Tudo o que não superamos
9 Antes da despedida
O cinema estava quase vazio naquela noite em Seoul.
Luzes baixas.
Cheiro de pipoca.
Adolescentes espalhados pelas últimas fileiras.
E Hanna, obviamente, escolheu o filme mais assustador possível.
Bang Chan só percebeu o erro quando já estavam sentados.
— Espera… isso é terror psicológico?
Hanna sorria inocente demais.
— Talvez.
— Hanna.
— Relaxa, oppa.
— Você tá feliz demais dizendo isso.
Ela já estava rindo antes mesmo do filme começar.
E piorou durante.
Toda vez que vinha uma cena tensa, Chan endurecia na cadeira automaticamente enquanto Hanna observava isso mais entretida do que o próprio filme.
Num jumpscare particularmente violento ele literalmente segurou o braço da poltrona com força.
Hanna quase caiu da cadeira de tanto rir.
— Você tá com medo mesmo?!
Chan olhou indignado pra ela.
— Claro que não.
Na mesma hora outra cena assustadora apareceu e ele se encolheu discretamente.
Hanna perdeu completamente a compostura.
A risada dela ecoou baixinho na fileira quase vazia.
— Christopher!
— Para de me julgar.
— Você tem medo de filme!
— E você tem problema psicológico por gostar disso.
Ela tentava parar de rir cobrindo a boca enquanto Chan afundava mais na cadeira completamente derrotado.
E pela primeira vez em muito tempo…
os dois pareciam realmente jovens.
Leves.
Sem peso nos ombros.
Sem avaliações.
Sem diretores.
Sem medo do futuro.
Só implicância boba e pipoca dividida no escuro.
Mas em determinado momento Hanna parou de prestar atenção no filme.
Virou o rosto lentamente pra ele.
Chan estava concentrado demais na tela tentando prever o próximo susto enquanto segurava o refrigerante como se aquilo fosse protegê-lo.
E Hanna observou.
De verdade.
O formato do rosto dele.
Os olhos cansados mesmo sob a luz fraca do cinema.
A boca curvada numa expressão séria demais pra um filme idiota de terror.
O jeito que passava a mão distraidamente no cabelo quando ficava nervoso.
Como se tentasse memorizar cada detalhe.
Guardar tudo.
Porque no fundo…
ela já tinha tomado sua decisão.
As conversas com a agência na California estavam avançadas.
Os pais tinham apoiado.
Os documentos quase resolvidos.
Faltavam poucos detalhes agora.
E Hanna sabia:
ela iria.
Porque aquela talvez fosse sua única chance real.
Mesmo assim…
o coração doía.
Doía de um jeito silencioso e cruel pensar em deixar Chan pra trás naquele lugar.
Depois de tudo que viveram.
De tudo que sobreviveram juntos.
Ela apertou devagar os dedos ao redor do copo de refrigerante tentando afastar aquela culpa.
Então Chan virou o rosto de repente.
— O quê?
Hanna piscou rapidamente.
— Hm?
— Você tá me olhando faz tempo.
Ela sentiu as bochechas esquentarem imediatamente.
— Não tô.
— Tá sim.
O sorriso dele apareceu pequeno.
Provocador.
— Você tá apaixonada por mim?
Ela pegou uma pipoca e jogou nele indignada.
— Cala a boca.
Chan começou a rir baixo.
E Hanna riu junto…
mesmo sentindo o peito apertar cada vez mais.
Porque talvez aqueles momentos simples estivessem começando a virar despedida sem ele saber.
O filme terminou perto da meia-noite.
Os dois saíram do cinema junto com o pequeno fluxo de pessoas caminhando pelas ruas iluminadas de Seoul.
O frio tinha aumentado.
Hanna mantinha as mãos escondidas nas mangas do casaco enquanto Bang Chan reclamava do filme pela décima vez.
— Você escolheu aquilo só pra me traumatizar.
— Drama.
— Tinha uma criança no corredor do hospital olhando pra parede!
— E daí?
Chan parou andando.
— “E daí”?!
Você é assustadora.
Hanna ria baixinho enquanto continuavam caminhando.
E aquilo tornava tudo pior.
Porque quanto mais ele sorria…
mais difícil parecia ir embora.
Quando chegaram perto do dormitório feminino, os dois desaceleraram naturalmente.
Como sempre faziam.
Nenhum dos dois gostava muito da parte da despedida.
Chan enfiou as mãos nos bolsos olhando a entrada iluminada do prédio.
— Você devia dormir cedo hoje.
— Olha quem fala.
— Eu tô tentando ser responsável.
— Credo. Que personalidade horrível.
Ele riu pelo nariz balançando a cabeça.
Então abriu os braços levemente.
Hanna foi até ele sem pensar.
O abraço veio natural agora.
Quente.
Confortável.
Familiar.
Ela fechou os olhos sentindo o cheiro do casaco dele, o calor do corpo, os braços apertando ela com cuidado.
E naquele instante o peito dela doeu forte.
Forte demais.
Porque talvez em pouco tempo aquilo acabasse.
Chan se afastou devagar primeiro, como sempre fazia.
— Boa noite, Hanna.
Ela assentiu tentando sorrir.
— Boa noite, oppa.
Ele revirou os olhos divertido antes de virar de costas pra ir embora.
E foi exatamente nesse momento que Hanna entrou em pânico.
Um medo absurdo e repentino atravessou ela:
“E se essa memória não for suficiente?”
Antes de pensar direito, segurou a manga do casaco dele.
Chan virou confuso.
— Hm?
E então ela puxou ele de volta.
O beijo veio rápido.
Impulsivo.
Cheio de sentimento preso.
Chan claramente foi pego de surpresa.
Os olhos arregalaram por meio segundo antes dele finalmente corresponder, segurando a cintura dela automaticamente enquanto Hanna se aproximava mais.
Diferente do primeiro beijo tímido na sala de treino…
esse tinha saudade antes mesmo da despedida acontecer.
Tinha medo.
Carinho.
Desespero silencioso.
Como se Hanna estivesse tentando guardar ele inteiro dentro do coração.
O mundo ao redor desapareceu por alguns segundos:
as luzes da rua,
os carros,
o frio,
a pressão.
Só existiam os dois.
Quando se afastaram, a respiração dos dois estava curta.
Chan ainda parecia atordoado.
Os olhos presos nela como se tentasse entender de onde tinha vindo aquilo tudo.
Hanna também parecia surpresa consigo mesma.
As bochechas vermelhas.
Os dedos ainda segurando a manga dele.
Então Chan soltou uma risada baixa, incrédula.
— Nossa…
Ela abaixou os olhos imediatamente envergonhada.
— Desculpa, eu só—
Mas ele segurou o rosto dela antes que terminasse.
Delicado.
Quase como naquela noite da sala de treino.
— Não pede desculpa por isso.
A voz dele saiu baixa.
Sincera.
E Hanna sentiu o coração apertar outra vez.
Porque ele ainda não sabia.
Não sabia que ela estava começando a ir embora aos poucos.
Aquela semana virou um caos silencioso dentro de Hanna.
Por fora ela continuava treinando normalmente.
Sorrindo.
Fazendo reverência pros diretores.
Cumprindo horários.
Por dentro…
parecia que o coração estava rachando devagar.
Os pais já organizavam tudo no Rio de Janeiro e na California.
O pai tinha conseguido transferência para uma filial em San Francisco.
A mãe pesquisava escolas.
Documentos estavam sendo preparados.
Tudo para que Hanna não ficasse sozinha outra vez em outro país.
Faltava pouco agora.
Muito pouco.
E justamente por isso ela começou a evitar pensar demais.
Porque toda vez que pensava em contar para Bang Chan…
travava.
O último beijo tinha piorado tudo.
Antes ela conseguia fingir que talvez aquilo fosse só amizade confusa entre dois trainees cansados.
Agora não dava mais.
Agora ela sabia exatamente o que sentia.
E ele também parecia saber.
Os dois começaram a aproveitar qualquer minuto livre juntos como adolescentes roubando tempo do mundo.
Escondidos, claro.
Trainees não podiam namorar.
Se descobrissem, poderia virar problema sério:
bronca,
restrições,
talvez até punição nos treinos.
Então eles aprenderam rápido a existir em silêncio.
Mãos dadas escondidas dentro do bolso do casaco.
Abraços rápidos em corredores vazios.
Beijos roubados em salas de prática depois da meia-noite.
Pequenos segredos.
Pequenos respiros.
Numa noite particularmente fria, Hanna e Chan estavam sentados no terraço da empresa dividindo um ramyeon instantâneo escondido.
A cidade brilhava abaixo deles.
Chan observava ela enrolando o macarrão distraidamente enquanto o vento bagunçava os cabelos dela.
Então soltou uma risada baixa.
— Você tá fazendo aquela cara de novo.
Hanna piscou.
— Que cara?
— Cara de quem tá pensando demais.
Ela desviou os olhos automaticamente.
E Chan percebeu na hora.
Ultimamente ela vinha fazendo isso muito.
Ficando distante por alguns segundos.
Quieta demais.
Como se carregasse alguma coisa pesada escondida.
Mas antes que ele perguntasse, Hanna empurrou o copo de ramyeon na direção dele.
— Come logo antes que esfrie.
— Você tá mudando de assunto.
— Sim.
— Hanna.
Ela sorriu pequeno tentando parecer normal.
— Christopher.
Ele estreitou os olhos desconfiado.
Mas acabou deixando passar.
Porque também estava cansado demais pra insistir.
Depois de um tempo Hanna encostou a cabeça no ombro dele silenciosamente.
Chan passou o braço ao redor dela automaticamente.
Natural agora.
Como respirar.
E aquilo quase fez ela desistir da Califórnia ali mesmo.
Porque pela primeira vez desde que saiu do Brasil…
ela tinha encontrado alguém que parecia lar.
O pior era isso.
Não era só paixão adolescente.
Era conforto.
Parceria.
Abrigo.
E talvez justamente por isso doesse tanto.
Chan olhou o horizonte da cidade enquanto acariciava distraidamente a mão dela.
— Quando a gente debutar…
O coração de Hanna apertou imediatamente.
Ele continuou sorrindo pequeno:
— A gente vai olhar pra essa época e perceber que sobreviveu.
Ela fechou os olhos por um instante.
Porque ele ainda falava no plural.
“A gente.”
Como se o futuro dos dois continuasse andando lado a lado.
E Deus…
como ela queria que continuasse.
Os dias começaram a correr rápido demais.
Rápidos daquele jeito cruel em que a vida percebe que algo importante está prestes a acabar.
Hanna já não conseguia dormir direito.
Toda vez que fechava os olhos vinha a mesma sensação sufocante:
“Eu preciso contar pra ele.”
Mas então chegava treino.
Escola.
Avaliação.
Managers.
Cansaço.
E ela adiava.
“Depois.”
“Amanhã.”
“Quando tiver um momento certo.”
Só que nunca existia momento certo pra partir o coração de alguém.
Numa tarde chuvosa em Seoul, Hanna recebeu uma ligação da mãe no intervalo da aula.
Ela saiu pro corredor vazio segurando o celular nervosamente.
— Oi mãe.
A voz da mãe parecia animada do outro lado.
— Hanna, seu pai conseguiu finalizar quase tudo.
O coração dela afundou imediatamente.
— Já?
— Sim. Nós vamos pra Seoul essa semana acertar os últimos detalhes com a agência.
Silêncio.
Hanna encostou lentamente na parede fria do corredor.
A mãe continuou falando sobre documentos, vistos e mudança enquanto Hanna sentia a realidade finalmente esmagando ela.
Era real.
Não era mais possibilidade.
Ela ia embora.
Muito em breve.
— Filha? Você tá ouvindo?
— Tô…
Mas a voz saiu distante.
Fraca.
Quando desligou a ligação, ficou parada olhando o celular por vários segundos.
As mãos frias.
O peito apertado.
Ela estava ficando sem tempo.
Sem tempo pra se despedir daquele lugar.
Dos avós em Busan.
Da rotina.
Dos corredores da empresa.
Sem tempo pra contar pra Bang Chan que ia embora.
E isso era o pior.
Porque quanto mais esperava…
mais impossível parecia abrir a boca.
Naquela noite eles se encontraram numa sala vazia depois do treino.
Chan estava sentado no chão compondo alguma coisa no notebook enquanto Hanna fingia alongar.
Fingia.
Porque na verdade só observava ele escondido.
O jeito concentrado.
Os dedos rápidos no teclado.
A testa franzida quando pensava numa melodia.
Ela sentiu o peito doer outra vez.
“Como eu vou deixar isso pra trás?”
Chan percebeu o olhar dela depois de alguns minutos e sorriu pequeno.
— O quê?
Hanna balançou a cabeça rápido.
— Nada.
— Mentira.
Ela riu fraco tentando disfarçar.
Então foi até ele e sentou ao lado encostando a cabeça no ombro dele automaticamente.
Chan fechou o notebook sem nem pensar.
A atenção dele sempre mudava pra ela primeiro agora.
— Dia difícil?
“Você nem imagina…”
Mas Hanna apenas assentiu.
Silêncio confortável.
Chan entrelaçou os dedos nos dela distraidamente enquanto os dois observavam a chuva escorrendo pelas janelas da sala.
Então ele falou baixo:
— Você anda estranha ultimamente.
Aquilo fez o coração dela acelerar imediatamente.
— Estranha como?
— Distante.
Ela abaixou os olhos rápido.
E Chan percebeu outra vez.
Claro que percebeu.
Ele conhecia os silêncios dela agora.
— Hanna…
A voz dele suavizou.
— Tá acontecendo alguma coisa?
Era ali.
O momento perfeito.
Ela podia contar.
Podia simplesmente olhar pra ele e dizer:
“Eu vou embora.”
Mas quando abriu a boca…
travou.
Porque só de imaginar o olhar dele mudando…
já doía.
Então ela mentiu.
Outra vez.
— Só tô cansada.
Chan ficou em silêncio alguns segundos.
Claramente sem acreditar completamente.
Mesmo assim puxou ela mais pra perto devagar.
— Vem cá.
Hanna fechou os olhos ao sentir o abraço dele.
E quase odiou a si mesma naquele instante.
Porque cada minuto escondendo a verdade começava a parecer uma pequena traição.
A chuva continuava batendo fraca contra as janelas da sala de treino enquanto Hanna permanecia encolhida nos braços de Bang Chan tentando acalmar a bagunça dentro do peito.
Ela conseguia ouvir o coração dele.
Forte.
Constante.
E aquilo só piorava tudo.
Porque parecia lar demais.
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