Tutto Sottosopra

3 Azul da cor do céu


Notas iniciais
A vida de Marina esta indo bem né? Será? Eu não avisei no capitulo passado mas a inspiração para Ethan é Timothée Chalamet e Rayssa é a Danna Paola. Espero que gostem do capítulo!

Meus tios se entreolhavam a meia hora, apenas os olhares acusadores de um com o outro já dizia que havia algo errado. Virei meu rosto tentando procurar resposta na minha prima, mas ela parecia muito mais concentrada no livro de história do que em qualquer outra coisa.

Ninguém aqui em casa nunca foi tão calado assim, e eu, particularmente, nunca gostei de silêncio, quando não tinha alguém conversando eu colocava alguma música, sempre fiquei deprimida sem alguma coisa tocando nos meus ouvidos. No geral, Tia Madai supria a cota de barulho, sempre estava conversando com alguma amiga no Brasil ou cantarolando, ela sempre foi uma mulher ruidosa.

Meu tio era a parcela mais calada, chegava ser difícil saber se ele estava em casa ou não, mas hoje os ambos estavam estranhos.

Chequei meu celular para ver se eu não tinha perdido a ligação do olheiro, talvez meus tios tenham sido avisados antes de mim que perdi a oportunidade e que ainda tinha sido grossa com o Senhor Robert e estivessem decidindo quem ia me contar e aguentar minha choradeira logo em seguida.

Rayssa logo deixou a mesa de café da manhã, ela tinha prova sobre a Segunda Guerra, eu sabia o conteúdo todo, conseguir dormir com alguém lendo em voz alta do seu lado sobre o expansionismo alemão é meio improvável, se fosse a uns anos atrás provavelmente eu estaria ajudando ela a formar ligações entre as palavras, mas atualmente Rayssa consegue formar a macroestrutura do texto sozinha.

Minha prima estava devidamente maquiada e nem parecia ter virado a noite, ela tinha esse dom de estar sempre impecável mesmo no calor enquanto eu suava e derretia igual sorvete no sol.

O arquinho azul nos cabelos castanhos combinava com o vestido também azul na cor do céu sem nenhum amassado se quer, Rayssa seguia a risca a regra dela de não sair mal vestida nunca, levantou, deu um beijo na bochecha do meu tio e saiu cozinha a fora.

Ouvimos a porta batendo forte e foi a deixa para o resto da minha família me abandonar em casa, aos sábados minha tia saia de Pompano Beach cedo para pegar o primeiro ônibus para Miami, ela cuidava dos gêmeos de um casal francês, eu já tinha ido com ela uma vez, nunca na minha vida tinha visto crianças tão lindas e tão hiperativas quanto aqueles dois, eu não tinha interesse nenhum de vê-los novamente.

Tia Madai saiu resmungando que já estava atrasada. Tio Miguel saiu logo em seguida, primeiro apertou minha mão carinhosamente me lembrando que eu iria conseguir tudo que quisesse nessa vida e quanto sou merecedora, ele sempre chegava no Calypso pelo menos quatro horas antes de abrirem a cozinha.

O silêncio absoluto reinou mais ainda, fiquei parada por um bom tempo até ouvir meu celular apitar sinalizando a bateria em 10%, dei uma boa espreguiçada e fui cuidar das coisas.

Tirar a mesa, dar uma boa organizada na bancada da cozinha que ao final da semana corrida virava aparador para todas as tranqueiras possíveis. Entrei para o quarto plugando o celular no carregador, escovei os dentes, meu rosto estava amassado e meus olhos confirmavam a noite mal dormida.

Coloco o celular no volume mais alto possível, no pequeno tempo que consegui dormir nesta madrugada sonhei que meu celular tocava no silencioso e eu do banho não conseguia ouvir, no final perdi minha vaga por desleixo meu.

Me aconchego na cama puxando o computador para meu colo, eu deveria estar no treino, mas Bruce me deu esse dia de folga, de início fiquei aliviada, no entanto eu estou tão ansiosa que correr até aliviaria. Ethan deveria estar dormindo ainda, meu amigo não é a pessoa mais diurna que eu conheço, eu não tenho nada para fazer então resolvi escrever mais um capítulo do meu livro.

Escrever foi algo que eu só aprendi a gostar com o passar dos anos, não vou mentir, como sempre tive que ler para Rayssa fui pegando o gosto por leitura, com o tempo várias ideias vinham na minha cabeça e eu precisava colocá-las no papel.

Quando passei umas semanas internadas foi que Bruna surgiu na minha mente, sua história de vida e abandono refletia minha própria vida na verdade. Minha personagem era uma garota da pele cor de canela que saia de sua comunidade e da vida carente que passava com a avó para iniciar a carreira de cantora, mas ela perdia a voz após um acidente traumático.

Eu já tinha a história adiantada, mas sempre lia e relia e sentia algo faltando, escrevi bastante até cair num sono pesado e cansado.

Um barulho alto me fez acordar assustada, o sol lá fora já estava sumindo.

— Ethan, você vai limpar, não estou acreditando nisso!

Eu não sei se ainda estou dormindo, mas a voz mandona de Rayssa pareceu bem real para mim, uma voz de homem respondeu em um tom mais baixo que eu não pude entender o que dizia. Sai da cama de supetão, ao abrir a porta um mar de bexigas azuis preenchia o chão da sala, e na cozinha Ethan se encontrava agachado no chão recolhendo os cacos de vários pratos.

Ele virou em minha direção, os olhos verdes brincalhões arregalados de surpresa, meu amigo fez uma cara angelical que enganaria qualquer um menos eu.

—Eu não achei que esse barulho tão baixo fosse te acordar

— Baixo? Ethan, achei que a pessoa com problema auditivo aqui fosse eu.

Eu não sabia se ficava mais incrédula de ver tanta bexiga azul em um só cômodo, ou se com todos os pratos da minha casa se encontrarem no chão da cozinha em cacos ou com quanto irritada Rayssa deveria estar para fazer uma piada, e uma das boas ainda.

Agachei no chão pegando alguns caquinhos pequenos de porcelana

— Pode me explicar porque me acordaram do meu sono dos justos? E esse tanto de bexiga, é aniversário de alguém?

Ethan respirou fundo olhando para Rayssa implorando para poder contar, ele parecia animado tanto quanto uma criança quando ganha doce. Minha prima deu de ombros como se tudo já tivesse ido por água abaixo.

— Precisamos comprar um daqueles apitos anti abuso para você, eu li que acontece muito em campus universitários.

Olhei incrédula para Ethan, minha mente não processou nada que fizesse sentido, eu tinha passado na bolsa? Como quem lesse minha mente Ethan assentiu. Abri o maior sorriso da vida pulando em cima do meu amigo com caco e tudo, dei um abraço apertado envolvendo ele como um urso.

— Marina, você vai me esmagar, a atleta aqui é você, eu sou magrelo.

Não pude me conter de felicidade, saber que eu era boa em algo e que tinha conseguido uma oportunidade tão importante me deixou com os olhos marejados, agarrei Rayssa mesmo sob os protestos dela balançando minha prima mais nova com toda a força possível.

— Eu sabia que vocês iam estragar a surpresa — Meu tio não conseguia conter o riso ao entrar na nossa sala de estar, a casa estava uma zona. Ele carregava uma torta de manga linda como se carregasse um bebê. — Esses cacos aí são nossos pratos? Como vocês tem sorte de não ter sido Madai a primeira a chegar.

— Mas é sério que ninguém pensou em me tirar de casa para arrumar a surpresa?

Falei já a caminho dos braços do meu tio, ele colocou a torta na mesa a tempo de me dá um bom abraço me tirando do chão como se eu tivesse 10 anos outra vez, o que eu mais gostava no meu tio era sua capacidade de sorrir com os olhos.

Minha tia e meu treinador chegaram juntos, Bruce me tirou do chão assim como meu tio fizera cinco minutos antes e minha tia encheu meu rosto de beijo, ela narrou que Bruce ligou para ela mais cedo contando que Robert tinha me aprovada na bolsa da faculdade.

— Você precisava ver, princesinha, ele não deu o braço a torcer lógico, mas insinuou que você é uma das melhores atletas do estado inteiro.

Comemos a torta de manga em pires pois minha casa não tinha mais pratos grandes, minha tia quase matou Ethan em saber que ele fez aquela bagunça toda só porque tinha visto uma aranha. Bebemos cervejas e rimos a noite toda, Bruce contava minhas histórias engraçadas dos treinos e minha tia planejava minha mudança para a Carolina do Norte.

Ao fim da noite, eu que acabei arrumando a cozinha bagunçada outra vez, estava toda concentrada tirando a sujeira dos pratos quando levantei o rosto para a janela da cozinha avistando meus tios abraçados no quintal, eu admirava a paixão deles mesmo depois de anos casados mas outra coisa me chamou mais a atenção.

Eles ainda tinham os mesmos olhares preocupados desta manhã, durante toda a noite eles pareciam felizes e tranquilos, mas o terror tomava conta de seus olhos outra vez e eu não sabia o motivo.

Notas finais
O que vocês acham que esta rolando com os tios de Marina? Comentem o que acharam!!!