Beatriz abriu os olhos novamente e olhou pela janela, era praticamente impossível para ela dormir sabendo que tinha algo naquele lugar e o pior, sabendo que duas pessoas estavam lá fora.

Já era de manhã, 6 ou 7 horas, a garota deduziu, mas os outros ainda dormiam, a chuva finalmente havia parado e alguns raios de sol começavam a aparecer. Algumas batidas na porta do ônibus fizeram com que todos acordassem, após abrir a porta, a professora, Andrea, se deparou com uma Gisele irreconhecível.

A garota chorava, chorava muito, e seus cabelos molhados, se misturavam ao sangue que escorria pelo seu rosto, suas roupas estavam rasgadas e sujas.

–O que aconteceu com você? – Andrea perguntou enquanto trazia a garota para dentro do ônibus e a sentava em um dos bancos.

–A Raquel...- a garota disse e então voltou a chorar, só então a professora percebeu que Raquel não estava no ônibus.

–Onde ela está? – Andrea perguntou, mas não recebeu resposta – Gisele, me diga onde a Raquel está – Ela insistiu.

–Ele a pegou – Ela respondeu com a voz fraca

–Quem é ele? – Andrea perguntou com medo da resposta que receberia

–E-eu não sei- Gisele respondeu gaguejando

–Gisele, me diga onde a Raquel está, para podermos ajudar ela – Andrea disse, segurando o rosto de Gisele entre as mãos, a garota olhou fundo nos olhos da professora e então falou em um sussurro:

–Ela está morta.

Isso foi o bastante para que as lágrimas de Gisele voltassem a cair, os outros alunos ficaram apavorados, muitos começaram a chorar, outros começaram a cogitar o que havia acontecido com a menina, quem havia a matado, mas todos finalmente tiveram a certeza de que estavam em perigo.

–Procure algum kit de primeiros socorros – Andrea disse para Beatriz, enquanto tentava manter a calma e fingia que estava bem, mas era óbvio que ela não sabia direito o que fazer.

Beatriz levantou e foi em direção ao pequeno banheiro do ônibus, ela se lembrava de ter visto uma caixa de primeiros socorros lá. Enquanto caminhava para ir ao banheiro, ela começou a ouvir a conversa entre Gisele e a Professora, não era nada que Beatriz já não tivesse imaginado que aconteceria, Raquel e Gisele saíram do ônibus e foram para a mata, lá elas se perderam e Raquel sumiu, Gisele saiu correndo, escorregou, bateu a cabeça e ficou desacordada a noite toda...

Após pegar o kit de primeiros socorros, a garota voltou, mas uma caixa preta, embaixo de um dos bancos chamou sua atenção, ela se abaixou para abrir a caixa, mas a voz da professora a chamando fez com que a garota levanta-se e fosse para o banco onde Gisele estava.

–Não podemos mais esperar- Andrea disse enquanto terminava de fazer o curativo na testa de Gisele- Kellen, você vem comigo, vamos buscar ajuda, os outros fiquem aqui, caso o motorista ou Matheus voltem – Após dizer isso, ela pegou uma das mochilas e saiu, sendo seguida por Kellen.

Beatriz voltou para o banco onde havia visto a caixa, a garota puxou a caixa e com certa dificuldade, começou a abri-la, após finalmente abrir, a garota se deparou com quatro armas lá dentro.

–Pricila, Carol, Kim! – ela chamou- Vejam isso- Beatriz disse e as meninas se aproximaram dela.

–Armas?- Carol perguntou surpresa

–Porque o motorista teria armas no ônibus? – Kim perguntou, ela estava tão surpresa quanto as outras.

–Tem alguma coisa errada acontecendo aqui. – Pricila concluiu- Se ele trouxe armas, é porque sabe disso.

–Se tem alguma coisa, vamos descobrir o que é – Beatriz falou e pegou a caixa, levando-a em direção a um dos bancos da frente, onde os outros estavam.

–Hey! Todo mundo preste atenção – Pricila disse atraindo os olhares curiosos dos outros alunos.

–Encontramos quatro armas aqui, e isso, somado aos desaparecimentos, só deixa mais claro que tem alguma coisa aqui.

–Foi essa coisa que matou Raquel – Gisele disse enquanto segurava as lágrimas que insistiam em cair.

–Você sabe o que é essa coisa?- Kim perguntou.

–Eu não vi – Gisele falou- Mas sei que é rápido, rápido o suficiente para matar todos nós.

–A lenda!- Pricila exclamou – a criatura existe, um humano normal não seria tão rápido.

–Se ele é tão rápido, porque ainda estamos vivos? – Beatriz indagou- Ele poderia muito bem, entrar agora mesmo aqui e matar todo mundo.

–Para mim ele é só um maluco que quer brincar com a gente- Kim falou e pegou uma das armas da caixa- E nós não vamos deixar, somos a maioria, temos armas e...

–Estamos no território dele- Pricila disse, interrompendo Kim- Ele deve conhecer essa área toda, vai ser fácil para ele nos pegar.

–Vamos nos dividir – Kim falou

–Essa é sempre a ideia idiota que alguém tem nos filmes de terror – Carol falou pegando a arma da mão de Kim e colocando novamente na caixa.

–Mas nesse caso, Kim tem razão – Beatriz disse- Ele só pode atacar um por vez, então enquanto um é a isca, os outros podem procurar pelo Matheus e se livrar dessa coisa.

–E você acha que alguém vai querer ser a isca?- Kev se pronunciou pela primeira vez.

–Eu vou ser a isca – Gisele disse e logo explicou – Acho que ele não pode sair da mata, os dois ataques aconteceram lá, qualquer coisa que venha a acontecer, é só eu voltar para cá.

–Tudo bem, agora vamos nos dividir em grupos- Beatriz começou a falar- Carol e Pricila, vocês vão ir naquela direção – ela disse apontando para o canto direito da mata e entregando uma arma para Carol.

–Felipe e Nayara, vão naquela direção – Ela disse apontando para o lado esquerdo da mata e entregando uma arma para Felipe.

–Alice e Lívia vão ir por ali – Beatriz apontou para outro canto e entregou a arma para Alice.

–Kev e Kim, vocês vem comigo, se existe essa tal caverna, nós vamos encontrar ela.- Feito isso, todos seguiram para os lugares indicados.

Nayara e Felipe caminhavam cautelosamente e em silêncio, ás vezes sussurravam alguma coisa, mas a maior parte do tempo, ficavam em silêncio, qualquer mínimo ruído que eles deixassem passar, poderia ser fatal.

Nayara era uma garota de longos cabelos loiros, não muito alta e com olhos profundos e negros. Felipe era alto, moreno e assim como Kim, achava que aquela lenda não passava de uma história.

–Você acha mesmo que tem algum monstro aqui?- Felipe perguntou.

–Eu não sei – Ela respondeu- Mas e você? Acredita?- Ela perguntou, ficando de frente para ele.

–É claro que não!- Ele disse convicto

–Acho que você só não quer acreditar- Nayara disse

–Que diferença faz? A gente vai morrer mesmo. – Felipe disse e recebeu um olhar assustado de Nayara.

–Você acha que alguém vai nos encontrar aqui?-Felipe começou a explicar- Nossa comida está acabando, o motorista não vai voltar e você ouviu o que a Gisele disse, Raquel morreu e eu aposto que o mesmo aconteceu com o Matheus.

–Você tem razão – Nayara concordou e riu sem humor – É só questão de tempo para essa coisa nos pegar.

–Me arrependo de ter aceitado vir para cá, se vocês não fossem tão teimosas, nada disso teria acontecido- Felipe disse, referindo-se à Nayara e às outras meninas, todos sabiam que só quem queria aquela viagem, eram as meninas.

–Agora a culpa é minha e das meninas? – Nayara gritou e continuou parada, Felipe voltou a caminhar, mas após dar cinco passos parou para responder a garota.

–Sempre foi culpa de vocês- Felipe gritou, ainda estando de costas para Nayara- Vocês insistiram para que nós viéssemos, se não fosse por vocês, nada disso teria acontecido- Ele falou e virou-se para Nayara- A culpa é só de vocês!- Ele gritou e tudo o que recebeu foi um olhar decepcionado de Nayara.

Não era segredo para ninguém que Nayara gostava de Felipe e que esse sentimento era recíproco, mas aparentemente, só Nayara e Felipe não percebiam isso.

–Pare de gritar, ou aquela coisa vai encontrar a gente- Nayara disse, permanecendo séria e então começou a caminhar, mas ao passar por Felipe, o garoto segurou seu braço.

–Desculpa – Felipe sussurrou

–Está tudo bem- Nayara disse no mesmo tom de voz e sorriu

–Não se meche- Felipe disse e então afastou uma abelha que estava no ombro de Nayara.

–Vamos sair daqui- ela disse enquanto segurava a mão de Felipe e começava a andar rapidamente – Se tinha uma, deve ter mais- Ela disse e recebeu um olhar confuso de Felipe como resposta- e eu sou extremamente alérgica à picada de abelha- a garota explicou- Quando era pequena fui picada por várias, e teria morrido se não tivessem me levado para o hospital.

Eles continuaram andando e pouco depois viram uma entrada em meio à duas rochas, os dois resolveram entrar , lá dentro a visão não era muito diferente, havia árvores e uma pequena queda d’água, mas nada mais que isso.

–Vou encher nossas garrafas de água e então nós voltamos para o ônibus, a chuva parou e quem sabe alguém já encontrou alguma coisa- Felipe disse e após pegar a garrafa de Nayara foi em direção á queda d’água.

Nayara percebeu que havia um pedaço de tecido preso em um dos galhos das árvores, ao se aproximar e pegar o tecido, percebeu que a estampa era semelhante à da camiseta que Matheus usava, era azul e xadrez.

–Felipe olha aqui!- Nayara gritou e recebeu um olhar assustado do garoto.

–Não se mexa- Felipe disse ao perceber que haviam várias abelhas na árvore ao lado de Nayara.

–O que foi?- Nayara perguntou, mas ao ver uma abelha em seu braço, começou a gritar desesperada, o que fez com que mais abelhas fossem para cima dela, Felipe tentou correr para ajudá-la mas já era tarde demais, a garota já estava no chão e em meio aos gritos e ao choro, disse para Felipe fugir dali, ela sabia que era impossível ser salva.

Felipe começou a correr o mais rápido que pode, ele não queria acreditar no que havia acontecido, Nayara estava morta, e ela morreu sem nem ao menos saber o que Felipe sentia por ela, e ele não pode fazer nada para salvá-la.

Um barulho vindo da mata fez com que o garoto parasse, suas próprias palavras começavam a ecoar em sua cabeça, “Que diferença faz? A gente vai morrer mesmo”.

Ele sabia que não havia como fugir, mais cedo ou mais tarde aquilo iria acontecer e ele não podia impedir, ou talvez não quisesse, viver sem ela e com a culpa pela sua morte... seria melhor morrer.

Felipe respirou fundo e olhou para o céu, antes de ser golpeado pelas costas; ele caiu no chão e sentiu um líquido quente começar a escorrer por sua boca, a última coisa que Felipe viu foi um par de botas pretas à sua frente, o corpo era de um homem, mas o rosto... “Ele não é humano, não poderia ser” foi o último pensamento de Felipe, logo depois sua cabeça foi bruscamente arrancada de seu corpo, o que fez com que surgisse um sorriso no rosto da criatura à sua frente.

O jogo havia começado, e os jogadores que ainda estavam vivos, logo seriam eliminados.