Twisted Demon Opera

8 Paint it Black - Part Two


Trish não era um demônio de baixa patente, por isso não teve dificuldades em liquidar os monstros que insistiam em segui-la, e logo estava nos jardins internos de Pandemonium. O ambiente, como todo o resto da capital do inferno, era extremamente suntuoso, diferente de qualquer jardim da Terra. Árvores majestosas, de madeira branca e folhas translúcidas cobriam grande parte da área, e o chão era repleto de flores de uma delicadeza ímpar. Havia beleza no inferno, e aquele local parecia ter sido projetado justamente para mostrar esta faceta do reino de Mundus. Ocasionalmente era possível avistar animais, como pássaros e insetos, que assim como o resto do jardim, eram extremamente diferentes de seus equivalentes terrenos.

A loira seguiu andando pelo jardim, sentia uma presença poderosa no local, sabia que logo mais teria de lutar com algum demônio forte. Pisou em algo estranho, um amontoado de folhas que não era usual, desencadeando assim uma explosão. Esquivou-se com dificuldades saltando para trás, se fosse humana certamente teria sido reduzida a um cadáver, e fitou a mulher que agora se revelava diante dela. Era Helena, belíssima em seu vestido negro que contrastava com suas madeixas ruivas. O chicote em mãos, o olhar em Trish.

- Hmm, você é esperta. Deixou-me sentir você, para me atrair à sua armadilha. – disse a loira.

A ruiva fitou a adversária, sorrindo de um modo sarcástico, passou a mão esquerda nos cabelos, jogando-os para trás.

- É, eu sei disso. – disse – Afinal, meu trabalho é justamente esse, sabotagem e espionagem. – completou.

- Ou seja, você é a lixeira de Claudius. – provocou Trish, com um olhar arrogante.

- Deixa eu te perguntar, por um acaso você troca as fraldas de Dante? – Helena estava visivelmente ofendida pelo comentário da outra mulher – Já que você tem a cara da mãe dele....

Ah, isso não era aceitável, nem um pouco. Compará-la à Eva era chamá-la de velha, mas entre as duas, quem foi que nascera no Império Romano mesmo? Trish sacou suas duas pistolas, e as apontou na direção de Helena, que se limitou a assoviar, e a desenrolar seu chicote.

- Conversamos tão pouco e já vamos sair nos matando, que falta de civilidade aqui. – provocou a ruiva.

- Não gosto de perder tempo conversando com vadias do seu tipo. – foi tudo que Trish disse, antes de começar a atirar.

Os projéteis cortaram o ar, mas foram incapazes de atingir Helena, que se desviou deles correndo entre as árvores. O contra-ataque não tardou, com um movimento rápido da ruiva, vários fios que estavam invisíveis até então cortaram algumas árvores que iriam esmagar a aliada de Dante, caso esta não tivesse escapado com um rápido salto. O chicote de Helena pegou Trish desprevenida, enrolando seu pé e a trazendo até a inimiga, que lhe desferiu uma poderosa joelhada no estômago.

A loira recuou alguns passos, gemendo de dor enquanto cobria a área atingida com um braço. Não teve tempo de reagir, pois sua oponente já voltara à ofensiva com uma rápida seqüência de chicotadas que a forçaram a recuar ainda mais. Ganhou tempo e espaço com um certeiro relâmpago de energia demoníaca que disparara, atingindo o ombro de Helena, e então voltou a atirar. Alguns disparos atingiram seu alvo, outros foram secos rumo às árvores, uma vez que a ruiva usou seu chicote para prender um galho de uma velha árvore e voar na direção de Trish com uma voadora, que atingiu-lhe a face.

A essa altura, as duas já estavam feridas, e tomaram distância uma da outra antes de continuar o embate. Helena sangrava por causa dos ferimentos à bala, e tinha o ombro chamuscado, Trish por sua vez ainda se curvava por causa da joelhada e estava com o nariz quebrado e um olho roxo. Tentou rir, mas o inchaço do rosto lhe impediu.

- Por que você luta por Dante? – inquiriu Helena, já sem o tom de voz sarcástico de antes.

A pergunta pegou Trish de surpresa, nunca parara para pensar no assunto antes. Por que, afinal, ela ficava do lado do meio-demônio? Poderia muito bem partir, ir cuidar de seus assuntos. Qual era, então, o motivo que a prendia ao Filho de Sparda? Dante era um homem a ser temido, sim, mas não tinha medo dele, sabia que o caçador jamais lhe faria mal. Respeito ou gratidão, talvez? Sim, gratidão, aquele mestiço a salvara, salvara a todos da tirania de Mundus quando tudo parecia perdido. Era grata a Dante, por isso ficava ao lado do caçador em tudo que fosse necessário e mais, o jeito preguiçoso e ao mesmo tempo charmoso dele a cativara, não conseguia imaginar como seria sua vida sem ele.

- Ele me salvou. Se tornou fundamental pra mim, é isso. – foi tudo que a loira conseguiu responder.

- Entendo...- Helena estava compenetrada – No fundo, somos a mesma coisa.

Trish arqueou uma sobrancelha, e sua oponente prosseguiu:

- Você sabe o que é cruzar oceanos de tempo nesse mundo sozinha? Ver a todos que você se afeiçoou morrerem enquanto você fica? Quando era uma garota humana, desejei nunca envelhecer e paguei um preço muito alto por isso. Enterrei não apenas meus filhos, mas meus netos e bisnetos, você sabe o que é isso? – Helena tomou fôlego antes de prosseguir – Claudius me mostrou um mundo novo, um mundo de seres imortais. Ele me devolveu o desejo de viver para sempre, aliás, talvez seja melhor dizer que ele me devolveu a vida.

A loira permaneceu quieta, retomou uma postura combativa, sendo seguida por sua adversária.

- Vamos continuar agora que a consulta acabou? – inquiriu, tentando sorrir sob a cara inchada.

Helena saltou na direção de Trish, acertando-a com seu chicote. A loira recuou e disparou um relâmpago na inimiga, chamuscando-lhe uma perna, mas não foi suficiente para impedir a nova ofensiva da ruiva, que com um movimento rápido de pernas e braços, imobilizou Trish. Era o que ela queria.

- Bom, querida, acabou pra você. – enunciou, ao revelar que uma de suas pistolas estava colada ao abdômen da romana.

- Merda! – maldisse Helena, antes de receber uma saraivada de tiros combinados com o poder demoníaco de Trish na barriga.

A mulher voou vários metros de distância, caindo, destruída, próxima a uma estátua de Mundus em sua forma angelical no jardim. Como era bela! O corpo escultural envolto na toga romana, o rosto másculo e ao mesmo tempo, delicado. Mas não era a Mundus que via, era Claudius, seu radiante Príncipe das Trevas, que trouxe um raio de esperança à sua existência novamente. Que ironia! Quando finalmente recuperara o gosto pela vida, defrontava-se com a morte, bom, ao menos era em nome daquele que lhe era caro. Esticou a mão na direção da estátua, a vista já fraca, e depois tudo se tornou escuro, um filtro de ébano que tombava sobre suas pupilas.

Trish por sua vez sentou-se no chão, exausta e ferida, os revólveres jaziam a seu lado. Provavelmente não conseguiria combater mais naquele dia, e receou que o mesmo estivesse acontecendo com os outros. Se todas as lutas terminassem daquele jeito, aquela batalha terminaria em um empate, e isso era o mesmo que perder naquelas condições. Deixou-se deitar sobre as gramíneas exóticas e ficou olhando para o céu por alguns instantes. A História era mesmo um bumerangue, tudo se repetia.

Claudius socou uma das colunas da sala do trono com violência, arrebentando as pedras. Perdera dois dos seus, enquanto que Dante ainda não sofrera sequer uma única derrota. Analisou sua mão, que sangrava devido ao esforço, e disse a si mesmo que aquilo não era nada perto do que seus aliados haviam sofrido nas mãos dos inimigos. Pobre Kojirou, um louco, sim, mas um louco que sabia ser feliz à sua maneira; pobre Helena, justo agora que voltara a sorrir, perecera. Por que morriam? Os Aliados de Dante não tinham mais direito à vida que os seus, ou por um acaso era errado viver à custa dos humanos? Se fosse, seria uma tremenda injustiça, os humanos não viviam à custa dos animais? Não criavam gado apenas para saciar seu apetite? Por que os demônios não tinham o direito de fazer o mesmo com os homens?

- Droga! Agora está tudo em minhas mãos e nas de Crowley... — disse para si, visivelmente preocupado.

Voltou-se para os vitrais da sala, não havia reparado até então que aos lados direito e esquerdo da entrada, opostos ao trono, havia portas de pedra lacradas e sobre elas, vitrais com nomes distintos. À esquerda, a porta era negra e o vitral em cima trazia a imagem de um homem extremamente pálido, de cabelos cor de fogo e vestes negras, Azrael; à direita, a porta era branca e a imagem era a de um homem de cabelos longos e castanhos, que trajava uma bela armadura azul, o nome, Mikael. Juntos de Mundus eram os Três Príncipes do Além. Azrael reinava sobre o Purgatório, Mikael, sobre o Paraíso e Mundus, obviamente, sobre o Inferno.

- Então, meu pai tinha visitas dos irmãos? Que intrigante... – murmurou, enquanto sentava-se no trono novamente.

Notas finais
Capítulo com várias referências hoje!
Como já deu pra perceber, tratei Mundus como um personagem análogo ao Diabo Cristão (Titio Lucifer), pois esse tratamento é implícito ao personagem no primeiro DMC. Aliás, o próprio nome Mundus (Mundo) é uma referência ao titio Luly, cujo título é "Príncipe deste Mundo".

Também trabalhei a idéia de "Além" da Divina Comédia, com três reinos do além vida: Inferno, Purgatório e Paraíso. Só que destoei da obra ao colocar Azrael (o anjo da morte judaico e islâmico, o ceifeiro do folclore ocidental) como governante do Purgatório e Mikael (o chefe militar dos anjos nas religiões abraamânicas) como governante do Paraíso.

Enfim, por hoje é só pessoal ^^