Já era alto na noite quando Julian chegou. Os caçadores estavam dormindo em turnos, e era vez de Dante e Nero ficarem acordados. O ex-professor chegou discretamente, pegando o mais novo de surpresa.

- Esse casaco branco não é muito discreto, e te deixa com cara de médico. – a voz de Dante trazia um tom acalentador, de velho amigo.

O mestiço apontou um local próximo à fogueira para Julian sentar-se, e assim foi feito. Lady e Trish dormiam profundamente na barraca que havia sido montada para elas, de modo que os três homens estavam sozinhos.

- E como foi com Kyrie? – perguntou Julian a Nero.

O garoto fitou o amigo, e depois abaixou os olhos, como se analisasse os próprios pés. Sabia que a pergunta despertaria um demônio interior em Dante. Subitamente, Mundus pareceu-lhe muito mais simpático.

- Adivinha só! Nosso amigão aqui tem um lado...exótico! Quando cheguei a Fortune Island, ele estava sendo assediado por um dos homens de Claudius! – exclamou Dante, que revirava a caixa térmica em sua barraca em busca de algumas cervejas.

- Hahaha! Isso é verdade, Nero?! Não esperava isso de você! – Julian começava a ficar da cor do casaco de Dante de tanto rir.

- E quem tava dando um jeito na Kyrie nesse meio tempo era a Trish, é mole? – concluiu Dante, jogando uma cerveja para cada amigo.

- Cale a boca, Dante. Pelo menos eu não sou um quarentão encalhado que não sabe lavar a própria roupa. – fulminou Nero, antes de virar sua garrafa.

Dante fez uma careta, e sentou-se novamente, a expressão que até pouco estava leve agora se fechava. Precisavam discutir logo os planos para a ofensiva contra Claudius e seus aliados.

- Acho melhor avançarmos todos de uma vez e nos separarmos lá dentro. – manifestou-se Nero.

Julian e Dante concordaram, e foi a vez do ex-professor expor seus planos:

- Dante, você deve ir direto para a sala do trono. Provavelmente Claudius estará lá, e o único modo de selar o Pandemonium é com sangue de Sparda.

- Pra variar, eu sou o único que pode salvar o dia. – brincou o meio-demônio.

O amanhecer veio depressa, e logo os caçadores estavam indo na direção de Pandemonium dentro de um carro militar, trazido por Lady dentro do cargueiro. O veículo, similar a um jipe blindado, andava com relativa facilidade pela floresta, mas era extremamente desconfortável. Os solavancos provocados pelo solo irregular e pelas raízes incomodavam bastante, mas não ligavam, estavam acostumados a esse tipo de coisa. Após a vegetação, veio a montanha, também vencida pelo carro.

- Ali está o palácio, é maior do que imaginei! – bradou Dante, ao ver a silhueta da construção do alto da montanha.

A construção era formidável, parecia uma enorme catedral gótica cercada por templos greco-romanos e cúpulas. Havia o palácio central, um enorme anfiteatro que se assemelhava a um coliseu, uma torre principal e o jardim interno. Pandemonium não parecia vir do Inferno, e sim do Paraíso. A enorme nuvem negra que pairava sobre ela, no entanto, denunciava sua origem, pois era repleta de relâmpagos vermelhos e a principal emissora do odor sulfúreo que Dante sentira quando chegara à ilha. Quando finalmente adentraram a passagem principal, passando por baixo de um suntuoso arco de pedra decorado com alto-relevos de batalhas épicas, deram com uma horda demoníaca. Seres de todo tipo: alguns parecidos com as gravuras medievais de diabos, outros, similares a animais disformes.

- Hora do show! – Trish saltou do carro, dando várias piruetas no ar enquanto descarregava seus revólveres nos demônios.

Lady virou bruscamente o volante antes de frear, atropelando e arremessando demônios uns contra os outros. Nero e Dante saltaram, espadas em punho, para o embate. Julian e Lady os seguiram, cada um à sua maneira. Os descendentes de Sparda fatiavam os demônios que avançavam sobre eles com facilidade, não eram páreo para as lâminas de Rebellion e Yamato.

- Que recepção bacana! Essa festa vai ser divertida! – bradou Dante ao empalar vários demônios, para em seguida finalizá-los com disparos de Ebony.

Julian lutava elegantemente com Clarent, Nero por sua vez mesclava golpes de Yamato e as habilidades de seu Devil Bringer, um formidável combatente. Trazia os inimigos para perto de si, e então golpeava ferozmente com a espada. Lady usou de seu treinamento físico para subir no telhado de um dos templos e montou lá seu arsenal, duas metralhadoras uzi, uma shotgun e sua bazuca, Kalina Ann. De lá, buscava matar o maior número possível de demônios. Trish estava no centro da horda, despachando seus oponentes com um misto de poder demoníaco, armas de fogo e golpes marciais.

Mas o grande número realmente era de Dante, o Filho de Sparda fazia jus ao nome, lutando sozinho contra a maioria dos demônios. Arremessou Rebellion em um oponente que saltou em sua direção, e alvejou os mais distantes com Eboy e Ivory antes de retomar a espada. Depois saltou por cima da fonte que se localizava no centro da praça, pegando o pé de um demônio voador e jogando-o no chão, para em seguida executá-lo com um tiro.

- Certo gente! Vamos nos separar! Ficar aqui não vai adiantar nada! – berrou Dante, sendo ouvido por seus aliados.

Nero saltou pelas escadarias que levavam ao anfiteatro, destruindo vários demônios alados com Yamato no processo, Trish sumiu em meio a relâmpagos amarelos, Lady saltou pelos telhados dos templos rumo à Torre principal, sendo imitada por Julian. Restou apenas Dante no local, que precisava ir ao Palácio Central.

- E eu vou pelo tapete vermelho! – disse para si, enquanto fatiava um demônio que tentara lhe atingir com uma foice.

Dante correu na direção do Palácio central, semelhante a uma enorme catedral gótica, com suntuosas torres e ornamentos espiralados. Estava fechado, logo o meio-demônio abriu caminho à força, arrombando o portão com um poderoso chute. Entrou carregando vários demônios embaixo do braço e mais um que mordia sua perna, aqueles caras eram realmente insistentes. Acabou com todos e admirou o local no qual estava. O salão de entrada de fato tinha um tapete vermelho, mas tinha também colunas altas que sustentavam um teto ricamente ornamentado com estrelas de ouro, e vitrais que traziam imagens de anjos. Um observador mais cauteloso, no entanto notaria que, apesar das imagens angelicais, os nomes eram de demônios.

- Pra quem é tão revoltado com o Paraíso e coisas do tipo, até que Mundus curtia uma catedral ein! – Dante berrou, só para ver se alguém respondia e ouvir o eco do local.

O meio-demônio andou calmamente pelo salão, rumo a um corredor ornamentado com obras de arte de diferentes épocas e estilos, todas, no entanto, pareciam retratar o Príncipe das Trevas. De estátuas de pedra do século XII às ilustrações originais de Paradise Lost, o ex-dono do local nutria um sentimento de amor próprio considerável, não à toa, o orgulho era considerado sua maior força e seu maior ponto fraco.

Após o corredor, Dante viu-se no que parecia ser o hall principal do palácio, semelhante ao salão de entrada, porém era de formato circular e dotado de uma enorme escada em espiral. Provavelmente chegaria ao salão do trono subindo a escadaria e seguindo em frente, mas claro, as coisas não poderiam ser tão fáceis assim. Um gigantesco demônio despencou da cúpula do hall, tinha aspecto pétreo, não obstante mantinha a flexibilidade. Sua forma lembrava a de um dragão quadrúpede com muitos chifres, e as enormes asas, articuladas tais quais as de um morcego, conferiam-lhe ares de majestade.

- Tava demorando pra aparecer um grande. – brincou Dante.

- Falta de respeito por um acaso é hereditária?! – retrucou o monstro.

Dante foi pego de surpresa pela capacidade de falar da criatura, e mais ainda, por não saber exatamente o que responder.

- Uma lagartixa que fala! Tenho que parar de beber antes do serviço. – contornou.

- Eu, Adrammelech, guardo este palácio desde tempos imemoriáveis, e você, mestiço inferior que nem saiu das fraldas, vem me insultar?! Basta disso! – bradou o demônio, antes de avançar com as mandíbulas na direção de Dante.

Aquilo era demais para o caçador, no mesmo dia fora insultado de quarentão vagabundo e de criança insolente. Precisava descontar em alguém, e seria no tal guardião do Pandemonium. Esquivou-se da investida do oponente e sacou Rebellion, depois, saltou por cima dele, golpeando-lhe as costas e caindo próximo à cauda de Adrammelech que rugiu de dor. O demônio contra-atacou arremessando Dante contra a parede com um poderoso golpe de cauda.

O mestiço recuperou-se rapidamente e atingiu o lado esquerdo do inimigo com uma estocada, recebendo em troca um golpe das enormes asas. Realmente, aquele monstro dava trabalho: atacava com a cauda, as asas, a mandíbula e ainda tinha as garras. Não era, porém, o primeiro inimigo com várias formas de ataque que lidava, enfrentara Cerberus e Griffon, igualmente problemáticos no passado. Sacou uma de suas pistolas e começou a atirar em Adrammelech, que se fechou em suas asas, conforme Dante previra. Com dois poderosos ataques de Rebellion, decepou-as, fazendo o demônio recuar e berrar violentamente. A reação, outro golpe da cauda, foi barrada pelo meio-demônio, que segurou o membro do oponente e o utilizou para jogá-lo com toda sua força contra uma das colunas que sustentavam a escadaria.

- Tsc! Você é pesado pra uma lagartixa! – disse Dante enquanto tentava recuperar o fôlego.

Adrammelech estava totalmente atordoado, e pagou um preço alto por isso, o mais alto possível. Não foi capaz de defender-se do derradeiro ataque do caçador, um salto seguido de um golpe perfurante no peito. Era o fim do Guardião do Pandemonium. Dante guardou suas armas e prosseguiu, subindo a escadaria. Evitara usar sua forma demoníaca no combate, precisava poupar-se para o embate contra Claudius.