Twisted Demon Opera
4 Paradise City
Trish comemorou quando viu o nome de Julian aparecer na tela do computador, e não demorou em chamar Dante e os outros. Logo, estavam todos reunidos ao redor da máquina, esperando que a câmera carregasse a imagem. Ficaram aliviados ao ver o ex-professor confortavelmente sentado em uma poltrona num quarto que parecia ser de um hotel de luxo. Quando a imagem do outro lado da linha carregou, Julian sorriu, pois do outro lado estavam todos os seus amigos e pessoas em quem confiava.
- É bom ver vocês. Como estão todos? – a voz de Julian, ligeiramente distorcida pela qualidade da transmissão, enunciou.
- Você é um inglês de quinta, sabia?! E aquele papo de pontualidade? – resmungou Dante. Que, tudo indicava, estava em uma agradabilíssima soneca na cama que não lhe pertencia.
- Haha! Estava caçando um demônio do Leste Europeu moveu-se para cá recentemente, e estava causando um bocado de confusão. – explicou-se o ex-professor.
- E então? O que conseguiu descobrir? – perguntou Nero, ansioso.
Julian tirou os óculos para limpá-los, e depois tomou alguns goles da xícara de chá que estava do lado do computador. Com o tempo, aprendera a deixar Nero curioso, e adorava a sensação de atiçar os ânimos do rapaz. Sorriu levemente, antes de começar a explicar os dados que levantara:
- As coisas estão mais complicadas do que eu pensei em um primeiro momento. O demônio louro que você mencionou Dante, bem, ele não é exatamente um demônio. Ele é filho de Mundus e uma mortal, seu nome é Claudius.
Dante engoliu em seco, um meio-demônio?! Não, isso não podia ser, ainda mais um filho de Mundus. Isso não fazia o menor sentido.
- Explique isso direito. – limitou-se a dizer.
- Sabia que isso iria te enervar, permita-me explicar a história toda. Claudius foi o estopim da guerra entre o Príncipe das Trevas e seu maior General, Sparda. Mundus, vários séculos atrás, decidiu criar um exército de seres híbridos, que fossem tão fortes quanto os demônios e tão sagazes quanto os homens. Seu pai naquela época já estava se afeiçoando aos humanos, logo não concordou com Mundus. O Cavaleiro Negro rompeu seu pacto de vassalagem com o Príncipe, e organizou uma milícia de soldados fieis, homens e demônios, para combater os planos de seu ex-suserano. Ele selou Claudius e bom, o resto da história você já sabe.
O caçador de vermelho processava as informações, era surreal demais para ser verdade. No final das contas, a batalha que agora começava a se desenrolar nada mais era senão a continuidade da anterior. No lugar de Mundus e Sparda, agora se enfrentavam Claudius e Dante. Os pecados dos pais seriam herdados pelos filhos, será que esse ciclo algum dia iria ter fim?
- Quanto aos outros dois, a garota ruiva é Helena, uma mulher que viveu no apogeu do império Romano e vendeu sua alma em troca da juventude eterna. Com o tempo, ela mesma tornou-se um demônio. O homem de aspecto intelectual é Crowley, um expert em ocultismo que tem sobrevivido pelos tempos trocando de corpo. – concluiu Julian.
- Com Kojirou, são quatro oponentes. – disse Nero.
- Isso mesmo. Eles se intitulam os Quatro Cavaleiros, uma referência aos homônimos do Apocalipse. – completou o ex-professor.
- E quanto à “semente”? O que pretendem fazer com ela? – perguntou Trish.
- Com certeza vocês conhecem a lenda: arma de Mundus, símbolo do Rei do Inferno. As lendas estão erradas, ou melhor, imprecisas. Mulciber não é uma arma no sentido literal da palavra, é uma fortaleza, a capital encastelada do Inferno: Pandemonium. Como toda semente, precisa de condições para crescer, no caso, do sangue de Mundus. – explicou Julian.
O quarteto que estava no Devil May Cry suava frio, eles tinham ambas as coisas: sangue e semente. Era apenas questão de tempo até erguerem a fortaleza do Príncipe das Trevas.
- Precisamos localizá-los. – disse Dante, resoluto.
Julian juntou as mãos e inclinou-se para trás. Sorria de modo confiante, estava um passo na frente de Dante, para variar.
- Eu sei, eu sei. Já estou trabalhando nisso. Como tenho todos os nomes, estou tentando localizá-los com rituais de invocação demoníaca. Todos eles estão na Terra, logo não podem ser invocados, mas...podem ser encontrados.
- Beber chá não me parece com um ritual demoníaco...- retrucou Dante.
- Eu disse que estava tentando localizá-los? Perdoe minha falta de precisão, minha tutelada está fazendo isso – respondeu Julian.
Dante fitou o ex-professor com uma profunda vontade de socá-lo até que os óculos ficassem colados em seu rosto, mas não poderia fazer isso agora.
- Consegui! – uma voz feminina veio do fundo do quarto.
- Nossa, essa garota teve um instrutor muito bom, não acham? – brincou Julian – Mandarei uma mensagem para vocês com a localização exata deles. Até mais – concluiu Julian, antes de fechar o notebook e levantar-se.
O ex-professor caminhou lentamente até a pequena sala de estar do aposento, a mesa fora arrastada para o canto, deixando o chão livre para a infinidade de selos e objetos místicos que eram necessários para os rituais. Um enorme pentagrama de sal, com velas nas cinco pontas e um pequeno pote de cobre com ervas no centro era o maior dos encantamentos, e perto dele, estava sentada uma jovem garota oriental, de pouco mais de dezessete anos, feições joviais e delicadas, como se fosse uma pequena boneca. Os longos cabelos negros dela eram extremamente sedosos, e emolduravam o rosto e o pescoço brancos, ébano sobre marfim. Vestia pouca coisa, apenas uma camisola de seda branca por cima das roupas de baixo, uma intimidade conquistada com o tempo de convívio.
- Estão no meio do Atlântico, numa ilha deserta. As coordenadas estão ali sobre o tabuleiro...- ela tentou explicar enquanto se levantava, mas sua consciência oscilou. Teria ido ao chão, não fossem os rápidos braços de Julian, que a ampararam.
- Feitiços em excesso consomem muita energia, você precisa descansar agora. Está de parabéns, Ayame. – sussurrou o ex-professor no ouvido de sua protegida, que inconscientemente enrolava-se no pescoço do mestre.
- Hmmm, você é mesmo desleixado, esqueceu de fazer a barba de novo...- balbuciou a garota, enquanto deslizava uma de suas mãos pelo rosto do tutor.
Julian pegou-a nos braços, a pele delicada da garota roçava na sua, o perfume delicado dela invadia-lhe a mente. Ayame era uma bela garota, sem sombra de dúvidas, e às vezes, provocava em Julian sensações que ele jurara não ter por mais ninguém, e quando isso ocorria, um enorme sentimento de culpa invadia-lhe a mente. Delicadamente a colocou na cama, para logo em seguida cobri-la com um lençol. Ela precisava dormir, e ele precisava trabalhar. Conferiu as coordenadas sobre o tabuleiro do feitiço e sacou o celular.
- Dante? Anote aí, à Oeste.....
Kojirou sempre fora bom em entrar nos lugares sem ser percebido, adorava fazer isso para pegar seus oponentes de surpresa, mas pegar seu chefe de surpresa seria algo totalmente inédito, e divertido. Estavam os Quatro Cavaleiros em uma ilha deserta no meio do nada, o local ideal para se erguer Pandemonium. Helena e Crowley estavam doutrinando os demônios, conseqüentemente deixando Claudius sozinho. O loiro decidiu aproveitar o tempo livre para banhar-se na cachoeira da ilha, sem dúvidas, uma maravilha natural. Estava sob a cascata, deixando a água massagear suas costas quando percebeu a presença do demônio oriental.
- Você realmente é bom nisso. – Claudius elogiara seu aliado.
- Nos meus tempos de humano, saber se infiltrar era uma habilidade essencial. – justificou-se Kojirou, sentado sobre uma pedra à margem do pequeno lago formado pela cachoeira.
O oriental brincava com as vestes do chefe, uma magnífica toga romana, branca com um manto púrpura. Também não resistiu girar Tyrfing, a espada de Claudius, no ar.
- Você tem um belo set de equipamentos aqui, sabia, chefe? – disse, com um sorriso.
O Filho de Mundos saíra da água, seu corpo escultural e pálido, uma verdadeira estátua grega, ainda molhado. Enxugou-se com uma toalha que trouxera, e fitou Kojirou, que ainda estava na posse de suas roupas.
- Minhas coisas, por favor. – disse, um pouco frustrado.
Kojirou desapareceu no ar, e ressurgiu atrás de Claudius. Começou a vestir o chefe com presteza, as mãos alternando entre os mantos, a espada e o corpo do meio-demônio.
- Permita-me, senhor. Um ato de deferência deste servo.
O demônio de cabelos negros era habilidoso, logo o Filho de Mundos já estava vestido e com espada na cintura.
- Lembre-se que não compartilho de suas preferências. – balbuciou Claudius ao sair de perto de seu subordinado.
Kojirou riu maliciosamente, aguardando por mais manifestações de seu mestre, que não tardaram a vir:
- Chame os outros, já é hora de erguermos Pandemonium, de darmos um lar aos demônios que vagam. – disse Claudius em tom de autoridade, em tom de soberano.
Notas finais
-Mulciber: tirei o nome do poema épico inglês "Paradise Lost", de John Milton. No poema, Mulciber era um arquiteto celestial e suborninado de Lúcifer. Quando Titio Luh se revolta, Mulciber vai junto.
-Pandemonium: do latim "todos os demônios", é o nome da capital do inferno em "Paradise Lost".
-Tyrfing: espada da mitologia nórdica. Dizia a lenda que era uma arma amaldiçoada.
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