Turbulência
1 A beira do precipício.
Ela entrou na padaria da esquina, comprou um maço de cigarro Marlboro, uma garrafa de alguma vodka barata e um chiclete. Com os trocados que tinha amassados na bolsa, pagou tudo e saiu. Todos os itens guardados em uma sacola, e por pouco não esbarrou em um cara que estava entrando na padaria, enquanto ela estava saindo. Não andou nem 10 passos e já estava sentada do outro lado da rua, acendendo seu primeiro cigarro e dando um gole em sua vodka. Ela estava lutando contra todos os seus pensamentos insanos e suicidas que estavam querendo invadir sua mente novamente. Ela tentava afugentar e afastá-los, mas como se fosse um filme, os flashs invadiam sua mente. Pouco a pouco, sua mente estava tomada pelos seus demônios internos. As lagrimas começavam a descer pelo seu rosto, e ela limpava com a manga de sua blusa esgarçada. Sua maquiagem estava borrada, mas nessa altura do campeonato ela nem estava se importando mais com isso. Pra ser sincera, ela não estava se importando com mais nada. Em uma tentativa de se livrar dos seus infernos particulares, ela foi para o outro lado de sua cidade, sem rumo e com apenas alguns trocados em sua bolsa. Não avisou ninguém, claro. Na verdade, acho que ninguém se importaria. Ninguém nunca se importa, no final das contas. Ninguém se importa. Mas de alguma forma, sentir essa sensação de liberdade a ajudava. Sozinha, sem ninguém, tentando fugir de sua vida. Nos últimos dias, essas sensações tinham sido as melhores para ela. Sua cabeça estava girando com tantos pensamentos, uma dor insuportável ficava sempre no mesmo ponto de sua cabeça.
Ela quase não conseguiu ouvir a voz de fundo, uma voz que não era o seu pessimismo interno, mas sim, uma pessoa. Um garoto! Ele estava parado em sua frente, olhando fixamente pra ela, chamando-a. Chamando-a pelo seu nome! Sua cabeça girava enquanto ela tentava focalizar e entender quem era o rapaz. Era impossível decifrar sua expressão. Seria um misto de confusão? De dó? De pena? De compaixão?
Kaya?! – O rapaz perguntou novamente, agora se agachando para ficar da sua altura. Ele não tirava os olhos da garota. – Oh meu deus! Kaya, o que houve?! O que aconteceu?
A garota, Kaya, não respondeu. Apenas abaixou a cabeça, olhou ao seu redor, tentou organizar sua mente. Tudo estava confuso demais, e era impossível que aquele garoto fosse quem ela pensava que ele era.
Ela riu. Ela riu para si mesma. Uma risada deprimente e sem humor algum.
Nicholas? – a garota perguntou, agora olhando-o nos olhos.
Nicholas engoliu em seco, podia ver em seus olhos que ele estava angustiado, preocupado, nervoso. Ele mal conseguiu falar, apenas esticou a mão para tocar a garota, e ela recuou, assustada.
O que aconteceu? O que esta fazendo aqui? – Eram tantas perguntas que Nicholas mal sabia qual fazer primeiro.
Kaya não respondeu nada, ela levantou seu cigarro e deu mais uma tragada. Ela estava olhando para frente, exatamente para o lugar onde Nicholas estava, mas sua mente estava longe.
Esta ficando de noite... – Nicholas começou a falar novamente, mas Kaya não estava mais prestando atenção. Sua mente estava girando, e girando, e girando, como se fosse em um carrossel, só que em uma velocidade muito mais rápida. Sua pressão estava começando a cair e ela estava começando a ver tudo branco. Pouco a pouco ela foi perdendo seus sentidos. – Kaya, você esta me ouvindo? Kaya..?
Você lembra meu nome. – ela esboçou um pequeno sorriso fraco no canto de seus lábios e então tudo virou um grande borrão.
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