Two Pieces
6 Capítulo 6
Elisabeta havia sido a primeira a ficar pronta, para a surpresa de todos na casa. Enquanto as irmãs corriam por todos os lados em meio a troca de vestidos e a procura de pares de sapatos, Elisa estava sentada no sofá repassando todo encontro que havia tido com o Lorde Williamson no dia anterior. Não havia contado a ninguém o teor da conversa dos dois, pois certamente preocuparia sem motivos sua família, mas o sentimento de raiva crescia dentro dela cada vez que lembrava das ameaças que havia recebido do Lorde sem poder dividir aquilo com ninguém.
— Ara, Elisabeta. Que cara é essa? Nós estamos indo a um baile, não a um enterro — Disse Ofélia ao entrar na sala, acompanhada de Felisberto, e ver a filha mais velha no sofá encarando o teto. — Mãe, você sabe que eu não queria ir a esse baile. Por favor, não reclame de meu humor. — Nós fomos convidados como uma família e por isso precisamos ir todos juntos — começou Ofélia — e você estará com seu noivo lá, não reclame. — Ofélia, se a menina não quer ir, deixe que fique em casa — Felisberto saiu em defesa da filha. — Nada disso, é o que sempre digo: todo homem solteiro de posses está a procura de uma esposa e esse é o momento ideal para suas irmãs arranjarem um bom casamento, não vou deixar nada estragar isso, muito menos a falta de juízo de Elisabeta. — O que me preocupa é que Lorde Williamson estará lá e você sabe o receio que tenho com ele perto dela — disse Felisberto, fazendo com que Elisabeta ficasse ansiosa pelas palavras do pai. Ele era o que mais havia ficado desconfiado com a visita do inglês. — Apenas um detalhe, Felisberto, um pequeno detalhe. E ele não deve ter nada contra Elisa, se não, não teríamos recebido um convite para esse baile — Disse Ofélia, arrancando um sorriso sem humor da filha. Se a mãe soubesse o que tinha acontecido naquele mesmo cômodo algumas horas antes, não teria tanta certeza daquelas palavras. Pouco a pouco, as Benedito começaram a se reunir na sala de estar, esperando apenas a chegada de Cecília e Rômulo para partirem. E nem mesmo o burburinho da animação das irmãs fez o humor de Elisabeta mudar. Não queria comparecer aquele evento, mas jamais cederia as chantagens do inglês tão facilmente e ao se lembrar do convite de Darcy que havia aceitado dias antes, se arrependeu ainda mais do que estava prestes a fazer. Mas adotou sua melhor expressão de alegria quando a irmã, o marido e Edmundo atravessaram a porta alguns instantes depois, prontos para irem. — Meu amor, você está deslumbrante está noite — Disse Edmundo roubando um beijo de Elisabeta enquanto as irmãs se retivaram do cômodo para dar alguns instantes de privacidade aos dois. — Muito obrigada, Edmundo. Você também está ótimo e que bom que chegou, mas não quero me atrasar. Vamos? — Tão rápido? Não estava com saudades de mim? — Disse ele, fazendo charme para noiva — Não nos vemos há dias, Elisabeta. — Eu sei, querido. Claro que estava com saudades de você, sabe o que sinto sua falta quando viaja. Mas já estão todos lá fora nos esperando. — Nada que não possam esperar mais um pouquinho — Disse Edmundo, a abraçando. — a saudade que eu estou sentindo da minha noiva é prioridade total no momento. — Elisa beta não respondeu aos chamegos de Edmundo. — Tem algo errado, Elisa? Nunca a vi ansiosa desse jeito para uma festa. — Claro que não. Estou normal, Edmundo, você que está vendo coisas de mais — disfarçou a moça. — Você sabe que pode falar qualquer coisa pra mim, não é? — Ele se aproximou roubando mais um beijo de Elisabeta, que desta vez correspondeu, rindo da urgência do rapaz. — Tudo bem, senhor Tibúrcio, agora chega. Temos que ir — Disse ela batendo no ombro dele para que se afastasse. — Vamos, vamos, mas antes — Disse ele, puxando Elisabeta de volta para o seu abraço — Não esqueça que te amo, Elisa. — se declarou Edmundo e recebeu como resposta um beijo rápido da noiva. Ao chegarem a mansão Bittencourt, Elisabeta se surpreendeu com a quantidade de pessoas espalhadas pelo jardim. Mal conseguia reconhecer a todos em meio a tantos vestidos luxuosos e taças de champanhe que passavam de um lugar para o outro. Edmundo estendeu a mão para ajudá-la a descer da charrete e caminharam juntos até a entrada da casa, onde todos foram recebidos pela anfitriã da festa, Julieta Bittencourt, que finalmente havia voltado ao Vale. O salão já estava tomado de casais que dançavam ao som de músicas animadas tocadas por uma pequena banda posicionada no canto, crianças corriam atrás uma das outras gerando o olhar feio de alguns adultos e moças solteiras disputavam a atenção de Camilo e Darcy a todo momento. A família Benedito logo se dispersou: Lídia dividia seu tempo entre os militares do pelotão da cidade, principalmente Randolfo, a quem conhecia desde pequena. Mariana foi vista conversando animadamente com o Coronel Brandão a maior parte da noite, para a surpresa das irmãs, já que ela sempre negava um maior interesse no homem pois o considerava certinho demais, Cecília e Rômulo dançavam todas a músicas como se fossem o único casal no salão. Ofélia dividia seu tempo entre seguir as filhas e Felisberto, enquanto Jane circulava pelo lugar conversando com conhecidos e gerando o interesse de muitos solteiros da região.
Mas Elisabeta, desde que havia pisado na fazenda, procurava Lorde Williamson por todo lugar sem encontrar nenhum sinal do homem, e os olhares de Darcy a acompanhando em todas as direções a que ia não ajudava em seu humor. Tentava não parecer ansiosa, mas estava falhando no seu objetivo. Até Lídia já havia percebido que ela estava mais distraída aquela noite, mas bastou uma desculpa para convencer a jovem que estava tudo bem. Porém o mesmo não funcionou com Cecília e Edmundo que passaram todo o caminho até ali tentando fazê-la falar o que lhe incomodava e continuavam observando todos os seus movimentos a procura de algo suspeito. Depois de algum tempo de festa, uma nova música começou e Edmundo finalmente conseguiu convencer Elisabeta a dançar. O que a distraiu da chegada do Lorde no salão, que seguiu seu caminho com o humor habitual, indo falar com o filho que conversava com Susana e Camilo, mas não conseguia parar de prestar atenção em Elisabeta. — Boa noite a todos. — Boa noite — responderam em uníssono. — Demorou a descer, pai. Já estava a ponto de ir atrás do senhor — saudou Darcy. — Lorde, o senhor está perdendo uma grande festa. Esse baile nada deixa a desejar as grandes festas de Paris — completou Camilo, um pouco mais feliz do que de costume. — Não estou com ânimo para festas. Vim apenas cumprimentar algumas visitas e já estou voltando para o meu quarto. — Mas Lorde, que humor é este? Veja a festa linda que preparei. Com toda a modéstia, é claro — gabou-se Susana — Não é possível que não lhe anime nem um pouco todo este luxo por aqui. — Se isso é o que a senhorita considera luxo, não imagino o que consideraria modéstia — respondeu rispidamente o homem, deixando Susana envergonhada por suas palavras. — Pai, por favor, tenha um pouco de modos essa noite. Lembre-se que somos hóspedes nessa casa e a festa é de nossa anfitriã — lembrou-o Darcy. Lorde fez uma expressão de desgosto para o filho antes de se retirar da conversa, seguindo seu caminho pelo salão. Mas se manteve imóvel por um instante ao ver a presença da família Benedito toda no evento, o que incluía Elisabeta. ****** Um par de horas depois, após muitas conversas com moças das quais não se lembrava os nomes e discussões sobre negócios com cavalheiros que nunca havia visto antes, Darcy se viu desacompanhado pela primeira vez. Camilo dançava animadamente com uma das moças Benedito, Jane, se ele lembrava bem de seu nome, enquanto Susana se esforçava para atender toda as ordens de Julieta sobre a organização da festa. Pretendia sair para o jardim da forma mais discreta possível, mas teve sua atenção capturada pela cena de seu pai conversando com Elisabeta no canto da grande sala e a mesma não parecia nada feliz com a interação. Mas assim que percebeu o olhar de Darcy sobre os dois, Elisabeta abriu um dos mais largos sorrisos para ele e veio ao seu encontro, deixando Archiebald sozinho e em um estado de pura ira. — Boa noite, Darcy. Ainda não tivemos a chance de conversar essa noite — cumprimentou a moça, de maneira muito mais amistosa do que costumava fazer, deixando Darcy confuso e o Lorde, que observava a cena, prestes a explodir. — Elisabeta, como vai? Gostando do baile? — respondeu Darcy muito mais formal do que gostaria, mas não sabia como lidar com aquele tratamento que a moça direcionava a ele. — Sim, está maravilhoso. Mas acho que você está me devendo uma dança, não é mesmo? — Elisabeta disse a última frase um pouco mais alto para que o pai de Darcy pudesse ouvi-la de onde estava. — É claro, não me esqueci, só estava esperando o momento mais oportuno. — O momento oportuno é agora mesmo. Vamos — Disse ela, puxando Darcy em direção ao local a onde os demais casais dançavam. Caminharam em silêncio até o meio do aposento, em contraste do restante do salão que explodiu em burburinhos com a dança dos dois, pois Darcy ainda não havia dançando com nenhuma das moças presentes. — Então, está gostando do Vale do Café? — Elisa tentou puxar um assunto qualquer para acabar com o silêncio incômodo que se instalou entre eles durante a música. — Estou sim, aqui é bem diferente do que estou acostumado, mas é um bom lugar para se viver. — O senhor conhece muitos lugares pelo mundo? — interessou-se Elisa. — Posso dizer que sim, já visitei muitos lugares acompanhando o meu pai. E você, Elisabeta? — Eu? Não, muito pelo contrário. Nunca sai do Vale do Café, mas pretendo um dia conhecer o mundo — respondeu ela entre um giro e outro. — Esse é um grande sonho, como pretende realiza-lo? — Ora, um sonho grande o suficiente para mim, mas sou perfeitamente capaz de lidar com ele. Obrigada pela preocupação. — irritou-se Elisabeta — Nunca disse que não era, não me entenda mal — tentou se explicar o inglês — e tenho certeza que você é capaz de lidar com ele — explicou-se Darcy. E após mais um longo momento de silêncio, Elisabeta respondeu: — Pretendo começar por São Paulo, depois disso verei onde a vida me leva — E recebeu um sorriso encorajador de Darcy no mesmo instante em que a música terminou e eles foram obrigados a se separar. Elisabeta se despediu com um aceno de cabeça e virou-se para voltar a seu lugar junto a suas irmãs e a Edmundo, que encarava a cena sem entender, mas antes que pudesse se afastar, Darcy tocou seu braço sutilmente e pediu que lhe acompanhasse até o jardim. Caminharam até lá, lado a lado, em meio a muitos pensamentos e ainda mais silêncio, mas dessa vez quem quebrou o desconforto foi o inglês enquanto caminhavam em meios as flores do lugar. — Sabe, eu estava pensando e acho que lhe devo um pedido de desculpas — começou Darcy mais sem jeito do que jamais esteve. — Desculpas? Pelo que? Essa noite até que você não fez nada de errado — implicou Elisabeta. — Não por essa noite, mas pelo comportamento que venho tendo com você desde que nos conhecemos. — Continue, acho que vou gostar de ouvir — instigou a moça. — Fui extremamente hostil com você em algumas situações e não me orgulho nem um pouco disso. Você só está fazendo o seu trabalho — admitiu ele — e estou começando a pensar que você.. — Darcy deixou a frase incompleta, ainda não tinha a verdade em suas mãos e nem a coragem de admitir que seu pai poderia estar errado para Elisabeta. — Acho que agora eu entendo um pouco o seu ponto de vista também e por mais que estejamos em lados opostos dessa história, espero que também entenda o meu. — Claro, claro. — concordou Darcy — por falarmos nisso, o que você conversava com meu pai mais cedo lá dentro? — Lá dentro? — Elisabeta repetiu a pergunta, tentando ganhar tempo — Nada demais, apenas banalidades. — Elisabeta, por favor, não nos conhecemos a muito tempo mas já sou capaz de saber quando não está falando a verdade. E esse momento é agora. Ao olhar para Darcy, enquanto ele esperava por uma resposta sua, Elisabeta realmente pensou em lhe contar a verdade. Pela primeira vez naquela noite, quis dividir com alguém as ameaças que vinha sofrendo do Lorde Williamson, o que havia se repetido momentos antes, e desabafar sobre seus medos mesmo que fingisse não tê-los. Por um momento, pensou em contar tudo a Darcy, mas desistiu ao considerar a possibilidade de que aquilo poderia magoá-lo ainda mais. Aquela era uma batalha sua. — Está tudo bem, Darcy, não há com o que se preocupar. Eu sei me virar muito bem sozinha, já sou crescida — brincou Elisabeta, quebrando um pouco a seriedade da conversa. Quando o riso cessou e ambos se deram conta de que estavam sozinhos naquela parte do jardim, a tensão voltou a reinar entre eles. Mas ela voltou de uma forma diferente, mas intensa e incômoda, cercada de troca de olhares e respirações aceleradas. Elisabeta engoliu em seco sem saber como agir ao impulso que sentia de beijar o homem a sua frente. Nenhum dos dois soube dizer quem deu o primeiro passo em direção ao outro, mas quando se deram conta, já haviam acabado com o espaço existente entre eles e se entregavam um beijo surpreendente e desesperado. Darcy apertava a cintura de Elisabeta, que apoiava uma de suas mãos no peito dele enquanto a outra puxava a ponta de seus cabelos, em um incentivo involuntário para mais toques. Darcy sentia uma eletricidade percorrer por seu corpo a cada segundo a mais que aquele beijo durava e tinha certeza que Elisabeta também a sentia. A vontade que compartilhavam silenciosamente era a de que aquele momento durasse para sempre, mas a realidade os antigiu em cheio quando gritos foram ouvidos perto dali. Era a voz de Edmundo chamando por Elisabeta e parecia estar cada vez mais perto.
A única reação de Elisabeta foi a de encarar mais uma vez o homem a sua frente, repetindo para si mesma e para ele que havia sido um erro, que jamais aquilo poderia acontecer novamente. Mas ela não esperava se sentir tão tocada com a profundidade do olhar que Darcy direcionou a ela. Elisabeta sentiu como se aquela fosse a primeira vez que estivesse vendo Darcy Williamson e gostou do que viu. Quando Edmundo chamou pelo seu nome mais uma vez, a assustando, Elisabeta saiu correndo ao encontro do noivo, antes que se fizesse mais alguma coisa da qual pudesse se arrepender depois.
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