Um Amor Arranjado
2 O Caminho para Prisão
Notas iniciais
– Venha, onii-san. Vamos tomar um pouco de chá. – Falou Sakura, ainda nos braços de seu irmão.
– Claro onee-chan. – Aceitou Touya sorrindo largo. Caminharam de volta para a bela casa, se deparando com Sonomi. – Sonomi-chan, quanto tempo! – Exclamou Touya fazendo a típica reverência japonesa. – Sim senhor, há quanto tempo.
Chegaram à sala, logo se sentando em frente à grandiosa mesa. Touya suspirou. Nunca havera um dia em que o clima da casa estivesse tão sombrio e pesado. Estava acostumado com as deliciosas gargalhadas, largos sorrisos, e o aconchego de se encontrar em seu lar. Porém, não se sentia confortável como antes, não sentia aquele calor aconchegante, apenas frio e um vazio em grande parte de seu peito. Arriscou olhar rapidamente para Sakura. A flor continha um olhar pesado. Respirava como se fosse doloroso. Touya revirou os olhos, encarar a sua irmã nesse estado proporcionava uma grande dor em seu coração. Sua irmã, sempre fora a alegria da casa, sempre se encontrava em tamanha felicidade. A bela flor do jardim, que com um grande pesar, seu onii-san poderia afirmar, ela estava murchando.
Sonomi pôs os talheres na mesa, provocando um leve barulho que retirou Touya de seus pensamentos obscuros. – Como estás, onee-chan? – Questionou. –Ah, bem. – Respondeu Sakura sorrindo amarelo afundando-se em sua cadeira. Touya desviou o olhar não aguentando encarar sua triste irmã. Sakura pegou sua xícara de chá passando a observa-la, perdida em seus pensamentos. O mais velho voltou os seus olhos para a flor a avaliando. A jovem estava pálida, com grandes olheiras, aparentava estar mal alimentada. – Precisamos conversar, Sakura. – Falou rapidamente. Sakura depositou seus olhos verdes em seu irmão, acenando com a cabeça. – A levarei para bem distante daqui. Sua vida ganhará um rumo diferente, sinto dizer, antes de o vosso pai falecer desta forma inesperada, tínhamos planejado um casamento... – Disse Touya sussurrando as últimas palavras. Sakura arregalou seus olhos, já com o conhecimento de onde esta história a levaria. – Onee-chan, arranjei um casamento com o propósito financeiro e estás envolvida.
– O que? — Levantou-se Sakura bruscamente da cadeira.
– Eu já tinha planejado tudo com o vosso pai, Sakura. – Disse Touya com calma.
– Não é possível. — Falou a jovem intrigada. Seu irmão continuou em silêncio. – Nunca pretendi me casar… Não desse jeito. – Disse Sakura olhando para as mãos entrelaçadas. – E ainda mais por dinheiro? Oh, Deus. — Disse escondendo seus olhos verdes em sua franja.
– Desculpe onee-chan, mas o papai deixou para trás muitas dividas, pagamos com o dinheiro que lhe restava. Pense no seu bem, Sakura, ou você gostaria de se casar por amor e viver uma linda história de romance? Isso só existe em livros, onee-chan. – Falou Touya suspirando alto. A mais nova abaixou a cabeça. — Hum, amanhã partiremos, Sakura. — A flor assentiu.
Sakura passou o dia em seu quarto chorando em silêncio. Seu rosto começara a arder, chorar passou a literalmente doer. Ninguém estava a apoiando nesse momento, e ela sabia, mesmo que seu pai estivesse com ela, ele não a apoiaria, ela se sentia só. A jovem fechou os olhos devagar e pegou num sono profundo.
Logo o sol da manhã adentrara em seu quarto, esquentando seu rosto pálido. Levantou-se e se espreguiçou. Ouviram-se três batidas na porta.
– Sakura, levante-se e se arrume. Sonomi-chan irá fazer suas malas. — Disse seu irmão, Touya. Sakura não respondeu, continuara mais alguns segundos sentada na cama. Tudo parecia fazer parte de um pesadelo. Levantou-se suspirando pesadamente. Colocou um simples vestido preto com delicados bordados em branco. Sonomi sorriu ao encontra-la na sala, Sakura não retribuiu.
– Ânimo, minha querida. – Falou Sonomi alisando o braço fino da jovem.
– Eu sempre sonhei com o dia que iria sair de casa, Sonomi-chan, mas não imaginei que seria dessa forma. — Falou suspirando. A governanta abaixou a cabeça e se retirou. Sakura foi até seu jardim, indo direto até a bela arvore que ela se sentara embaixo da sombra tantas vezes para ler seus livros. A flor, Sakura, tocou naquela grandiosa arvore, examinando seu tronco. – Sentirei sua falta, velha amiga. – Disse, agradecendo mentalmente por estar só. As pessoas a achariam louca por estar falando com uma arvore. Sakura sentou-se embaixo da arvore, no mesmo lugar que sempre sentara. Ficou admirando o belo jardim que sempre a acolhera. Fechou os olhos e passou longos minutos daquele jeito.
– Sakura-chan, venha, está na hora. – Gritou Sonomi de longe. Sakura abriu os olhos, levantou-se dando uma última olhada na arvore e se retirou do jardim. Sonomi segurou forte a mão de Sakura indo em direção à porta. A jovem pôde sentir seu estômago revirar, ela estava a um passo da liberdade e ao mesmo tempo a um passo da prisão. Sonomi sentiu sua aflição, a abraçou forte chorando baixo.
– Vamos, onee-chan. – Disse Touya entrando no carro (um Studebaker-Garford B 1908.). Sakura se afastou de Sonomi indo em direção ao carro, sentou-se ao lado do seu irmão olhando fixamente para fora da janela, secando as lágrimas. Assim se afastaram da casa, deixando para trás todas as lembranças.
Por mais que tentasse odiar aquele momento com o seu irmão, Sakura estava maravilhada com o mundo ao seu redor. Olhava para fora da janela boquiaberta. Encantada com tudo, até mesmo vendo cenas miseráveis e repugnantes. Ela olhava para todos os lados, enquanto Touya ria de seu comportamento. A jovem abaixou a cabeça, mas logo retornou a olhar para fora da janela. Sakura gargalhava com cada mínima coisa vista pelos seus olhos. Acenava alegremente para as pessoas, que retribuíam amigavelmente. Touya passara o caminho todo rindo, ou simplesmente tendo o prazer de suas típicas discussões com sua irmã. — Mostrenga. — Falou a provocando. — Hoe, eu não sou monstrenga!- Exclamou fazendo bico. — É claro que é, sua monstrenga!
Sakura virou seu rosto, completamente vermelha de raiva. Touya sorriu de forma vitoriosa enquanto Sakura bufava. Finalmente vira sua irmã sorrir sinceramente, o que lhe causava um grande alívio.
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