Um Acidente de Natal
4 Escolhas
O som ritmado de passos no corredor fez Kakashi levantar os olhos dos papéis em sua mesa. Logo depois, a porta se abriu com duas batidas secas.
Shikamaru entrou primeiro, com as mãos nos bolsos e o cenho levemente franzido.
— O Uchiha está aqui — anunciou, num tom neutro. — Acabou de voltar de missão. Disse que precisa falar com você.
— Pode entrar — respondeu Kakashi, endireitando-se na cadeira.
Sasuke entrou pela porta, postura firme e olhos impassíveis. Fez uma breve reverência com a cabeça, num gesto formal.
— Hokage.
Kakashi assentiu com leveza.
— Sasuke. Imagino que a missão tenha terminado antes do previsto?
Sasuke entregou o pergaminho lacrado.
— Houve uma mudança nos planos do inimigo. O combate foi breve. O relatório está completo.
Kakashi leu por cima o selo, então o depositou sobre a mesa, mas não comentou o conteúdo. Seu olhar repousou no homem à sua frente com a calma de sempre.
— Ainda assim, voltar meses antes é incomum, mesmo para você.
Sasuke não respondeu de imediato. Seu olhar estava sereno, mas direto.
— Vim por outro motivo também.
Kakashi manteve o silêncio, esperando.
— Quero levar Sakura comigo. Na próxima missão.
O Hokage apenas o encarou, o coração desacelerando um pouco tarde demais. Seu rosto não demonstrava nada além da habitual serenidade, mas as palavras do Uchiha reverberaram nele com força.
— É uma missão longa.
— É sim. Mas quero que ela venha não apenas como ninja médica. — Sasuke hesitou por um instante, antes de prosseguir: — Quero que ela venha como minha companheira.
Algo nele se retraiu, automático, antes que pudesse impedir.
Shikamaru, que até então observava tudo encostado à lateral da sala, ergueu uma sobrancelha discretamente.
Kakashi respirou fundo, controlando o aperto que se formava no peito.
— Ela sabe disso?
— Ainda não. Mas pretendo falar com ela hoje. Achei correto vir até você primeiro.
Houve um longo momento de silêncio. Kakashi assentiu devagar, o olhar pousado no canto da mesa.
— Eu agradeço por isso, Sasuke.
O Uchiha inclinou levemente a cabeça, como uma despedida, e virou-se para sair. Shikamaru o acompanhou com o olhar, só falando depois que ele fechou a porta atrás de si.
— Isso vai ser complicado.
Kakashi recostou-se na cadeira, soltando um leve suspiro.
— Vai sim.
...
O ar estava morno e o céu começava a ganhar tons alaranjados. Konoha vivia sua habitual movimentação tranquila — vendedores recolhendo bancas, crianças rindo à distância, e o som suave do vento entre as árvores. Sakura caminhava ao lado de Sasuke por uma das alamedas próximas ao centro. Ele havia pedido para conversar com ela longe da torre, e ela — educada, mas atenta — aceitara.
Por fora, pareciam dois amigos de longa data em reencontro. Mas o silêncio que se estendia entre os dois carregava um peso maior.
— Está diferente — Sasuke disse por fim, os olhos vagando pelas construções ao redor.
— O quê? A vila?
— Você.
Sakura sorriu, mas sem encarar diretamente.
— Acho que mudei mesmo. Todos mudam.
Ele assentiu, como se já soubesse. Mas era óbvio que não esperava ouvir isso dela com tanta firmeza.
— Você está bem? — ele perguntou, desviando o olhar para o rosto dela. — Parece... diferente.
— Estou bem — ela respondeu com naturalidade. — Talvez até mais do que imaginei que estaria, a essa altura.
Sasuke fez uma pausa. O andar desacelerou.
— Vou partir em breve — disse, direto. — Mas pensei em levar você comigo, dessa vez.
Sakura parou de andar, voltando-se para ele. Havia um tom de ternura e surpresa em seu olhar.
— Mesmo?
Ele assentiu, mas o olhar demorou um segundo a mais nela — como se tentasse confirmar algo que já sentia escapar.
— Sim. Confio em você. Sempre esteve comigo, mesmo quando eu não merecia. E... talvez agora eu esteja pronto pra ter alguém assim ao meu lado.
Sakura respirou fundo. O que ouviu seria uma espécie de declaração, se fosse anos atrás. Mas agora, embora ainda a tocasse, não a desestruturava.
— Sasuke... isso significa muito. Mas eu preciso ser honesta com você.
Ele sustentou o olhar. Não estava acostumado a ouvir um "não".
— Eu esperei muito tempo que você dissesse algo assim. Muito tempo mesmo. Só que eu deixei de esperar. E quando isso aconteceu... eu me permiti olhar para outras direções.
O silêncio entre eles se aprofundou. Sasuke estreitou os olhos levemente, não com raiva, mas com um misto de incredulidade e cálculo.
— Tem alguém?
Ela hesitou por um segundo. Mas só por um.
— Sim.
Sasuke desviou o rosto. O maxilar travou por um momento.
— Quem?
Sakura cruzou os braços, num gesto defensivo. Não queria esconder, mas também não achava que devia se explicar.
— Não acho que importe agora. Não estou tentando machucar você, Sasuke. Só estou sendo honesta.
— Se fosse só um caso, não falaria com tanta convicção — ele observou, sem elevar o tom. — Alguém da vila?
Ela apenas o olhou. O silêncio dela era resposta suficiente.
— Eu nunca imaginei... — ele parou. — Que você poderia parar de me amar.
Sakura sentiu um aperto no peito, mas não desfez a calma no rosto.
— Eu não deixei de amar você. Só que agora é de um jeito diferente. Eu quero que você seja feliz. Mas não sou mais a garota que esperava ser escolhida. Eu escolhi a mim mesma, Sasuke.
Ele respirou fundo. O orgulho ferido misturado à maturidade o manteve em silêncio por mais alguns passos.
— Ele é digno de você?
Ela sorriu de leve.
— Acho que ninguém nunca vai achar que ele é, nem ele mesmo. Mas me faz bem. Me faz rir. Me faz sentir segura. É mais do que eu podia pedir.
Sasuke assentiu devagar. E quando retomaram a caminhada, algo nele havia mudado.
...
Da varanda elevada da torre do Hokage, Kakashi observava o fluxo da vila abaixo com um certo distanciamento, como fazia quando queria pensar. Já tinha finalizado os relatórios do dia, mas ainda não conseguia sair. Algo o prendia ali.
Então viu.
Duas silhuetas descendo a rua lateral, perto da loja de doces antigos. Ele reconheceria aquele andar de Sakura em qualquer lugar. E o outro, ao lado dela, com passos firmes e postura sempre alerta, só podia ser Sasuke.
Eles caminhavam juntos. Próximos, mas não como amantes. Ainda assim... próximos demais para que ele conseguisse manter o olhar frio.
Seus olhos seguiram o gesto dela ao parar, os braços cruzados com leve desconforto. Ele não podia ouvir o que diziam, mas o corpo de Sakura falava por ela. Havia calma, firmeza. E então o gesto breve de Sasuke se afastando e voltando — uma negociação silenciosa.
O estômago de Kakashi revirou-se em silêncio.
"Você não tem o direito de se sentir assim", ele pensou, cerrando os punhos sobre o corrimão de madeira escura.
Ela era livre. Ele sabia disso. Desde o princípio, ela sempre foi. E mesmo assim... doía.
Doía porque ele também era livre. E mesmo assim havia se acorrentado.
Doía porque, dois dias antes, quando ela estivera em seus braços dizendo "eu quero", ele havia se afastado.
E agora ela estava ali. Com outro homem. Com Sasuke.
Por um instante, considerou chamá-la. Descer as escadas, alcançar os dois, sorrir de lado, fazer uma piada qualquer e interromper aquele passeio antes que fosse tarde. Antes que ela se fosse.
Mas não fez.
Em vez disso, deu um passo para trás, afastando-se da varanda. Os olhos se fecharam por um breve instante.
"Se for pra ela ser feliz... que seja com quem ela escolher", pensou.
Mesmo que não fosse ele.
...
O céu de Konoha estava limpo naquela noite, pontilhado de estrelas quietas. Kakashi encostou-se ao parapeito da torre, observando a vila com os olhos semicerrados. Não tinha pressa, mas também não conseguia ir para casa.
— Você está mais calado do que o normal — disse Yamato, surgindo ao lado dele com duas garrafas de saquê. Estendeu uma. Kakashi aceitou.
— Sempre fui.
— Não assim.
Silêncio.
— Ela escolheu — disse Kakashi, por fim, sem tirar os olhos do horizonte.
— Sakura?
Ele assentiu.
— Sasuke voltou — completou Yamato, como quem não pergunta, mas confirma.
— Me entregou o relatório hoje. Eu sabia que viria procurá-la.
— E veio.
Kakashi sorriu, seco.
— Achei que tivesse tempo. Achei que... bom, talvez não tenha importância o que eu achei.
Yamato tomou um gole do saquê e apoiou os braços no parapeito.
— Você a ama?
O silêncio respondeu antes que Kakashi o fizesse.
— Amor parece uma palavra tão simples quando se trata dela. — disse o Hokage, por fim. — É... tanto. Cuidado. Paz. Alegria boba por vê-la sorrir. Desejo. É tudo o que passamos juntos. Antes da guerra apenas como uma protegida, apenas uma menina que eu precisasse cuidar, ensinar, instruir. Depois da guerra, Meu Deus, por Kami, como uma mulher, amiga, companheira. Mas tenho medo.
— De quê?
— De estragar tudo. De impedir que ela seja feliz. De ser egoísta.
Yamato girou a garrafa entre os dedos.
—Talvez o egoísmo seja deixá-la ir... deixá-la para aquele ínfimo derradeiro Uchiha. Ela merece mais.
Kakashi o encarou por alguns segundos.
— Sasuke é o passado dela. E você pode ser o futuro. Se tiver coragem. — completou Yamato.
O copo já estava pela metade quando Yamato se inclinou na direção de Kakashi, os cotovelos apoiados na mesa, expressão séria apesar da leve embriaguez visível nos olhos.
— Você está sofrendo por algo que talvez nem tenha acontecido de verdade.
Kakashi ergueu uma sobrancelha, fingindo indiferença enquanto girava o saquê no fundo do copo.
— Acha mesmo que é paranoia minha?
Yamato assentiu, firme.
— Não sei o que aconteceu entre você e Sakura. E também não sei o que aquele idiota do Uchiha pretende. Mas sei de uma coisa, Kakashi: você está tirando conclusões sem conversar com ela. Isso não é típico seu.
Kakashi soltou um suspiro baixo. Olhou para o líquido claro, como se houvesse respostas ali.
— Não quero pressioná-la, Yamato. Ela merece a chance de escolher. E o Sasuke... bom, eles têm história.
Yamato se recostou, cruzando os braços.
— E você acha justo decidir por ela o que ela sente? Ou o que ela quer?
Kakashi desviou o olhar, incômodo.
— Só estou tentando ser responsável.
— Ser responsável não é o mesmo que fugir. — Yamato disse, incisivo. — Você está com medo de machucá-la, eu entendo. Mas o que está fazendo agora é justamente isso. Está deixando que ela passe por tudo isso sozinha. A certeza está toda com ela, Kakashi. Você precisa ouvir da boca dela o que quer, e não decidir sozinho o que é melhor.
Kakashi permaneceu em silêncio por alguns instantes, os dedos tamborilando discretamente contra o vidro.
— E se ela já tiver feito a escolha?
Yamato inclinou a cabeça, encarando-o com sinceridade.
— Então, pelo menos, você saberá a verdade. E poderá seguir em frente, com ou sem ela.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelos sons abafados do lugar e o tilintar ocasional de copos. Kakashi assentiu, quase imperceptível, e virou o restante do saquê de uma só vez.
— Você está certo. Como sempre. — disse ele, colocando o copo na mesa.
Yamato riu.
— Então vai conversar com ela?
— Amanhã. — respondeu Kakashi, levantando-se com um suspiro resignado. — Já é tarde e... não quero misturar bebida com sentimentos.
Yamato sorriu, satisfeito.
— Só não demore. Porque se você não correr atrás... talvez ela pense que você não quer correr.
...
A chave girou na fechadura com dificuldade. Ou melhor, tentou girar. Kakashi resmungava baixinho, testa encostada na porta de casa, as mãos lutando inutilmente com o chaveiro.
— Por que essas malditas chaves sempre ficam trocadas...?
— Vai demorar muito aí? — veio a voz calma e feminina atrás dele.
Ele se virou devagar, olhos meio semicerrados pela bebida, e piscou como se não estivesse certo de estar vendo direito.
— Sakura?
Ela sorriu de leve. Estava ali, encostada, braços cruzados sobre o peito, com uma serenidade estranha nos olhos.
— O que faz aqui? — ele perguntou, voltando a tentar abrir a porta com mais força do que precisão.
Ela se aproximou sem dizer nada, tirou a chave das mãos dele com delicadeza e, em segundos, a porta se abriu. Kakashi soltou um "ah" arrastado e quase tropeçou ao entrar, sendo amparado discretamente por ela.
Ele caminhou até o sofá, largando-se sobre as almofadas como um boneco de pano. Sakura se abaixou, desamarrando os sapatos dele, e os retirou um a um, colocando-os de lado. Ele observava cada gesto com olhos cansados e vermelhos pelo álcool.
— Vai embora, Sakura... — ele murmurou. — Você... não devia estar aqui. — ele fez uma pausa. — Isso dói mais do que eu esperava. E eu sou velho demais pra tudo isso.
Ela não conseguiu conter uma risada baixa e sincera.
— Velho demais, é? — perguntou enquanto ajeitava uma almofada debaixo da cabeça dele.
— Velho, sábio... mas não imune. — Ele fechou os olhos e afundou um pouco mais no sofá. — Eu vou brigar com o Sasuke por você... amanhã. Quando minha cabeça parar de girar...
A gargalhada dela foi mais forte dessa vez, e ela passou os dedos pelos fios prateados do cabelo dele com carinho, como se ele fosse algo precioso que precisava ser cuidado.
— É mesmo? Vai brigar com ele?
— Uhum. — Kakashi respondeu com os olhos fechados. — É o que homens apaixonados fazem... ou pelo menos o que os bêbados corajosos pensam que fazem...
Ela se acomodou ao lado dele no sofá, deitando-se com cuidado, entrelaçando uma perna à dele e apoiando a cabeça em seu ombro. A mão dele, quase instintivamente, repousou sobre sua cintura.
— Boa noite, Kakashi. — ela disse, num sussurro.
Ele soltou um som abafado de aprovação, quase um ronronar.
— Boa noite, Sakura...
E naquela sala silenciosa, entre risos e restos de mágoa, os dois adormeceram — entrelaçados não só pelos corpos, mas por tudo o que ainda tinham para dizer... e viver.
...
A luz da manhã entrava pelas frestas da cortina com timidez, dourando a sala em tons suaves. Kakashi se mexeu lentamente no sofá, o corpo ainda pesado, a cabeça latejando levemente. Foi o cheiro que o acordou — café fresco, algo assando no forno, talvez pão ou bolo. Era reconfortante, familiar... e absolutamente inusitado.
Abriu os olhos devagar, piscando contra a claridade. Sentou-se com esforço, os cabelos ainda mais desgrenhados do que o habitual. Levou uma das mãos ao rosto, massageando a testa. A lembrança da noite anterior veio em fragmentos — a bebida, a porta, ela. Sakura. Dormindo ao seu lado, entrelaçada a ele. Seu coração acelerou com a lembrança.
Do outro cômodo, ouviu um leve tilintar de louça e passos suaves. Levantou-se devagar, ainda descalço, e seguiu o som até a pequena cozinha.
Ela estava de costas, os cabelos presos em um coque improvisado, vestindo a blusa de manga longa que usava na noite anterior e suas calças de moletom favoritas. Havia um bule no fogão, duas canecas ao lado e uma frigideira com ovos mexidos quase prontos.
— Bom dia. — ele comentou, a voz ainda rouca, e se apoiou no batente da porta.
Sakura se virou, sorrindo ao vê-lo.
— Bom dia. Espero que não se importe de eu usar sua melhor caneca.
Ela apontou para a que tinha o desenho de um cachorro ninja de aparência duvidosa, e ele soltou um suspiro resignado.
— Essa caneca é um clássico. Tenho ela desde... bom, antes de você nascer, provavelmente.
— Imagino.
O silêncio se instalou por um instante. Ele cruzou os braços, observando-a enquanto ela terminava de servir os pratos. Havia algo de doméstico naquela cena que o desconcertava — e o aquecia de um jeito perigoso.
— Sakura... — ele começou, hesitante. — Sobre ontem...
— Eu sei. — ela o interrompeu, sem pressa. — Você estava bêbado. E vulnerável.
— Sim, mas... não é disso que estou falando. — Ele baixou o olhar, e então ergueu de novo, firme. — Eu quis tudo aquilo. Estando sóbrio ou não. E quero continuar querendo, só... estou tentando não ser um idiota apressado.
Sakura caminhou até ele, lhe entregando uma das canecas de café.
— Então vamos devagar, sensei. — disse com um sorrisinho malicioso, corrigindo logo em seguida. — Quer dizer, Kakashi.
Ele aceitou a caneca, os dedos roçando nos dela por um segundo a mais do que o necessário.
— Devagar é bom. — ele respondeu, antes de dar o primeiro gole no café. Fez uma careta. — Acho que você exagerou no açúcar.
— Eu gosto de muito açúcar. Acordei com você gemendo no sofá e dizendo que ia brigar pelo meu amor. Achei que merecia um agrado.
— Eu disse isso? — ele murmurou, levando a mão ao rosto, envergonhado.
— Disse. E mais algumas pérolas. — Ela se virou, rindo, voltando ao fogão para pegar os pratos.
Ele a seguiu, ainda com um sorriso pequeno nos lábios, o coração pulsando diferente. Naquela manhã ensolarada e silenciosa, com café doce demais e ovos mexidos na frigideira, algo entre eles havia mudado de forma irreversível — e pela primeira vez, parecia certo.
Kakashi se aproximou devagar, passos silenciosos como de costume, e envolveu Sakura por trás num abraço. Os braços dele, fortes e acolhedores, envolveram sua cintura, e ela sorriu com o gesto, sem se virar. O cheiro do café na caneca que ele ainda segurava agora se misturava ao aroma suave do cabelo dela.
Ele pressionou um beijo em seu pescoço, depois outro no ombro, devagar, como se cada gesto exigisse coragem. Sakura apoiou-se nele, os olhos se fechando por um momento.
Quando ela se virou para encará-lo, seus rostos ficaram a poucos centímetros de distância. O olhar dela era firme, os sentimentos expostos sem vergonha ou reservas. Kakashi apenas a observou, até que ela o puxou para um beijo.
Não era suave como antes. Era denso. Intenso. Uma declaração muda.
Ele respondeu sem hesitar, aprofundando o beijo, as mãos descendo até as coxas dela, depois as costas, e então a pegou no colo, como se ela pesasse nada. Caminhou com passos cuidadosos até o sofá e a deitou ali, por baixo dele, os corpos colados.
Deslizou as mãos pela lateral do corpo dela, sentindo sua pele quente por baixo da blusa. Quando chegou aos seios dela, cobertos apenas por um sutiã simples, sorriu sem conseguir evitar — cabiam perfeitamente em sua mão. Ela era perfeita para ele de formas que ele mal conseguia explicar.
Beijou seu pescoço com mais intensidade, ouvindo a respiração dela acelerar. Sakura envolveu a cintura dele com as pernas, puxando-o para si, e ele estremeceu ao sentir a intimidade dela contra sua ereção. Um gemido rouco escapou de seus lábios antes que ele parasse.
— Por que parou? — ela perguntou, com os olhos arregalados, o peito subindo e descendo com a respiração acelerada.
Ele a olhou com ternura, os olhos marejados, ainda acima dela, uma das mãos em seu rosto.
— Sakura... eu não posso fazer isso com você. Você tem o direito de ser plenamente feliz. Não quero ser o obstáculo entre você e o Sasuke. Se ele ainda te quer... — ele desviou o olhar, como se pronunciar aquilo fosse difícil demais.
— Kakashi, não diga besteira. — ela interrompeu com firmeza, a palma da mão em seu rosto, obrigando-o a olhá-la.
Ela engoliu em seco antes de continuar:
— É verdade que eu o amei por muito tempo, mas... no meu coração, ele ficou com o espaço de um amigo querido. Você é o único homem que eu quero beijar. Que eu quero que faça amor comigo. De preferência, agora.
A respiração dele ficou presa no peito. Ele fechou os olhos por um momento, absorvendo tudo. Quando os abriu, havia um brilho ali, algo entre gratidão e desespero.
Ele a beijou. Primeiro, com delicadeza. Um beijo de quem ama. De quem entende que está recebendo algo precioso demais para ser apressado. Depois, mudou a posição, trazendo-a para sentar sobre ele, com as costas dele encostadas no sofá. As pernas dela o prendia dos lados, e os dois se olhavam sem pressa, sem dúvida.
O beijo recomeçou, agora feroz. As mãos dele apertavam as coxas dela, subindo lentamente para a bunda dela, a apalpando fortemente ali. O calor dos corpos misturando-se, tornando o ar ao redor denso e carregado de desejo.
Então — trin.
A campainha.
Uma.
Duas vezes.
Eles pararam, as respirações ainda ofegantes.
— Não identifiquei o chakra... — murmurou Sakura, encostando a testa no ombro dele.
— Quem bate à porta de manhã cedo num domingo? — ele murmurou, com a voz carregada de frustração.
— Aparentemente alguém com timing perfeito para estragar um momento.
— Eu juro que se for o Naruto... — ele começou, e ela riu contra o pescoço dele.
— Vai abrir ou fingimos que não tem ninguém?
— Agora que estou sem camisa e com você montada em mim? Acho que podemos fingir.
Eles riram.
Ela deu um último beijo nos lábios dele, e desceu devagar, ainda corada, arrumando a blusa rapidamente.
— Vamos abrir, então. Quem quer que esteja do outro lado... vai ter que encarar a realidade.
A campainha soou mais uma vez. Kakashi suspirou, ajeitando a máscara no rosto com resignação. Ainda com os pensamentos embaralhados pelo momento íntimo interrompido, ele abriu a porta sem imaginar o tipo de tempestade que o aguardava.
— Sasuke — disse com surpresa contida.
O Uchiha o encarava como sempre fazia: firme, direto, impaciente.
— Precisamos conversar — disse ele. — Preciso da sua ajuda com Sakura.
Kakashi arqueou levemente uma sobrancelha, já adivinhando o rumo da conversa.
— Precisa da minha ajuda?
— Sim. Quero levá-la comigo. Mas ela recusou. Achei que, como Hokage... como nosso antigo sensei... talvez você pudesse ajudá-la a reconsiderar.
Kakashi respirou fundo, mantendo a voz firme.
— Eu não sou mais o sensei de vocês, Sasuke. Não há mais hierarquias entre nós nesse sentido. E quanto ao Hokage... creio que, nesse caso, minha função institucional não se aplica.
Antes que Sasuke pudesse retrucar, uma voz suave e determinada ecoou do interior do apartamento.
— Sasuke?
Sakura surgiu atrás de Kakashi, a expressão serena, mas os olhos atentos.
A confusão no rosto de Sasuke foi instantânea. Os olhos negros varreram a cena — o ambiente íntimo, os olhares silenciosos entre os dois, o modo como Sakura parou próxima demais de Kakashi. Foi então que ele entendeu.
— Então... era você.— perguntou, a voz grave carregada de incredulidade. — Nunca imaginei isso.
Sakura entreabriu os lábios para responder, mas Kakashi deu um passo à frente.
— Sasuke, não tome conclusões precipitadas.
Mas Sasuke o ignorou completamente, ainda fixado em Sakura, como se ela tivesse cometido algum crime imperdoável.
— Eu... não consigo acreditar. Depois de tudo... com ele?
— Sasuke — começou Sakura, com calma, porém firme —, não importa com quem seja. O que importa é que eu já te superei. Sugiro que faça o mesmo. Eu te disse que não poderia ir com você, e tentei ser sensível ao falar isso. Por favor, não me obrigue a ser alguém que eu não quero ser com você.
Aquela foi a sentença final. E embora Sakura tivesse dito com toda a maturidade possível, Kakashi sentiu algo dentro de si estremecer — não de culpa, mas de esperança. Porque ouvir da boca dela que queria ficar, e mais: que provavelmente o motivo era ele, era mais do que ele se permitia sonhar. Aquele pequeno instante acendeu algo quente em seu peito.
Sasuke, por fim, se virou para ele. A expressão de incredulidade agora era quase de reprovação.
— Você acha que isso está certo? Tem ideia do que está fazendo? O conselho sabe?
Kakashi endireitou a postura, sua voz se revestindo da autoridade tranquila que o tornava tão respeitado.
— Sasuke, entendo que esteja relutante com essa ideia. Mas ameaçar o meu cargo — um cargo que, sinceramente, eu nunca desejei — não vai mudar o que sinto por ela. Se Sakura me disser que sou a escolha dela, então lutarei até o fim por ela.
Ele deu um passo à frente.
— Agora, se não tem mais nada a dizer... por favor, saia.
Sasuke hesitou por um breve instante. Era um dos raros momentos em que sua expressão revelava não fúria ou frieza — mas desorientação. Ele saiu sem dizer mais nada, os passos pesados ecoando no corredor.
Mas não deixaria as coisas assim.
...
Naruto abriu a porta com o cabelo bagunçado e uma xícara de chá fumegante na mão. Ainda vestia apenas a calça de pijama e bocejava quando foi surpreendido por Sasuke entrando sem aviso, com os olhos faiscando de raiva.
— Teme?! — Naruto quase derramou o chá. — O que aconteceu, você parece um furacão!
Sasuke girou nos calcanhares, a respiração pesada.
— Sakura. E Kakashi.
Naruto ergueu uma sobrancelha, sabendo exatamente do que se tratava.
— Eles... eles estão tendo um caso. Você entende o que isso significa? Ela era nossa companheira de time. E ele... era o nosso sensei! Isso... está errado. É errado! De tantas formas...
Naruto piscou devagar, como se estivesse calculando o que responder. Depositou a xícara na mesa e cruzou os braços, encostando-se à parede com calma.
— Você está falando do beijo no Natal?
Sasuke se virou abruptamente, franzindo o cenho.
— Você já sabia?
— É, meio que... todo mundo já sabe. — Naruto coçou a nuca, sem graça. — Meio difícil esconder quando o Hokage beija alguém debaixo do visco na minha casa.
— E você não fez nada?! Você, entre todos, está simplesmente aceitando isso?
— Sasuke, Sakura é adulta. Kakashi também. Eles não estão ferindo ninguém. Pelo contrário, parecem até... melhores. Mais felizes.
Sasuke cerrou os punhos.
— Isso não é só sobre maturidade. É uma questão moral. Ética. Ele era nosso mestre.
Naruto respirou fundo, sério pela primeira vez.
— E você era o cara por quem ela esperou anos. De quem ela cuidou, mesmo quando não devia. Você partiu o coração dela muitas vezes, Sasuke. E agora voltou e quer decidir com quem ela pode ou não estar?
Houve um silêncio tenso. O Uchiha desviou o olhar.
— Eu só... achei que talvez ela ainda sentisse algo. Por mim.
Naruto suavizou a voz.
— Talvez tenha sentido. Por muito tempo, até. Mas agora... agora ela parece feliz. Verdadeiramente. E, sinceramente, se alguém merece isso, é Sakura.
Sasuke não respondeu. Só ficou ali, imóvel, encarando o vazio da sala iluminada pela manhã. O aroma do chá de ervas ainda pairava no ar.
Naruto se aproximou e, sem sorrir, apenas deu um leve tapinha no ombro do amigo.
— Você tem todo o direito de se sentir estranho com isso. Mas não tem o direito de tirar dela o que pode ser a primeira chance real de felicidade.
E então, como havia chegado, saiu em silêncio pela porta, deixando apenas um rastro de confusão atrás de si.
A porta se fechou com um estrondo seco, e o silêncio que se seguiu foi tão cortante quanto a discussão que acabara de acontecer. O ar ainda parecia carregado, como se as palavras não ditas ecoassem pelas paredes.
...
Kakashi permaneceu de pé no mesmo lugar, os ombros tensos, o olhar fixo na madeira da porta. Sakura também não se moveu. Seu peito subia e descia rapidamente, como se só agora estivesse voltando a respirar.
Depois de alguns segundos, ela se virou devagar, caminhando até ele. Parou a poucos passos de distância.
— Você está bem? — ela perguntou, a voz mais suave do que pretendia.
Kakashi soltou um suspiro longo e cansado. Os olhos prateados, agora mais escurecidos pela emoção contida, se voltaram para ela. Ele não respondeu de imediato. Apenas balançou levemente a cabeça, como se a resposta fosse complicada demais para caber em uma palavra.
— Eu é que devia perguntar isso — disse por fim, a voz rouca, grave. — Ele te olhou como se você o tivesse traído.
Sakura baixou os olhos, apertando os punhos ao lado do corpo.
— E de certo modo... foi isso o que ele sentiu. Mas não posso me responsabilizar pelas expectativas que ele criou.
— Não — Kakashi murmurou. — Não pode.
Ela ergueu o olhar, e por um momento, apenas se encararam. O silêncio entre eles já não era desconfortável. Era um refúgio.
Então, sem dizer nada, ela se aproximou. Com cuidado, como se esperasse que ele se afastasse, tocou o peito dele com as duas mãos e encostou a testa contra o peito dele. Ele não recuou.
Os braços de Kakashi se moveram devagar, até envolvê-la num abraço apertado. Sakura se permitiu afundar naquele gesto, no calor morno da proteção que ele sempre oferecia — mesmo quando era ele quem precisava ser protegido.
— Sinto muito que tenha sido assim — ele murmurou contra o topo da cabeça dela.
— Eu também — ela respondeu, a voz embargada. — Mas... não mudaria nada.
Ele apertou os olhos por um instante e a abraçou mais forte.
Ficaram ali, por um tempo que não souberam medir. Apenas os dois, dividindo o peso da escolha e a ternura do momento.
Quando Sakura se afastou um pouco, seus olhos se estreitaram de preocupação.
— Kakashi, e o seu cargo? O conselho pode fazer algo. Se souberem que você e eu...
— Ei — ele a interrompeu, levantando uma mão até o rosto dela. — Não se preocupe com isso agora. Vai ficar tudo bem.
Ela mordeu o lábio inferior.
— Você não pode garantir isso.
Ele sorriu de leve, com aquele jeito despreocupado e ao mesmo tempo dolorosamente lúcido que só ele conseguia ter.
— Não. Mas posso te prometer uma coisa.
— O quê?
— Que estarei com você. Em qualquer desfecho. Enquanto você me quiser por perto... eu não vou a lugar nenhum.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela sorriu.
— Eu te quero por perto, Kakashi. Mesmo que o mundo diga que não.
Ele passou os dedos pela bochecha dela, num carinho breve, contido.
Ela encostou mais uma vez ao peito dele. E assim permaneceram — dois corações inquietos em paz um no outro, pelo menos por um momento.
...
O salão de reuniões da Torre do Hokage estava mais frio do que de costume, apesar do calor de agosto. As janelas estavam fechadas, as cortinas puxadas, e o silêncio antes da tempestade era quase ensurdecedor. Na cabeceira da longa mesa de madeira, o Rokudaime Hokage mantinha sua postura serena, mesmo que por dentro sentisse o peso do momento se acumulando em seus ombros já cansados.
À direita de Kakashi, Shikamaru tamborilava os dedos no tampo da mesa, o cenho franzido e o olhar atento. Ao lado dele, Naruto Uzumaki mantinha uma expressão séria, bem diferente do seu habitual sorriso. E, mais distante, Sakura Haruno se sentava com a coluna ereta e o rosto inabalável, mesmo sabendo que todos os olhos eventualmente recairiam sobre ela.
Do outro lado da mesa estavam os conselheiros: Homura Mitokado, Koharu Utatane e outros novos membros da geração mais jovem — alguns representantes das famílias Aburame, Nara e Hyūga. Era uma nova era... mas certos hábitos de julgamento pareciam resistir ao tempo.
Foi Homura quem iniciou:
— Esta reunião extraordinária foi convocada após denúncias feitas pelo Uchiha remanescente. Alegações sérias sobre uma possível quebra de conduta envolvendo o Sexto Hokage e a jounin médica Haruno Sakura.
Koharu completou, com um olhar inquisitivo:
— Senhor Rokudaime, é verdade que está envolvido romanticamente com uma subordinada direta?
Kakashi ergueu o olhar calmamente. Sua voz saiu baixa, mas firme.
— Sim. É verdade.
Um burburinho se espalhou rapidamente pela sala. Alguns conselheiros se entreolharam, outros pareceram preparados para explodir. Shikamaru apenas suspirou com exasperação, já prevendo o caos.
O representante Hyūga foi o primeiro a se pronunciar:
— Isso é extremamente imprudente, Hokage-sama. Ainda mais se considerarmos que Sakura Haruno pertenceu ao time que o senhor liderou na juventude. Há implicações éticas sérias.
— Não há quebra de hierarquia — Shikamaru disse, firme. — Ela não é parte da equipe de missões diretas do Hokage, nem atua em cargos de assessoramento estratégico.
— Mesmo assim, é um escândalo! — exclamou Koharu. — A vila precisa de estabilidade. Isso mancha a reputação de todos nós!
Kakashi se manteve calado, ouvindo os argumentos se empilharem como pedras numa parede.
Até que Naruto se levantou.
— Com licença. Eu gostaria de dizer algo.
Os olhos de todos se voltaram para ele.
— Essa história... começou por minha causa.
Silêncio.
— Na noite de Natal, eu coloquei um visco na minha casa. Só que — ele coçou a nuca, constrangido — era um visco enfeitiçado. Uma tradição divertida, onde força um beijo entre as pessoas que ficam embaixo dele. Eu chamei o Kakashi-sensei e a Sakura para a ceia... e, bem, vocês podem imaginar o que aconteceu.
Mais murmúrios, agora de surpresa.
Naruto respirou fundo, mas continuou.
— Eu amo o Sasuke, ele é meu irmão. Mas também amo a Sakura e o Kakashi-sensei. E a verdade é que, se esse beijo tivesse sido algo errado, teria acabado ali. Mas não acabou. Porque, talvez... talvez fosse algo que já existia. Algo que só precisava de um empurrão. Eu vi a forma como eles se olham. Eu vi a forma como ela sorri quando ele está por perto. E vi como ele, mesmo sendo o homem mais reservado que eu conheço, se transforma quando está com ela.
Ele olhou diretamente para os membros do conselho.
— Eu não sei o que vai acontecer com esse relacionamento. Mas sei que eles se respeitam. Se amam. E sei também que Kakashi-sensei já deu tudo por essa vila. Se existe alguém que mereça uma chance de ser feliz, é ele. E se tem alguém capaz de enfrentar esse tipo de julgamento de cabeça erguida, é Sakura. Vocês podem não gostar disso. Mas não podem dizer que eles fizeram algo às escondidas, ou de má-fé. Não é um escândalo... é amor.
Silêncio. Agora, denso.
Kakashi o olhou de soslaio, com um sutil sorriso nos olhos. Sakura elevou a cabeça por um instante, tocada pelas palavras do amigo.
O conselheiro da família Nara foi o primeiro a quebrar o silêncio:
— Naruto tem razão. Podemos questionar a conveniência... mas não podemos negar o mérito de ambos. Se for para julgar, que seja com base em ações, não em preconceitos.
Shikamaru cruzou os braços, concordando em silêncio.
Koharu, contrariada, apenas apertou os lábios finos. Homura parecia prestes a dizer algo, mas se conteve.
Kakashi então se levantou.
— Não sou um homem que corre de responsabilidades. Nunca fui. Se acharem que meu relacionamento com Sakura compromete minha função, estou disposto a ouvir as consequências. Mas saibam que não esconderei quem sou. Nem o que sinto.
Ele fitou a todos, um por um. Com a calma e o peso de quem carregou a vila nas costas — e ainda a sustentava com as próprias mãos.
— Agora cabe a vocês decidirem. Não sobre minha vida pessoal. Mas se acreditam que, apesar disso, eu ainda sou digno do posto que me confiaram.
O silêncio final foi mais prolongado. Mais espesso. Mas, pela primeira vez, parecia que estavam escutando de verdade.
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