Notas iniciais
Olha eu de volta!!! Capítulo decisivo hoje. Leiam ouvindo Awakening da Aurora e se puder vejam a letra da música. Bom capítulo!!!

As vezes eu penso demais, isso pode ser muito bom e me impedir de fazer besteiras, mas em certos momentos me faz ficar obcecada. Quando a tampa da caneta se foi chegou completamente mordida a vez de roer minhas unhas chegou.

No meio do meu expediente aparece um homem estranho conversando em uma língua estranha afirmando que conhece ela, eu não conseguia pensar em mais nada. Uma fagulha se acendeu de que ele talvez falava da minha mãe, depois minha parte racional atestou que o desconhecido devia ser algum amigo da minha tia que por pena me deu uma gorjeta gorda e disse que eu lembrava ela.

— Mas eu não pareço minha tia.

— Marina, você disse alguma coisa? — Amelie me sacudia delicadamente — Marina.

— Oh desculpa, sim, diga.

— Você está estranha, aquele senhor disse nada com nada, você conhece ele?

—Não, mas eu acho que ele me conhece.

Chegando em casa eu espalhei todos meus álbuns pelo chão, a polícia tinha confiscado a maioria das nossas coisas incluindo nossa casa por conta da ilegalidade dos meus tios, mas Tia Bella ficou possessa com isso e fez questão de nos levar no meio de uma madrugada para buscarmos o que quisermos.

Forçamos uma janela e entramos, eu trouxe comigo todos meus álbuns, meus cadernos de anotações e minhas medalhas, Rayssa pegou seu notebook precioso e as maquiagens, eu fiz questão de deixar minhas malas para não me lembrar da viagem, mas contra minha vontade trouxessem elas mesmo assim depois.

Revirando meus álbuns eu examinei as fotos uma por uma, eu não sabia nada da minha mãe, não sabia seu nome ou se estava viva, sua aparência e nem quem era meu pai. Mas agora eu sabia que provavelmente parecia com ela, então olhei atentamente as fotos outra vez, era uma coisa que eu fazia repetidamente.

Tinha meus avós ou bisavós perto do lado de uma casinha minúscula e uns cactos, uma foto de um bebe em cima de uma moto. Outra de várias mulheres juntas com aquelas roupas dos anos 90, mas tirando a semelhança normal de família ninguém de que eu fosse idêntica.

Desisti da procura rapidamente, se tivesse algo naqueles álbuns eu já saberia, abracei uma foto minha bebezinha, os cabelinhos pretos ralinhos de bebe e a cara de joelho. Eu tinha chegado nos Estados Unidos com poucos dias de vida, vim ilegal junto com um amiga da minha tia até a fronteira do México, naquela época meus tios estavam no Texas, a mulher morreu um pouco depois quando uma trouxa de cocaína explodiu dentro dela.

Mas esses assuntos da minha origem e chegada eram tabus em casa, primeiro porque eu tinha sido registrada como se tivesse nascido americana, de Houston, segundo que de jeito nenhum meus tios me contavam nada sobre meus pais, em hipótese alguma.

Acho que foi isso que me fez gostar tanto de Harry Potter, mas meus tios eram infinitamente melhores que os Dursley, eu sentia uma ligação tão forte que foi até a origem da minha primeira tatuagem. Guardei tudo desistindo dessa história, eu estava levando a sério demais uma frase sem sentido de um velho doido.

Fui para o quarto de Ethan, eu sentia falta dele me infernizando, como de costume meu amigo estava descabelado jogando algum jogo de tiro e zumbi e nem se deu conta da minha chegada.

Só depois de muito tempo que fui notada jogada na cama dele, eu observava-o berrar no microfone e bater na mesa, o Ethan hiperativo e despreocupado de sempre.

— Você está aqui a muito tempo?

— Acabei de chegar da lanchonete.

— E como foi lá, muita gorjeta?

— Hum, tranquilo, só um homem falando umas coisas estranhas, os olhos dele pareciam os seus.

— Olhos verdes e falando coisas sem sentidos, acho que você me atendeu e não percebeu, docinho.

— Não fala isso por favor, ele realmente era muito estranho. — Estremeci só de lembrar daqueles olhos frios bem diferente dos olhos do meu melhor amigo. — Mas enfim, Rayssa vai me matar, eu esqueci as panquecas dela.

Ethan riu enquanto vinha se jogar do meu lado, o seu cheiro de doce e cigarro fraco se espalhou.

—Luca também já foi, finalmente!

Ele levantou os braços ao alto ficando de joelho na cama fazendo preces ao ventilador de teto.

— Afinal com o que ele trabalha? — A figura do irmão de Ethan era um mistério para mim, na verdade eu não sabia quase nada da família dele.

— Muitas coisas, ele trabalha com nosso tio Dante que é dono de alguns estabelecimentos, Luca tinha começado a faculdade mas preferiu ir com ele, o pai dele também trabalhava Dante, antes de falecer.

As vezes eu esquecia que Luca e Ethan eram só meio irmãos, eles lembravam um ao outro e ao mesmo tempo pareciam com a mãe que era meu único referencial de aparência da família Savoia, todos eles tinham olhos intensos demais.

— Você deveria trabalhar com eles também, viajar bastante, você conheceria o mundo e depois voltaria para me contar enquanto tomamos sorvete no píer.

— Minha mãe não gosta muito da família ou qualquer coisa ligada a eles, ela me mataria se eu fizesse isso. — Ethan abaixou a cabeça cabisbaixo. — Eu ainda não sei o que quero fazer agora que formamos, mas trabalho formal e escritório não é para mim.

Só de imaginar Ethan cumprindo a mesma rotina todo dia eu já ficava triste junto, ele deveria fazer algo com o levasse a extremos sempre.

— Eu queria ter um trabalho que viaja pelo mundo. — Deitei minha cabeça no colo de Ethan e contando meus sonhos de vida — Conhecer o Brasil, andar de trem na Índia, nossa, eu quero tanto conhecer o Saara.

— Nós dois deveríamos viajar por aí, juntamos uma grana e levamos Rayssa de chaveirinho junto, o que você acha?

— Eu adoraria, a primeira parada pode ser Havaí, prancha de surf do lado vendo o sol se por na areia, longe de tudo, as flores no cabelo.

Rimos dos nossos planos bobos afastando a melancolia, Ethan sempre sonhou em nadar pelado no Mar morto e outras mil ideias perigosas ou de gosto duvidoso.

No dia seguinte meu trabalho foi nenhum pouco tranquilo, o mundo todo resolveu que precisava de crepes e bons drinks para continuar vivendo, não julgo, eu mesma tinha errado algumas bebidas de propósito só para dividir elas com Amelie, para mim era como se fosse a consolação por não ser mais atleta profissional.

Minha colega de trabalho me alertou a nunca atender o telefone em expediente, mas hoje ele estava insuportável, vibrava o tempo todo me atrapalhando nos pedidos até que não aguentei mais e fui para o depósito atender.

— Marina, onde você está!?

— Como assim Rayssa, você sabe que eu estou no Bistrô, fala logo.

— Sai daí agora! eles descobriram de você.

— Calma, como assim descobriram de mim? E eles quem?

— Não temos tempo Marina, só me escuta uma vez na vida, Martins, aquele amigo do meu pai já esta vindo buscar a gente, você precisa vim para casa.

Rayssa nunca levantava o tom de voz, isso me assustou, minhas mãos ficaram pegajosas e minha boca seca. Avisei Amelie que precisava ir para casa e sai em disparada.

Ethan morava longe da orla então peguei um ônibus qualquer descendo poucas quadras de distância, corri o mais rápido sentindo o suor escorrer pelo meu dorso.

— Ei!

Trombei com algumas pessoas, mesmo que me esforçasse ao máximo para desviar. Quando eu já avistava a entrada da rua de Tia Bella senti meu celular vibrando, mas se não fosse o toque com certeza eu acharia que era o meu próprio tremor corporal.

— Não temos tempo, eles chegaram ante..

—Rayssa, para de enigma e me diz o que está acontecendo.

Tentei por meu cabelo cheio no lugar, mas foi em vão, minhas mãos tremiam.

— O serviço de Imigração dos Estados Unidos — Congelei onde estava, a voz sussurrada de Rayssa no meu ouvido, mas não pude ouvir mais nada depois que uma viatura entrou no meu campo de visão. — Eles sabem de você.

Como que se pudessem ouvir minha ligação a sirene da viatura soou na hora que Rayssa me contou, se eles me pegassem eu provavelmente seria deportada e todo meu esforço de ficar com minha prima seria em vão.

Eu não podia ser pega.

Em bairros periféricos como o meu, onde moram latinos, negros e asiáticos nós aprendemos desde pequenos a não correr da viatura ou poderíamos levas três tiros "de advertência" pelas costas, mas correr foi a primeira coisa que eu fiz sem pensar duas vezes.

Joguei meu celular na mochila e não olhei para trás, entrei no primeiro beco que vi, atravessei vários quintais pulando cerca atrás de cerca.

Minha mente estava a milhão pensando em como ia despistar a polícia, nenhuma ideia vinha, a não ser correr, correr e correr mais.

Eu ainda podia ouvir a sirene quando entrei no quarto ou quinto beco, foi quando eu vi a viatura fechar exatamente a única saída do beco, eu estava no fim da linha. Rayssa tinha nascido nos EUA e provavelmente seria mandada para a tutela do governo e eu seria despachada.

Não foi desse jeito que eu imaginei conhecer minha terra natal, a Bahia ia precisar esperar, eu ia voltar para lá por vontade própria e não arrastada.

Avistei a grade de mais ou menos dois metros e não pensei duas vezes, sob o risco de tomar um tiro eu me agarrei ao ferro, pulei e virei a rua, mas não senti mais nada quando senti um impacto forte atingir minha cabeça e a última coisa que vi foi o chão da calçada vindo ao meu encontro.

Notas finais
Comentem o que acharam!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.