Notas iniciais
Olha eu de volta!!

Meu último ano na High School foi tranquilo, se não fosse por Ethan me arrastando para as festas teria sido um tédio total. Eu nunca fui muito de beber, tirando pouquíssimas ocasiões, não por ser a certinha, mas todo atleta aprende desde cedo que bebida diminui a força, a velocidade, a capacidade respiratória e muscular, o equilíbrio… Bruce fazia questão de repassar essa lista comigo sempre.

Enquanto espalhava todas minhas coisas pelo quarto me perguntava se na universidade seria diferente, eu não teria Ethan para me levar a lugar nenhum, provavelmente ficaria trancada no quarto maratonando filmes ou lendo algum livro comendo salada.

Por mais que eu só fosse para a Carolina no fim do verão eu precisava me preparar, era outro clima, outra rotina, eu nunca fui super organizada, mas acordei com vontade de dar um jeito em tudo isso logo. Separar as roupas de doação, lavar todos meus tênis, embalar as fotografias, eu tinha incontáveis álbuns de foto para decidir quais levaria ou não, para uma jovem eu tinha um espírito de tia velha.

Separei todas minhas roupas esportivas surradas para levar, era o que eu tinha e mesmo velhas ainda serviam. Bella tinha me permitido escolher várias roupas novas de sua loja como presente, logo estava abastecidas de todas as peças possíveis, até lingerie, o conjunto vermelho rendado estava jogado na minha cama e eu não conseguia olha-lo sem rir.

Eu não ia em festas, imagine arranjar um namorado.

Um problema que eu tenho quando arrumo minhas fotografias era a vontade de parar tudo e ficar olhando elas pela milésima vez. Peguei a caixa de álbuns e sentei no chão empurrando meus moletons para longe junto com outras bugigangas, olhei desde os álbuns que minha tia trouxe do Brasil, com fotos da família e era possível olhar nossas semelhanças, a pele azeitonada, os olhos escuros e a pouca altura até os álbuns relativamente recentes, até o meu último livro do ano, no qual eu estava linda inclusive.

Retornando ao álbum de família mais antigo, passei os dedos pelas fotos já amareladas, elas me preenchiam de uma nostalgia do que eu nunca tinha vivido, as mulheres da minha família me olhavam com os olhares fortes e duros, essas semelhanças eram as únicas coisas que me impediam de me imaginar sendo adotada, quando eu era mais nova me perguntava qual daquelas mulheres seria minha mãe, comparava os mínimos detalhes.

Meus tios nunca me confirmavam ou negaram nada, minha origem continuava nebulosa para mim mesma, eles só me diziam “Sua mãe não pôde te criar, você nasceu na Bahia, mas Marcela trouxe você ilegalmente para os EUA e nós ganhamos uma nova filha de coração” e eu os amava muito por isso.

Fechei o álbum apertando ele contra meu peito, com certeza levaria quase todos para matar a saudade quando ela apertasse, eu nunca sai de perto dos meus tios e de Rayssa, isso fazia meu coração apertar, a sensação de ficar sozinha em outro estado era aterrorizante.

Embolei o resto das minhas coisas que ficaram para arrumar depois para dentro do armário, Rayssa surtaria quando visse. Entrei no chuveiro logo em seguida para tirar a poeira do corpo, lavei o cabelo tirando todos os nós, a voz gostosa de Frank Ocean tocava abafada no meu quarto, a água gelada fazia minha pele formigar, olhei todo meu banheiro como se fosse a última vez, o papel de parede amarelo gasto, todos os meus cremes e de Rayssa no armário, até da pequena janela com o vidro trincado eu sentiria saudades.

Ethan nunca foi a pessoa mais pontual, mesmo que dirigisse rápido feito um fugitivo, ouvi a buzina escandalosa mesmo do quintal e sai correndo para fechar tudo antes de sair.

Meu amigo não conseguia ficar com os dedos quietos no volante, mas mantinha os olhos verdes concentrados no caminho. Ele que nunca planejava absolutamente nada decidiu que nossa despedida deveria ser longa e épica, repassando todo o roteiro comigo sempre que podia, apenas escondendo as surpresas.

A etapa de hoje seria em Miami, o ar salgado entrava nos meus pulmões revigorando minha alma, inclinei a cabeça levemente para fora do carro sentindo o sol na pele, na minha fotossíntese imaginária. A Ocean Drive sempre foi a avenida mais sedutora de Miami, tinha tudo que eu amava, restaurantes diversos com suas mesas lotadas nas calçadas, os ritmos musicais diferentes tinham harmonia entre si, a praia convidativa me chamava, o mar brilhava em todo o lado esquerdo da avenida, entre os coqueiros turistas relaxavam na grama, mas alguns corriam ou andavam de bicicleta.

Absorvi toda aquela sensação de paz ao máximo que consegui, chegamos a marina no meio da tarde, iates enormes e veleiros balançavam tranquilamente sincronizados com o movimento da maré. Nos dirigimos a lancha que Tia Bella sempre nos trazia para comemorar o aniversário do filho mais novo todo ano.

A lancha era grande, daquelas com cômodo embaixo e todo um deck atrás, o nome Mili-Helena já desgastado estava do lado de fora da lancha. Guardei nossas coisas no compartimento de baixo enquanto Ethan ligava o motor velho, ele não tinha falado quase nada no trajeto e muito menos quando chegamos, como eu já conhecia a lancha como a palma da minha mão não precisei de orientações.

Coloquei meu biquíni azul de sempre e fui tomar sol, água salpicava na minha pele enquanto íamos cada vez mais longe da costa. Deitei no deck descascando o nome mili-helena por tédio e a tinta preta acumulava nas minhas unhas até que senti uma sombra tampando o sol.

— Minha mãe odeia esse nome, eu já te contei o que Mili-Helena significa?

Antes que eu respondesse ele já se adiantou, sentando do meu lado, com seu fiel copo lilás de gin na mão bebericando a cada frase.

— Helena era filha de Zeus, aquela que causou a Guerra de Tróia, ela era descrita como linda. Quando ela foi sequestrada, as tropas de resgate foram de barco atrás dela em Tróia, o pintor Goethe descreveu ela como “um rosto capaz de lançar mil navios ao mar”. Ou seja, para resgatar uma pessoa com 1 Helena de beleza, valeria a pena enviar mil navios e isso virou unidade de medida.

Ethan já estava vermelho de sol, ele tinha o rosto virado para baixo e o cabelo longo só deixava seu sorriso a mostra, sorri respondendo me inclinando para cima.

— Onde você aprende essas coisa? — Ethan deu de ombros como se sempre soubesse dessas trivialidades — Mas e aí, eu valho 1 mili-helena?

— Talvez dois mili-helena

levantei as sobrancelhas de surpresa voltando a deitar, de um tempo para cá Ethan vinha ficando cada vez melhor em me deixar acanhada, se eu pudesse corar já estaria vermelha até a raiz do cabelo e sua aparência não ajudava, Ethan não era mais o garoto nerd de aparelho que eu puxei conversa no fundamental falando de Harry Potter.

— Só não vou dizer que você está mentindo porque hoje eu tirei o buço então realmente devo esta muito bonita.

Ethan me encarou acompanhando minha risada, jogando o rosto para trás, ele logo levantou colocando uma playlist de música eletrônica que fazia minha cabeça doer normalmente, mas não hoje, esse dia nós precisávamos curtir ao máximo.

Dançamos loucamente até ele se jogar em alto mar, acompanhei meu amigo para dentro da água gelada mergulhando no desconhecido, a sensação de não ter nada ao nosso redor era libertadora, Miami a muito sumira no horizonte. Do outro lado estava as Bahamas, mas eu não via nada também, apenas água, Ethan puxou meu pé para baixo e mergulhamos de novo.

Ficamos nessa brincadeira até golfinhos aparecerem saltitando, comemos salgadinho e tiramos várias fotos aleatórias. Rimos da vida pelo resto dia e eu voltei a implorar Ethan para ir para a universidade comigo, mas ele me relembrava sempre que era um espírito livre demais para se prender a outra rotina depois de formar a pulso no ensino médio.

Retornamos para casa cansados e queimados de sol, eu tive que passar hidratante em Ethan porque ele ardia, é difícil a vida da pessoa sem melanina, eu tinha uma quantidade pouca, mas era imensamente agradecida a ela.

Pompano Beach é perto de Miami então eu só consegui cochilar no caminho por 1 hora mais ou menos, o mar me deixava extasiada igual criança. Pegamos o pôr do sol na estrada, tirei várias fotos borradas da janela do carro mas o que valia era a intenção.

Ethan e eu moravamos perto, então minha casa era caminho para a casa ele. No nosso bairro, quase todas as residências eram iguais, paredes claras, janelas grandes e com grama na frente, dificilmente alguma tinha outro andar além do térreo, algumas tinham bandeiras na frente, Brasil, Porto Rico, República Dominicana foram algumas das que eu reconheci, era nossa forma de mostrar orgulho de onde vinhemos.

Na frente da minha casa tinha uma bandeira brasileira, Ethan virou manobrou o carro virando a esquina e eu já esperava ver ela flutuando com a brisa quando avistei outra coisas bem diferente na frente da minha casa, o carro da polícia me esperava com a sirene ligada, as luzes vermelha e azul iluminavam brilhavam violentamente iluminando a noite escura.

Mais precisamente duas viaturas estavam na porta da minha casa, uma ambulância e dezenas de policiais e investigadores circulavam acelerados, meus vizinhos se aglomeraram em suas varandas para ver o que acontecia na casa da família Guerra, minha familia sempre foi conhecida na comunidade e muito tranquila, não éramos envolvidos com nada errado.

Ethan parou o carro perto da calçada mas antes mesmo de parar completamente eu desci adentrando nosso gramado.

— O que está acontecendo?

Um policial alto tentou me barrar.

— Você não pode entrar na cena do crime, por favor se afaste.

O policial colocou a mão no meu ombro com força, mas continuei investindo contra.

—Crime? O que está acontecendo? Eu moro aqui!

Antes mesmo dele me responder olhei por cima de seu ombro na direção da porta de entrada, duas pessoas naqueles trajes brancos estranhos de proteção tiravam um saco preto de vinil longo que parecia bem pesado. Nesse momento Ethan já tinha me pegou pela cintura antes que eu vacilasse, outro saco era retirado da minha casa, mas esse estava entreaberto e uma mão ensanguentada balançava de um jeito mole que fez meu estômago revirar.

Eram corpos, estavam retirando corpos da minha casa.

Ethan não foi capaz de aguentar meu peso quando vacilei no chão, meus olhos encheram de água rapidamente e minhas mãos instantaneamente se encheram de grama e terra quando eu finquei meus dedos no chão. Medo, angústia não eram nada perto do que senti, nenhum policial veio me explicar o que houve, eles passavam quase em câmera lenta na minha frente.

Eu fiquei lá no chão chorando compulsivamente pelo tempo que poderia ter sido horas ou minutos, eu nunca saberia dizer.

Notas finais
Beijinhos, espero que gostem.