Um Acidente de Natal
5 Amor Como Moeda
O dia seguinte ao caos estava cinzento, pesado como as nuvens que ameaçavam chover sobre Konoha. — incomum para aquela época.
Sakura havia se refugiado no hospital, imersa em relatórios e revisões de prontuário, como se a burocracia médica fosse capaz de calar o tumulto que ainda ecoava em seu peito. No entanto, mesmo o ambiente clínico não conseguia ser indiferente à tensão que pairava pela vila desde a reunião de emergência com o conselho. Todos cochichavam sobre ela e o Hokage, como se estivessem discutindo uma doença que podia se espalhar — escândalo, chamavam. Um que podia custar a Konoha sua imagem e a ela, sua paz.
— Haruno-san. — A voz era baixa, masculina e sóbria.
Ela levantou os olhos e encontrou um dos membros do conselho parado na porta da sala de descanso. Era o conselheiro Okabe, o mais antigo entre os conselheiros ainda vivos. Um homem magro, de rosto severo e cabelo tão branco quanto os pergaminhos que carregava.
— Posso tomar alguns minutos do seu tempo?
Ela assentiu, com uma pontada desconfortável no estômago. Ele não pediu, mas ela sabia que a conversa exigiria discrição. Levantou-se e o conduziu até um pequeno jardim nos fundos do hospital, silencioso e reservado.
Ele não falou de imediato. Caminhou entre as pedras e os bancos com as mãos para trás, até parar sob a sombra de uma cerejeira adormecida.
— A senhorita Haruno é uma das kunoichi mais respeitadas de sua geração. Médica excepcional. Aluna da Sannin Tsunade. Uma das responsáveis pela vitória na Quarta Guerra. — Ele girou lentamente para encará-la. — Mas também muito jovem... e impulsiva, às vezes.
— Com todo respeito, conselheiro... — ela começou, já em alerta.
— Por favor. Só me escute. — A voz dele era suave, mas havia algo cortante ali. — As decisões que tomamos em momentos de fragilidade pessoal podem repercutir por gerações. E neste caso, infelizmente, a imagem do nosso Hokage está diretamente ligada à estabilidade da vila.
Ela sentiu o peso das palavras. Um calafrio subiu pela espinha.
— A relação de vocês — ele disse enfim, direto — está sendo discutida por civis, shinobi e até emissários estrangeiros. Há dúvidas sobre a imparcialidade do Rokudaime, sobre a influência que a senhorita pode exercer sobre ele. Não podemos permitir que essas dúvidas comprometam as alianças que levaram anos para serem costuradas.
— Kakashi jamais colocaria a vila em risco. — A voz dela saiu firme.
— E a senhorita colocaria?
Sakura silenciou.
— O que exatamente o senhor quer de mim?
— Queremos que pense com clareza. O Rokudaime é um homem devotado a Konoha. Não é do seu feitio abandonar responsabilidades. Mas ele jamais permitiria que alguém sofresse por sua causa. — O tom se tornava mais sutil, quase piedoso. — Pedimos apenas que... se afaste. Não publicamente. Não haverá escândalo. Apenas um recuo silencioso. Dê tempo à vila. Dê tempo ao Hokage para terminar seu ciclo com dignidade.
— Estão me pedindo para deixá-lo?
— Estamos confiando na sua capacidade de priorizar o bem maior.
Ele deu um passo em sua direção.
— Entre nós, Haruno-san... pessoas como a senhorita costumam pagar um preço alto quando misturam dever e afeto. Seria... prudente evitar mais cicatrizes.
E então ele se foi. Sem mais uma palavra. Deixando para trás o sussurro venenoso de um sacrifício disfarçado de honra.
Sakura permaneceu ali, imóvel, até que a brisa finalmente soprou e fez as folhas mortas da cerejeira se soltarem dos galhos.
...
Kakashi chegou em casa mais cedo naquela noite.
O relatório sobre as defesas do País do Ferro repousava intocado sobre a mesa, as palavras borradas em sua mente pela ausência dela. Desde a reunião com o conselho, os dois não tinham tido um momento a sós. Sakura evitava sua presença com uma habilidade quase cirúrgica — e aquilo o corroía com mais força do que qualquer ameaça externa.
Ele olhava para a janela como se fosse possível vê-la ali, cruzando os portões do hospital, a expressão cansada, os olhos escondendo sentimentos demais. Mas ela não vinha.
Quando a chave finalmente girou na fechadura, Kakashi sentiu o coração dar um salto idiota no peito. Ela entrou em silêncio, os olhos baixos, as mãos tremendo levemente ao tirar o casaco.
— Oi. — ele disse, como quem implora por normalidade.
— Oi. — ela respondeu, mas o tom estava ausente.
Sakura não se aproximou como costumava fazer. Não tirou as luvas com graça, nem pendurou o jaleco na cadeira como se pertencesse àquele espaço — ao lado dele. Ficou de pé, à porta, como uma visita inesperada.
Ele observou o jeito como ela apertava os dedos uns contra os outros. Um tique nervoso que ela só tinha quando precisava se despedir de alguém.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, finalmente.
— Não — respondeu. Uma mentira gentil. A mais cruel delas.
Kakashi se aproximou devagar, quase com medo de quebrá-la. Queria abraçá-la, perguntar se tinha sido Sasuke, se alguém a havia machucado. Mas algo dentro dele — o mesmo instinto que o salvara tantas vezes no campo de batalha — já sabia.
— Você está se afastando de mim — ele disse em voz baixa.
As palavras ficaram suspensas no ar como uma névoa fria. Sakura não respondeu. Apenas baixou os olhos, como se a simples admissão dele já fosse difícil o suficiente de suportar.
Kakashi ficou parado diante dela, sem avançar, sem se afastar. O peito apertado, o silêncio entre os dois doendo mais do que qualquer discussão.
Ela não disse nada, não explicou. E era exatamente isso que o destruía. A ausência de palavras, a maneira como ela se retraía, como se o que viveram tivesse sido uma pausa breve, e agora o mundo — ou talvez ela — tivesse decidido continuar sem ele.
Ele respirou fundo. O ar parecia mais pesado ali dentro.
— Não faça isso. Não me deixe sem ao menos lutar por você — ele disse enfim, a voz baixa, embargada. — Não faça isso comigo. Não me empurre de volta pro lugar de onde você me tirou.
Sakura fechou os olhos por um instante. Ele viu o tremor sutil em seus ombros, como se ela travasse uma batalha interna que ele não estava autorizado a ver.
Ela virou o rosto, como se aquilo fosse mais fácil do que encará-lo.
Kakashi soltou uma risada sem humor, amarga.
— Achei que já tinha pagado todas as minhas dívidas com esse lugar. Que, depois de tudo, talvez eu merecesse... isso. Nós. — Ele passou a mão pelos cabelos, tentando manter a compostura, mesmo que já não soubesse mais por quê. — Mas, pelo visto, ainda me resta algo a perder.
Sakura se virou na direção da porta. Hesitou por um instante.
— Você vai ficar bem — ela murmurou.
— Já fiquei antes. — A resposta veio rápida, quase automática. Mas ele sabia que era mentira. Das mais covardes.
Quando a porta se fechou atrás dela, ele não se moveu. Permaneceu ali, sozinho com o vazio, com as palavras que não foram ditas, com o peso de algo que talvez nunca tivesse sequer começado — e já parecia ter chegado ao fim.
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O tempo havia mudado. As manhãs já não traziam o calor suave de antes, mas um frio áspero que parecia infiltrar-se pelas paredes da casa de Kakashi. Ainda assim, ele acordava todos os dias na mesma hora, fazia o mesmo café, lia o mesmo relatório... e saía pelas mesmas ruas, agora mais silenciosas.
Não haviam brigas. Nem palavras duras. Apenas um afastamento gradual, como folhas soltas que o vento leva sem que ninguém perceba exatamente quando começaram a se desprender.
No gabinete, Shikamaru trazia os relatórios e falava de missões com aquele mesmo tédio habitual. Naruto aparecia às vezes, mais calado que o normal, como se sentisse que algo estava fora do lugar, mas não soubesse se podia perguntar.
Kakashi fingia normalidade. Sentava-se na mesma cadeira, lia com os olhos, mas a mente divagava. Quando Shikamaru lhe perguntou uma vez se ele havia dormido, Kakashi apenas assentiu com um murmúrio. Não tinha dormido. Não bem. Mas não importava.
As pessoas ao redor continuavam seus dias. Ele não. Ele se arrastava pelos próprios. O mundo ganhava novas cores, enquanto ele permanecia em preto e branco. Em casa, ainda tinha um par de hashis a mais na gaveta — como se parte dele ainda esperasse que ela fosse aparecer, cansada, dizendo que não conseguia resistir ao cheiro de chá de ervas pela manhã.
Mas ela não apareceu. E ele também não procurou.
Na noite de quinta-feira, ele subiu no telhado de casa, como fazia às vezes, o livro fechado no colo e os olhos no céu. As estrelas pareciam rir dele. Um homem velho, ainda esperando por respostas que talvez nunca viessem.
Respirou fundo, mas o ar lhe pareceu pesado.
— É o suficiente, não é? — murmurou para o céu, sem saber se estava perguntando ou afirmando. Ninguém respondeu.
E isso era o que mais doía. O silêncio que ele havia construído pedra por pedra ao longo de sua jornada de vida, foi quebrado em pouco tempo na presença dela, e algo que antes se sentia confortável, da mesma forma abrupta que entrou, se esvaiu dele. Um que nem os gritos de dor conseguiam preencher.
O som seco das páginas viradas era o único ruído preenchendo a sala de reuniões. A luz do sol filtrava-se pelas janelas largas, tocando os móveis austeros e os rostos cansados de todos ali — menos o de Kakashi.
Ele estava sentado à cabeceira da mesa, com as mãos cruzadas sobre os relatórios recém-lidos, e os olhos semicerrados atrás do hitai-ate. Imóvel. Silencioso.
Shikamaru terminou sua explanação sobre o fluxo de patrulhas na fronteira norte, mas, ao contrário do usual, Kakashi não o interrompeu com uma pergunta ou comentário. Apenas assentiu com um aceno leve de cabeça.
— Hokage-sama? — Shikamaru insistiu, franzindo o cenho.
Kakashi levantou os olhos devagar.
— Continue.
O tom era baixo, controlado, quase desprovido de inflexão. Shikamaru piscou devagar, lançando um olhar breve a Naruto, sentado ao lado. O loiro, que até então fazia anotações, ergueu os olhos para o velho amigo. Também percebeu. Havia algo diferente.
Havia um vazio.
O tipo de vazio que não se veste de dor explícita, mas de ausência. Ausência de qualquer coisa: cor, desejo, reação. Kakashi parecia presente e ausente ao mesmo tempo — como um fantasma preenchendo o próprio corpo.
— E quanto ao relatório de Kiri? — perguntou Shikamaru, testando a atenção dele.
— A aprovação pode ser encaminhada. — Ele respondeu de imediato. — Mas envie reforços diplomáticos. Quero vigilância constante nos arredores do porto. Duas semanas de observação antes de qualquer decisão.
Resposta precisa. Objetiva. Irretocável.
Mas era como se estivesse no piloto automático.
Naruto apoiou os cotovelos na mesa, cruzando os braços com força. Observava Kakashi em silêncio, sem disfarçar o incômodo. Havia algo ali, algo que ele não sabia nomear — mas que doía ver. O velho sensei, que sempre carregou o peso de tudo com um certo humor torto ou cansaço poético, agora parecia... apagado.
— Tá tudo bem com você, Kakashi-sensei? — perguntou Naruto por fim, direto, num tom de preocupação genuína.
Kakashi levou um tempo para erguer os olhos.
— Claro. — respondeu. Um sorriso quase imperceptível tocou-lhe os lábios por debaixo da habitual máscara, mas não chegou aos olhos. — Tudo em ordem.
Shikamaru recostou-se na cadeira, soltando um suspiro leve.
— E desde quando "em ordem" soa tão... sem alma assim?
Silêncio.
Kakashi não respondeu. Apenas ajeitou os papéis à sua frente, encerrando a reunião com um simples gesto da mão. Todos começaram a se dispersar — exceto os dois.
Naruto se aproximou enquanto os outros deixavam a sala.
— Você sabe que pode falar com a gente, né?
Kakashi apenas assentiu. Mas não disse nada.
Shikamaru ficou observando enquanto ele organizava documentos com um cuidado mecânico, saindo da sala em seguida.
— Você viu o jeito dele, né? — murmurou o loiro, por fim.
— Hm. Vi. — Shikamaru respondeu com um suspiro. — Kakashi voltou àquele estado, funcional demais.
Naruto bufou.
— Ele não dormiu. Aposto que nem comeu. Tá se obrigando a continuar como se nada tivesse acontecido, mas dá pra ver que ele tá no limite. É como se tivesse... se esvaziado.
— Aconteceu alguma coisa com a Sakura, não aconteceu?
Naruto não respondeu de imediato. Seu olhar endureceu um pouco, e ele coçou a nuca com força, como se aquilo pudesse dissipar o incômodo em seu peito.
— Não sei ao certo. Eles estavam... bem. Pela primeira vez, pareciam estar se permitindo isso. Ainda mais depois de tudo que ele disse na reunião com o conselho. E agora ele tá daquele jeito, como se... ela tivesse sumido.
Shikamaru parou, encostando o ombro na cadeira. Observou Naruto em silêncio por alguns segundos antes de falar:
— Talvez ela tenha sumido.
— Você acha que eles terminaram?
— Meus instintos me dizem que ele não sabe por que ela se afastou. E acho que isso é pior do que um término claro. Eu não costumo errar nos meus palpites.
Naruto suspirou profundamente, os olhos voltando para a porta. Sentia uma vontade instintiva de correr até Sakura, exigir uma explicação, proteger os dois. Mas sabia que não era assim que funcionava. Não com eles.
— Ele tava diferente até com você, percebeu? — comentou Shikamaru, quase em tom de lamento. — Kakashi sempre te deu abertura, mesmo quando não dizia muito. Mas agora... é como se tivesse colocado uma muralha em volta dele.
— E você acha que devemos fazer o quê?
Shikamaru ficou em silêncio por alguns segundos. Pensando.
— Nada, por enquanto. Mas... vamos observar. O conselho ainda tá quieto demais, e o Sasuke sumiu desde aquela confusão. Isso tudo tem cheiro de decisão forçada.
— Se ele soubesse que foi o conselho, teria renunciado.
— Exatamente. Por isso acho que não sabe.
Naruto fechou os punhos.
— E isso é cruel. Ele já fez tanto por essa vila... já abriu mão de tanto. E agora, quando finalmente parecia ter encontrado alguém...
— Essa vila ainda cobra mais do que oferece. Sempre foi assim com ele. — Shikamaru desviou o olhar para o teto por um momento. — Mas dessa vez, talvez a gente possa fazer alguma coisa.
— Vai falar com ela?
— Não. Mas se ela não aparecer em breve, eu vou.
Naruto assentiu. E, por um instante, o silêncio entre eles foi de concordância.
A torre parecia mais fria naquele dia. O Rokudaime ainda cumpria todas as funções como sempre, mas dentro das paredes, entre aqueles que o conheciam de verdade, o vazio deixado por Sakura começava a tomar forma — e a dor silenciosa de Kakashi não passava mais despercebida.
...
O aroma suave de ervas pairava na sala, vindo da infusão que ela havia preparado há poucos minutos. Sakura sentou-se na poltrona junto à janela, segurando a xícara quente com ambas as mãos. Não bebia. Apenas deixava o calor penetrar na pele, como se aquilo pudesse aquecê-la por dentro.
Mas não podia.
Do lado de fora, o som dos passos dos moradores, o eco das lojas abrindo, o riso distante de crianças — tudo seguia seu fluxo natural. Tudo permanecia vivo. Menos ela.
Estava de licença formal por dois dias. Um pedido de Shizune, quase uma ordem, apesar de Sakura ser superior e diretora dela.
Ela havia limpado a casa. Três vezes.
Trocado os lençóis. Duas vezes.
Arrumado os armários. Separado roupas para doação. Podado as plantas da varanda. Passado chá para os vizinhos idosos.
Mas não havia conseguido dormir direito nenhuma noite desde que saiu da casa dele.
Porque ele ainda estava lá. Em tudo.
O toque dos dedos enluvados em sua cintura, os beijos calmos no ombro, o silêncio confortável que dividiram nas manhãs. Ela ainda podia senti-lo. Como se o corpo não tivesse entendido a despedida que a mente forçou.
Estava comendo menos. Não por tristeza, mas por distração.
Ficava horas deitada, com os olhos presos ao teto, relembrando conversas, gestos pequenos, o modo como ele a olhava quando pensava que ela não estava vendo.
E então se sentava na cama e dizia a si mesma que era melhor assim. Que havia uma razão para aquilo. Que tudo voltaria ao normal.
Mas nada parecia normal sem ele.
Porque a falta que sentia não era feita apenas dos dias recentes, em que os sentimentos se revelaram.
Era uma ausência antiga, profunda.
De mais de uma década de convivência.
Eram os almoços rápidos no Ichiraku, os treinos improvisados no fim da tarde, as conversas que se estendiam madrugada adentro. Os pequenos rituais que inventaram juntos, como tomar chá nos dias de chuva ou observar os pássaros migrando do telhado da torre. As piadas internas, os olhares compreensivos, a cumplicidade silenciosa que os unia muito antes de qualquer beijo.
Acostumaram-se a existir na vida um do outro.
E agora, o vazio deixado por ele era como um eco em cada canto da casa. Em cada rotina sem graça. Em cada silêncio que antes era confortável — e agora pesava.
Ela mordia o lábio com frequência agora. Um hábito antigo que voltava nos momentos de tensão. Quase foi ao hospital naquela manhã, mas desistiu no portão. Quase foi até a torre. Quase escreveu. Quase mandou um recado para Naruto.
Quase.
Mas não.
Sakura era teimosa — e leal às suas decisões.
Ela olhou para o céu nublado e soltou um suspiro longo.
...
O céu alaranjado no topo dos monumentos dos Hokage's, tingia os rostos sérios de Naruto e Sasuke, lado a lado como em tantos momentos antes — só que dessa vez, a distância entre eles era mais emocional do que física.
— Faz semanas que ela tá assim — disse Naruto, os olhos fixos no horizonte. — Pensei que fosse coisa do fim com você... Mas não é.
Sasuke manteve-se em silêncio, os braços cruzados. Só o vento fazia barulho.
— Já tentei falar com ela. Mais de uma vez. Só queria entender. Tentei reatar... mas ela me disse friamente para esquecê-la, pois ela já tinha me esquecido. — Naruto franziu o cenho. — Ela parecia em outro lugar, sinceramente.
— Ela me afastou também — disse Naruto. — Mas não parecia raiva. Nem mágoa. Tinha um cansaço no olhar. Como se tivesse desistido de lutar.
Naruto se virou devagar, encarando o amigo. Continuou:
— E se não foi por causa de você?
— Como assim?
— Tô dizendo... e se ela não terminou com o Kakashi porque quis?
Sasuke virou-se na hora, surpreso. Naruto ergueu as mãos.
— Olha, eu não tô dizendo que tenho certeza, tá? Mas não é estranho? Ela se afasta de todos... se afasta dele... fica assim, nesse estado. E depois de tudo que os dois passaram, depois do quanto ela mudou desde que ficou com ele?
— O conselho.
Naruto assentiu lentamente.
— Eu não ouvi nada diretamente, mas Shikamaru e eu temos exatamente a mesma impressão. Talvez tenham sugerido que ela... — hesitou — se afastasse.
Um silêncio tenso pairou entre eles. Sasuke apertou os olhos. Sua mente trabalhava rápido. Cada expressão da Sakura, cada frase não dita, cada sorriso forçado nos últimos dias — tudo se encaixava.
— A gente precisa perguntar. Hoje.
Naruto pareceu hesitar.
— Ela vai resistir.
— Então a gente pressiona.
...
O bater na porta ecoou pela casa silenciosa. Ela hesitou, olhos cansados, mãos ainda com cheiro de chá recém-preparado. Ao abrir, encontrou Naruto e Sasuke, lado a lado.
— Se for uma emergência, me deem cinco minutos — ela disse, num tom cansado, tentando não encará-los muito tempo.
— É, Sakura — Naruto respondeu — é uma emergência. Mas é sua.
Ela franziu o cenho.
— Entrem, então.
Dentro da sala, silêncio. O único som vinha da chaleira na cozinha. Sakura não ofereceu chá. Não sentou.
— A gente sabe que você terminou com Kakashi — Naruto começou. — E que você não tá bem desde então.
Ela cruzou os braços, defensiva.
— Términos são assim, Naruto. Acontece.
— Não acho que foi só um término — Sasuke disse, a voz como sempre, fria e baixa. — Não é da sua personalidade todo esse afastamento. Viver no automático.
Sakura manteve o silêncio, desviando o olhar.
— Ele também tá assim — Naruto continuou. — O Kakashi. Tá mais Hokage do que humano. E você... tá um vulto.
Ela forçou um sorriso sem graça.
— Talvez fosse isso que devêssemos ser desde o início.
Sasuke deu um passo à frente.
— Foi o conselho?
Ela empalideceu — imperceptivelmente. Mas para eles, bastou.
— Já disse que não é da conta de vocês.
— Sakura — Naruto tentou suavizar — se foi o conselho, se te pediram pra...
— Chega, Naruto! — ela explodiu, com a voz embargada. — Por que vocês acham que sabem o que é melhor pra mim? Por que acham que sabem de tudo? Vocês não estavam lá. Não ouviram o que disseram. Não viram o que insinuaram... O que vocês queriam que eu fizesse?
Ela estancou. Os dois a encararam em silêncio.
— Então foi o conselho — Sasuke murmurou.
Ela cobriu o rosto com as mãos, exausta. Chorava em silêncio.
— Eu não podia deixar ele perder tudo. Não depois de tudo o que ele fez por essa vila. Não podia ser egoísta. Eles pediram que me afastasse, disseram que era a única solução. Mas isso... isso tá me destruindo.
Sasuke baixou o olhar.
— Ele merece saber.
— Não — ela sussurrou, quase suplicando. — Se ele souber, vai fazer alguma loucura. Vai entregar tudo. O cargo. A reputação. A vila. E eu... eu não posso deixar.
Naruto se aproximou.
— Ele está pior agora sozinho, do que se estivesse com você, Sakura.
Ela não respondeu.
Sasuke, por fim, suspirou.
— Se você não for contar... então eu vou.
Ela o olhou, ferida.
— Sasuke...
— Você já lutou demais por ele. Também merece alguém que lute por você agora. E a culpa disso tudo é minha. É justo que eu o conserte.
...
A luz da manhã filtrava-se pelas janelas da torre, dourando os papéis acumulados na mesa do Rokudaime. Kakashi estava absorto em um relatório, mas não o lia de fato. A caneta parada entre os dedos. O olhar longe.
Quando a porta se abriu, ele nem precisou levantar a cabeça.
— Pode entrar, Sasuke.
O Uchiha avançou sem hesitar. Fechou a porta atrás de si. Manteve-se em pé por um momento, apenas observando o homem diante da janela.
— Vim aqui porque precisava te dizer uma coisa — disse, direto.
Kakashi ergueu os olhos, cansados. Um fio de surpresa passou rápido por seu rosto, substituído por um olhar neutro.
— Sobre?
Sasuke cruzou os braços, pensativo por um segundo. E então foi direto ao ponto:
— O término. Entre você e a Sakura.
O olhar de Kakashi se endureceu, mas não desviou.
— Achei que isso já estivesse encerrado.
— Não pra mim — respondeu Sasuke. — Porque agora eu sei a verdade.
Silêncio.
— Foi o conselho. Eles pediram que ela se afastasse. Te afastasse. Disseram que sua reputação estava em jogo. Talvez o cargo. E ela... ela aceitou carregar isso sozinha.
O tempo pareceu parar.
Kakashi não reagiu de imediato. Apenas fechou os olhos por um breve instante. A respiração se tornou mais lenta, mais profunda. O peso das palavras se acomodando em seus ombros já cansados.
— Ela não me contou — ele murmurou, os dedos apertando a borda da mesa. — Nem uma palavra. Deixou que eu pensasse que... que tinha escolhido você.
— Não foi — Sasuke completou. — Eu queria que fosse, mas não foi.
Kakashi encostou-se à mesa com as mãos. Os ombros tensos, mas não trêmulos. Havia um mar agitado sob a superfície, mas ele ainda era o Hatake — sabia afundar em silêncio.
— Obrigado por me contar — ele disse, finalmente.
Sasuke assentiu. Já virava para sair quando parou à porta, sem olhar para trás:
— Não vou interferir mais entre vocês dois. Isso não me cabe mais. Só achei que você merecia saber.
E saiu.
Kakashi permaneceu onde estava. Só quando a porta se fechou é que permitiu a si mesmo o luxo de desabar.
A verdade estava enfim diante dele.
...
Shikamaru franziu a testa ao ouvir o pedido de Kakashi. Não houve maiores explicações, apenas uma frase dita com voz baixa, mas sem espaço para objeções:
— Preciso que convoque o conselho. Agora.
E ali estavam. Poucas horas depois, todos os conselheiros presentes, sentados à mesa. Shikamaru de um lado, braços cruzados, rosto impassível. Naruto no fundo, encostado à parede, expressão preocupada. Sakura, ausente.
Kakashi entrou em silêncio. Vestia o manto do Hokage, mas algo em sua postura fazia parecer que aquilo era apenas um tecido qualquer. Ele não se sentava como um homem tentando manter o cargo. Sentava-se como um homem prestes a abandoná-lo.
— Agradeço a presença de todos — começou, com a voz serena, mas cortante. — Vou ser direto.
Fez uma breve pausa, como se reunisse as últimas rédeas da paciência.
— Há algum tempo, estive aqui diante de vocês e deixei claro que meu sentimento por Sakura Haruno era assunto pessoal. Que não aceitaria interferências. Pedi respeito, e pedi confiança.
Olhou cada um nos olhos.
— Agora estou aqui porque minha confiança foi quebrada. Alguém — ou talvez todos vocês — tomaram a liberdade de procurar Haruno e interferir diretamente em sua vida, em seu relacionamento. E por consequência, em minha vida também.
Um murmúrio se ergueu, mas ele ergueu uma mão, silenciando a sala com a autoridade que só ele possuía.
— Eu não devia estar repetindo isso. Não devia precisar. Mas aqui estamos. Então escutem com atenção: se algum de vocês pensa que meu amor por Sakura pode ser usado contra mim... ou que minha permanência nesse cargo me obriga a abrir mão da mulher que eu amo... estão profundamente enganados.
Shikamaru fitava o chão, mas apertava os punhos. Naruto desviou o olhar, tocado.
Kakashi se inclinou levemente para frente, o olhar cinzento firme.
— Renunciarei ao cargo, se for esse o preço. Não hesitarei. Já lutei o suficiente por esta vila. Já derramei sangue, suor e vidas ao longo de décadas. Se isso não é o bastante para merecer o direito de amar alguém, então esse cargo, e tudo o que fiz por Konoha não vale nem valeu a pena.
A sala ficou muda. O silêncio pesava como um selo.
— Não quero rever ameaças, nem decretos em segredo. Se tiverem algo a dizer, digam agora. Do contrário, espero que essa seja a última vez que interferem.
Um dos membros do conselho, mais velho, pigarreou — inseguro.
— Hatake-sama... tudo o que fizemos foi pensando no bem da vila.
— Não. O que fizeram foi pelo bem da imagem da vila. São coisas diferentes — rebateu, seco.
Outro tentou argumentar:
— Não achamos que ela entenderia a responsabilidade...
— Ela entendeu mais do que vocês. Sofreu calada.
O silêncio voltou, agora com culpa.
Kakashi se levantou, sem esperar mais.
— O amor dela é tudo o que preciso para continuar sendo quem sou. Não o cargo. Não a aprovação de vocês.
Dirigiu-se à porta, mas antes de sair, disse por fim:
— Façam o que quiserem com meu nome, meu título. Só não se atrevam a tocar ou falar nela novamente.
E saiu, deixando um rastro de choque e silêncio atrás de si.
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