Tudo o que não superamos
4 O refúgio
Os finais de semana em Busan começaram a virar necessidade.
Não luxo.
Não passeio.
Necessidade.
Porque em Seoul Hanna estava sempre correndo:
escola;
treino;
avaliação;
dieta;
canto;
dança;
comparação.
Sempre alguém olhando.
Sempre alguém melhor em alguma coisa.
Mas em Busan…
o ar parecia diferente.
Mais lento.
Mais quente.
Mais humano.
Naquela tarde chovia fraco do lado de fora da casa dos avós. O cheiro de sopa quente preenchia a cozinha pequena enquanto Hanna, sentada no chão aquecido, terminava de comer em silêncio.
A avó observava.
Observava muito.
Velhos percebem mudança nas pessoas igual quem percebe mudança no clima.
— Hanna-ah…
A garota levantou os olhos devagar.
A avó franziu a testa.
— Vocês estão se alimentando direito?
— Sim, halmeoni.
Mentira automática.
A senhora estreitou ainda mais os olhos.
— Então por que toda vez que eu te vejo você está mais magra?
Hanna soltou uma risadinha sem graça.
— É impressão sua.
— Não é.
A resposta veio firme.
A avó puxou o rosto dela delicadamente com uma das mãos envelhecidas.
— Olha essas bochechas… sumiram.
Hanna desviou os olhos imediatamente.
Porque ouviu quase a mesma coisa no dormitório dias antes.
Só que diferente.
Na agência:
“Você precisa cuidar do volume do quadril.”
Na casa da avó:
“Você está desaparecendo.”
Mesma magreza.
Dois olhares completamente diferentes.
Aquilo apertou algo dentro dela.
— Eu tô bem, de verdade.
A avó suspirou baixo.
Não insistiu.
Coreanos mais velhos às vezes demonstram amor enchendo pratos, não fazendo perguntas.
Então ela apenas levantou e colocou mais comida na tigela da neta.
— Come.
— Halmeoni…
— Come.
Hanna acabou obedecendo.
O avô apareceu na cozinha logo depois, usando aqueles óculos velhos escorregando no nariz.
— Ela chegou e você já tá brigando?
— Sua neta não come direito.
— Claro que come.
O avô sentou ao lado de Hanna roubando um pedaço de peixe da panela antes da esposa reclamar.
— Na idade dela eu comia três vezes mais.
— E olha como ficou barrigudo.
— Isso é felicidade.
Hanna riu.
Riu de verdade.
Daquelas risadas leves que ela já não soltava em Seoul fazia semanas.
A avó observou aquilo em silêncio.
E percebeu.
Percebeu que a neta andava cansada por dentro.
Mais do que dizia nas ligações.
Mais do que mostrava nos sorrisos.
Naquela noite, depois do jantar, Hanna ficou sentada na varanda pequena da casa enrolada num cobertor olhando a chuva cair.
O avô apareceu com duas xícaras de chá.
Sentou ao lado dela sem pressa.
Silêncio confortável.
Depois de alguns minutos, ele perguntou:
— Está muito difícil?
Hanna ficou imóvel.
Porque aquela pergunta…
ninguém fazia em Seoul.
Ela apertou a xícara quente entre as mãos.
E respondeu sorrindo pequeno, como sempre fazia:
— Eu aguento.
O avô olhou pra frente por alguns segundos.
Então disse calmamente:
— Eu não perguntei isso.
E pela primeira vez desde que chegou na Coreia…
Hanna sentiu vontade de chorar de verdade.
Hanna abaixou os olhos para a xícara quente entre as mãos.
O chá tremia levemente.
Não pelas mãos.
Pelo esforço absurdo de segurar o choro.
Ela respirou fundo uma vez.
Depois outra.
E sorriu pequeno.
— Tá tudo bem, harabeoji.
Mentira.
Mas uma mentira cansada.
O avô não insistiu.
Apenas ficou sentado ao lado dela ouvindo a chuva cair sobre os telhados de Busan.
Às vezes amor não é pergunta.
É presença.
E naquela noite Hanna percebeu isso.
Porque ele não tentou consertá-la.
Não disse pra desistir.
Não disse pra ser forte.
Só ficou ali.
Como se dissesse silenciosamente:
“Você não precisa fingir aqui.”
Mas mesmo assim ela não chorou.
Porque alguma coisa dentro dela já começava a aprender a endurecer.
E o tempo passou.
Um ano.
Um ano inteiro em Seoul.
Agora Hanna já sabia:
qual elevador os diretores usavam;
quais managers gritavam mais;
como esconder cansaço;
como sorrir mesmo exausta;
como agradecer críticas injustas;
como pedir desculpas até quando estava certa.
Aprendeu rápido.
Rápido demais.
Aprendeu a baixar a cabeça enquanto a raiva queimava dentro do peito.
Aprendeu que responder podia custar oportunidades.
Aprendeu que silêncio era sobrevivência.
A menina que chegou falando alto, olhando tudo com encanto…
agora pensava antes até de rir.
Mas o brilho nos olhos continuava.
Talvez mais cansado.
Mais maduro.
Ainda assim vivo.
Toda manhã Hanna prendia o cabelo num rabo improvisado, colocava o moletom largo e encarava os espelhos da sala de treino como quem vai pra guerra.
E ela melhorou.
Melhorou muito.
Na dança, os professores já não olhavam pra ela como “a estrangeira bonita”. Agora olhavam como alguém perigosa no palco.
Porque Hanna tinha presença.
O tipo de presença que não se ensina.
Quando a música começava, ela parecia crescer.
As inseguranças desapareciam por três minutos.
Os olhos ganhavam fogo.
O corpo contava histórias.
Até os diretores mais frios prestavam atenção.
Mas no vocal…
Ah, no vocal ela ainda sofria.
Aulas extras.
Treinos escondidos.
Garganta ardendo.
Notas falhando.
Enquanto outras trainees cantavam com técnica impecável, Hanna cantava com emoção demais e controle de menos.
E isso frustrava ela profundamente.
Numa madrugada, Minseo encontrou Hanna sozinha na sala de prática vocal.
De novo.
Ela estava sentada no chão, abraçando os joelhos, respirando cansada.
— Você vai perder a voz nesse ritmo.
Hanna soltou uma risada fraca.
— Já perdi umas três vezes.
Yoo Minseo entrou na sala carregando duas bebidas de máquina.
Entregou uma pra ela.
— O professor falou de você hoje.
Hanna levantou os olhos imediatamente.
— Falou mal?
— Não.
Isso surpreendeu ela.
Minseo sentou ao lado dela no chão.
— Ele disse que você ainda canta tentando provar alguma coisa.
Silêncio.
Aquilo acertou em cheio.
Porque era verdade.
Hanna cantava como quem implora:
“Me deixem ficar.”
Ela encarou o reflexo no espelho enorme da sala.
Mais magra do que um ano atrás.
Mais pálida.
Olheiras escondidas com maquiagem.
Mas ainda ali.
Ainda lutando.
— Você acha que eu vou conseguir debutar? — perguntou baixo.
Minseo demorou alguns segundos pra responder.
Então olhou diretamente pra ela.
— Acho que você quer isso mais do que a maioria aqui.
Hanna sorriu pequeno.
Cansado.
Quase triste.
Porque naquele lugar…
querer muito às vezes ainda não era suficiente.
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