O Outro Lado não era escuridão.

Essa foi a primeira coisa que Bella percebeu ao atravessar o portal.

Era um espaço de tons quebrados — cinzas que não eram cinzas, uma luz fria que parecia existir sem fonte, como se o próprio ar lembrasse de um dia que já foi claro demais para se apagar. O chão parecia sólido sob seus pés, mas não havia sensação de peso real. Cada passo era acompanhado por um eco distante, não de som, mas de memória.

O Outro Lado era feito de lembranças que não queriam morrer.

Bella sentiu o impacto da travessia como uma pressão no peito, o fôlego preso por um segundo longo demais. Stefan surgiu ao seu lado quase ao mesmo tempo, o rosto sério, os olhos atentos, vampiro até o último detalhe, mas com algo profundamente humano ali: medo.

Rosalie, Emmett e Jasper atravessaram em seguida, a presença deles criando uma espécie de âncora emocional. Eles estavam ali por Renesmee. E isso fazia toda a diferença.

— Ela está aqui — Bella disse, sem saber como sabia. A voz saiu baixa, mas firme. — Eu sinto.

Jasper inclinou levemente a cabeça, como se captasse algo invisível. — Não é só você. Há… dor. Medo antigo. E algo mais. Algo que gosta disso.

O nome não precisou ser dito.

Cade.

O ar mudou antes que ele aparecesse. Um frio que não vinha do ambiente, mas de dentro, como se algo tocasse diretamente o medo mais íntimo de cada um.

Então ele estava ali.

Cade não surgiu como um monstro. Não havia chifres, nem fogo, nem sombras exageradas. Ele se apresentou como um homem alto, postura relaxada, roupas escuras que pareciam feitas do mesmo vazio que o cercava. O sorriso era pequeno, quase educado.

— Isabella Swan — ele disse, com prazer genuíno. — Finalmente.

Bella deu um passo à frente instintivamente, o coração acelerando. — Onde está minha filha?

Cade inclinou a cabeça, observando-a como quem analisa uma peça rara. — Tão direta. Tão humana. Mesmo depois de tudo… ainda acha que pode negociar comigo.

— Não estou aqui para negociar — Bella respondeu. — Estou aqui para buscá-la.

O sorriso dele se ampliou um pouco. — É sempre isso que as mães dizem.

Com um simples gesto de mão, o espaço atrás dele se abriu como uma cortina. Renesmee estava ali, sentada no que parecia um banco de pedra clara, os pés balançando levemente no ar. Ela estava ilesa. Mas seus olhos… seus olhos estavam carregados demais para alguém tão jovem.

— Mamãe! — a voz dela cortou o ar como uma lâmina.

Bella correu, mas foi interrompida por uma força invisível que a fez parar bruscamente.

— Não — Cade disse, calmo. — Ainda não.

O desespero tentou subir, mas Bella respirou fundo. Ela já tinha enfrentado vampiros, deuses falsos, perdas impossíveis. Cade não teria o controle da sua mente.

— Solte ela — Bella disse, cada palavra firme. — Agora.

Cade suspirou, quase entediado. — Você não entende. Eu não a tomei por crueldade. Tomei porque ela… é especial. Um ponto de ruptura. Um farol entre mundos. Assim como você sempre foi.

Ele caminhou lentamente ao redor de Bella, como um predador paciente. — Você atravessou limites por amor. Morreu, voltou, desafiou destinos. Renesmee herdou isso. Mas diferente de você, ela vê. O Outro Lado não a machuca. Ele responde a ela.

— Não fale como se tivesse o direito — Bella rosnou.

Cade parou diante dela, os olhos finalmente escurecendo. — Eu tenho todos os direitos. Sou o fim de todos os caminhos.

Foi Stefan quem avançou primeiro.

O ataque foi rápido, brutal. Stefan acertou Cade com força suficiente para derrubar qualquer criatura conhecida. Cade apenas deslizou para trás, como fumaça rearranjando-se.

— Ah, o herói trágico — Cade comentou. — Sempre tão previsível.

O espaço se rompeu.

A luta começou sem aviso real. Cade se moveu como se o mundo obedecesse à sua vontade, lançando Stefan contra o nada, jogando Emmett para longe com um gesto, obrigando Rosalie a proteger Renesmee instintivamente.

Bella sentiu algo despertar dentro de si. Não era força física. Era decisão.

Ela avançou, ignorando o medo, o peso, o impossível.

— Você não pode me parar — ela disse, encarando Cade. — Não quando se trata dela.

Por um instante — apenas um — Cade pareceu hesitar.

Esse instante foi o suficiente.

Jasper atingiu-o por trás, canalizando toda a raiva e o desespero acumulados em séculos. Emmett segurou Cade, mesmo com o espaço se desfazendo ao redor deles. Stefan voltou, sangrando, mas inteiro.

Bella correu até Renesmee e a puxou para os braços.

— Eu estou aqui — ela sussurrou, a voz quebrando. — Mamãe chegou.

Renesmee se agarrou a ela, as pequenas mãos tremendo.

— Ele queria que eu desistisse… disse que vocês iam me esquecer…

Bella fechou os olhos, engolindo o choro. — Nunca.

O grito de Cade ecoou quando eles o atingiram juntos. Não foi uma morte simples. Foi um colapso. O Outro Lado começou a se desfazer, rachaduras de luz cortando o espaço.

— Vocês acham que isso acaba comigo? — Cade rugiu, sua forma se distorcendo. — O inferno não precisa de mim para existir!

— Talvez não — Bella respondeu, segurando Renesmee com força. — Mas ela não precisa de você.

O golpe final veio como um silêncio absoluto.

Cade caiu.

E o portal se abriu.


O sino da igreja de Forks soou pela primeira vez como um lamento.

O som não era apenas ouvido — ele era sentido. Vampiros levaram as mãos à cabeça. Bruxas sentiram o chão tremer sob seus pés. Humanos ficaram paralisados, lágrimas escorrendo sem saber por quê.

Damon caiu de joelhos no primeiro toque.

— Isso… isso é errado — ele murmurou, os olhos ardendo.

Caroline sentiu o coração disparar, emoções que não eram suas tentando se infiltrar. Enzo segurou sua mão, mesmo lutando contra a própria dor.

— As sereias — Bonnie disse, o rosto pálido. — Elas começaram.

Sybil e Seline surgiram próximas ao sino, lindas e terríveis, os olhos brilhando de prazer enquanto humanos enfeitiçados — Damon, Caroline, Enzo, outros da cidade — eram puxados pela compulsão do som.

— Doze toques — Sybil cantarolou. — E o mundo arde.

As bruxas se reuniram em círculo. Bonnie, Qetsiyah, Lucia e os viajantes ergueram as mãos ao mesmo tempo. O ar se incendiou em azul, roxo e dourado.

— Agora! — Bonnie gritou.

O portal se abriu no centro da igreja no exato momento em que Bella e os outros atravessaram de volta.

O reencontro foi caótico, desesperado. Edward quase perdeu o controle ao ver Renesmee em segurança. Alice chorou. Charlie segurou Bella como se ela pudesse desaparecer se ele soltasse.

Mas não houve tempo.

O sino tocou novamente.

Felix apareceu ao lado de Carlisle, o rosto tenso. — Descobrimos algo. O sino… ele foi criado para destruir as sereias. Mas foi corrompido. Se o incendiarmos com fogo mágico do Outro Lado, ele pode… pode acabar com elas. E com tudo ligado a elas.

— Inclusive Silas — Carlisle disse, entendendo.

Silas já estava ali.

Ele olhou para Damon por um longo segundo. Dois seres que enganaram a morte mais vezes do que deveriam.

— Então é assim — Damon disse, um meio sorriso cansado. — Que poético.

Silas inclinou a cabeça. — Sempre soube que meu fim seria barulhento.

O fogo começou a subir ao redor do sino.

Sybil gritou quando percebeu tarde demais. Seline tentou escapar, mas o som agora as despedaçava por dentro.

Damon deu um último olhar para Stefan. — Cuida deles...Adeus, irmão...

E então, juntos Damon e Silas avançaram.

O fogo os consumiu quando o sino tocou pela última vez.

—Damon!- gritou Bella querendo que ele não fosse.

O som morreu.

O silêncio caiu.

E a guerra nunca mais seria a mesma...