Twisted Demon Opera
5 Sympathy for the Devil
Os motores do velho avião começavam a funcionar. Os pistões protestavam, preguiçosos, e logo as hélices das asas iniciaram seu giro. Era um antigo cargueiro, repleto de caixas de madeira que continham desde vegetais até cabras, e claro, Nero e Trish confinados em um minúsculo espaço. Lady pilotava e tinha Dante como seu co-piloto. O avião fora, no final das contas, improvisado pela humana, que chantageara um velho conhecido. Estavam saindo de Fortune Island, logo era a segunda viagem de Lady com aquela geringonça voadora.
- Diz se isso aqui não foi uma boa idéia! – exclamou a garota, visivelmente contente.
- Ah sim, uma ótima idéia, pena que não sei se vamos chegar vivos lá! – respondeu Dante, colocando os cintos e apertando todos os botões que o manual de instruções indicava.
- Dante, o manual está em alemão, você sabe ler isso? – perguntou Lady, intrigada.
- Não, mas tô apertando tudo certinho, pode confiar. – explicou o meio-demônio.
Lady nada mais disse depois disso, simplesmente fitou o amigo com uma expressão de desconfiança. Apesar de todo o barulho e solavancos, o avião conseguiu atingir os ares, e logo estava na direção da ilha de Claudius.
- Quanto tempo será que vai levar? – inquiriu Nero, espremido por um caixote de alfaces.
- De acordo com Lady, umas oito horas de vôo. – esclareceu Trish, irritada com a sujeira do compartimento.
- Vamos repassar o plano! – berrou Dante, fazendo com que todos o ouvissem – Nós vamos aterrissar na zona Norte da ilha, longe dos olhos dos demônios, lá a gente vai se organizar e descansar da viagem. Julian vai chegar lá com algumas horas de atraso, ele vai passar aqui para deixar a garota japa que ele tá cuidando com a Kyrie. Quando estivermos todos reunidos e descansados, vamos decidir o que fazer.
Os três concordaram com o Filho de Sparda, aparentemente promovido a general da coalizão anti-Claudius. O tabuleiro estava montado, faltava apenas o movimento das peças. O vôo começou tranqüilo, mas após algumas horas, uma poderosa turbulência quase desestabilizou o avião, fazendo com que Nero e Trish fossem jogados de um lado ao outro no compartimento de carga. Após a turbulência, nuvens negras começaram a cobrir o céu, atrapalhando a visão da cabine dos pilotos, que passaram a se orientar pelo painel.
- Tsc, parece que começaram a invocar o Pandemonium....- resmungou Dante.
- Pare de reclamar! As nuvens vão ser úteis, ocultando nossa presença. – retrucou Lady.
A “semente” se abriu com o sangue que escorria da mão esquerda de Claudius, parecia-se com uma enorme flor de lótus feita de obsidiana, e emitia uma forte luz rubra. Enormes colunas de fumaça negra saíam de seu interior, e se transformavam em colunas de mármore e telhados, muros e fontes, torres e calabouços. Em poucos minutos, Pandemonium estava pronto, uma infinidade de demônios se aglomerou frente a construção esplendorosa, obra-prima de Mundus. Claudius aproveitou o momento para chamar os outros Cavaleiros e adereçar um discurso doutrinados aos filhos do inferno. Crowley trajava não mais o terno marrom, mas uma túnica negra repleta de objetos usados em magia, os cabelos castanhos desgrenhados, Helena usava ainda seu curto vestido de couro negro e sandálias do mesmo material, mas agora trazia nas mãos um estranho chicote vermelho, Kojirou por sua vez trocara o hakama por calças de couro e botas de salto, mantinha, no entanto, o casaco.
- Irmãos, irmãos! Eis Pandemonium, legado de nosso pai, baluarte de nossas esperanças! Pela traição de Sparda, fomos confinados para sempre nos abismos, mas agora, aqui estamos! Vamos fazer justiça destruindo tudo aquilo que ele amou, a começar pelos seus herdeiros! Depois será a vez da humanidade, que não sabe valorizar o bem mais precioso que possuem: este mundo. Vamos fazer dele nossa casa, um lar para os amaldiçoados! Meu pai disse no passado que era melhor reinar no inferno do que servir no céu; eu digo que melhor que servir no céu e melhor que reinar no inferno é viver na Terra! – bradou Claudius, antes de erguer o punho.
Os demônios deliraram com o discurso do descendente de Mundus, que logo em seguida entrou no palácio, uma construção que mesclava elementos greco-romanos e góticos, uma magistral obra da arquitetura infernal. Foi seguido por Crowley e os outros dois cavaleiros, mas foi o místico que manifestou-se primeiro, enquanto caminhavam rumo a sala do trono.
- Como vamos fazer com Dante e seus aliados? – perguntou.
- Vamos matar a todos, humanos, demônios e tudo que estiver no meio dessas duas categorias. – respondeu Claudius de maneira direta.
Crowley coçou a cabeça e tomou um pouco de fôlego antes de fazer mais uma pergunta:
- Posso propor um plano, meu senhor?
Claudius parou, fechou os olhos para refletir. Não gostava de planos intrincados, era mais afeito à idéia do combate direto, homem-a-homem, mas aquilo era uma guerra e não um duelo. Estratégias eram necessárias para a vitória, sabia disso muito bem. O meio-demônio herdara o intelecto do pai, mas não o gosto pelos métodos sórdidos.
- Diga. – limitou-se a responder.
- Helena vai buscar neutralizar Trish, pois ambas são especialistas em sabotagem e espionagem, a garota humana, Lady, não vai conseguir entrar no palácio propriamente por causa da energia demoníaca dele, logo podemos usar os demônios lá de fora para acabar com ela. – Crowley parou um pouco para tomar fôlego e continuar – Kojirou por sua vez deve matar o garoto Nero, já eu, vou impedir que Julian arme alguma pra cima da gente. – concluiu.
- O plano é bem sólido, só se esqueceu de dois detalhes: como ficamos eu e Dante? – perguntou Claudius, com um sorriso falso.
- Bom, eu acho que o senhor vai querer descontar os anos preso na carne de Sparda, não? – respondeu Crowley, num tom maldoso.
- Haha, então assim será, vocês ouviram o plano, vamos segui-lo! – ordenou o meio-demônio aos demais.
Os três subordinados inclinaram-se levemente, e um a um, desapareceram como se fossem feitos de sombras. Apenas Claudius permaneceu dentro do palácio, rumo à sala do trono, não demorando a atingir o aposento em questão. Era um suntuoso salão de mármore, com várias colunas e um enorme vitral em forma de rosácea sobre o trono, feito de pedra negra e extremamente trabalhado. O aspecto clássico, imponente mas sem exageros, do ambiente deixava evidente o bom gosto de seu antigo dono.
- Meu pai era um tremendo bon-vivant mesmo... – disse Cladius em voz baixa.
O meio-demônio subiu lentamente os degraus que levavam ao trono, e sentou-se. Sentiu a autoridade fluir em suas veias, o poder da suserania infernal. A partir daquele momento, ele, Claudius, era o novo Rei do Inferno, Príncipe das Trevas.
Kyrie estava no Devil May Cry de Fortune Island, arrumando a bagunça deixada pelo grupo de caçadores. Vestia agora um leve vestido branco que descia até os joelhos, e sandálias de borracha extremamente confortáveis, que Lady trouxera como souvenir de sua viagem ao Brasil. Só não entendia a razão delas terem nome baseado num arquipélago norte-americano, mas isso era apenas um detalhe. Fazia sol e ventava bastante, era uma manhã agradável, apesar do sono pesar sobre seu corpo, tanto que não percebeu a entrada de duas pessoas no estabelecimento.
- Parece que Nero e Dante ainda não aprenderam a arrumar a casa. – disse uma voz masculina.
A garota virou-se assustada, mas aliviou-se logo ao perceber que era Julian, acompanhado de Ayame. O ex-professor trajava uma blusa negra de gola alta, calças escuras e seu tradicional casaco branco, a oriental por sua vez vestia uma blusa regata rosa e uma curta saia branca. O mais velho sorria de maneira gentil, a mais nova estava visivelmente mal-humorada por ter sido acordada pelo tutor.
Lady e Dante já conseguiam avistar a ilha, Pandemonium no entanto estava atrás das montanhas, na zona Sul, não sendo, portanto, visível. Mesmo assim, todos, mesmo a garota humana, eram capazes de sentir a força demoníaca do palácio-fortaleza, um calafrio constante. Era hora de aterrissar, mas onde exatamente? Voaram em pequenos círculos, buscando um bom local para o pouso, até que finalmente Dante avistou uma clareira, numa floresta próxima às montanhas.
- Pouse ali! – indicou o meio-demônio.
- Certo, certo! Mande o pessoal se segurar, porque vai ser um pouco difícil! – respondeu a garota.
Dante não teve tempo para fazê-lo, Lady logo mergulhara o avião na direção da clareira, aterrissando violentamente. A vegetação rasteira e os arbustos foram totalmente destruídos, e por muito pouco o bico do avião não colidiu com as velhas, e grossas, árvores da floresta. A inércia fez com que Nero e Trish fossem arremessados na cabine dos pilotos, visivelmente irritados.
- Bom, pelo menos o avião não explodiu! – disse Trish, em um tom irônico.
- Pare de frescura! Vamos logo! – bradou Dante, soltando o cinto da poltrona de co-piloto.
Lady seguiu seu amigo, e logo os quatro desciam do avião, relativamente intactos. Tinham uma boa visão do local: a clareira dava em uma floresta antiga, que por sua vez ia até as montanhas e atrás destas, não podiam ver, mas sabiam que estava lá, a fortaleza inimiga. A ilha tinha uma atmosfera densa, um certo odor de enxofre que lembrava Dante do Inferno, e isso não o agradava. Claudius estava trazendo o Mundo das Trevas para aquele mundo, precisava ser impedido rapidamente.
- Vamos acampar aqui, é mais seguro do que na floresta. – manifestou-se Lady.
Os outros três concordaram, Dante e Nero voltando ao avião para descarregarem as armas e os mantimentos. Não demorou para que algumas barracas, uma fogueira e um prato de comida quente fossem providenciados, trazendo um pouco de conforto aos caçadores, que sentavam-se ao redor do fogo para comerem e se aquecerem. Apesar das tensões, o grupo fazia o possível para manter conversas agradáveis e leves, sorrindo sempre que possível. Era a calmaria antes da tempestade.
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