Tudo o que não superamos

25 O som do coração


A reunião aconteceu numa sala pequena da empresa.

Nada muito grandioso.

Só uma mesa comprida, café ruim e um projetor ligado numa apresentação que Hanna nem estava prestando atenção direito.

Ela mexia distraidamente na tampa da caneta enquanto o diretor falava.

— Nós pensamos bastante antes de trazer isso pra você.

Hanna levantou os olhos.

O homem sorriu.

— Porque é um projeto arriscado.

A tela mudou.

“Acoustic Project Album”.

Ela piscou devagar.

Achando que tinha entendido errado.

— Desculpa… um álbum?

— Autoral — completou uma das produtoras. — Composição sua. Conceito seu. Voz principal sua.

Silêncio.

Hanna encostou na cadeira.

O coração bateu mais forte imediatamente.

Aquilo era antigo.

Muito antigo.

Antes dos palcos grandes.

Antes da pressão.

Antes de virar produto.

Ela escrevia músicas acústicas escondida no quarto porque gostava da sensação de colocar verdade nas letras.

Sem coreografia.

Sem performance perfeita.

Só música.

— A empresa quer testar algo diferente — continuou o diretor. — Mais cru. Mais emocional.

Outro produtor abriu um sorriso leve.

— E honestamente? Você é uma das poucas pessoas aqui que conseguiria carregar isso.

Hanna demorou alguns segundos pra responder.

— Vocês já ouviram as minhas demos?

A produtora assentiu.

— Todas.

Pausa.

— E ficaram boas demais pra continuar guardadas.

Aquilo bateu nela de um jeito silencioso.

Porque ninguém ali estava falando de hit.

Nem de viral.

Nem de trend.

Estavam falando dela.

Da música dela.

Hanna abaixou os olhos rapidamente, tentando esconder o impacto.

— Eu aceito.

A resposta saiu antes mesmo dela pensar direito.

O diretor sorriu satisfeito.

— Ótimo. Porque queremos começar imediatamente.

Os próximos dias viraram caos.

Mas um caos diferente.

Pela primeira vez em muito tempo, Hanna trabalhava em algo que parecia completamente dela.

Violões espalhados pelo estúdio.

Cadernos antigos abertos.

Letras escritas de madrugada finalmente ganhando melodia de verdade.

E o mais estranho?

O 3RACHA não estava envolvido.

Não porque houvesse briga.

Só… não fazia sentido.

O som era íntimo demais.

Calmo demais.

Cru demais.

Aquilo não tinha nada a ver com o estilo agressivo e explosivo que Bang Chan, Han e Changbin construíam juntos.

Mesmo assim, aquilo mexeu nela mais do que imaginava.

Porque trabalhar sem eles deixava evidente uma coisa que Hanna vinha tentando ignorar:

Bang Chan realmente estava ficando distante da vida dela.

Enquanto ela passava noites gravando guia de voz em estúdios menores e silenciosos, o Stray Kids praticamente morava na empresa finalizando o novo álbum.

Era gravação atrás de gravação.

Coreografia.

Reunião.

Produção.

Bang Chan estava afundado em trabalho.

E talvez fosse melhor assim.

Porque toda vez que a cabeça ficava livre por mais de cinco minutos… ela voltava.

Às vezes vinha do nada.

Num cheiro parecido com o perfume dela no corredor.

Numa letra melancólica demais.

Num café esquecido em cima da mesa porque Hanna fazia exatamente aquilo quando passava horas escrevendo.

Era irritante.

Constante.

Como um espinho pequeno preso fundo demais pra ignorar.

Naquela noite, Chan estava sozinho no estúdio revisando uma faixa pela terceira vez.

A música tocava alta nas caixas de som enquanto ele encarava a tela do computador sem realmente prestar atenção.

Han tinha ido embora fazia quase uma hora.

Changbin também.

Só ele continuava ali.

Parado.

Cansado.

O celular vibrou em cima da mesa.

Mensagem nova.

Ele pegou automaticamente.

Mas não era dela.

Nunca era.

Chan soltou o aparelho de volta na mesa com mais força do que precisava.

Passou a mão no rosto.

Exausto.

Porque o pior não era nem ciúmes mais.

Era não saber o que fazer.

Ir atrás dela pra dizer o quê?

“Desculpa por só perceber tarde demais?”

“Espera mais um pouco enquanto eu descubro meus próprios sentimentos?”

Ridículo.

Ele apoiou os cotovelos na mesa e ficou olhando pro nada por alguns segundos.

No fundo, Chan sabia.

Hanna estava andando pra frente.

E ele ainda estava parado exatamente no mesmo lugar onde deixou ela.

A primeira apresentação solo de Hanna foi anunciada de forma simples.

Sem teaser extravagante.

Sem conceito mirabolante.

Sem performance explosiva.

Só um pôster.

O nome dela.

Um violão apoiado no chão.

E a frase:

“First Acoustic Live”.

A internet estranhou imediatamente.

Porque ninguém esperava aquilo dela.

Hanna sempre foi conhecida como presença de palco.

A dançarina principal.

A energia absurda nos shows.

Coreografias difíceis executadas como se fossem fáceis.

E agora, de repente…

ela aparecia sentada num banco com um violão no colo.

Crua.

Simples.

Real.

Os comentários começaram no mesmo dia.

— Ela canta assim mesmo?

— Achei que ela fosse só performance.

— Álbum autoral?

— Ela compôs tudo?

E Hanna viu.

Todos.

Mas dessa vez não doeu.

Porque pela primeira vez em muito tempo, ela não estava tentando provar nada pra ninguém.

Só estava mostrando uma parte dela que sempre existiu.

O pequeno teatro onde aconteceria a apresentação lotou rápido.

Luzes baixas.

Palco simples.

Banda reduzida.

Nada ali gritava espetáculo.

E era exatamente esse o ponto.

Nos bastidores, Hanna respirava fundo enquanto ajustava o retorno no ouvido.

Uma maquiadora terminou os últimos retoques.

— Nervosa?

Hanna soltou um riso baixo.

— Muito.

A mulher sorriu.

— Isso é bom.

Talvez fosse.

Porque fazia anos que ela não sentia nervosismo daquele jeito.

Não era medo de errar coreografia.

Nem pressão de câmera ao vivo.

Era exposição.

Da alma mesmo.

Quando chamaram o nome dela, o coração bateu forte.

Hanna caminhou até o palco ouvindo os aplausos crescerem devagar.

E então viu.

As pessoas.

Esperando.

Curiosas.

A luz bateu fraca no rosto dela enquanto se sentava no banco no centro do palco.

O violão repousou no colo.

Silêncio.

Por alguns segundos ninguém falou nada.

Nem ela.

Hanna olhou o público.

Respirou fundo.

E sorriu pequeno.

— Acho que essa é a primeira vez que vocês estão vendo a versão mais honesta de mim.

A plateia ficou completamente quieta.

— E… sinceramente? Isso dá mais medo do que dançar na frente de cinquenta mil pessoas.

Algumas risadas leves quebraram a tensão.

Ela abaixou os olhos pro violão.

Os dedos tocaram os primeiros acordes.

Suaves.

E quando Hanna começou a cantar…

o teatro inteiro mudou.

Porque aquela não era a artista construída pela indústria.

Era ela.

A voz limpa.

Emocional.

Sem exagero.

Cada palavra parecia vivida de verdade.

E talvez fosse exatamente isso que deixava tudo tão forte.

As músicas falavam sobre saudade.

Medo.

Solidão.

Amar alguém que nunca parecia chegar inteiro.

E as pessoas sentiram.

De verdade.

Nos bastidores, alguns funcionários da empresa se entreolharam surpresos.

Porque ninguém esperava aquele nível de composição vindo dela.

Uma produtora comentou baixinho:

— Isso aqui vai mudar a carreira dela.

E talvez mudasse mesmo.

Porque naquela noite Hanna deixou de ser apenas um rosto famoso dentro de um grupo.

Ela virou artista.

Do outro lado da cidade, Bang Chan ainda estava no estúdio quando o celular de Changbin vibrou.

O produtor olhou a tela rapidamente.

— A Hanna começou a live showcase.

Chan não respondeu.

Continuou mexendo nos arquivos.

Ou fingiu continuar.

Changbin lançou um olhar discreto pra ele.

— Tão falando muito bem.

Silêncio.

Chan apertou a mandíbula devagar.

Tentando não perguntar.

Falhando miseravelmente.

— É?

Resposta curta.

Changbin assentiu.

— Parece diferente do que ela fazia antes.

Han, jogado no sofá do estúdio, entrou no assunto sem perceber o peso daquilo.

— Ela compôs tudo sozinha.

Aquilo atingiu Chan estranho.

Porque ele sabia o quanto aquilo significava pra ela.

Sabia porque ouviu algumas demos antigas anos atrás.

Músicas que Hanna escondia como segredo.

E agora ela finalmente estava mostrando aquilo pro mundo.

Sem ele.

Chan abaixou os olhos pra mesa.

E pela primeira vez em semanas… sentiu orgulho antes da dor.

Um orgulho silencioso.

Perigoso.

Porque fez ele perceber o quanto conhecia aquela versão dela.

E o quanto estava deixando ela escapar mesmo assim.

O showcase continuava envolto naquele clima intimista.

Luzes baixas.

A banda tocando suave ao fundo.

E Hanna sentada no centro do palco como se aquele fosse exatamente o lugar onde sempre deveria estar.

A mídia estava presente, claro.

Câmeras espalhadas pelo teatro.

Jornalistas convidados.

Filmagens para divulgação do projeto.

E naquela noite, Cha Eun-woo não tentou passar despercebido.

Porque não precisava.

Ele tinha sido convidado por Hanna.

Estava sentado na plateia principal, visível o suficiente para as câmeras encontrarem ele rapidamente.

Camisa escura.

Postura tranquila.

Olhar completamente preso nela.

E aquilo chamou atenção imediatamente.

Principalmente pelo jeito como Eun-woo assistia.

Orgulhoso.

Como alguém que sabia exatamente a importância daquela noite pra ela.

As câmeras mostraram ele algumas vezes durante as músicas mais emocionais.

E em todas… o olhar dele estava nela.

Na internet, os comentários começaram a explodir em tempo real.

— Ela convidou ele?

— O jeito que ele olha pra Hanna…

— Isso tá ficando sério.

— Ele parece completamente encantado.

Mas no palco, Hanna tentava manter o foco.

Tentava.

Porque às vezes os olhos acabavam encontrando os dele no meio da plateia.

E toda vez… Eun-woo sorria pequeno.

Calmo.

Seguro.

Como quem dizia sem precisar falar:

“Você tá incrível.”

Aquilo mexia com ela.

Não de forma avassaladora.

Mas confortável.

Leve.

Porque fazia tempo que Hanna não sentia alguém admirando ela sem tornar tudo complicado.

Durante uma pausa entre músicas, ela pegou a garrafa d’água enquanto o público aplaudia.

Foi nesse momento que as câmeras mostraram Eun-woo no telão lateral.

O teatro reagiu imediatamente.

Gritos.

Assobios.

Risos animados.

Hanna arregalou os olhos na mesma hora.

— Ah, vocês são muito rápidos… — ela riu, balançando a cabeça.

O público aumentou ainda mais o barulho.

E Eun-woo apenas sorriu, claramente sem se incomodar com a atenção.

Um dos músicos brincou baixo perto dela:

— Acho que agora já era.

Hanna riu pelo nariz antes de voltar pro microfone.

Mas então aconteceu de novo.

Ela olhou pra plateia.

E encontrou ele olhando de volta.

Dessa vez, Hanna sustentou o olhar por um segundo a mais.

Pequeno.

Natural.

Mas suficiente para as câmeras captarem tudo.

E claro…

a internet enlouqueceu.

Os vídeos começaram a circular antes mesmo do showcase acabar.

“CHA EUN-WOO PRESTIGIA SHOWCASE SOLO DE HANNA.”

“Os olhares entre os dois roubam atenção durante apresentação.”

“Ela convidou ele pessoalmente?”

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Bang Chan continuava preso dentro do estúdio.

Han apareceu segurando o celular.

— Hyung…

Chan nem levantou os olhos.

— O quê?

Han virou a tela devagar.

— Acho melhor você ver isso antes que alguém comente na sua frente.

Chan pegou o celular sem muito interesse.

Até olhar a tela.

Primeiro viu Hanna.

Sentada sob as luzes baixas, violão no colo, cantando daquele jeito cru que ele conhecia tão bem.

Depois viu Eun-woo na plateia.

Sem esconder nada.

Assistindo ela como se fosse impossível olhar pra qualquer outro lugar.

E então vieram os vídeos.

Os olhares.

Os sorrisos.

Os comentários.

O silêncio no estúdio ficou estranho imediatamente.

Chan não falou nada.

Só continuou olhando pra tela por tempo demais.

Porque aquilo doeu diferente.

Não era mais imaginação.

Não era rumor de corredor.

E pela primeira vez… Bang Chan sentiu, de verdade, que estava ficando pra trás.