Tudo o que não superamos
24 Leve, até doer
Os dias passaram.
E, dessa vez… Hanna realmente seguiu em frente.
Não como vingança.
Não como jogo.
Ela simplesmente cansou de esperar algo que nunca saía do lugar.
As mensagens com Cha Eun-woo começaram discretas.
Primeiro comentários bobos sobre trabalho.
Depois piadas internas.
Conversas tarde da noite entre agendas caóticas e fotos aleatórias de cafés que ele insistia em mandar porque dizia que “ela parecia o tipo de pessoa que julgava cafeteria pela iluminação”.
E honestamente?
Ela ria.
Porque ele era leve.
Gentil. Educado.
Atencioso sem parecer forçado.
E bonito.
Ridiculamente bonito.
Mas Hanna já estava acostumada com homens interessados nela.
Isso nunca foi novidade.
Convites apareciam.
Olhares apareciam.
Interesse aparecia.
Ela simplesmente nunca dava espaço.
Só que dessa vez… deu.
Talvez porque estivesse cansada de amar alguém que sempre parecia um passo atrás dela emocionalmente.
Talvez porque Eun-woo não fazia jogos.
Quando queria falar com ela, falava.
Quando queria ver ela, chamava.
Simples.
Sem desaparecer.
Sem distância emocional mascarada de proteção.
Numa tarde fria em Seoul, ela aceitou encontrar ele.
Só um café.
Nada demais.
Pelo menos era isso que repetia mentalmente enquanto terminava de se arrumar.
O lugar era discreto.
Uma cafeteria pequena escondida entre ruas silenciosas de Gangnam.
Quando Hanna entrou, encontrou Eun-woo já esperando perto da janela.
Boné preto. Casaco escuro.
Mesmo tentando passar despercebido… impossível.
Ele levantou no instante em que viu ela.
E sorriu.
Daquele jeito fácil que desmontava tensão sem esforço.
— Achei que você ia cancelar.
Hanna tirou o cachecol devagar.
— Pensei nisso.
Ele colocou a mão no peito dramaticamente.
— Cruel.
Ela riu baixo enquanto sentava.
E aquilo era estranho.
Porque fazia tempo que conversar com alguém não parecia tão simples.
Sem peso.
Sem medo de falar demais.
Sem tentar decifrar silêncio.
Só leve.
E talvez justamente por isso… perigoso.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Bang Chan continuava preso dentro do estúdio.
Dias virando noites.
Noites virando manhãs.
O novo álbum consumindo tudo.
Ele se enfiava no trabalho como quem tenta sobreviver.
Batidas. Gravações. Ensaios.
Qualquer coisa que impedisse a cabeça de pensar demais.
Ou pelo menos tentar.
Porque, no fundo… Hanna ainda estava ali.
Em cada pausa silenciosa.
Em cada letra que ele apagava porque parecia pessoal demais.
Mas Chan achava que ainda tinha tempo.
Achava que eles estavam presos naquele mesmo ciclo de sempre.
Distantes… mas inevitavelmente voltando.
Achava que ela também estava esperando.
Uma próxima conversa.
Uma próxima madrugada.
Uma próxima vez.
Só que Hanna não estava mais parada no mesmo lugar.
E ele ainda não fazia ideia disso.
Chan percebeu antes mesmo de saber.
Hanna tinha mudado.
Não era só distância profissional ou agendas diferentes.
Era como se ela tivesse finalmente soltado a corda que ainda prendia os dois.
Nenhum olhar demorando mais do que devia.
Nenhuma conversa atravessando a madrugada.
Nenhum daqueles pequenos gestos silenciosos que mantinham alguma coisa viva entre eles.
Nada.
Tudo limpo demais.
Definitivo demais.
E ele percebeu.
Claro que percebeu.
Mas fez o que vinha fazendo há semanas: ignorou.
Às vezes abria a conversa dos dois no celular.
Ficava olhando a tela por minutos.
Pensava em mandar uma mensagem simples.
“Como você tá?”
Só isso.
Mas nunca enviava.
Porque toda vez o medo falava mais alto.
Medo da resposta.
Ou pior… da indiferença.
Então deixava pra depois.
Até que ouviu sem querer.
No corredor da empresa.
Dançarinos jogados pelos cantos, mochilas abertas no chão, garrafas de água espalhadas e conversa alta ecoando entre as salas de ensaio.
— Cara… o Cha Eun-woo zerou a vida.
Risadas.
— Também, olha a Hanna.
Outro entrou no assunto:
— Eles tão saindo mesmo?
— Se não tão, vão acabar ficando.
Mais risadas.
— Combina muito, fala sério.
E foi ali que tudo parou.
Não no corredor.
Nele.
Chan ficou imóvel.
O maxilar travou devagar enquanto os olhos permaneciam fixos em algum ponto qualquer da parede.
“Eles tão saindo.”
A frase ficou martelando na cabeça dele de um jeito irritante.
Pesado.
Real.
Porque, pela primeira vez, não parecia rumor distante.
Parecia verdade.
Hanna tinha seguido em frente.
Sem fazer cena.
Sem tentar provocar ciúmes.
Sem olhar pra trás esperando ele alcançar.
Ela simplesmente cansou.
E aquilo bateu mais forte do que ele imaginava.
A imagem veio automática na cabeça.
Hanna rindo com Eun-woo.
Conversando leve.
Sem tensão. Sem medo. Sem precisar implorar espaço emocional pra alguém.
Leve.
Era isso que mais incomodava.
Ela parecia leve longe dele.
Chan passou a mão no rosto lentamente, tentando organizar os próprios pensamentos.
Mas não tinha organização possível.
Porque, no fundo, ele sabia.
Quando Hanna pediu que ele escolhesse… ele hesitou.
Quando ela ficou… ele recuou.
Quando ela se abriu… ele respondeu com silêncio e dúvida.
E agora ela estava fazendo exatamente o que prometeu.
Seguindo em frente.
— Droga…
Saiu rouco. Baixo.
Quase cansado.
Porque o medo já não era mais sobre se machucar.
Era perceber que talvez tivesse esperado tempo demais.
E, pela primeira vez, Bang Chan não fazia ideia de como impedir alguém de ir embora depois de ter sido ele quem soltou a mão primeiro.
Chan não reagiu.
Não ali.
Não na frente de ninguém.
Só virou e saiu.
Como se não tivesse ouvido.
Como se aquilo não tivesse atravessado ele inteiro.
Mas atravessou.
Cada palavra.
Cada risada.
Tudo ficou preso na cabeça dele.
No ensaio, voltou pro lugar como sempre.
Marca.
Posição.
Contagem.
— De novo — alguém pediu.
A música começou.
Os corpos entraram em sincronia instantaneamente, movimentos precisos acompanhando a batida pesada do instrumental.
E Chan acompanhou.
Perfeito.
Técnico.
Impecável.
Como sempre.
Mas vazio.
O sorriso aparecia no momento certo, só que não chegava nos olhos.
As respostas vinham automáticas.
A energia… artificial.
Han Jisung percebeu primeiro.
Trocou um olhar rápido com Changbin enquanto observava Chan repetir a coreografia.
Ninguém comentou nada.
Não precisava.
Dava pra ver.
Então aconteceu.
Um erro.
Pequeno. Quase invisível.
Mas Bang Chan não errava.
Ele parou na mesma hora.
— De novo.
A voz saiu mais seca do que deveria.
Mais dura.
Como se repetir os movimentos pudesse colocar alguma ordem dentro da própria cabeça.
Não colocou.
A música voltou ainda mais alta.
E Chan foi junto.
Mais rápido.
Mais intenso.
Forçando o corpo até o limite numa tentativa inútil de cansar os pensamentos.
Mas não adiantava.
Porque toda vez que fechava os olhos por meio segundo… ela aparecia.
Hanna rindo.
Sentada num café com outro homem.
Leve daquele jeito que ela nunca parecia conseguir ser com ele.
Aquilo corroía.
O maxilar travou.
Os movimentos começaram a ficar pesados demais.
— Hyung… — alguém chamou, preocupado.
— Tô bem.
Resposta automática.
Mentira automática.
O ensaio terminou algum tempo depois entre aplausos dispersos e comentários sobre ajustes na coreografia.
Chan não ficou.
Pegou a garrafa de água e saiu antes que alguém tentasse conversar.
O corredor estava vazio.
Silencioso.
Só o som rápido dos passos dele ecoando pelo chão.
Até parar.
Sozinho.
Encostado na parede fria.
Ele passou a mão pelo rosto com força, soltando o ar preso de uma vez.
— Idiota…
Baixo.
Não era raiva dela.
Era dele mesmo.
Porque agora já não dava mais pra fingir que aquilo era só orgulho ou confusão.
Tinha passado desse ponto há muito tempo.
E pela primeira vez, o controle que Bang Chan passou meses tentando manter… começava finalmente a escapar das mãos dele.
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