A manhã estava nublada e algumas gotas de chuva começavam a cair, o que fazia com que os alunos se apressassem a entrar no ônibus, Beatriz foi a primeira a entrar, e após sentar resolveu colocar seu casaco preto que, até então estava segurando, aquela era uma região fria, e a chuva que se estendia a quase uma semana, colaborava para que o frio ficasse ainda pior. Logo a professora de biologia, Andrea, uma mulher morena, baixa e que aparentava ter uns trinta anos, entrou no ônibus, seguida pelo motorista, que arrumava na cabeça, um boné de algum time de futebol, ele era um homem de meia idade, conhecido por todo mundo, mas de quem ninguém sabia nada, talvez ele não fosse tão interessante a ponto de alguém se preocupar com sua história. Após todos entrarem, a professora começou a fazer a chamada, os alunos eram poucos, Alice, Beatriz, Carol, Felipe, Gisele, Kevin, Kellen, Kim, Lívia, Matheus, Nayara, Pricila e Raquel.

Como o nome de Beatriz era uma dos primeiros, assim que respondeu, ela colocou os fones de ouvido e começou a ouvir “You” da banda “The Pretty Reckless”. O ônibus começou a andar e Beatriz começou a pensar sobre sua turma.

Eles estavam prestes a se formar, ou seja, nesse ano tudo o que queriam era aproveitar o último ano que teriam juntos, mas não estavam indo nesse passeio por diversão, bom, o passeio seria somente um ‘’bônus’’ do que realmente fariam, estavam indo até uma floresta que ficava próxima à cidade, iriam passar o fim de semana lá e estudar as plantas, animais, fungos e tudo o que havia naquela região.

—Você sabe as histórias que contam sobre esse lugar?- Pricila, uma garota baixa, com longos cabelos castanhos e olhos da mesma cor, sentou ao lado de Beatriz e quebrou o silêncio.

—Histórias? – Beatriz perguntou enquanto tirava os fones e começava a prestar atenção na conversa, ela já havia escutado algumas histórias de pessoas que diziam ter visto alguma coisa estranha lá e realmente já havia boatos de que pessoas desapareceram naquele lugar...

—Meu tio me contava uma história sobre esse lugar – Pricila começou a contar- dizem que a algum tempo atrás, um casal teve um filho, mas não era uma criança comum, ele só se alimentava de sangue ou carne humana, seu rosto e seu corpo eram completamente desfigurados. As pessoas tinham medo dele, e por isso tentaram matar ele várias vezes, a mãe morreu durante uma dessas tentativas, quando colocaram fogo na casa do casal para matar a criança, mas a mãe foi a única vítima. O pai criou a criança presa em um porão em sua casa, até que a criatura cresceu, o pai, sem saber o que fazer, levou ele para essa floresta, onde ele permanece até hoje, e é por conta dessa criatura que as pessoas que visitam o lugar não voltam para a cidade, pelo menos, não vivas.- ela terminou de contar e a primeira reação de Beatriz foi rir.

—Você acredita mesmo nisso? Na época em que os desaparecimentos aconteceram, um homem tinha fugido de um sanatório de uma cidade vizinha, quem prova que não foi ele quem sequestrou essas pessoas?- Beatriz era cética, não acreditava em alguma coisa sem ter provas, e essa história... Bom, ela não acreditava, ou talvez não quisesse acreditar.

—Os desaparecimentos continuaram acontecendo mesmo depois de o homem ser preso. — Ela disse

—Você acha mesmo que ele foi preso?- Beatriz perguntou e Pricila balançou a cabeça em forma de afirmação e Beatriz riu novamente

—Vários noticiários locais divulgaram a prisão dele- ela falou

—Nenhuma imagem foi divulgada, e bom, nossa cidade é pequena, não recebe tantos turistas, e com um maluco andando por aí as visitas à cidade iriam diminuir, ou seja, os lucros seriam menores. Eles falariam qualquer coisa para voltar a ter dinheiro. — Beatriz disse, colocando os fones novamente e voltando a olhar pela janela.

Quando estavam quase chegando ao lugar, ela olhou o visor do celular e percebeu que não havia mais sinal ali, ela perguntou ás suas amigas, Kim e Carol e ambas confirmaram que o seus celulares estavam sem sinal também, logo os pensamentos que ela sempre tinha nesses momentos começaram a encher sua cabeça: “E se acontecer alguma coisa?” “E se alguém se machucar?” “Se alguém desaparecer”. A garota riu com o próprio pensamento.

“Acho que estou vendo filmes de terror demais.” Pensou, pouco antes do ônibus parar bruscamente.

Ela olhou para os lados, todos pareciam tão confusos quanto ela, perguntando o que havia acontecido, a professora tentava acalmá-los ao mesmo tempo em que tentava esclarecer o que havia acontecido, mas sem muito sucesso, já que pelo o que parecia nem ela sabia o que estava ocorrendo.

Pouco a pouco os alunos foram descendo do ônibus.

—Isso parece um filme de terror, o que falta agora é um de nós desaparecer — Carol disse assim que eles desceram do ônibus, e Beatriz teria rido do comentário dela, mas não estava com um pressentimento bom.

O motorista desceu do ônibus e após analisar que algo no ônibus havia estragado, disse que iria buscar ajuda e que não demoraria muito. Enquanto isso, Andrea resolveu começar a pesquisa, afinal a chuva já havia parado, e eles não podiam perder tempo. Beatriz colocou a mochila nas costas e começou a seguir a professora e os outros alunos em uma trilha.

Ela já havia visitado aquele lugar algumas vezes, e pelo o que lembrava, ele era lindo, mas essa não era a mesma visão que eu tinha no momento, eles estavam no meio do outono e as árvores com poucas folhas pareciam assustadoras, o vento frio que batia em seu rosto, fazia com que ela sentisse arrepios, mas o céu nublado, que deixava o local ainda mais escuro, com certeza era o que mais a assustava.

Ela ainda permanecia com aquele pressentimento ruim, olhava a cada minuto para as árvores, sentia que havia alguém, ou alguma coisa ali, talvez ela estivesse acreditando naquela história, mas seu orgulho não a deixaria admitir isso, ela estava começando a pensar que estava enlouquecendo.

Matheus, um dos poucos meninos que havia na turma, estava no final da fila de alunos que andava na trilha, assim como os outros não prestava muita atenção no que a professora falava, até que ele parou para amarrar o cadarço do tênis, ao se abaixar, ele viu algo entre alguns galhos que estavam no chão, ele afastou os galhos com cuidado, e foi então que percebeu que o que havia entre eles era arame farpado, e o que mais impressionava era que havia um líquido vermelho no arame, esse líquido, era sangue. Ao perceber isso Matheus ficou apavorado, seus batimentos cardíacos começaram a acelerar, e alguns barulhos vindos da mata fizeram com que ele sentisse ainda mais medo, ele largou o arame e então começou a correr, foi então que percebeu que havia se perdido do resto do grupo, sem saber o que fazer, ele continuou correndo e gritando, na esperança de que alguém o ouvisse, mas a pessoa errada ouviu sua voz.

Notas finais
Essa fic também está sendo postada no blog: http://iminsomniatic.blogspot.com.br/