Tão gelado quanto sangue.

9 Vida que vai na sela dessas dores.


Notas iniciais
Ontem eu tive o mesmo problema de internet e a bonita só conectou agora. To postando o capitulo de ontem que tava prontinho esperando pra ser postado. Então, capitulo inspirado na música do Djavan, Oceano. Espero que gostem

Enfim, de tudo o que há na terra

Não há nada em lugar nenhum

Que vá crescer sem você chegar

Longe de ti tudo parou

Ninguém sabe o que eu sofri.

Oceano – Djavan.

24 e 25 de dezembro de 1959

Os nós dos dedos dele estavam brancos por da força que ele fazia para não chorar.

John não queria chorar numa situação como aquela. Ele não podia. Ele não iria chorar. Mas ver o corpo dela imóvel doía tanto que ele não sabia se um dia a dor iria embora.

Como ela podia ter morrido quando ele ainda tinha muitos anos de vida. Ela nunca iria ver seu casamento, seus filhos, ele se tornando um homem bem sucedido.

O câncer levou Lucille Gabrielle Miller cedo demais. Ela se foi na madrugada da véspera de natal, o que tornava tudo mais difícil. Tanto para John e a irmã quanto para o pai dele.

Ele estava encostado na janela do quarto dos pais, agora vazio, mas antes ocupado pelo corpo imóvel da mãe. John olhava para cama e se lembrava de quando era uma criança e corria para o quarto dos pais na mãe de natal, todo animado.

Ele se lembrou de quando a mãe disse que estava grávida de um irmãozinho e John replicou dizendo para ela simplesmente não ficar grávida e ela havia rido daquilo. De quando a irmã nasceu e a mãe lhe disse que era para ele cuidar dela. Ele não queria chorar, mas era difícil.

Melanie Miller que tinha apenas seis anos entrou no quarto e olhou para John. Ela era uma criança esperta e por mais que o pai havia lhe dito que a senhora Miller estava em um lugar melhor, ela sabia que havia algo de bem errado acontecendo ali.

Ela se sentou ao lado de John e o abraçou.

– Eu sinto falta da mamãe.

John não conseguiu se segurar e chorou. Na noite anterior, Melanie foi proibida de entrar no quarto perto das ultimas horas da mãe. O que John achou uma tremenda crueldade tanto para a mãe, quanto para a irmã. Ele preferia ter sido expulso e deixado a irmã ficar ao lado da mãe por mais tempo. Ele havia tido a mãe por nove anos antes de Melanie ter a mãe só para ela. Ele tinha tido mais sorte. A irmã o consolava e ele achava isso muito errado. Mas tudo estava muito errado.

Ele se desprendeu da irmã e saiu do quarto. Ele não queria mais ficar ali. Ele correu para a praia e se sentou na areia. Ele havia chegado dois dias antes para os feriados de fim de ano e então a mãe começou a piorar e noite passada havia morrido. Havia sido tudo tão rápido que John ainda não havia compreendido totalmente. A mãe havia morrido. Ele não queria que ela estivesse morta. Ele só queria a ver viva por muitos e muitos anos. Será que era pedir demais? Mas o mal já estava feito e nada agora iria mudar. Ela estava morta e John estava órfão de mãe.

Ele se esticou na areia fofa e olhou para o céu. Estava tão frio naquele dia. Aquela quinta-feira nem ao menos parecia um dia normal. Parecia um dia inventado. Um dia feito apenas para ser esquecido, mas que ele jamais esqueceria.

Ele não havia comido desde o dia anterior, mas ele sabia que não conseguiria alguma coisa tão cedo. A senhorita Young queria que ele comesse qualquer coisa, mas ele se recusava a colocar alimento na boca.

– Sinto muito pela sua mãe. – ele olhou e viu que Annie estava ali. – Minha mãe esta devastada.

John assentiu e Annie se deitou ao lado dele na areia. Ter ela assim tão perto de si teria o deixado feliz em qualquer outro momento, mas agora apenas o deixava mais melancólico.

– Eu não acredito que Lucille morreu. – disse Annie baixinho. – Ela é minha madrinha. Ela era quase uma segunda mãe para mim.

John havia se esquecido que Annie também tinha uma conexão forte com sua mãe e que também estava sofrendo.

– Vai ser difícil viver sem ela. – disse John baixinho. – Muito difícil.

Annie segurou a mão dele e começou a chorar. Ele chorou junto. A dor era muito grande para se sentir sozinho.

***

Annie havia convencido sua mãe a deixá-la dormir aquela noite na casa dos Miller para ajudar nos preparativos do funeral da senhora Miller e John não poderia ter ficado mais contende por ela ter feito isso. Annie fazia com que a dor ficasse um pouquinho mais fácil de carregar.

Os dois se sentaram no mesmo balanço na varanda em que eles haviam sentado há oito anos. Na noite em que John havia descoberto que os pais de Annie estavam se divorciando.

O pôr-do-sol estava se aproximando e o céu estava começando a se pintar com aquele laranja puxado pro roxo que fazia John se perguntar o porque de tanta beleza. Porque o céu tinha que se pintar daquele jeito tão lindo e delicado, quando tudo em sua vida estava negro e destruído. Isso o machucava. Mas ele tinha Annie ao seu lado. Ela segurava sua mão e olhava para o horizonte com dor no olhar. Ele se perguntou se ela pensava a mesma coisa que ele.

– Não sei porque isso tem que acontecer? – ela disse dando de ombros. – Porque quem nós mais amamos ter que partir da forma mais inesperada possível?

John deu de ombros.

–Não sei e eu tenho medo da resposta.

Ela encostou a cabeça no ombro dele e suspirou. A casa dos Miller antes era um lugar alegre que sempre tinha música e era sempre iluminada. Agora estava tudo escuro e o silencio era a única coisa que se ouvia. Era isso que mais entristecia John. A mãe fazia a casa parecer viva e sem ela, a casa cada vez mais morreria.

Melanie abriu a porta da varanda e se sentou ao lado de John. Ele estava ali com as duas garotas que ele mais amava nesse mundo e seu coração se aqueceu. Ele não estava sozinho. Ele não iria passar por isso sozinho.

Melanie também se encostou ele e John pegou sua mãozinha. Ele se perguntou se ela se esqueceria da mãe a medida que fosse crescendo. Se o rosto da mãe, os cabelos vermelhos, o sorriso amável, dos olhos carinhosos e do jeito calmo e controlado que falava quando estava extremamente brava se tornaria apenas um borrão gigantesco na memória da irmã. Ele não queria isso, mas ele sabia que isso iria acontecer. Ela era nova demais para ter conhecido de verdade a mãe.

– O jantar está pronto, crianças. – disse a senhorita Young.

Melanie foi a primeira a levantar e entrar em casa. John não queria ir comer, mas seu estomago protestou.

– Vamos, John. – disse Annie. – Precisamos comer alguma coisa senão vamos morrer de fome.

John assentiu e eles foram até a sala de jantar da casa. O pai de John ao estava lá e ele sabia que o senhor Miller estava bem pior que ele em relação a tudo isso. O senhor e a senhora Miller se conheceram um ano antes da segunda guerra acabar. Eles haviam se apaixonado loucamente e vivido uma linda história de amor. Agora o grande amor da vida dele estava morta. Era a verdade mais cruel do mundo do senhor Miller.

– Meu pai vai comer no escritório? – perguntou John.

– Sim, John. – respondeu a senhorita Young.

Eles jantaram em silencio. Eles não tinham o que falar. Eles não queriam falar.

Assim que terminaram de comer, cada um foi para seu quarto. John tomou banho e colocou o pijama. Ele estava exausto. Não dormia desde a hora que a mãe havia morrido. Ele se deitou na cama e puxou o cobertor até o queixo. Ele sentia frio. Muito frio.

Ele ouviu duas batidas na porta do quarto. Deveria ser a senhorita Young querendo saber se ele estava bem. Ele levantou a cama e caminhou arrastando os pés até a porta. Ele a abriu e viu que na verdade era Annie que estava ali. Ela vestia um pijama de inverno e o olhava com aqueles grandes olhos cor de mel.

– Posso entrar?

Ele assentiu.

Ela entrou e lhe mostrou uma caixa de bombons. Ela se sentou no pé da cama dele e ele se sentou perto do travesseiro. Ela abriu a caixa e pegou um. John fez o mesmo.

Chocolate era o doce favorito dos dois. Eles comiam em silencio. Apenas olhavam um para o outro. Annie se aproximou dele e sentou ao lado dele.

– John, olhe para mim. – John a olhou nos olhos e Annie o beijou.

Esse beijo não era como aquele que ela havia lhe dado no verão, era um completamente diferente. Era apaixonado e quente. Ele nunca havia beijado uma garota daquela forma. E ali estava ele a beijando. Seu coração acelerou e ele a beijou com mais intensidade. Até que ela quebrou o momento se afastando.

– Vou dormir, amanhã temos que acordar cedo. – ela disse.

Ela pegou a caixa de bombons e saiu do quarto. John ficou olhando a porta fechada ainda sem acreditar.

***

As palavras do padre não eram nenhum pouco reconfortantes. Apenas o fazia se lembrar de como a vida era frágil e como ela podia sumir a qualquer momento.

John encarava o caixão da mãe e se perguntava como aquela caixa de madeira poderia ser o novo lar dela. Era tão errado. Ele não queria parar em uma caixa. Ele decidiu que seria cremado. E que queria ter suas cinzas soltas na areia da praia onde ele cresceu. Ele sabia que era novo demais para pensar nisso, mas nunca se sabe quando a vida vai acabar.

Annie se sentou ao lado dele no funeral e segurava a mão dele. Ela chorava como uma criança e John não podia culpá-la. Ela amava sua mãe também e dor de perder alguém que amava era insuportável.

– Das cinzas as cinzas. Do pó ao pó. – disse o padre. E jogou um punhado de terra em cima do caixão da senhora Miller.

Logo depois foi a vez de John fazer o mesmo. Ele pegou um bom punhado de terra e jogou em cima do caixão que ia abaixando.

– Eu te amo, mãe. – ele sussurrou. – E eu sempre amarei.

Logo depois Melanie fez o mesmo. E quando chegou a vez do senhor Miller, ele desabou. Era não possível ser forte assim por tanto tempo. Ele chorava e caiu de joelho na frente do tumulo dela. John se ajoelhou ao lado dele e o abraçou. Se ele já sentia essa dor, imagina o pai. A vida sem ela seria tão triste e deprimente. Annie se ajoelhou junto e chorou ao lado de Robert Miller, o homem que nunca chorava. É engraçado como uma tragédia pode unir pessoas.

Robert se levantou e limpou os olhos. Ali ninguém o julgava. Todos entendiam o que ele estava sentindo. John abraçou Annie e ela apertou o rosto contra o terno preto dele. Todos ali e ninguém entendiam o que ele sentia. Era algo particular e comunitário. O luto era algo tão estranho.

Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim

Oceano – Djavan

Notas finais
Espero que não tenha ficado muito dramático.