Um Amor Arranjado
15 Meias Palavras
Notas iniciais
Ao chegar a seu aposento sentou-se em sua cama, admirando a beleza distinta em um rosto sonolento. Os cabelos acastanhados completamente desarrumados, enquanto sua cabeça pousava sobre o travesseiro branco. Revirava-se uma vez ou outra, causando certa curiosidade expandir-se na cabeça de Sakura. A mesma, inquieta, aproximara-se cada vez mais, o observando. Seus olhos dispostos a captar qualquer movimento de um chinês inconsciente. Seu rosto parara a poucos centímetros ao do marido. Fitou-o absorta em traços que talvez nunca houvesse reparado em momento algum. Lábios não muito carnudos, porém atrativos da mesma forma, sobrancelhas grosseiras correspondendo à masculinidade encontrada no rapaz. Nunca o encontrara de tal forma, aparentando estar tão vulnerável e ao mesmo tempo um ser tão puro.
Ao fim do percurso realizado pelos olhos esverdeados, os parou novamente entre os lábios de Shaoran. Os vislumbrando com atenção. Sentia a necessidade de experimenta-los mais uma vez, porém desta, iria focar por completo em cada sensação. Aproximava-se, sem retirar os seus olhos daqueles lábios entreabertos. Quando finalmente os fechou, prestes a enterrar-se novamente naquelas estranhas sensações.
Shaoran sentira uma doce fragrância floral pairando sobre o oxigênio que era inalado pelas suas narinas. Sorriu ao reconhecer aquele cheiro. Estava tão próximo de si, talvez fizesse parte de um daqueles sonhos encantadores que passaram a assombra-lo nas últimas noites.
Abriu os olhos, os encarquilhando. Inesperadamente, deparou-se com uma jovem e sua cabeça erguida, a poucos centímetros da sua. Sobressaltou-se com os seus âmbares quase fora de órbita, indo de encontro ao chão em um baque estrondoso. Sakura reabriu as suas esmeraldas bruscamente, erguendo-se sobre a cama, visualizando o rapaz sobre o chão.
A vermelhidão logo preenchera os rostos de ambos, com flashes de uma noite que fora fantástica para o casal. O silêncio foi inexorável, causando uma linha de constrangimento ao redor dos dois.
- Qual é o seu problema com o chão? – perguntou-lhe Sakura quebrando o silêncio. Shaoran revirou os olhos, sentando-se desajeitadamente e cobrindo-se imediatamente com um lençol ao perceber que se encontrava despido.
- Eu... O que?
- Ah, esqueça. – cortou Sakura sentando-se na beirada da cama.
O silêncio retornara, porém com a ausência do tal constrangimento. A jovem o olhou fixamente sentindo o seu estômago se embrulhar de forma esquisita. Logo após fora a vez de seu coração pular de forma assustadora, como se estivesse a sair pela sua boca. Fitou-o bem, prestando atenção em seu estado. Shaoran encontrava-se tenso, não só pelo fato de sentir as mesmas sensações que a jovem, mas sim ao estranhar toda aquela realização estranha de seus sentidos. Seus olhos caramelados encontraram-se com aquelas brilhantes esmeraldas. Deixou-se relaxar diante daquele mar esverdeado. Percebera o meio sorriso a nascer nos lábios carnudos de sua flor, logo sorrira igualmente, quase tão bobamente.
Era certo de que aos olhos de outros aquela cena seria no mínimo estranha, porém para aqueles dois, era um momento de conversa. Não verbalmente, mas visivelmente. Uma conversa tão verdadeira quanto qualquer outra, tão pura.
Sakura balançou sua cabeça, levantando-se em um pulo. – Ah, o deixarei ser arrumar.
- Tu-tudo bem. – sussurrou Shaoran completamente sem jeito. Sakura assentiu, retirando-se do quarto cambaleando. Fechou a porta atrás de si, encostando-se à mesma. Deixou-se desmoronar ali mesmo, sentando-se no chão.
- Oh meu Deus. – suspirou apoiando a sua cabeça na porta. Passou alguns segundos na mesma posição, receando a saída de seu marido, levantou-se rapidamente.
Encontrava-se sentada no sofá da sala principal. Em mãos estava o seu livro preferido. Tinha certeza que o lera inúmeras vezes, mas não se importara, aliás, era como se fossem velhos amigos. — Sakura-chan. – chamou Chun. A flor levantou o seu rosto dando-lhe atenção.
– A Tomoyo-chan a aguarda no jardim.
Sakura levantou-se, sorrindo largamente. Correu em direção ao jardim, deparando-se com uma moça de longos cabelos pretos admirando a exuberância de uma frágil cerejeira.
- Tomoyo-chan. – cumprimentou Sakura. Tomoyo volveu o seu corpo, abrindo um dos seus belos sorrisos.
- Sakura-chan. – abraçou-a fortemente. Sakura correspondeu, apesar de sentir falta do oxigênio em seus pulmões. Tomoyo a soltou rindo ao perceber a sua amiga ofegante.
- Perdoe-me.
- Tudo bem. – disse Sakura.
- Ah, Sakura-chan? – questionou a moça dos olhos violeta, a avaliando.
- Sim?
- Está diferente.
- Co-como? – a flor arregalou os seus olhos em confusão.
- Seus traços, seu humor. Há algo diferente. – justificou Tomoyo sorrindo. Sakura corou, negando com sua cabeça debilmente.
- Também parece mais madura. – continuou a jovem gargalhando com a reação de sua amiga.
- Eu-eu... Como está Shiyu? – mudou de assunto, virando o rosto em uma tentativa de esconder o seu constrangimento bastante visível em sua face.
- Ela está bem, mas – os olhos da jovem Tomoyo assumiram um tom opaco, enquanto seus lábios se contorciam – ela não está mais comigo. – Sakura mostrou-se em choque diante da situação. Tinha uma grande afeição pela pequena criança.
- Onde ela está?! – questionou franzindo o cenho.
– Ela está no orfanato. – respondeu a sua amiga.
- Orfanato? – Tomoyo assentiu. – Não se preocupe Sakura-chan. Não é muito distante daqui.
- Tenho permissão para visita-la? – perguntou-lhe sentindo um nó formar-se em sua garganta.
- Eu não sei. – sussurrou a sua amiga.
Shaoran estava sentado em frente a sua mesa do escritório. A papelada poderia encontrar-se sobre a escrivaninha, mas os seus pensamentos estavam distantes, talvez em algo que causasse a incoerência no estado de seu coração. Não percebera a presença de um inglês a fita-lo enquanto ria baixo.
- Shaoran. – chamou-lhe outra vez estalando os dedos em frente aos âmbares de seu amigo. O Li balançou a sua cabeça, retirando-se de seus pensamentos.
- O que?
- Estou tentando lhe chamar já faz 3 minutos, mas continuava com estes olhos fora de foco e um sorriso bobo estampado em seu rosto. – disse Eriol ao gargalhar. – O que há? – questionou por fim jogando-se na cadeira em frente ao jovem Shaoran.
- Na-a-da. – gaguejou corando. Eriol o olho com soslaio.
- Eu o conheço, Shaoran-kun.
- Eu finalmente tive a Sakura em meus braços. – disse rapidamente abaixando a sua cabeça. Por pouco Eriol não se engasgara com a sua própria saliva. Dera um pulo em sua cadeira, apoiando-se sobre a mesa com as suas duas mãos.
- O que?! – Shaoran apenas assentiu sentindo suas bochechas esquentarem a cada segundo preso àquele cômodo.
- Oh meu Deus. Como isso aconteceu?
- E-eu não sei. Simplesmente aconteceu. – disse Shaoran batendo com as suas mãos na mesa.
- Como se sentiu? – perguntou-lhe Eriol, transbordando-se em curiosidade.
- Eu senti algo que eu não poderia decifrar de forma inteligível. – Eriol sorriu largamente em resposta. Ouviram-se três batidas na porta, que logo fora aberta mostrando um Fei Reed entrando sem hesitação.
- Bom dia a todos. – cumprimentou.
- O que você quer? – questionou Shaoran levantando-se. O seu tio sorriu debochado, jogou as suas mãos para o alto em um ato de rendição.
- Só quero avisar que já estou partindo.
- Já estava na hora. – disse o jovem Li rindo.
- E há mais. – anunciou Reed mostrando-se sério. – Quero que viaje para visitar a sua mãe.
- Querer não é poder. – falou Shaoran cruzando os braços.
- Não é só questão de ‘querer’, é uma necessidade que você deverá enfrentar. – continuou o seu tio sério, mas logo retornara com o sínico sorriso em seus lábios.
- Bem, é isto. Vereemos-vos em breve, meu querido sobrinho. Diga a Sakura-chan que sentirei a sua falta.
- Ah direi. – falou Shaoran zombeteiro revirando os seus olhos. Fei Reed saiu do quarto, deixando os dois amigos entreolharem-se aturdidos. Depois de alguns minutos, Eriol retirou-se da mansão, desculpando-se por ter muito que fazer naquele dia. Caminhava tranquilamente, até deparar-se com uma figura esbelta apoiada em uma das árvores. Aproximou-se, pegando-a pela cintura e a pressionando contra o tronco.
- Sabia que iria me esperar. – sussurrou em seu ouvido.
- Seja breve, Eriol.
- Acalme-se Tomoyo-chan. Não dou a mínima para o tempo. – disse tomando os lábios da jovem para si.
Sakura se sentou sobre a grama, enquanto respirava o ar do fim de uma tarde. Reconhecera os tons avermelhados que o sol lançara, receando a chegada do horário mais importante de seu dia. Passaram-se mais alguns minutos até decidir levantar e rumar para a sua meta do dia.
Parou em frente à porta, abrindo-a com cautela. Sentiu o coração oscilar diante do rapaz a sua frente. Galgou parando em frente ao piano e sorrindo.
- Boa tarde. – Shaoran virou-se rapidamente ao perceber a presença da jovem, entregou-lhe mais um sincero sorriso. — Boa tarde.
Sakura sentou-se ao seu lado, o observando pelo canto do olho. – Como foi seu dia? – perguntou-lhe a jovem voltando os seus olhos para os dedos do seu marido que deslizavam sobre as teclas do piano.
- Foi ótimo. Meu tio foi embora. – disse sorrindo torto. – E como foi o seu?
- Ah, muito bom. – falou voltando-se para ele.
- Sakura...
- Hm? – questionou fitando-o.
- Obrigado por tudo. – disse o Li dando um fim em sua melodia e virando-se para a jovem.
- O que eu fiz? – perguntou-lhe arregalando os olhos. Shaoran riu com a sua reação, abaixou a sua cabeça, escondendo o rubor e a mágoa que os seus traços possuíam.
- Você mudou grande parte de minha vida. – sussurrou. Sakura manteve-se em silêncio, não iria interrompê-lo até entender toda está questão.
- Tive uma infância difícil. — suspirou o jovem pesadamente – Meu pai era o dono dos negócios da família Li. – dera uma pequena pausa para avaliar a reação da jovem. A mesma estava quieta, apenas com os olhos arregalados, totalmente atentos.
- E minha mãe grávida. – esboçou um sorriso amarelo.
- Um dia, os moradores da cidade revoltaram-se contra o meu pai. Eu não compreendia, eu não entendia. Eles o mataram, Sakura. – disse em um fio de voz. A jovem tapou a sua boca com as duas mãos, a angústia tomando conta de seu coração.
- Como eles...
- Logo a minha família transformou-se em total confusão. Minha mãe entrando em depressão, e o parto mal recebido de minha irmã. A senhorita Li não estava disposta a cuidar de minha pequena irmãzinha. A mesma nascera prematura, não aguentara viver por muito tempo. – respirou fundo, retornando com as suas palavras.
- Então eu cresci, e assumi contra a minha vontade os negócios da minha família. – Sakura o fitou, horrorizada. Poderia imaginar uma vida conturbada, mas não imaginara desta forma. Pegou-lhe a mão, a apertando com força.
- Está tudo bem agora. Eu estou com o senhor. – disse sorrindo. Shaoran olhou-a perplexo, era tudo muito confuso, mas retribui o sorriso.
No dia seguinte, Sakura estava em seu jardim com mais um livro em mãos. Estava radiante em relação a sua vida. Finalmente se sentia acolhida em um local desconhecido.
- Do que está a sorrir, Sakura-chan? – a jovem sobressaltou-se reparando no jardineiro a sua frente.
- Yukito-san! – exclamou largando o livro e o abraçando fortemente. Percebera o ato inapropriado que houvera feito, recompondo-se. — Perdoe-me.
- Tudo bem. – riu o jovem.
- Tenho algo a lhe mostrar. – falou segurando na mão da flor.
- O que é? – perguntou-lhe docemente.
- Tem permissão para sair? – questionou o rapaz sorrindo. — Não posso ir para a cidade.
- Não será na cidade. – anunciou Yukito.
- Então, acho que posso. – disse hesitante.
- Vamos. – Yukito a guiou para fora das terras da família Li. Passaram pelas árvores em silêncio, pelo menos até os pés da jovem começar a fraquejar.
- Para onde vamos, Yukito-san? Meus pés já estão doloridos. – disse fazendo bico. Yukito gargalhou segurando-a com mais força pela mão.
- Acalme-se, Sakura-chan. Só mais cinco minutos e chegaremos. – chegaram ao seu objetivo após exatamente cinco minutos. Sakura arregalou os olhos ao deparar-se com uma enorme casa.
- Onde estamos? – questionou confusa.
- Em um orfanato. A Shiyu-chan está aqui. – disse sorrindo. Sakura alargou o seu sorriso, pressionando suas mãos contra o seio.
- Vamos. – falou a jovem, indo em direção à porta. Yukito a reprendeu segurando-a pelo braço.
- Não, não devíamos estar aqui. Venha, vamos pelo outro lado. – pediu guiando-a para dentro das árvores mais uma vez. Rapidamente seus olhos visualizaram um pequeno parque, com inúmeras crianças a brincar.
- Eles não têm um lar? – Yukito respondeu com um aceno negativo de sua cabeça.
- Isso é tão triste. – sussurrou a jovem. – Queria poder ajudar a todos.
- Sakura-chan, por isso é que eles estão aqui. Este é o lar deles, e logo haverá alguma família disposta a dar-lhes amor. – falou Yukito sorrindo, acalmando o coração aflito da cerejeira.
- Olhe, é a Shiyu-chan! – exclamou o jardineiro apontando para um canto do parque. A pequenina não parecia muito contente, estava completamente isolada em um canto.
- Como iremos chama-la? – perguntou-lhe Sakura. Yukito parou por um segundo, parecendo pensativo. Depois de alguns segundos, assobio, tentando chamar a atenção da pequenina sentada embaixo da sombra de uma árvore. Tentou mais uma vez, desta funcionara. A criança levantou o seu rosto em busca da origem do som. Yukito assobio novamente, mais forte. Shiyu levantou-se em um pulo, correndo em direção ao som. Ouviram-se os passos da garota, Sakura retirou-se de seu esconderijo procurando-a com os olhos esverdeados.
- Sakura-chan! – ouviu a flor. Sakura volveu o seu corpo em direção à voz, deparando-se com a pequena a abraça-la fortemente.
- Como eu estava com saudades destes pequeninos bracinhos a me envolver. – disse Sakura correspondendo ao seu abraço.
- Por favor, Sakura. Tire-me daqui. – pediu a criança em prantos.
- Eu não posso agora. – falou Sakura abaixando-se e secando as lágrimas da Shiyu. – Só peço que tenha calma e paciência, por favor. Irei tira-la daqui.
- Eu confio na senhorita. – disse a pequenina entre soluços.
- Precisamos ir. – disse Yukito.
– Estamos infringindo a lei neste momento. – falou o jardineiro piscando para Shiyu que riu com o comentário.
- Vamos. – disse Sakura, abraçando-a mais forte.
- Tchau, Shiyu-chan. – despediu-se tristemente.
Afastaram-se em silêncio. Yukito percebera o aroma da tristeza pairando pelo ar. Não gostava de vê-la desta forma, era tão mais bela ao sorrir.
- Preciso lhe mostrar outro local. – falou segurando a sua mão. A jovem assentiu, sendo guiada.
Em poucos minutos chegaram a um local isolado da sociedade. Sakura sorriu ao deparar-se com uma bela cachoeira rodeada de pedras de diferentes tamanhos e tons acinzentados. – Oh meu Deus. – disse com os olhos arregalados.
- Isto é lindo. – falou observando a água límpida escorrer pelas pedras graciosamente, enquanto os peixes divertiam-se entre si como uma estranha dança.
- Sim. – confirmou Yukito sorrindo e sentando-se sobre uma pedra. Sakura sentou-se ao seu lado sem tirar os seus olhos da belíssima visão.
- Sakura-chan? – chamou-a Yukito. A jovem virou o seu rosto para o rapaz, sorrindo.
- Tenho algo a lhe dizer.
- Prossiga. – pediu rindo.
- Eu... Eu a amo, Sakura-chan. – por um momento Sakura pensara ter ouvido algo distorcido por conta do barulho que vinha da água ao cair.
- O que disse?
- Eu te amo. – repetiu mais firme.
- E-eu preciso ir para casa. – falou levantando-se rapidamente.
- Deixe que eu a leve de volta. – Sakura negou rapidamente com a cabeça.
- Eu acho que sei o caminho. – falou. Apressou os passos a cada batida forte e involuntária de seu coração. Mal pôde perceber que corria desesperadamente como se estivesse em busca de respostas incertas. Mentira ao dizer que tinha o conhecimento do caminho, mas fora necessário. Poderia desenrolar-se ali.
Demorara algumas horas, mas finalmente achara a mansão. Olhou para o horizonte deparando-se o misto de cores fortes, anunciando o fim de mais um dia. Sorriu feliz em chegar a sua casa antes de escurecer.
Algo importante passara pela sua mente, o que a fez apressar os seus passos em direção ao cômodo pertencente a um belo e enorme piano. Abriu a porta, mas o seu marido não estava ali. Seu coração encheu-se de algo que nem a mesma cerejeira poderia decifrar.
Correu procurando pela Chun, encontrando-a na cozinha enquanto preparava a refeição noturna. — Chun-san, onde está o Shaoran?
- Está trabalhando, querida. – falou descascando uma cebola. Sakura abaixou a cabeça desapontada. Subiu as escadas, rumo ao seu quarto. Ao chegar ao cômodo, jogou-se em sua cama, a confusão tomando conta de seu ser. Desde que botara os olhos naquele sorriso gentil pensara que deveria entregar-lhe o seu maior e mais profundo amor, porém algo em um par de âmbares deixavam-na confusa.
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