POV Bella

A casa nunca foi tão silenciosa.

Não era o tipo de silêncio que acompanha a madrugada — era um silêncio mutilado, como se algo essencial tivesse sido arrancado do mundo enquanto todos dormiam.

Eu acordei com o coração disparado, a respiração curta, uma dor absurda no peito que não fazia sentido físico. Antes mesmo de abrir os olhos, eu soube.

Renesmee não estava ali.

Levantei num salto, ignorando Edward ao meu lado, atravessando o corredor como quem corre contra o tempo. Abri a porta do quarto dela.

A cama estava intacta.

O cobertor dobrado.

O ar… vazio.

— Não — sussurrei, a palavra quebrando na minha garganta.

Edward surgiu atrás de mim. Ele não precisou tocar em nada. Não precisou pensar. O corpo inteiro dele ficou rígido.

— Cade — ele disse.

O nome não foi dito em voz alta. Foi sentenciado.

Carlisle apareceu logo depois, seguido por Esme, Rosalie, Emmett, Jasper e Alice. Quando Alice parou na soleira da porta, seu rosto perdeu toda a cor.

— Eu não vejo — ela disse, quase num pedido de desculpa. — Não existe nada depois da meia-noite. É como… um buraco.

Qetsiyah surgiu como uma sombra viva na sala.

— Ele atravessou com ela pelo Outro Lado.

Minhas pernas falharam.

— Ele levou minha filha para o inferno — eu disse.

— Não — Qetsiyah corrigiu, com frieza. — Ele levou o inferno até ela.

-

POV Edward

O mundo se reorganizou em segundos.

Não houve pânico. Houve movimento.

Emmett foi o primeiro a falar:

— Diz onde eu quebro.

— Não é força bruta — respondeu Qetsiyah. — Cade é estrutura. Ele é lei.

— Então a gente quebra a lei — Damon retrucou, surgindo na sala.

Edward observava Bella. Ela não chorava. Não gritava. O rosto dela estava perigosamente calmo — o tipo de calma que antecede decisões irreversíveis.

— Ele quer o sino — disse Silas, surgindo perto da lareira, como se sempre tivesse pertencido àquela casa.

Todos se viraram.

— Doze toques — continuou. — O fogo do inferno sobre Mystic Falls. As sereias cantam. A cidade obedece. Cade reina.

Carlisle respirou fundo.

— O sino dos fundadores.

— Foi criado para destruir as sereias — Silas disse. — Mas elas o corromperam. Agora ele abre portais.

Bella ergueu o olhar.

— Onde.

— A igreja de Forks — respondeu Silas. — Onde tudo começou.

Edward se aproximou dela.

— Eu vou com você.

— Não — ela respondeu. — Você fica.

Ele franziu o cenho.

— Bella—

— Você fica para impedir o sino. — Ela tocou o rosto dele. — Nossa filha precisa que o mundo ainda exista quando eu voltar.

O silêncio que caiu foi absoluto.

— Eu vou com você — disse Stefan, dando um passo à frente. — Se Cade quer duplicatas, não vai ficar só com uma.

Rosalie cruzou os braços.

— Ninguém leva uma criança Cullen para o inferno sem pagar o preço.

— Então somos nós — Emmett sorriu, feroz. — Inferno é só um lugar quente.

Jasper assentiu.

— Eu controlo o campo emocional. Isso vai ajudar lá.

Decisão tomada.


POV Bonnie

O círculo mágico foi traçado no bosque, longe da igreja.

Bonnie, Qetsiyah, Lucia e os Viajantes entoavam o feitiço antigo, a magia vibrando no ar como eletricidade pura. O chão começou a rachar lentamente.

— Isso não vai ficar aberto por muito tempo — Bonnie alertou. — Cade vai sentir.

— Que sinta — respondeu Qetsiyah. — Ele precisa saber que estamos vindo.

O portal se abriu como uma ferida na realidade.

Ar gelado.

Sussurros.

Ecos de almas que não sabiam que estavam mortas.

Bella deu um passo à frente.

Edward segurou sua mão uma última vez.

— Traga nossa filha de volta.

— Eu prometo.

E então ela atravessou.

Stefan, Rosalie, Emmett e Jasper vieram logo atrás.

O portal se fechou com um estrondo que fez a floresta inteira estremecer.

-

POV Renesmee

O Outro Lado não era fogo.

Era espera.

Um lugar feito de ecos, onde as almas repetiam seus últimos pensamentos como orações quebradas. Cade caminhava ao meu lado como se estivesse passeando por um jardim que lhe pertencia.

— Você sente tudo, não sente? — ele perguntou. — O que foi. O que será. O que poderia ter sido.

— Eu vi a casa queimando — respondi.

Ele sorriu.

— Visões são avisos, não sentenças.

Parou diante de uma estrutura negra, alta como uma catedral.

— As sereias acham que controlam o fim — disse. — Mas elas só conhecem o sino. Eu sou o que responde a ele.

— Minha mãe vai vir — eu disse.

— Eu sei.

Ele se inclinou até ficar à minha altura.

— É por isso que essa guerra vai decidir tudo.

-

POV Damon

A igreja estava cercada.

Edward, Caroline, Enzo, Jeremy, Alice, Carlisle, Esme, Felix e os Viajantes formavam um perímetro silencioso. O sino pendia acima deles como uma ameaça viva.

— Ela vai tentar usar vocês — Felix disse. — Principalmente você, Damon.

— Que surpresa — Damon respondeu.

Sybil apareceu no alto da torre, sorrindo. — Um…

O sino vibrou levemente.

Alice levou a mão à cabeça. — Não. Ainda não.

— Vocês sempre chegam tarde — Sybil cantou. — A cidade sempre toca quando a música começa.

Caroline avançou. — Isso acaba hoje.

— Tudo acaba — respondeu Seline, surgindo ao lado da irmã. — É só uma questão de ritmo.

-

POV Bella

O Outro Lado reagiu à presença dela.

Bella sentia tudo. As almas. A dor. O peso do tempo.

Silas surgiu ao seu lado.

— Ele vai te oferecer escolhas falsas.

— Eu sei.

— Se você me ajudar… — ele começou.

— Não — Bella respondeu. — Eu não negocio minha filha.

Silas assentiu. — Então que o mundo sobreviva à sua decisão.

À distância, Bella sentiu.

O sino.

O primeiro toque ecoou através das realidades.

E ela correu.

-

POV Narrador

Na igreja, Sybil sorriu enquanto o metal vibrava.

— Dois…

O chão tremeu.

O inferno começava a escutar.

E todos entenderam, ao mesmo tempo:

essa não era mais uma guerra por poder.

Era uma guerra pelo direito de existir.