Twisted Demon Opera
3 Hole in My Soul
Dante e Nero não demoraram a chegar ao DMC de Fortune Island, e ainda estavam do lado de fora quando ouviram gritos femininos provenientes do interior do estabelecimento. Nero abriu a porta rapidamente, mas Dante tentou entrar no mesmo tempo que ele. Conseqüentemente, ficaram os dois entalados na entrada.
- Você não sabe esperar! – resmungou Nero, espremendo-se para entrar.
- Ah, não reclama! Você ainda estaria lá com aquele maluco se não fosse minha ajuda! – retrucou Dante.
A cena que os dois caçadores presenciaram, no entanto, aliviou a consciência do mais novo e atiçou a malícia do mais velho. Kyrie estava jogada na mesa, a saia e a blusa haviam recebido novos e generosos decotes, de modo que era possível ver a lingerie negra e as curvilíneas pernas da garota, que respirava com dificuldades. Sobre ela, Trish sorria de modo maldoso enquanto manuseava uma tesoura. A mulher-demônio brincava com os cabelos da humana usando sua mão livre e simultaneamente desferia cortes na roupa da ex-sacerdotisa.
-Meninas, meninas, não precisam disso, tem um homem prontinho pra vocês aqui! – disse um sorridente Dante – Ou seja, eu! – completou, apontando para si.
- Não há motivos pra se preocupar, apenas decidi dar um visual mais sensual para a menininha inocente aqui. – explicou-se Trish, ignorando a provocação do filho de Sparda e largando Kyrie – Mas ela parece não ter gostado muito da idéia.
- Trish?! O que faz aqui?! – inquiriu Nero, aparentemente incapaz de processar todas as informações, afinal, seus olhos insistiam em analisar o novo modelito de sua namorada.
- Vim para cá, pensando que Kojirou poderia atacar aqui. Prefiro esperar minha presa a segui-la – explicou a loira, dando uma piscadela para Dante – E quando cheguei, encontrei Kyrie. – completou.
Nero fez um meneio com a cabeça, e foi ter com Kyrie. Neste meio tempo, Dante, como se estivesse na própria casa, foi até a pequena geladeira que ficava sob a escada que levava ao quarto de Nero. Abriu-a para pegar uma cerveja e um pedaço de pizza gelado, afinal, beber de estômago vazio não é bom, aliás, por que não pegar também o pote de sorvete?
- Você precisa comprar mais comidas pra deixar aqui! Nunca se sabe quando vai ter visitantes! – exclamou Dante, ao se atirar no sofá com o pedaço de pizza na boca, a cerveja em uma mão e o sorvete na outra.
- E você precisa aprender a respeitar o espaço dos outros – retrucou o “anfitrião”.
Kyrie e Nero sentaram-se no sofá em frente ao que Dante ocupara, e Trish sentou-se sobre a mesa do escritório. Nero tomou um pouco de fôlego antes de falar:
- Agora, Dante, se puder explicar o que está acontecendo, ficaria feliz.
O mais velho terminou de engolir a pizza e empurrou tudo para baixo com a cerveja, depois encarou Nero por alguns instantes, às vezes, tinha a impressão de estar falando com Vergil. Não sabia dizer exatamente o porquê, mas algo naquele rapaz era do seu irmão, e não estava falando de Yamato.
- Bom, já que não tem jeito, vamos lá. Alguns dias atrás, eu consegui recuperar um objeto demoníaco de grande poder, uma “semente” chamada Mulciber. Pouco depois fui atacado por três demônios, que roubaram a “semente” de mim. Qual o poder exato dela, eu não sei dizer, por isso estou esperando que Julian faça contato, ele deve entender mais disso do que eu, mas sei que as lendas se referem a ela como sendo a principal arma de Mundus no passado, e símbolo do Rei do Inferno. Agora, com certeza você deve estar se perguntando o que isso tem haver com Kojirou e você. Veja bem, após ser atacado, fui com Lady para o Devil May Cry, e não demorou para que Trish chegasse lá também – nisso, o meio-demônio e olhou para a loira, como se pedisse para ela continuar.
- Vários anos atrás o irmão de Dante, Vergil, derrotou Kojirou e pensou tê-lo destruído. No entanto, o demônio sobreviveu, estava apenas em um estado latente. Recentemente ele foi despertado e eu estava no rastro dele quando ouvi boatos sobre uma aliança entre ele e outro demônio, que aparentemente estava congregando os malditos em uma espécie de seita. Depois também ouvi sobre o ataque a Dante, e fui correndo para o Devil May Cry. Juntamos as peças e aqui estamos nós.
Nero refletia cuidadosamente sobre tudo, era, de fato, uma série de eventos que se interligavam formando uma teia que unia a todos eles numa, ainda por vir, brutal batalha.
- Deixe-me ver se consegui entender tudo – disse Kyrie – O demônio que atacou Dante e roubou a “semente” está juntando um exército, e faz parte desse exército aquele homem que nos atacou, correto? Mas então, ele nos atacou por qual motivo exatamente?
- Vingança – respondeu Dante – Kojirou estava, na verdade, atrás de meu irmão, mas como ele não está mais por aqui, acabou chegando até vocês.
- Tsc, que complicação! Então qual é o plano? Ir atrás desses demônios, acabar com eles e recuperar essa tal “semente”? – perguntou Nero.
- Haha! Isso mesmo! O problema é que...bom, nós não sabemos nem por onde começar a procurar, agora que perdemos o rastro de Kojirou. – respondeu o meio-demônio de vermelho.
- Julian deve saber um método de localizá-los, mas era pra ele ter entrado em contato conosco faz algumas horas – complementou Trish.
O quarteto ficou em silêncio, imaginando o que poderia ter atrasado o ex-professor. Teria sido atacado? Difícil dizer, e mesmo que fosse, não era tão simples assim derrotá-lo, afinal, fora ele, junto de Dante, o algoz de Minos, juiz do Inferno. Não obstante, era visível nas faces dos quatro a preocupação, Julian estava, no final das contas, sozinho.
Era madrugada em Londres, capital da neblina, mas nem por isso o movimento diminuíra na metrópole britânica. Como toda grande cidade, a antiga Londinium tinha um intenso movimento noturno, e como toda cidade antiga, também tinha uma intensa atividade demoníaca após o pôr do sol. Era exatamente por isso que Julian estava na sua antiga cidade. Apesar de ter passado um bom tempo da vida em Cambrigde, fora em Londres que nascera e crescera. Fora lá também que conhecera Emily, no que agora parecia um passado distante e ao mesmo tempo, próximo ao ex-professor.
- Então, é aqui que deseja perecer? Dentro do corredor de andantes da ponte de Londres? – inquiriu Julian, com certo senso irônico. Os curtos cabelos negros do londrino estavam perfeitamente penteados, e junto dos óculos de armação de acetato, emolduravam o rosto jovial e os olhos cor de rubi.
- A ponte me soou um bom lugar para se enterrar um professor de religião. – retrucou o homem que Julian perseguira, um sujeito de longos cabelos castanhos, que desciam encaracolados sobre a pele branca e o casaco vinho feito de veludo.
O corredor de andantes era uma espécie de passarela coberta que ligava as duas torres da ponte de Londres, mas ao contrário do que era de se esperar, estava vazio, apenas o Tamisa era testemunha do diálogo. O ex-professor sacou lentamente sua elegante espada, Clarent, e a apontou na direção do inimigo.
- Você tem bebido da humanidade por pelo menos quinhentos anos, não é mesmo, Strigoi?
- Isso é verdade, viver no supersticioso leste Europeu foi uma escolha prudente de minha parte. Veja só, o simples fato de eu pegar o barco Deméter e vir para a Inglaterra atraiu sua atenção. Deveria ter ficado nos Cárpatos.
- Acho que tempestades elétricas nessa época do ano e um barco que atraca sem uma única alma viva são coisas suspeitas. – respondeu Julian, ainda com tom irônico.
- Em séculos, você é o primeiro que conseguiu identificar meu padrão e me localizar. Dou-lhe as congratulações por tal façanha, mas agora, basta de conversa!
Strigoi desapareceu em uma nuvem negra e ressurgiu na frente de Julian, para logo em seguida golpeá-lo com as unhas afiadas. Qual não foi a surpresa do demônio ao ver que partira seu inimigo ao meio, ou melhor dizendo, partira um espelho com o reflexo de seu inimigo ao meio. O ex-professor surgia atrás do oponente, e cravava-lhe a espada no peito.
- Não achou estranho o fato de a ponte estar vazia? – perguntou Julian, friamente.
- Argh! Era uma emboscada! Você usou um espelho para me enganar e me pegar de surpresa. Foi você que me fez vir nesta direção, e não o contrário... – concluiu Strigoi.
- Exatamente. Eu não apenas identifiquei seu padrão, como também suas características especiais. Não era à toa que os aldeões dos Cárpatos o viam como um vampiro: velho, bebedor de sangue e incapaz de produzir reflexo. Mas, como você mesmo disse, basta de conversa! – bradou Julian.
Em um movimento rápido, o ex-professor tirou sua espada do peito do inimigo e cortou-lhe a cabeça. Depois tirou o sangue da arma e a embainhou.
- Não vou cometer o mesmo erro dos outros caçadores... – disse para si em voz alta, ao tirar um frasco de sal e outro de água benta de dentro do casaco branco.
Julian despejou o conteúdo dos dois frascos no cadáver, e logo em seguida sacou um isqueiro para incinerá-lo. Quando as chamas começaram a consumir os restos de Strigoi, o ex-professor deu-lhe as costas, e caminhou lentamente rumo à saída da passarela. O fato de Strigoi ter se mexido após quinhentos anos era digno de nota, talvez ele planejasse encontrar-se com a congregação de Claudius. Deveria ter interrogado o demônio antes de despachá-lo. Passou a mão no rosto, esquecera-se de fazer a barba novamente, Ayame iria irritar-se com ele. Não, não poderia fazê-lo, ele era, afinal, o tutor da garota, quem deveria irritar-se com o desleixo alheio era ele, e não ela.
Desde a libertação de Emily, Julian vivia como caçador, e dos bons. Contabilizava tantos casos quanto Dante, mas tinha a vantagem de ser um profundo conhecedor do oculto, o que lhe permitia combater os demônios de igual para igual não só na força, mas também na inteligência. Alguns meses atrás, envolvera-se na caçada de um Ayakashi em Kyoto, que culminara com a morte de um casal de amigos, sacerdotes de um templo xintoísta na antiga capital imperial do Japão. Desde o incidente, o ex-professor tornara-se tutor e responsável legal pela órfã do casal, uma garota de temperamento difícil chamada Ayame. Não a deixara num orfanato no Oriente por medo do que poderia ocorrer a ela, que tinha um tremendo poder espiritual adormecido. Preferiu levá-la consigo, instruí-la pessoalmente nas artes do oculto. Perdera Emily, perdera os pais da garota, não iria perdê-la também. Olhou seu relógio de bolso, estava atrasado, Dante certamente iria xingá-lo por isso.
Notas finais
"Strigoi" significa Vampiro em romeno, e segundo o folclore local, costumavam habitar os Cárpatos, uma cadeia de montanhas do Leste Europeu. Também se dizia que o diabo tinha uma escola de magia negra no local, ou seja, morar lá era sinônimo de vizinhança agradável u.u
Démeter, por sua vez, é nome da deusa grega da colheita e também do navio, que no romance "Drácula" de Bram Stoker, o vampiro usa para ir até Londres.
Ayakashi significa demônio ou espírito maligno em japonês, lembrando que demônio na mitologia nipônica tem uma conotação diferente da que estamos acostumados.
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