Turbulência
2 Mochileira
Minha cabeça estava me torturando com uma dor incessante. Olhei ao redor para tentar entender onde estava e uma fraca luz iluminava o ambiente. Eu estava deitada em um sofá e na ponta dele um rapaz estava sentado. Ele estava olhando para frente, e não para mim, o que eu agradeci. Antes mesmo de tentar entender tudo que estava acontecendo, imagens e mais imagens começaram a surgir em minha mente. Tudo o que tinha acontecido, como se fosse frames, agora estava girando em minha cabeça. Tentei organizar tudo e colocar na ordem correta. De inicio, pensei que poderia ser apenas um sonho. Mas logo lembrei de tudo, tudo o que aconteceu antes, e não teria sido um sonho, mas sim um pesadelo.
Nicholas respirou fundo e soltou o ar lentamente, ele se moveu com cuidado e olhou para mim. Nossos olhos se encontraram.
– Você acordou. – ele disse, se arrumando no sofá. Sua voz soou fraca, calma, como se fosse uma espécie de calmante.
– O que estou fazendo aqui? – levantei no sofá, com cuidado.
– Você não lembra o que aconteceu?
– Sim. – eu engoli em seco. – E não.
– Você estava na rua, sentada... Chorando... – ele pensou um pouco, como se estivesse formulando bem o que ia dizer – Kaya, o importante aqui é você saber quem eu sou. Você sabe, não sabe?
Eu sorri.
– Nicholas Benson.
Ele assentiu.
– Você esta bem? Você esta melhor? Você precisa se alimentar. – Ele pegou uma xícara que estava em cima da mesa de centro da sala e entregou para mim. Meus olhos foram da xícara para ele, dele pra xícara, ele me instigou a pegar e por fim peguei a xícara. – É chá de camomila, não tem nada demais.
– É bom. – respondi, depois de dar um gole.
Ele sorriu. Seus olhos estavam fixos em mim, como se estivesse me analisando, reparando em mim, tentando ver algo que não estava visível.
– Você esta bem?
– Sim – respondi de imediato.
Geralmente, quando as pessoas fazem essa pergunta, elas nunca querem saber a resposta realmente. Apenas perguntam por educação. Eu aprendi a responder por educação também.
Tomei mais um gole do chá, estava realmente bom.
– Você precisa comer alguma coisa. – Ele disse, se levantando do sofá.
– Espera... – as palavras saíram pela minha boca. Eu nem sabia o que ia dizer, nem sabia se eu deveria dizer alguma coisa. Mas eu precisava saber, eu precisava entender o que tinha acontecido. Eu estava confusa, minha cabeça estava doendo e eu só queria que essa dor parasse. Eu só queria ter um minuto de paz.
Nicholas parou assim que me ouviu, ele ficou olhando nos meus olhos. Eu me mexi inquieta no sofá. Sempre me senti constrangida e sem saber o que fazer quando as pessoas me encaravam nos olhos.
– Como você me reconheceu? Aliás, você me reconheceu! O que estava fazendo naquela rua? Como me achou?
– Como eu não reconheceria? – ele respondeu, abrindo um pequeno sorriso em sua boca. – Eu moro por aqui, Kaya. Mas você não. Você quem precisa responder o que estava fazendo naquela rua.
Eu sorri. O sorriso simplesmente apareceu em meus lábios, não pude evitar. Fiquei olhando para ele, seu sorriso aumentou um pouco.
– Conhece o guia do mochileiro das galáxias? – perguntei, arqueando de leve minha sobrancelha.
– O livro? – ele respondeu um pouco confuso.
– Sim. – eu sorri ainda mais. Olhei ao redor procurando pela minha mochila. Ela estava do lado da mesa de centro. Meu corpo estava doendo um pouco, mas fui até lá e consegui pega-la. Retirei de dentro dela uma toalha e levantei-a, chacoalhando para que ele pudesse ver. Ele cruzou os braços, parado em minha frente, sem entender nada.
– Digamos que eu estava me aventurando como uma mochileira, e a coisa mais importante para um mochileiro é “nunca esquecer a toalha”.
Ele riu, um riso suave, enquanto balançava a cabeça de um lado para outro . E então, ele tirou a toalha de minha mão, e apenas esse pequeno toque de sua mão na minha fez com que meu corpo se estremecesse todo. Ele estava com essa mania de ficar me olhando nos olhos, sem piscar uma vez sequer. Mesmo tentando manter o olhar, depois de uns 05 segundos eu fui obrigada a desviar. Dei um passo para trás antes de olhar para ele novamente. Era incrível como aqueles olhos me intimidavam. Sempre foi assim, pessoalmente ou não.
– Acho que eu preciso comer alguma coisa. – e então, me sentei novamente no sofá.
– Certo. – ele concordou, se afastando também. – Você tem alguma preferência?
– Hm... Nada que for ou tenha carne, ficaria agradecida.
– Vegetariana? – ele arqueou a sobrancelha ao fazer essa pergunta.
Eu respondi fazendo positivo com a cabeça.
Ele fez uma careta, uma careta extremamente fofa e arrumou sua touca na cabeça.
– Me de alguns minutos e terá o que comer. – Dando uma piscadinha com o olho esquerdo, ele saiu do meu campo de visão e foi para a cozinha.
Eu me arrumei no sofá, olhando tudo a volta. Era impossível acreditar que aquilo tudo estava acontecendo. Eu estava simplesmente sentada no sofá do Nicholas Benson, como que isso poderia realmente ser real e não um sonho? Em um momento, eu estou sentada no meio de uma rua que eu nem sei qual é o nome, bebendo e fumando, chorando e com minha cabeça doendo. E em outro, eu estou na casa do Nicholas Benson.
Eu mal tinha percebido, mas estava sorrindo.
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