Two Pieces
5 Capítulo 5
Na semana anterior ao baile, Darcy acordou mais disposto e menos incomodado com a confusão dos preparativos que ficavam cada vez mais intensos com a proximidade do evento. Desde do dia em que ele e Camilo haviam entregue os convites, Darcy se sentia bem mais animado com a ideia da festa, mas tentava convencer a si mesmo que aquela agitação nada tinha a ver com o convite que tinha feito a Elisabeta para uma dança. Só podia estar louco no momento em que propôs aquela insanidade, pensou. Além do relacionamento conturbado que tinha com ela, a moça era comprometida com um dos parceiros de seu pai e a maior crítica do trabalho do mesmo. Mas se pegou sorrindo uma vez ou outra ao lembrar da resposta afirmativa que recebeu de Elisa no instante em que fez o pedido.
Naquela manhã chuvosa de sexta, durante todo o caminho para a ferrovia, o qual fez acompanhado de Susana que iria até lá como uma representante de Julieta, foi obrigado a ouvir a moça falar como o evento seria elegante e como as pessoas daquele lugar não mereceriam uma festa como aquela. Darcy só conseguia responder com acenos de cabeça e murmúrios sem sentido pois seus pensamentos, por mais que tentasse evitar, corriam em direção a moça de vermelho e se ela estaria assim como ele.
— Do que tanto sorri, Darcy? — questionou Susana intrigada com a expressão do inglês — Disse algo engraçado?
— Não, Susana. Estava pensando nas coisas que você estava dizendo.. sobre o baile.. e tudo o mais — gaguejou.
— Sei, sei, acredito — Disse ela desconfiada — como tem sido esses últimos dias aqui no Vale? Tem gostado de trabalhar na ferrovia? — questionou, mudando o foco da conversa.
— Bem, só estou lá há duas semanas e mal tenho tempo de sair do escritório, mas estou gostando do que faço.
— Hum, interessante — Susana deu um sorriso forçado
— O que foi? Há algum problema?
— Bom.. — Susana começou, chamando a atenção do inglês — Não queria te incomodar com isso, mas Camilo insistiu que eu lhe mostrasse, então.. — ela disse abrindo a bolsinha que carregava, tirando lá de dentro uma página de jornal amassada — Saiu mais uma coluna como aquela, Elisabeta mais uma vez falando de seu pai para todo mundo ver. — Susana passou a mão pelo braço de Darcy em uma tentativa exagerada de demonstrar apoio.
— Como é? — Disse ele perdendo a direção do automóvel por alguns segundos na tentativa de ler o que dizia o texto — Não acredito que ela fez isso de novo, justo agora que — ele não completou a frase, vendo que Susana parecia bem interessada em suas próximas palavras — O que diz a matéria?
— Mais do mesmo, a insossa acusando seu pai de ser um mal patrão. O problema é que Julieta não está nada satisfeita com isso, até mesmo antecipou a vinda dela para o Vale justamente para resolver essa situação.
— Com o Elisabeta? — perguntou Darcy surpreso.
— Não, com seu pai. Disse que se as acusações dela forem verdadeiras, ela irá desfazer o acordo. Julieta não aceitaria esse tipo de situação.
— Ótimo, eu mesmo pretendo resolver esse assunto com ele quando chegarmos. Já adiei de mais essa conversa.
Ao chegarem a ferrovia, Susana mesmo a contragosto seguiu a vistoria das obras com Vicente, enquanto Darcy tomou o caminho do escritório, decidido a resolver aquela questão. Havia prolongado aquele assunto tempo o suficiente para reunir coragem para o confronto. Nunca foi de ter medo de encarar a verdade, mas por ironia, toda vez que a situação envolvia seu pai, ele se sentia como um garotinho assustado no meio dos adultos.
Ao entrar no cômodo, Darcy se deparou com o Lorde segurando um punhado de folhas amassadas que ele logo reconheceu como sendo o jornal de São Paulo. O homem dizia palavras desconexas em um tom muito irritado e enquanto com a mão livre socava o tampo da escrivaninha a sua frente. Darcy percebeu que aquela conversa não seria nada fácil, mas seguiu seu caminho mesmo assim.
— Estou vendo que já viu as notícias do dia — falou Darcy anunciando sua presença.
— Sem gracinhas, menino. Não estou com paciência para isso hoje — esbravejou ele — Mais uma vez a destemperada dessa Elisabeta Benedito escrevendo coisas sem o menor cabimento no jornal.
— É exatamente sobre isso que eu quero falar com o senhor — Darcy andou a passos largos até a cadeira em frente ao pai e se inclinando sob a escrivaninha, perguntou — O que Elisabeta escreve sobre a ferrovia e sobre o senhor é verdade?
— Que tipo de pergunta é essa, Darcy? Não acredito que você também está acreditando nessas calúnias — Archiebald levantou de sua cadeira, ficando em pé na frente do filho — Já basta Julieta colocando minha credibilidade a prova depois dessas acusações, agora você.
— Eu sei que tudo isso parece impossível, mas não é a primeira vez que Elisabeta escreve algo assim em sua coluna e ela parece muito certa do que diz. Por isso quero ouvir do senhor sobre isso.
— Para começo de conversa, aquela menina nem mesmo deveria escrever para um jornal, ela não passa de uma menina mimada com muito tempo livre — Lorde falou em um tom que mostrava toda sua irritação — segundo, que eu não devo satisfações a você, mas já que parece tão preocupado, é óbvio que nada disso tem fundamento. Nunca tratei mal nenhum de meus funcionários.
— Pai, responda a pergunta, você está ou não explorando essas pessoas? — perguntou Darcy no mesmo tom que o pai usava — Seja sincero.
— Basta disso, menino. A resposta é um tanto quanto óbvia. Ninguém tem o que reclamar — Disse ele caminhando até a saída — Mas fique tranquilo, essas acusações irão terminar.
Darcy ainda não estava completamente satisfeito com a conversa que teve com seu pai, queria ouvir de seus próprios funcionários a mesma versão que o Lorde dera a ele, mas o que encontrou foram homens que tinham medo de dar qualquer opinião sobre a situação. Sempre que se aproximava de algum deles, os operários fugiam na tentativa de evita-lo ou desconversavam, como se nunca tivessem ouvido falar no assunto. Isso fez com que Darcy percebesse que talvez Elisabeta não estivesse tão errada assim
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Elisabeta estava irritada. Andava de um lado para o outro no quarto que dividia com Jane sem conseguir entender o porquê de ter aceitado o convite daquele inglês metido. Mal suportava estar no mesmo ambiente que aquele homem, imagine dividir com ele uma música inteira. Havia passado a semana tentando escapar daquele maldito baile, mas sem sucesso algum. Só conseguia pensar nas inúmeras explicações que teria que dar para as suas irmãs, Edmundo e principalmente, para dona Ofélia e sabia que uma dança com o inglês terminaria em mais brigas e troca de acusações. Estava decidida, teria que negar o convite de Darcy Williamson em seu próprio baile.
Nesse momento, Jane e Mariana entraram no cômodo assustando a irmã que permanecia mergulhada em seus pensamentos, chamando a sua atenção para o jornal que carregavam nas mãos.
— Olha o que acaba de chegar, Elisa. Mais uma de suas colunas que me enchem de orgulho — disse Mariana empolgada.
— Pare com isso, Mariana — disse Elisa se juntando a irmã na leitura do jornal — Esse nem foi um dos meus melhores textos, não estava muito bem na semana passada.
— Quer conversar sobre isso? — ofereceu Jane — Algum problema com Edmundo?
— Não, já está tudo resolvido. Não era nada entre nós, fique tranquila.
— Então era entre você e aquele senhor Darcy? — perguntou a mais nova com um olhar acusador para a irmã — Bem percebi que vocês pareciam já se conhecer antes da visita dele e de Camilo e o clima entre vocês não era dos melhores.
— Realmente vocês não deixam nada passar despercebido — Disse Elisa arrancando risadas das demais — Sim, já nos conhecíamos. Ele é o filho arrogante do Lorde e nós brigamos bastante por causa disso — contou Elisabeta.
— Mas ele foi atrás de você no estábulo que percebi, aliás todos perceberam — continuo Jane.
— Sim e acabamos entrando em uma espécie de trégua, mas depois do que escrevi na coluna, não acredito que vá durar.
— Ele não me pareceu arrogante. Pelo contrário, foi bem educado e atencioso, além de especialmente paciente com Lídia. Ele só deve querer proteger o pai, mesmo que não mereça.
— Eu sei que você sempre vê o melhor das pessoas, Jane, mas não caia no teatrinho daquele fingido — Elisabeta disse revirando os olhos.
— Elisa, pare de falar mal do rapaz que mal conheceu. Sabem o que dizem sobre o amor e o ódio... — implicou Mariana com a mais velha.
— Pare já com isso, Mariana. Oras, onde ja se viu falar uma besteira dessas? Ele só me deixa irritada, apenas.
— Nós só estamos brincando, menina — interveio Jane — mas tente dar um voto de confiança ao rapaz, ele parece ser uma boa pessoa, só não deve gostar de ver o pai sendo atacado no jornal.
Nesse momento, as meninas ouviram batidas na porta que anunciaram a entrada de mais uma das Benedito no cômodo, era Cecília, em uma de suas visitas semanais, que entrou sendo seguida por Felisberto.
— Vejam se não são as minhas irmãs mais lindas — cumprimetou ela — vim passar a tarde com vocês enquanto Rômulo trabalha.
— Seja bem vinda a nossa animada reunião — enquanto as demais ingressaram um assunto que Elisabeta não conseguiu entender Felisberto, com uma expressao de preocupação, a chamou no canto anunciando que ela tinha uma visita a esperando na sala.
Elisabeta ficou surpresa por ao ver Lorde Williamson sentado em uma das cadeiras da sala de estar, mas logo se recompôs e adquiriu a expressão de confiança que costumava usar em situações como aquela.
— Lorde Williamson, o que deseja? — cumprimentou ela de longe.
— O que desejo? Ora, muitas coisas, minha querida. Mas de você, principalmente que pare de me atacar nesse jornalzinho de quinta pro qual você escreve.
— Não estou atacando o senhor nem ninguém, apenas escrevo a verdade ali. É pra isso que fui contratada.
— Então acho melhor você parar de escrever essas suas verdades, porque o seu emprego pode não durar para sempre.
— Isso é uma ameaça, Lorde Williamson? — perguntou ela, se aproximando — É isso o que chamam de educação européia, então?
— Você se acha muito espertinha, não é? Mas fique avisada que esses textos tem que parar. — disse ele em tom irritado — eu tenho muito a perder, mas você tem ainda mais.
— Se o senhor acha que tenho medo de meia dúzia de ameaças, está muito enganado.
— Se não tem, deveria. Tome juízo, menina! — Disse seguindo até a porta, mas antes de sair virou novamente e direção a Elisabeta — e antes que me esqueça, espero não lhe ver amanhã em minha casa. Saiba que percebi uma certa aproximação entre você e meu filho e espero que isso não signifique nada além do que imagino. Passe bem. — e saiu fechando a porta atrás de si
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