Tutto Sottosopra
6 Chapeuzinho Vermelho
Notas iniciais
Hoje seria o dia que eu iria para a Universidade Duke, o dia que conheceria a Carolina do Norte, o barulho do mar me acalmava, mas o aperto no meu coração era impossível de se desfazer.
Hoje eu fiz o trajeto contrário das minhas corridas rotineiras, abaixo de mim o mar se chocava ao pilares do píer de Pompano Beach, o vento me chicoteava com meu próprio cabelo e salitre grudou na minha pele. Agarrada a minha papelada da Universidade eu buscava na mente tudo que tinha abdicado para chegar onde cheguei.
— Tudo isso foi em vão? — Eu falava com o vazio. — Nem sempre o que sonhamos acontece, não é? Não sou a primeira a desistir.
Como era aquela música que meu tio ouvia sempre? Porra, Ethan fumava mas a memoria ruim sobrava para mim, tentei revirar minha mente a procura dos versos em português e cantei para o oceano ao meio da madrugada no escuro.
— Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
Respirei fundo, algumas lágrimas fluíam pelo menos rosto, dei uma ultima olhada para minha passagem aérea, meus documentos e os planos de ensino da Universidade. E assim como puxar um band-aid joguei-os ao mar.
Girei os calcanhares e não olhei para trás, comecei devagar e logo peguei o ritmo da corrida.
Nunca fui paranoica, mas de umas três noites para cá eu sentia uma sensação estranha. Era como se me seguissem, talvez seja por eu ser uma mulher sozinha correndo na madrugada, mas eu sentia medo, os olhares e passos estavam lá, eu não estava ficando louca.
E assim foi exatamente como eu estava me sentindo agora, um homem encapuzado parado no outro lado da rua se matinha fixado em minha direção, virei na esquina seguinte em uma velocidade que invejaria Usain Bolt, às vezes olhava para trás para ter certeza que não estava sendo seguida.
Chegando em casa abri a janela da cozinha o mais silenciosa possível, ou pelo menos tentei abrir. Tentei três vezes levantar a travessa interior, mas ela se mantinha fechada, tentei outras duas janelas e nada.
Eu sempre deixava uma janela aberta para quando retornasse e juro que essa noite eu não tinha esquecido desse detalhe, meu corpo gelou a cada minuto que eu não conseguia entrar, o bairro a noite era tranquilo, mas a imagem daquele homem ainda mexia comigo.
O resto de sanidade evaporou quando um gato de rua começou a passar pelas minhas pernas e eu no escuro total quase enfartei quando senti o roçar do pelo nas minhas canelas e o miado agudo. Nessa hora cogitei gritar até alguém ouvir e me deixar entrar.
No minuto que eu estava pronta para abrir o berro a porta da frente destrancou devagar emitindo um mínimo ruído.
— Ninguém nunca leu Chapeuzinho Vermelho para você na infância não? Andar no bosque a noite pode ser perigoso para garotinhas sozinhas.
Olhei para os lados e para trás.
— Quando eu ver alguma garotinha solitária vou repassar seu conselho, ele é muito bom.
Respondi com a mesma petulância e tentei entrar em casa forçando passagem, mas ele usou o corpo como barreira.
— Eu estou vendo uma na minha frente, e uma bem ingrata inclusive.
Inspirei profundamente tentando juntar toda minha tranquilidade, Luca se mantinha impassível com os braços cruzados, tive que levantar o rosto para olhar e empinei o nariz em desafio.
— Eu não vou pedir por favor se é isso que você quer.
— Você não sabe o que eu quero, mas eu pretendo te deixar aqui fora, aquele gato pulguento pode fazer companhia, o que você acha?
— Luca, acabaram de quase me seguir e eu começo o trabalho amanhã. — Tentei apelar para o lado emocional, meu drama sempre foi digno de novela, mas ele se manteve irredutível.
— E no que isso realmente me importa?
Desisti daquela conversa insustentável sentando no degrau da varanda, puxei o gato que lambia as patinhas para meu colo só de implicância e aceitei que ia passar a noite ali do lado de fora.
— Você não tem mais o que fazer Luca? Boa noite, muito obrigada, eu vou ficar aqui com meu companheiro.
Senti a presença dele indo embora, mas para a minha surpresa a porta tinha ficado aberta. Pulei para dentro o mais rápido possível antes que aquele insuportável resolvesse realmente me deixar para fora.
Acordei dolorida, o que já era rotina. Minha intuição ainda agia como se eu estivesse me preparando para a universidade, então eu mantive a dieta e os exercícios, correr a noite servia para além de espairecer agora mas ainda fazia minhas pernas latejarem, mesmo vendo Ethan se empanturrar de doces eu me condicionava ao máximo para manter meu ritmo de atleta.
A cada dia ele ficava ansioso, dessa vez era como se Luca tivesse vindo para ficar e isso deixava Ethan aos nervos, o irmão mais velho nunca passava mais de dois dias, mas já estava em casa a uma semana. Lembrei do nosso diálogo de algumas horas atrás, ele é tão teimoso quanto uma criança birrenta, não julgo Ethan por ficar nervoso.
— Bom dia, você não está atrasada? — Rayssa já estava bem vestida e maquiada, mesmo que não tivesse necessidade de sair.
— Merda, eu estou? — Perdi completamente a noção das horas. — Que hor..
— Tarde, só você para se atrasar no primeiro dia do trabalho que você implorou. — Minha prima estava falando comigo hoje por um milagre, ela ainda estava com raiva das minhas decisões.
Subi a calça em tempo recorde, saindo do quarto a fora o mais rápido possível.
— Me traga panquecas!!!
Trombei com Ethan, dei um braço apertado, mas eu não podia atrasar mais nem um minuto.
— Aqui seu bloco de comandas, nunca esqueça de pôr o número da mesa do pedido. — Romeu diferente do habitual com os outros funcionários deu as instruções ele próprio para mim. — Você fica pelo horário do brunch, todas as gorjetas são suas.
Dei uma boa olhada pelo Bistrô, Romeu tinha um bom gosto, os móveis claros e as janelas enormes viradas para a orla, nada daquela decoração medonha de peixes empalhados na parede, coisas de marinheiros e graças a deus nenhum uniforme horroroso.
— Você sabe fazer drinks? Quando o movimento está intenso é bom alguém para ajudar Amelie. — Neguei com a cabeça. — De qualquer forma você vai se sair bem, querida, qualquer coisa fale com as meninas.
— Tchau Romeu, eu não vou decepcionar, te prometo.
Recebi um beijo na cabeça e ele se retirou da lanchonete abrindo seu guarda chuva escuro.
Por conta do tempo quase ninguém veio hoje, anotei alguns pedidos, destruí a ponta da caneta na mordida e conversei muito com Amelie, ela tinha o dobro da minha idade e o triplo em beleza, a pele escura brilhava e os olhos dourados estavam delineados perfeitamente.
— Ele está achando que eu vou aturar muito — Ela era o tipo de pessoa que contava a vida toda, um livro aberto. — Já falei que não sou terapeuta.
— E nem deve, eu saí com um cara uma vez que fez do nosso encontro uma sessão de terapia, eu disse que precisava ir no banheiro e sai de fininho deixando ele lá.
Ethan ainda ria da minha cara por isso, depois daí eu peguei trauma de sair com homens mais velhos, sempre tão complicados.
— Meu namorado inventou agora que vai ser modelo, eu to sem saber como sentar com ele e explicar que ele não é bem, digamos, bonito.
Cuspi para fora toda a água que eu bebia, pelo menos meus dias aqui não serão um tédio completo.
Ainda tossindo compulsivamente recebi umas palmadas nas costas, Amelie sorria, ela sim poderia ser modelo.
— Ei, finalmente alguém decidiu sair nessa chuva para comer um Croque-monsieur ou tomar um Affogato.
Amelie cochichava arrumando a postura impecável para receber o cliente.
— Um o que?
— Coisa de hipster, vá atender esse, eu preciso tirar as tortinhas do forno.
Respirei fundo, no primeiro pedido eu esqueci até como se escrevia, mas a cada comanda eu até que ia bem, segundo Amelie minha letra era linda e legível diferente dos outros que tinham passado por lá.
O único cliente do momento tinha se encaminhado para a cadeira mais do canto possível, de frente para a grande janela ele apreciava a vista, imponente, parecia ser dono de tudo que conseguia avistar.
Diferente dos outros turistas em roupas de banho ele estava de terno claro cor de creme, de costas para mim só pude ver seus cabelos loiros, nos quais ele passou a mão tentando manter os fios lisos no lugar.
— Bom dia em que posso ajudar. — Eu já falava no automático, o desconhecido demorou de virar em minha direção, o rosto tinha poucas rugas, algumas mais acentuadas perto dos olhos verdes, os pelos dos meus braços arrepiaram quando mirei os olhos cortantes, totalmente diferente dos olhos brincalhões de Ethan. — O… especial do dia… é…ovo beneditino.
Eu não conseguia decifrar os olhos dele, pareciam dizer muitas coisas, mas o O perfeito que seus lábios formaram demonstravam surpresa, eu só não sabia dizer o motivo desse choque.
— Dzień dobry...
—Eu… eu não entendo, desculpa.
— Oh, eu que peço perdão moja maleńka, quero dizer minha querida. — Ele sacudiu a cabeça levemente como se acordasse de um transe. — Estou ficando velho, a idade tem seu preço.
Ele não parecia nenhum velho senil, mesmo sentado eu percebi o quanto era alto, a postura reta perfeita que invejaria qualquer um da minha idade, magro e mesmo embaixo do terno poderia ver os braços fortes.
— Tudo bem, mas qual será o pedido do senhor?
Eu anotava o número da mesa, mas podia sentir os olhos dele me examinando, eu estava ficando desconfortável, nunca gostei de ser tão estudada, o interrogatório de Luca ontem já tinha sido o suficiente.
— Eu quero o que vocês tiverem de melhor. — Ele se inclinou na minha direção. — O que vocês têm de excelente? Você poderia me aconselhar, não conheço essas comidas americanas.
— Ovos Beneditinos, como eu dizia, é o especial do dia… E para acompanhar… Croque-monsieur?— tentei sair da defensiva, ajeitando a minha postura, eu não queria expressar receio para um estranho que me deixava tão incomodada — Talvez um Affogato, nenhum dos dois são americanos mas são bons, eu acho.
Por sorte os nomes que Amelie tinha dito vieram na minha mente, eu não sabia explicar o que era nenhum, se eram de beber ou comer, eu realmente preciso ler aquele cardápio inteiro, mas são tantos nomes.
— Nie, nie querrida. — Ele tinha um sotaque muito carregado, eu não reconheci o idioma, mas já estava me irritando. — Affogato é italiano, nada de bom vem de italianos, confie em mim Dziewczyna.
— Eu não te conheço Senhor, mas conheço vários italianos. — Parei de anotar o pedido, minhas orelhas queimavam de antipatia. — Eles parecem bons para mim, diferente de você.
Se meu comportamento súbito irritaria qualquer cliente, ele pareceu não compartilhar desse pensamento, deu uma risadinha presunçosa abanando o ar.
— Você está certa, eu não sou bom, e sobre o pedido, pode ser o que você me recomendou proszę.
Voltei carrancuda para o balcão, na hora de levar o pedido de volta fiz questão de deixar na mesa sem falar nada e voltar para o meu posto do lado de Amelie, o desconhecido comeu tudo menos o tal Affogato, que eu descobrir ser uma sobremesa italiana feita à base de café, eu também não comeria.
De saída ele veio caminhando elegante em direção do balcão, seu olhar malicioso se intensificada com o sorriso afetado, deixou uma nota de, eu já estava pronta para rebater qualquer comentário mas fiquei sem palavras, ele deixou €R 100,00 euros sob o balcão.
Já na porta o desconhecido paralisou um pouco virando ligeiramente em minha direção.
— Foi um prazer conhecê-la pequena, você parece ela.
Me arrepiei inteira enquanto ele entrava tranquilamente em seu carro preto luxuoso, minha mente girou em total confusão, como uma frase tão pequena me deixou tão desconcertada, mesmo do lado dela a voz de Amelie dizendo que eu estava gelada parecia soar de um mundo de distância.
Afinal quem era ela? Minha mãe?
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