!
– Eu prometi. – sussurrou Shaoran cuspindo o seu sangue.
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