Twisted Demon Opera

7 Paint it Black - Part One


Nero destruía a todos os demônios com facilidade, Yamato cortava carne, ossos e o que mais fosse colocado em seu caminho como se fosse papel. Sem sombra de dúvidas, tornara-se um espadachim habilidoso, mas ainda faltava-lhe a experiência de seu predecessor. Chegou rapidamente ao Anfiteatro, onde foi recepcionado por mais uma legião de oponentes, rapidamente aniquilados pelo fio da katana. O local, de nítida inspiração clássica, assemelhava-se ao coliseu de Roma, fato que o jovem não estranhou, uma vez que Mundus vivera na Terra exatamente durante o auge do Império Romano. Aliás, a devassidão moral e o hedonismo dos Filhos de Eneias certamente eram do agrado do Príncipe das Trevas.

Adentrou o local pela porta principal, em forma de arco, chegando assim na arena. O chão de terra batida contrastava com o requinte do que deveria ser o espaço dos demônios de alta patente: uma arquibancada coberta, esculpida na pedra de forma magistral e repleta de assentos luxuosos. Os outros lugares eram como os de um estádio qualquer, exceto pelo fato de serem também todos esculpidos em pedra. Nero não teve, no entanto, muito tempo para perder observando a construção, foi obrigado a esquivar-se da rápida lâmina escarlate de Kojirou.

- Até que você é rapidinho ein! Essas pernas devem ser musculosas! – exclamou o demônio, andando desequilibradamente enquanto lambia o fio de sua espada.

- Você...- Nero fitou o oponente com um olhar de desprezo.

Kojirou usava as botas de couro negras e as calças de mesmo material, aparentemente dispensara o hakama. Os longos cabelos escuros do demônio caiam-lhe sobre o rosto, dando um aspecto insano. Nero apontou Yamato na direção do inimigo, um calafrio percorrendo-lhe a espinha. A verdade é que temia a força do demônio, que tinha séculos de batalhas nas costas.

- Hmmm, então acha mesmo que pode me matar? Eu tenho uns quatrocentos anos de experiência, sabia? É, deve ser por aí mesmo, isso se descontarmos meu tempo de vida como humano. – Kojirou estava absorto em pensamentos, lembrando um passado distante.

Sim, nascera humano, em uma era apodrecida no Japão. Aos quinze anos, matou pela primeira vez, aos vinte, já era mestre espadachim. Nada na vida lhe era mais excitante do que o calor dos combates, amava o som do metal rugindo com o choque das lâminas, o movimento rápido de pés, as investidas valentes. Com o tempo, aprendeu a amar não apenas os duelos, mas seus oponentes, em um sentimento doentio que o transformou lentamente em um louco. Um louco que fora detido após anos de matanças, e que não sossegou após a morte, não.

A vida humana era muito pouco, então, por que não estendê-la com um pacto demoníaco? Aliás, por que não caçar o próprio demônio com o qual o pacto fora celebrado? A adrenalina, o tesão seriam inigualáveis. Assim foi feito, e pelos próximos séculos, que diversão! Demônios, homens e toda sorte de seres iriam provar de sua espada. Agora, era a vez de Nero.

- Esse tempo de vida, só prova que você é velho, nada mais. – Nero retrucou.

- Esses seus olhos, me lembram os de Vergil! Sim, aquele homem, nunca vi olhos iguais aos dele, não temiam, não sentiam, eram absolutos em sua busca por poder. – Kojirou parecia entrar em êxtase toda vez que falava do irmão de Dante – Vou arrancá-los e comê-los, sim!

O demônio correu na direção de Nero, golpeando loucamente com sua espada. O pobre rapaz viu-se forçado a defender-se de todas as maneiras possíveis, pois Kojirou mesclava com maestria cortes e estocadas. Tomou distância, e então avançou, tentando atingir o inimigo com Yamato, em vão.

- Seus ataques não têm sincronia alguma, sabia? – disse o demônio, esquivando-se com facilidade do golpe de Nero.

O contra-ataque foi rápido, um corte da lâmina carmesim no abdômen do caçador, seguido de um forte chute que o arremessou contra as arquibancadas, quebrando vários assentos. Nero estava, em verdade, novamente à mercê de seu inimigo, caído entre os escombros.

- Ele tem razão, seus ataques não têm sincronia. Mente, corpo e alma estão destoantes. – uma voz, ao mesmo tempo familiar e desconhecida, ecoou na cabeça de Nero.

- Você teme seu oponente, por quê? Ele é apenas uma prostituta que vendeu a alma em troca da chance de continuar sua chacina. Você é um covarde, por um acaso? Não tem honra? Não me desaponte. – a voz continuou.

Nero não sabia o porquê daquela voz, mas ela lhe passava a sensação de confiança, de força. Alguém em quem podia confiar e ao mesmo tempo, alguém com quem não se deveria arranjar briga. Levantou-se dos escombros e retornou à arena, onde Kojirou o aguardava.

- Olha só! Ainda agüenta lutar! Vamos continuar então? – a voz do demônio irritava o caçador profundamente.

Kojirou partiu para a ofensiva novamente, indo na direção de Nero com um ataque cortante.

- Segure a espada com as duas mãos, economize movimentos, pé direito à frente! Lâmina apontada na direção do oponente, não hesite, deixe as lâminas deslizarem! – a voz ordenou, e o rapaz obedeceu.

Os resultados foram excelentes, a espada de Kojirou apenas tocou o casaco de Nero, e Yamato cortou superficialmente o pescoço do inimigo. Os olhos do demônio brilhavam, agora entendia: seu oponente não era o rapaz de cabelos brancos à sua frente, era outra pessoa. Rapidamente tomou distância e usou de seus poderes demoníacos para surgir atrás de Nero.

- Não se vire, mergulhe Yamato em seu casaco, a lâmina da espada será mais do que suficiente para protegê-lo e lhe dará tempo para um contra-ataque.

Kojirou não teve espaço para atacar, pois o rápido movimento ordenado pela voz quase lhe custou um olho. Foi obrigado a saltar para o lado, onde não fosse um bloqueio feito na última hora, teria sido partido no meio pela espada de seu oponente.

- Não perca o foco! Force o ataque, ele vai ser obrigado a se concentrar em sua lâmina. Acerte-o com seu Devil Bringer.

O braço demoníaco de Nero arremessou Kojirou a vários metros de distância. Agora, era o demônio que estava na defensiva, mas engana-se quem pensar que ele estava preocupado, muito pelo contrário: estava vibrando de alegria, toda a sua existência culminara naquele momento, naquele duelo decisivo.

- Agora ele está vulnerável, é ele quem hesita. Seu inimigo não é o homem, é a espada, use o MEU poder para destruir o corpo e Yamato para acabar com a arma. Apenas confie.

Kojirou avançou correndo na direção de Nero, que apenas ergueu seu Devil Bringer. Não foi uma extensão do descendente de Sparda, no entanto, que surgiu, mas sim várias espadas feitas de energia demoníaca azul que pegaram o moreno de surpresa e perfuraram-lhe o corpo, imobilizando-o totalmente. Era a vez de Nero avançar, tomando uma forma demoníaca que não lhe pertencia, usando uma espada que originalmente não era sua. O caçador golpeou com toda a força, corpo e arma de seu oponente, partindo a ambos no meio. As lâminas azuis também se quebraram e Kojirou foi ao chão.

- A alma de Kojirou estava na espada e não no corpo, esse era o segredo. Destruindo-a, efetivamente o matamos. De fato, você não me desapontou, garoto.

- E no final, você me destruiu, Vergil....- sussurrou, antes de tombar definitivamente.

O corpo ficou inerte no chão, a espada, no entanto, foi consumida por chamas vermelhas que a derreteram totalmente. Era o fim de Kojirou, o demônio da espada.

- Vergil, não é? Obrigado, seja lá qual for o motivo de você ter me ajudado. – disse Nero, mas a voz não mais respondeu, abandonara o rapaz.

Nero guardou Yamato, e pôde respirar aliviado, um dos vassalos de Claudius estava morto. Perguntou-se como estariam seus aliados, provavelmente também teriam de enfrentar demônios de alta patente. A preocupação, porém, foi logo substituída por um sentimento de calma. Confiava em seus amigos, sabia que não iam falhar.