Tênue

2 Capítulo 1


Há quem diga que o amor e o ódio são separados por uma linha tênue. Depois de vinte anos Maria se deu conta de que isso poderia ser verdade. Ela julgava que depois de tanto tempo, seu amor por Esteban havia se transformado no mais puro ódio.

Se havia uma linha tênue entre esses dois sentimentos, poderia haver então entre a vingança e a justiça? Ela não sabia ao certo, porém Maria tinha a certeza de que, ao regressar ao México, descobriria a verdade sobre um passado que, para muitos, já havia caído no esquecimento. É como dizem, quem bate esquece, mas quem apanha... Ah, esse fica com eternas marcas.

Com Maria não era diferente. A prisão parecia não ser castigo suficiente, com ela veio também os pesadelos. Isso já era um fato recorrente em sua vida, toda noite Maria era assombrada com a fatídica cena da morte de Patrícia, além do dia em que Esteban a abandonou na prisão.

Quando lhe deram a liberdade, Maria viu a oportunidade de mostrar a todos que era inocente, não só para limpar sua ficha como também para estar de consciência tranquila quando fosse ver seus filhos. Sim, filhos, seus e de Esteban.

Estrella e Hector eram o que Maria tinha de mais importante na vida, por seus filhos uma mãe seria capaz de tudo, e Maria sabia disso, por esse motivo ela lutaria para provar a todos que não era a assassina de Patrícia.

Toda essa força e coragem que Maria detinha dentro de si compartilhava um sentimento de medo, isso mesmo, medo de reencontrar-se com o passado. O futuro era incerto, assim como fora seu passado. Ela se perguntava o quanto seus filhos mudaram, o quanto Esteban mudara.

Será que ainda havia resquícios do homem por quem ela fora imensamente apaixonada, ou tudo não passaria de uma doce lembrança de uma vida que já não existia?

Ao retornar à sua cidade, Maria veio com um plano traçado. Encontraria seus filhos, acharia o assassino de Patrícia e faria Esteban pagar com todo seu abandono para com ela. Cada um que lhe fizera mal pagaria caro por isso!

A Maria boa e ingênua que todos conheceram já não existia mais, do jeito mais difícil ela aprendeu que não poderia confiar em ninguém. A cadeia muda as pessoas, e Maria saíra transformada dela, a mesma jugava-se não sentir mais a capacidade de amar e confiar em ninguém, exceto seus filhos, é claro.

A parte mulher havia morrido dentro de si, restando apenas a mãe. E seria ela que lutaria por justiça, seria a mãe que correria atrás da verdade a fim de consertar os erros do passado.

No outro lado dessa trama havia Esteban, que poderia não estar preso, mas sofria igualmente pela falta de sua companheira. Nesses vinte anos ele tentava entender porque Maria teria cometido tal crime. Estaria ela infeliz com algo? Teria descoberto as investidas inúteis de Patrícia para com ele?

Por mais justificativas que ele encontrasse, não seria suficiente para cometer tal delito! E por um infortúnio quem pagara por esses erros eram Hector e Estrella, que eram inocentes no meio dessa história.

Agora como poderia, ele, explicar à seus filhos que sua mãe estava presa porque tinha matado uma pessoa? Como olhar no fundo dos olhos deles e lhes dizer que nunca mais veriam a mulher que lhes deu a vida?

Por pior que fosse, Esteban decidiu cortar o mal pela raiz ao dizer que Maria havia morrido em um acidente de carro. Com a ajuda de sua família e seus amigos ele conseguiu até mesmo forjar documentos que mudava o nome da mãe de Estrella e Hector na certidão de nascimento, concretizando assim a mentira que traria grandes consequências para a vida de cada um.

O enredo da morte de Maria fora contado tantas vezes que para quem ouvisse realmente acreditaria na morta da jovem mãe que não pode desfrutar plenamente de seus filhos. Mas havia um dia em especial que consumia a alma de Esteban. 23 de março de 1980, o dia em que ele e Maria se casaram.

Todo ano, nesse mesmo dia, Esteban se trancava em seu escritório e ficava revivendo por horas sua vida ao lado de Maria, e ao final ele rendia-se a bebida. Era patético, porém foi a única forma que Esteban conseguiu para aplacar a dor que sentia, por mais momentâneo que aquilo lhe proporcionasse.

Ele já estava convencido que nunca mais veria a mulher que roubou seu coração, tanto que havia se permitido seguir em frente. Seu casamento com Ana Rosa seria dentro de dois meses, mesmo que não a amasse ele se o fez por seus filhos, eles mereciam ter alguma figura materna ao seu lado os auxiliando e a sobrinha de Daniela parecia a melhor opção naquele momento.

Mal sabia ele que o destino lhe pregaria uma grande peça, tornando assim sua vida em uma verdadeira partida de xadrez.