Tudo o que não superamos
3 Os primeiros dias
O caminho de volta até o dormitório em Seoul foi silencioso. Hanna observava os prédios passando pela janela do ônibus enquanto tentava ignorar aquele aperto no peito.
Quando entrou no quarto, ouviu o som de alguém cantarolando baixo.
Uma garota estava sentada no chão dobrando roupas cuidadosamente.
Cabelos escuros presos num coque simples.
Moletom largo.
Postura reta demais até sentada.
Ela levantou os olhos quando Hanna entrou.
E diferente das outras trainees…
não olhou primeiro pras características “estranhas” dela.
Olhou direto pros olhos.
— Você voltou.
A voz era calma.
Hanna assentiu tentando parecer normal.
— Minha mãe foi embora hoje.
A garota ficou em silêncio por um instante antes de fazer uma pequena careta compreensiva.
— Ah.
Ela apontou pro próprio peito.
— Sou Yoo Minseo.
Yoo Minseo
— Hanna.
— Eu sei.
Aquilo arrancou um sorriso pequeno dela pela primeira vez no dia.
Minseo era de Busan também. Tinha quinze anos e carregava aquele jeito típico de quem foi treinada a vida inteira pra ser impecável:
postura perfeita;
voz controlada;
movimentos delicados;
educação quase automática.
Ela fazia aula de canto desde criança.
Etiqueta.
Postura.
Piano.
Dança.
Era o tipo de garota que parecia ter sido preparada desde o nascimento pra virar idol.
E mesmo assim…
não parecia arrogante.
Só cansada.
Hanna percebeu isso rápido.
Na primeira semana, Minseo virou uma espécie de guia silenciosa dela.
— Não coloca o tênis aí.
— Faz reverência pro diretor primeiro.
— Não fala enquanto ele estiver falando.
— Você precisa usar linguagem formal com as trainees mais velhas.
Pequenas regras.
Milhares delas.
Hanna errava metade.
E Minseo sempre suspirava daquele jeito paciente:
— Você realmente cresceu fora da Coreia.
Numa das primeiras avaliações vocais, Hanna saiu da sala destruída.
Os olhos vermelhos.
A garganta ardendo.
Ela tinha forçado tanto a voz tentando alcançar uma nota que acabou falhando feio.
Quando entrou no dormitório, jogou a mochila no chão irritada.
— Droga…
Minseo desviou os olhos do caderno.
— Foi ruim?
— Horrível.
Hanna sentou na cama puxando as mangas do moletom sobre as mãos.
— Eu danço bem mas no canto parece que eu tô sempre atrás de todo mundo.
Minseo observou ela em silêncio.
— Você força a garganta quando fica nervosa.
— Como você sabe?
— Dá pra ouvir do corredor.
Hanna enterrou o rosto no travesseiro soltando um gemido derrotado.
— Ótimo. Humilhante.
E então, pela primeira vez, Minseo riu de verdade.
Baixinho.
Quase surpresa consigo mesma.
— Você é engraçada.
A voz dela suavizou um pouco.
— E você não é ruim, Hanna. Só não teve treinamento antes.
— Todo mundo aqui teve.
— Nem todo mundo aprende rápido.
Hanna virou o rosto pra encará-la.
— Isso foi um elogio?
Minseo deu de ombros.
— Não se acostuma.
Mas naquela noite, quando Hanna ficou treinando vocal baixinho depois do horário…
Minseo acompanhou no piano do celular pra ajudar ela a encontrar o tom.
Sem comentar.
Sem fazer drama.
Só ficando ali.
E foi assim que Hanna percebeu:
naquele lugar cheio de competição e gente tentando sobreviver…
talvez tivesse encontrado sua primeira amiga de verdade.
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