Tutto Sottosopra
5 Bolognese
Notas iniciais

— Seus tios eram envolvidos com alguma coisa ilegal?
—Não.
—Nenhuma organização criminosa ou gangue?
—Não.
—Você sabia que eles tinham entrado ilegalmente no país?
Sim
—Não.
— Não precisa ter medo de contar nada, gangues são comuns nas comunidades latinas, não seria nada que nós policiais não lidamos antes.
Respirei fundo, a sala abafada da delegacia era esmagadora e o interrogatório também, mirei o ventilador de teto girando devagar, as hélices sujas de poeira.
— Eu posso ir embora?
— Senhorita, se você não cooperar estaremos de mãos atadas. — O policial não parecia o mais preocupado possível com o assassinato dos meus tios, seu olhar de desprezo e a atenção voltada para o bloco de nota em branco — Ok, uma última pergunta e você está liberada. Seus tios estavam se comportando diferente na última semana?
Meu coração apertou e uma enxurrada de lembranças vieram a minha cabeça, depois da minha comemoração flagrei eles várias vezes cochichando pelos cantos, ligações de números desconhecidos, nessa minha última semana na Flórida eu não fui a única a arrumar malas.
— Sim, eu nunca tinha visto meus tios tão paranoicos desde quando eu era pequena e nós se mudávamos o tempo todo.
O policial levantou uma sobrancelha e me olhou com curiosidade e finalmente anotou alguma coisa naquele maldito bloco de notas.
Ethan apagou o cigarro assim que abriram a porta da delegacia me dando passagem, deu a volta no carro abrindo a porta do carona, para meu amigo eu tinha virado um bebê, ele me arrastava para o chuveiro, trazia minhas refeições no quarto e depois retornava com elas intactas para a cozinha de volta.
Ethan sempre foi mais cuidadoso com os outros do que com ele próprio.
Assim que chegamos na casa dele eu subi para meu quarto temporário, vislumbrei Rayssa na cozinha cortando verduras e uma mochila preta desconhecida repousava na poltrona creme da sala.
Chegando no quarto meu coração acelerou quando avistei todas minhas malas velhas no chão, minhas caixas também estavam lá com minhas coisas pessoais, do mesmo jeito que eu havia arrumado, antes de tudo desmoronar.
— O que é isso?
— Você não reconhece suas próprias coisas?
— É que às vezes eu esqueço que ainda preciso me mudar, parece que foi em outra vida, outra pessoa. — Uma pergunta sempre pairava na minha cabeça, era a única coisa que eu conseguia pensar na verdade, eu seria capaz de deixar Rayssa? — Eu não tenho mais certeza de nada.
Ethan sentou do meu lado, puxando minhas pernas para seu colo.
— Rayssa gosta da minha mãe, se é isso que te incomoda, eu cuido dela. — Ethan tinha se tornado o mais maduro de nós ultimamente. — Sempre foi seu sonho, você precisa ir, eu tenho todos os motivos para te querer aqui, mas você precisa ir.
— Eu não sei, eu não sei. Rayssa tem só 16 anos, nós não temos mais nada Ethan, meus tios não deixaram nada, sua mãe já pagou o enterro mesmo eu não concordando.
— Rayssa tem só 16, mas você tem só 20 anos.
— Você não entenderia Ethan, meus tios me cuidaram como filha, minha mãe deveria ser uma perdida que nem deve querer ter me tido. Eles me acolheram, eles estavam lá em cada madrugada que eu acordava com dor, eles estavam lá quando eu decidir entrar para o atletismo, ai agora eu pego e viro as costas para a filha deles? Eu não posso.
A cada palavra mais lágrimas caiam, Rayssa sempre foi minha irmãzinha mais nova, minhas memórias mais antigas era de ler para ela. Rayssa só não sentia vergonha de gaguejar comigo. Eu já tinha falhado com ela uma vez, e causei a perda da audição do ouvido esquerdo dela, não falharia outra vez.
Passei a mão na minha perna esquerda, mas por cima do jeans as cicatrizes não podiam ser sentidas, tinha sido culpa minha, elas mantinham minha memória fresca sobre a minha irresponsabilidade.
Ethan me encarava, seus olhos brilhantes não combinavam com as feições sérias que dificilmente eu via nele, mas que estavam lá agora. Meu amigo me puxou para um abraço apertado, o cheiro fraco de cigarro e perfume me envolveu.
Descendo as escadas eu era seguida pelos rostos nos retratos da parede, a primeira era uma criança loira sem dois dentinhos sorrindo no que parecia uma festa de rua. A segunda era um bebê pelado na banheira, aquele tipo de foto que nos envergonha na frente das visitas, os olhos escuros destacavam na pele branca de bebe.
A terceira era Tia Bella, ela não envelhecera nenhum pouco, o cabelo loiro preso e duas crianças risonhas agarradas em suas pernas, um era Ethan. Eu conheci Ethan nessa idade, o outro demorei para reconhecer, o irmão dele que morava fora, mas o nome dele fugiu da minha mente.
— Tia Bella disse que estava com desejo de comer macarrão então fiz massa fresca para nós.
Rayssa mexia a panela de molho borbulhante. Ethan roubou umas azeitonas ainda a tempo de receber dois cascudos da mãe.
— Como vão os meus amores? Rayssa querida, sua bolognese cheira lá até lá na rua. Luca vai amar. — Tia Bella entrou na cozinha, ela continua a mesma mulher bonita e jovem das fotos, com os cabelos loiros cacheados e os mesmos olhos verdes do filho mais novo. — Ele deve voltar a tempo do jantar.
A mais velha irradiava felicidade, ela sempre ficava serena quando o filho mais velho retornava, Bella sempre foi muito aberta, uma vez me disse que o filho tinha um trabalho difícil, e que ele por si só era uma pessoa difícil.
— Romeu vem jantar também, mesmo contra minha vontade, estamos brigados.
— A três anos vocês vivem brigados, mãe, acho que quando fizerem as pazes vocês terminam.
— Culpa dele, qualquer menor minuto de silêncio e ele vem me pedir em casamento, já disse que não mas Romeu não enfia isso na cabeça.
Tia Bella mordiscava algumas azeitonas causando um olhar indignado em Ethan.
Ela fugia do matrimônio igual o diabo fugia da cruz, desde que Ethan e eu começamos a contar nossas aventuras amorosas adolescentes ela fazia questão de nos lembrar que "o casamento é uma instituição falida" e para fugirmos ao máximo.
— ...então eu virei para ele e disse que não podia tirar folga para assistir os jogos da NBA — Romeu falava, bebia e comia, tudo ao mesmo tempo, eu já teria engasgado a muito, mas ele fazia tudo com maestria — Agora estou sem garçom.
— Eu acho você muito incompreensível com seus funcionários, amor.
— Eric sempre foi folgado, meu pai sempre reclamava dele atrasando as comandas no Calypso.
Rayssa citava meus tios em uma tranquilidade que eu invejava, a qualquer referência deles que eu fazia já vinha lágrima nos olhos e um bolo preso na garganta, eu sempre fui a emotiva, chorona nos casamentos.
— Eu estou procurando emprego, Romeu, se você me contratar eu aprendo rápido.
Silêncio na mesa, Tia Bella tão emotiva quanto eu segurava para não chorar, ela sempre falava o quanto nós mulheres precisamos seguir nossos sonhos e me ver desistir dos meus machucava.
— Você está louca, viaja daqui uma semana, seus papéis estão todos prontos.
Rayssa me encarava com raiva nos olhos, o garfo a meio caminho da boca, mas se ela jogasse em mim eu não acharia estranho.
— Você não pode ficar aqui sozinha.
— Eu não vou ficar sozinha, já sou bem grandinha, você não é minha babá.
Ethan era o único que parecia me apoiar, mesmo sem entender meu ponto de vista.
— A Carolina do Norte é fria, você sabe que eu não gosto de frio. — Tomei um gole de água, evitando a comida como sempre, a semanas eu não tinha fome. — Além disso, sou tão de menor quanto você, estamos ambas na mão do conselho tutelar.
Por parte eu estava feliz por esse pequeno impasse.
— Marina, só se você tiver certeza, pode ser algo de meio período, você sabe que não vamos deixar vocês duas sozinhas.
— Eu agradeço Romeu, podemos começar...
— Boa noite a todos — Uma voz grave soou atrás de mim. — Desculpe o atraso, mamma.
Tia Bella levantou na hora abraçando o filho, mesmo muito mais baixa ela conseguiu envolvê-lo, ela, sem nenhuma semelhança física alguém me fez lembrar minha tia e o abraços carinhosos dela.
— Voltou fugindo de quem dessa vez, irmão?
Ethan imaturo estava de volta.
— Grazie irmãozinho, a viagem foi tranquila sim, sua preocupação é tocante.
— Só o melhor para você, de nada. — Ethan levantou puxando o irmão para um abraço forte. — Luca, você precisa me levar na próxima, não aguento mais estudar.
Provavelmente se Ethan tivesse perto da mãe levaria outro cascudo, mas a mesa grande o salvou.
— Meu trabalho não é para criancinhas. — Luca dava a volta na mesa já com um prato na mão, totalmente concentrado na comida como se não visse comida a dias. — Dante mandou um abraço, mamma.
Tia Bella pareceu abalada com aquele comentário, ela nunca manteve muito contato com a família depois que saiu de Nova York a muitos anos, ela não contava nada de antes.
Luca tomou o posto de Romeu, comia e falava sem pausa para respirar, atualizando a mãe sobre a família. Diferente de Tia Bella e Ethan ele ainda tinha um sotaque italiano puxado, diferente da mãe ele não parecia ter cortado muitos laços.
Observei ele comendo, eu mesma não tinha fome, mesmo com cores diferentes ele sem dúvida tinha o olhar do irmão, expressivo como se soubesse um segredo e não te contar, o cabelo preto fazia um topete curto nas laterais e a barba com o bigode o deixavam com cara de mais velho e tinha uma tatuagem no pescoço parcialmente encoberta.
Fiquei olhando para ele, mas no fim eu nem mais no que estava focando, só fiquei olhando para o nada até notar ele mirando de volta para mim. Infelizmente homens bonitos me deixam desconcertadas.
Depois do jantar a louça foi minha e Ethan, ou seja, eu fiz tudo só enquanto ele levava uma surra da máquina de lavar prato. O vento uivava forte hoje me convidando para aproveitar a brisa, sentada na janela eu ouvia de longe eu ouvia o som dos grilos e dos sapos nos pântanos.
Alguns carros passavam sem pressa e eu via as televisões ainda ligadas em algumas casas, era estranho pensar que lá fora a vida continuava normal, todos ainda eram os mesmos. Comecei a suar frio, às vezes a ansiedade atacava forte e para mim isso era um convite para correr.
Rayssa remexia na cama, abri com cuidado uma das malas pegando um short, meu moletom e tênis. Atravessei o corredor em silêncio, do quarto de Ethan eu ouvia os sons de tiros e cochichos, ele jogava com o irmão. Passei de fininho, desci e pulei a janela.
O ar de fora era inebriante, a noite era bem mais fresca ao ar livre, me alonguei e sai em disparada. Correr para mim liberdade, tenho vontade de destruir o asfalto até não conseguir respirar, até não ter mais oxigênio no mundo capaz de me impedir de sufocar.
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