Tudo o que não superamos
8 Uma nova oportunidade ou mais uma desilusão?
Os dias continuavam brutais.
Nada mudou de verdade na agência.
Os managers continuavam cobrando.
Os diretores continuavam frios.
As avaliações continuavam sugando cada gota de energia deles.
Hanna ainda recebia olhares atravessados por ser “diferente”.
Bang Chan ainda carregava o peso sufocante de cinco anos tentando debutar.
Mas agora existia uma pequena luz no fim de cada dia.
E às vezes isso basta pra alguém continuar.
Os dois começaram a se encontrar sempre que conseguiam arrancar alguns minutos da rotina impossível:
numa sala vazia;
no terraço da empresa;
perto das máquinas de bebida;
caminhando pelas ruas frias de Seoul depois do toque de recolher.
Momentos pequenos.
Mas preciosos.
Hanna percebia que o corpo relaxava automaticamente quando estava perto dele.
Como se finalmente pudesse respirar sem precisar provar nada.
Numa noite ela apareceu na sala de prática irritadíssima depois de uma avaliação.
Jogou a mochila no chão dramaticamente.
— Eu odeio harmonia vocal.
Chan, sentado no chão mexendo no notebook, levantou os olhos lentamente.
— Forte declaração.
— Eu tô falando sério. Se mais um professor falar “apoie melhor a respiração” eu vou apoiar uma cadeira na cabeça dele.
Chan quase engasgou de tanto rir.
— Hanna!
— O quê? Eu não vou fazer de verdade.
Ela sentou do lado dele cruzando os braços igual criança emburrada.
Os cabelos presos de qualquer jeito já escapavam do elástico depois de horas de treino.
Chan observou aquilo em silêncio por um instante.
Ainda achava absurdo como ela conseguia ser bonita sem perceber.
Então fechou o notebook.
— Vem aqui.
— Hm?
Ele abriu os braços devagar.
Sem dizer mais nada.
Hanna não hesitou nem um segundo.
Se encaixou no abraço dele imediatamente, soltando um suspiro cansado assim que sentiu o calor do corpo dele.
Aquilo virou hábito rápido demais.
Às vezes conversavam por horas:
sobre música,
medos,
infância,
saudade de casa.
Outras vezes…
ficavam em silêncio.
Só abraçados no chão de alguma sala vazia enquanto a cidade continuava correndo lá fora.
E estranhamente aqueles silêncios nunca eram desconfortáveis.
Pelo contrário.
Pareciam descanso.
Chan gostava especialmente quando Hanna começava a falar português sem perceber que estava cansada demais pra manter o coreano perfeito.
Ela reclamava baixinho:
— Tô cansada…
— Minha perna tá doendo…
— Quero comida brasileira…
E então parava abruptamente.
— Ah. Desculpa.
Chan sorria de lado.
— Continua. Eu gosto quando você mistura as línguas.
Ela fazia uma careta.
— Fica bagunçado.
— Você inteira é meio bagunçada.
— Nossa, que romântico.
— Eu tento.
Hanna ria abafado contra o peito dele.
E Chan sentia o coração apertar daquele jeito perigoso outra vez.
Porque ela estava virando lar.
Mesmo naquele lugar frio e competitivo.
Às vezes Hanna falava da saudade absurda do Rio de Janeiro:
do calor,
da comida da mãe,
do barulho da rua,
do jeito que as pessoas se abraçavam sem vergonha.
E Chan contava sobre a Australia:
os amigos,
o sotaque,
a família,
a culpa de ter ido embora tão novo.
Dois estrangeiros de formas diferentes.
Tentando construir pertencimento um no outro.
Numa madrugada particularmente fria, Hanna estava quase dormindo encostada nele depois do treino.
Chan passou os dedos devagar pelos cabelos dela.
— Você devia descansar mais.
Ela respondeu de olhos fechados:
— Você também devia.
— Tô falando sério.
— Eu também.
Silêncio.
Depois Hanna murmurou baixinho, quase dormindo:
— Quando eu tô com você… fica menos difícil.
E aquilo atingiu Chan em cheio.
Porque ele sentia exatamente a mesma coisa.
No dia seguinte ...
O escritório do diretor cheirava a café frio e papel velho.
Hanna odiava aquele lugar.
Toda vez que era chamada ali sentia o estômago endurecer automaticamente.
Naquela manhã em Seoul ela bateu na porta já nervosa.
— Entre.
O diretor nem levantou os olhos dos documentos primeiro.
Hanna fez reverência educadamente antes de sentar.
Silêncio.
Só o som do ar-condicionado baixo preenchendo a sala.
Então ele finalmente tirou os óculos e olhou pra ela.
— Hanna… você sabe que debutar aqui é praticamente impossível.
Aquilo bateu nela igual água gelada outra vez.
Mesmo já tendo ouvido antes.
Ela abaixou os olhos imediatamente.
— Sim, senhor.
A resposta automática.
Treinada.
Educada.
Mas o diretor continuou:
— Porém… talvez exista outra possibilidade.
Hanna levantou o rosto devagar.
Confusa.
O homem cruzou as mãos sobre a mesa.
— Tenho contatos na California.
O coração dela tropeçou.
— Como assim?
— Um agente amigo meu está procurando garotas jovens e talentosas para formar um novo grupo.
Hanna arregalou os olhos imediatamente.
O diretor continuou calmamente:
— Eu falei sobre você.
Agora ela realmente parecia sem reação.
— Sobre… mim?
— Seu perfil chamou atenção dele.
A voz dele era prática.
Profissional.
Mas Hanna sentia o coração acelerando absurdamente.
— Você é fluente em inglês.
Tem aparência considerada “global”.
Boa performance.
Boa adaptação cultural.
Aquilo era estranho de ouvir.
As mesmas características que a impediam de debutar na Coreia…
agora viravam vantagem.
Ela apertou as mãos sobre o colo tentando processar.
— E… o que isso significa?
— Significa que, se você tiver interesse, posso organizar um contato entre vocês.
Silêncio.
Hanna ficou imóvel encarando a mesa.
A cabeça girando rápido demais.
California.
Estados Unidos.
Outro país.
Outro mercado.
Outro sonho.
Ela nem sabia o que sentir primeiro.
Choque?
Medo?
Esperança?
O diretor observou a reação dela atentamente.
— Pense com calma. Não é uma oportunidade pequena.
Hanna assentiu devagar.
Ainda tentando respirar normalmente.
— Sim… senhor.
— Mas entenda uma coisa.
Ela levantou os olhos.
— Você talvez nunca se encaixe completamente no padrão coreano idol.
A frase ainda machucava.
Mesmo dita calmamente.
— Porém… fora daqui? Isso pode ser exatamente o que faz você se destacar.
O peito dela apertou estranho.
Porque pela primeira vez alguém falava sobre a aparência dela sem soar como rejeição.
Ainda assim…
parecia agridoce.
Como se ela estivesse sendo expulsa silenciosamente de um sonho que passou anos tentando alcançar.
O diretor deslizou um cartão pela mesa.
— Converse com sua família.
Depois me dê uma resposta.
Hanna pegou o cartão lentamente.
As mãos frias.
Quando saiu do escritório, os corredores da agência pareciam diferentes.
Mais apertados.
Mais distantes.
Ela caminhou sem rumo alguns segundos segurando o papel entre os dedos enquanto pensamentos atropelavam sua cabeça.
E então veio o pior deles:
“E o Chan?”
Hanna guardou aquilo só pra ela.
O cartão ficou escondido dentro da capa do caderno de vocal por dias.
Ela não contou para Bang Chan.
Nem pros avós em Busan.
Porque aquilo parecia perigoso.
Não a proposta em si.
Mas o que ela despertava dentro dela.
Esperança.
E Hanna já tinha aprendido que esperança demais naquele mercado podia destruir alguém.
Então decidiu pensar primeiro.
Conversar com os pais.
Entender se aquilo era oportunidade…
ou apenas outra forma educada de dizer:
“Você nunca vai pertencer aqui.”
Mas os dias continuaram correndo sem dar tempo pra respirar.
Outra audição interna chegou.
Mais avaliações.
Mais tensão nos corredores.
Mais meninas treinando até quase desmaiar.
E Hanna sentia o tempo correndo agora.
Quando chegou na empresa aos catorze, ela era vista como promissora.
Jovem.
Moldável.
Agora…
agora já existiam trainees mais novas chamando atenção.
Garotas de treze.
Doze.
Algumas treinando desde crianças.
Elas aprendiam rápido.
Tinham aparência mais próxima do padrão.
Ainda carregavam aquele brilho inocente que empresas adoravam vender.
E Hanna começou a perceber algo cruel:
ela já não era “a novata diferente”.
Só era mais uma trainee tentando sobreviver.
Naquela audição ela cantou bem.
Dançou bem.
Melhor do que anos atrás.
Mas não foi suficiente.
De novo.
Quando os nomes aprovados foram anunciados, o dela não estava lá.
E dessa vez doeu diferente.
Não como choque.
Mas como desgaste.
Ela ficou parada olhando a lista enquanto trainees mais novas comemoravam atrás dela.
Uma delas não devia ter mais que quatorze anos.
“Daqui a pouco eu vou ficar velha demais…”
O pensamento veio automático.
Cruel.
Realista.
Porque na indústria idol feminina o relógio corre rápido e sem piedade.
Hanna saiu do prédio mais tarde naquela noite sem avisar ninguém.
Só caminhou pelas ruas frias de Seoul tentando organizar a bagunça dentro da cabeça.
Ela estava cansada.
Cansada de lutar contra o próprio reflexo.
Contra padrões impossíveis.
Contra a sensação constante de nunca encaixar completamente.
E o pior?
Parte dela ainda amava aquele sonho.
Isso era o mais doloroso.
Porque seria mais fácil desistir se odiasse tudo.
Mas Hanna amava o palco.
Amava dançar.
Amava cantar mesmo quando a garganta queimava.
Ela só não sabia mais se a Coreia amaria ela de volta.
Mais tarde, quando encontrou Chan na sala de prática, tentou agir normalmente.
Sorriu.
Brincou.
Perguntou sobre o treino dele.
Mas Chan conhecia ela bem demais agora.
Ele percebeu na hora.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Hanna.
Ela desviou os olhos imediatamente.
Resposta suficiente.
Chan suspirou baixo.
— Você não sabe mentir.
Ela soltou uma risada pequena sem humor.
Então sentou no chão abraçando os joelhos.
Cansada.
Muito cansada.
Chan sentou ao lado dela sem pressionar dessa vez.
Só esperando.
E depois de um longo silêncio, Hanna falou baixo:
— Acho que eu tô ficando sem tempo.
O peito dele apertou imediatamente.
Porque entendia exatamente o que ela queria dizer.
sentou ao lado dela no chão da sala de prática como sempre fazia.
Sem invadir.
Sem pressionar.
Só ficando perto.
A música da sala ao lado vibrava fraca pelas paredes enquanto a chuva fina escorria pelas janelas de Seoul.
Hanna mantinha os joelhos abraçados contra o peito.
Pequena.
Cansada.
Chan observou ela por alguns segundos antes de perguntar baixo:
— O que aconteceu dessa vez?
Ela demorou um pouco pra responder.
Então perguntou de volta:
— Se você tivesse uma chance em outro lugar… você iria?
Aquilo fez Chan franzir levemente a testa.
Ele pensou antes de responder.
De verdade.
Porque não era uma pergunta simples pra alguém que tinha sacrificado metade da adolescência naquele sonho.
— Depende.
Hanna virou o rosto devagar pra ele.
— De quê?
Chan apoiou os braços nos joelhos olhando o chão.
— Se eu tivesse certeza… acho que iria.
Silêncio.
— Mas se fosse pra começar tudo do zero outra vez…
Ele soltou uma risada cansada.
— Acho que não sobreviveria.
A honestidade daquilo apertou o peito dela.
Porque entendia perfeitamente.
Treinee não era só treino.
Era abrir mão da própria juventude.
Da família.
Da saúde.
Do sono.
De partes de si mesmo.
Começar tudo outra vez parecia exaustivo só de imaginar.
Então Chan virou o rosto lentamente pra ela.
E percebeu.
Hanna estava nervosa demais pra aquela conversa ser hipotética.
Os olhos dele estreitaram levemente.
— Por quê?
Ela desviou os olhos imediatamente.
Erro clássico.
— Você não tá pensando em desistir… né?
A pergunta saiu mais baixa do que ele pretendia.
Mais vulnerável.
Hanna respirou fundo.
— Eu…
A voz falhou um pouco.
Ela tentou de novo.
— Não é isso.
Chan esperou em silêncio.
Então ela finalmente falou:
— Eu não tenho muito mais tempo.
Aquilo atingiu ele na hora.
Hanna abaixou ainda mais a cabeça.
— Se eu não for aceita esse ano… provavelmente vou ter que voltar.
O silêncio entre os dois ficou pesado imediatamente.
Porque “voltar” significava muita coisa.
Voltar pro Rio de Janeiro.
Voltar sem debutar.
Voltar carregando anos de esforço nas costas.
E Chan sabia o quanto aquilo assustava ela.
— Hanna…
Ela soltou uma risada pequena.
Triste.
— As trainees tão ficando cada vez mais novas.
E eu continuo aqui.
Chan odiou ouvir aquilo.
Porque ela falava de si mesma como se já estivesse ficando pra trás.
E talvez a parte mais cruel…
é que a indústria realmente fazia garotas acreditarem nisso tão cedo.
Ela passou a mão no rosto cansada.
— Às vezes eu olho pras meninas novas chegando e penso:
“Talvez meu momento já tenha passado.”
— Não fala isso.
A resposta dele veio firme demais.
Hanna levantou os olhos surpresa.
Chan estava olhando pra ela com uma intensidade rara.
Quase irritada.
— Você acha mesmo que acabou?
Ela deu de ombros fracamente.
— Eu não sei mais.
Aquilo partiu alguma coisa dentro dele.
Porque a Hanna que ele conheceu sempre lutava.
Mesmo cansada.
Mesmo machucada.
Ver ela começando a desistir de si mesma dava medo.
Então Chan se aproximou um pouco mais.
— Escuta aqui.
Ela ficou imóvel.
— Você ainda tem brilho nos olhos quando dança.
A voz dele suavizou.
— E pessoas que perderam o sonho não conseguem fingir isso.
Hanna sentiu o peito apertar imediatamente.
Chan continuou olhando diretamente pra ela.
— Então talvez você só esteja cansada.
Não acabada.
E pronto.
Ela quase chorou outra vez.
Hanna ficou olhando pra ele por alguns segundos depois daquilo.
O peito ainda apertado…
mas um pouco mais leve.
Então respirou fundo e tentou sorrir.
— É… você deve ter razão.
Bang Chan inclinou levemente a cabeça.
— Claro que tenho razão.
Ela revirou os olhos automaticamente.
— Convencido.
— Experiente.
— Velho.
— Yah.
Hanna acabou rindo.
Uma risada verdadeira dessa vez.
Então apontou pra ele dramaticamente:
— Afinal… você é meu oppa.
Chan congelou por meio segundo.
Depois soltou uma risada desacreditada.
— Ah, agora eu sou seu oppa?
— Sim.
Ela cruzou os braços fingindo seriedade.
— Você é.
Ele apoiou a cabeça na mão olhando pra ela divertido.
— Interessante… porque normalmente você me trata igual lixo.
— Isso é intimidade.
— Que romântico.
Os dois riram juntos.
E aquele peso horrível da conversa anterior diminuiu um pouco.
Só um pouco.
Mas o suficiente pra respirar.
Hanna observou ele ainda sorrindo e pensou como era estranho:
mesmo cansado,
mesmo machucado,
Chan ainda conseguia fazer ela se sentir segura.
Então uma ideia surgiu de repente.
— Que tal a gente sair hoje?
Chan piscou.
— Sair?
— É. Tipo… sair de verdade.
Ela gesticulou exageradamente.
— Cinema. Comida. Pessoas normais. Qualquer coisa que não envolva espelho de sala de treino.
Chan ficou encarando ela alguns segundos como se a proposta fosse absurda.
Talvez porque fosse mesmo.
Trainees raramente tinham tempo.
Ou energia.
Ou coragem.
Mas Hanna continuou:
— Vamos fingir por algumas horas que somos adolescentes normais.
Ele soltou uma risada nasal.
— Acho que já esqueci como faz isso.
— Então eu ensino, oppa.
Chan balançou a cabeça rindo baixo.
— Você realmente vai usar isso agora?
— Talvez.
— Perigosa.
Ela abriu um sorriso pequeno.
E pela primeira vez em semanas…
parecia leve outra vez.
Chan observou aquilo em silêncio por um instante antes de responder finalmente:
— Ok.
Os olhos dela brilharam imediatamente.
— Sério?
— Vai ser legal.
Hanna levantou rápido do chão animada de novo.
— Então anda logo antes que eu desista e volte a sofrer naquela aula de vocal infernal.
Chan segurou a risada enquanto levantava também.
— Você literalmente convidou alguém pra sair falando de sofrimento.
— Isso combina com nossa personalidade.
— Infelizmente combina mesmo.
Os dois saíram da sala lado a lado pelos corredores quase vazios da agência em Seoul.
E por algumas horas…
eles seriam só Hanna e Christopher.
Não trainees.
Não futuros idols.
Não pessoas tentando desesperadamente provar valor.
Só dois jovens cansados querendo respirar um pouco antes da próxima batalha.
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