Na manhã seguinte, Hanna demorou quase vinte minutos olhando a conversa aberta no celular antes de criar coragem para digitar.

Os dedos pairaram sobre a tela algumas vezes.

Apagando.

Reescrevendo.

Até finalmente enviar:

“Você tem um tempo hoje? Queria conversar pessoalmente.”

A resposta de Cha Eun-woo veio poucos minutos depois.

Simples.

Gentil como sempre.

“Claro. Me diz onde.”

E aquilo só aumentou a culpa.

Porque ele realmente não tinha feito nada errado.

No fim da tarde, eles se encontraram numa cafeteria pequena e discreta longe das ruas mais movimentadas de Seoul.

Nada chamativo.

Só cheiro de café fresco e música baixa tocando no fundo.

Eun-woo chegou antes.

Estava sentado perto da janela quando viu Hanna entrar.

O sorriso apareceu imediatamente.

Natural.

Calmo.

Como sempre aparecia quando olhava pra ela.

E aquilo apertou o peito dela mais do que deveria.

Hanna caminhou até a mesa tentando organizar as palavras dentro da própria cabeça.

Mas nenhuma parecia boa o suficiente.

— Oi — ele disse enquanto levantava levemente da cadeira.

— Oi.

Ela sorriu pequeno.

Tenso.

Os dois sentaram.

Por alguns segundos, ninguém falou nada.

E Eun-woo percebeu na hora.

O sorriso dele diminuiu devagar.

— Aconteceu alguma coisa?

Hanna respirou fundo.

Ali.

Agora.

Sem fugir.

— Eun-woo… eu vou ser direta.

Ele ficou em silêncio imediatamente.

Atento.

Hanna entrelaçou os dedos sobre a mesa numa tentativa inútil de controlar o nervosismo.

— Desde o começo… você e eu nunca prometemos nada um pro outro.

Ele assentiu devagar.

Ainda ouvindo.

— Mas eu sei que a gente tava caminhando pra alguma coisa.

A voz dela saiu mais baixa.

Mais difícil agora.

— Talvez desse certo. Talvez não.

Pausa.

Ela levantou os olhos finalmente.

— Mas eu não vou mais poder seguir esse caminho com você.

O silêncio veio instantâneo.

O sorriso dele desapareceu devagar, dando lugar a uma leve tensão no rosto.

A testa franzida.

Confusão primeiro.

Depois preocupação.

— Hanna… aconteceu alguma coisa?

Ela engoliu seco.

— Eu fiz alguma coisa que você não gostou?

Aquilo quase piorou tudo.

Porque até naquele momento ele estava tentando entender o erro dele.

Não o dela.

— Não.

Ela respondeu rápido.

Sincera.

— Não foi nada disso.

Hanna respirou fundo antes de continuar:

— Você não fez absolutamente nada errado.

Os olhos dela baixaram por um instante.

— Na verdade… fui eu que não fui totalmente sincera com você.

Eun-woo ficou quieto.

Sem pressionar.

Esperando ela continuar no próprio tempo.

Então Hanna contou.

Sobre Bang Chan.

Sobre a história longa demais entre os dois.

Os reencontros.

As tentativas frustradas.

A distância.

O jeito como eles nunca conseguiam realmente se deixar ir.

Ela não entrou em detalhes íntimos.

Não precisava.

Porque algumas verdades eram compreendidas mesmo no silêncio.

— Eu achei que tinha seguido em frente — ela admitiu baixinho. — E eu queria muito ter conseguido.

Eun-woo abaixou os olhos por alguns segundos.

Absorvendo.

Sem raiva.

Sem cena.

Só… decepção silenciosa.

Hanna sentiu o peito apertar imediatamente.

— Eu devia ter percebido antes — ela continuou. — Antes de deixar você se aproximar tanto.

Ele soltou um pequeno suspiro pelo nariz e encostou nas costas da cadeira.

Ainda calmo.

Mas claramente magoado.

— Então era ele.

Não saiu como acusação.

Saiu como alguém finalmente entendendo algo que já suspeitava.

Hanna assentiu devagar.

E pela primeira vez desde que sentou naquela mesa…

Cha Eun-woo desviou o olhar dela.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Os dedos girando distraidamente a xícara já quase vazia.

Então soltou um pequeno sorriso.

Sem humor.

Sem mágoa exagerada.

Só entendimento.

— Naquela noite…

Hanna levantou os olhos imediatamente.

Ele respirou fundo antes de continuar:

— Você parou.

Ela entendeu na hora.

O peito apertou devagar.

— Eu percebi que tinha alguém ali.

O silêncio veio outra vez.

Mas não pesado.

Não cruel.

Só honesto.

E talvez isso fosse o que mais doía.

Porque Cha Eun-woo não estava tentando transformar aquilo numa culpa maior do que precisava ser.

Ele apenas estava vendo a verdade.

— Eu só não achei que ainda fosse tão forte.

Agora foi Hanna quem desviou o olhar.

Os dedos apertando de leve a manga do casaco.

— É.

A voz saiu baixa.

Quase cansada.

— Ainda é.

Eun-woo assentiu devagar.

Como alguém aceitando uma resposta que no fundo já sabia.

Não feliz.

Mas maduro o suficiente pra não lutar contra ela.

— Obrigado por ser sincera.

Hanna ergueu os olhos de novo, surpresa pelo tom calmo dele.

Porque honestamente?

Ela esperava mágoa.

Raiva.

Algum ressentimento.

Mas Eun-woo apenas parecia triste.

E isso era pior.

— Você merece isso — ela respondeu.

Simples.

Porque merecia mesmo.

Ele soltou um sorriso pequeno.

Mais contido agora.

— Eu gosto de você, Hanna.

A sinceridade veio tranquila.

Sem pressão.

Sem transformar sentimento em obrigação.

— Mas eu não vou competir com algo que já existe.

Aquilo bateu nela de um jeito estranho.

Limpo.

Digno.

Sem jogos.

Sem insistência.

Só alguém escolhendo preservar a própria dignidade antes de virar sobra na história de outra pessoa.

Hanna respirou fundo.

— Eu sinto muito.

E sentia mesmo.

Eun-woo balançou a cabeça devagar.

— Não precisa.

Pausa curta.

Então ele inclinou levemente a cabeça, tentando aliviar o peso do momento:

— Só… não me chama pra café desse jeito de novo.

Hanna soltou uma risada baixa pelo nariz.

Pequena.

Mas verdadeira.

— Prometo.

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes.

Observando o movimento tranquilo da cafeteria pelas janelas.

Sem desconforto.

Sem ressentimento.

Só aquele sentimento estranho de fim.

Porque algumas pessoas entram na nossa vida não pra ficar… mas pra lembrar como deveria ser ser tratado com calma.

E talvez Cha Eun-woo tivesse sido exatamente isso pra Hanna.

A pessoa certa.

Na hora errada.

Quando finalmente se levantaram da mesa, não houve drama.

Nenhuma despedida cinematográfica.

Só respeito.

E maturidade suficiente pra entender que nem todo quase precisa virar tragédia.

Às vezes… duas pessoas apenas se encontram tarde demais.


Enquanto Hanna resolvia a própria parte da história com maturidade, Bang Chan finalmente fazia o que passou meses evitando.

Assumir uma decisão.

Na manhã seguinte, ele apareceu cedo na empresa.

Boné preto, moletom largo e praticamente nenhuma hora de sono nas costas.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, havia alguma coisa diferente nele.

Certeza.

Mesmo que ainda viesse misturada com nervosismo.

O elevador subiu em silêncio até o andar administrativo, longe dos estúdios e salas de ensaio onde ele normalmente passava os dias.

A funcionária da recepção levantou os olhos surpresa quando viu ele ali tão cedo.

— Bang Chan? Precisa de alguma coisa?

— Preciso falar com o departamento de mídia.

A resposta saiu direta.

Ela piscou algumas vezes antes de assentir rapidamente.

— Claro… vou avisar.

Menos de vinte minutos depois, Chan estava sentado numa sala de reunião pequena demais para o peso daquela conversa.

Do outro lado da mesa, dois funcionários do marketing e uma representante jurídica da empresa observavam ele atentamente.

O gerente cruzou as mãos sobre a mesa.

— Então… você disse que queria comunicar algo oficialmente.

Chan respirou fundo.

Sem fuga dessa vez.

— Eu vou assumir um relacionamento.

O silêncio veio instantaneamente.

Não choque exatamente.

Mas atenção máxima.

Porque aquilo nunca era simples dentro da indústria.

O homem do marketing foi o primeiro a falar:

— Certo… e quem é a pessoa?

Chan sustentou o olhar dele por um segundo antes de responder:

— Hanna.

A reação foi imediata.

Troca rápida de olhares.

Anotações.

A representante jurídica suspirou discretamente enquanto já parecia calculando o tamanho da dor de cabeça.

— Entendi…

Pausa.

— Como ela também é agenciada, isso não pode ser tratado individualmente.

Chan assentiu.

Já esperava aquilo.

— Eu sei.

O gerente apoiou as costas na cadeira.

— Precisaremos conversar com os dois juntos. As empresas precisam alinhar posicionamento, timing, possível impacto de imagem…

Ele continuou falando.

Mídia.

Cronograma.

Fãs.

Repercussão.

Riscos.

As palavras iam vindo uma atrás da outra naquele tom corporativo frio que transformava sentimentos em estratégia de mercado.

E honestamente?

Pela primeira vez, Chan não queria ouvir nada daquilo.

Porque durante meses foi exatamente esse peso que usou como desculpa pra não decidir.

“É complicado.”

“Não é tão simples.”

“Tem muita coisa envolvida.”

Mas agora, sentado naquela sala gelada de reunião, ele percebeu uma coisa quase irritante:

Sempre teria alguma coisa envolvida.

Sempre teria risco.

Sempre teria gente opinando.

E mesmo assim… ele ainda queria ela.

A representante jurídica voltou a falar:

— Vocês dois têm certeza disso?

Chan respondeu antes mesmo dela terminar direito.

— Tenho.

Firme.

Sem hesitar.

Aquilo fez até o gerente levantar os olhos de novo.

Porque talvez fosse a primeira vez que viam Bang Chan falando daquele assunto sem parecer dividido.

Ele pegou o celular sobre a mesa depois da reunião terminar.

Ficou olhando a tela por alguns segundos antes de abrir a conversa com Hanna.

Os dedos pairaram sobre o teclado.

E então ele digitou:

“Conversei com a empresa.”

Pausa.

Outro envio:

“Agora é sério.”

Do outro lado da cidade, Hanna leu a mensagem sentada no sofá do apartamento.

E, pela primeira vez em muito tempo… o medo e o alívio vieram juntos.

A sala era grande.

Vidro.

Mesa longa.

Cadeiras alinhadas.

Fria.

Nada ali lembrava sentimento.

Só decisão.

Hanna chegou

Postura firme.

Mas as mãos… levemente tensas.

O olhar encontrou o dele na hora.

Não disse nada.

Mas disse tudo.

Sentou ao lado.

Dessa vez… sem esconder.

Do outro lado da mesa, representantes.

Da empresa dele.

Da empresa dela.

Papéis.

Tablets.

Olhares avaliando.

— Vamos começar — disse um dos diretores.

Tom neutro.

Profissional.

— Fomos informados de que vocês pretendem assumir um relacionamento.

Chan não hesitou.

— Sim.

Hanna confirmou com a cabeça.

— Certo.

Outro representante interveio.

— Antes de qualquer coisa, precisamos deixar claro: isso não é apenas uma questão pessoal.

Olhar direto.

— Vocês são figuras públicas.

— Têm contratos ativos.

— Compromissos comerciais.

— E uma base de fãs que reage a tudo.

Pausa.

— Especialmente você — disse, olhando para Chan. — Seu grupo depende muito da imagem construída.

Ele sustentou o olhar.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

Cortante.

— Porque assumir um relacionamento agora pode impactar diretamente vendas, campanhas e até agenda internacional.

Silêncio.

Hanna entrou.

— E esconder não impacta?

Calma.

Mas firme.

Todos olharam pra ela.

— Porque esconder também cobra um preço.

Pausa.

— E eu não vou mais fazer isso.

Direto.

Sem pedir licença.

Um dos representantes dela cruzou os braços.

— Hanna, entendemos sua posição. Mas existe timing pra tudo.

Ela não recuou.

— Eu esperei tempo demais por timing.

Silêncio.

Chan olhou pra ela de lado.

E pela primeira vez ali… um leve orgulho apareceu.

— A questão não é só emocional — outro diretor retomou. — Precisamos de estratégia.

— Então vamos falar de estratégia — Chan respondeu.

Agora mais firme.

— O que vocês propõem?

Os olhares se cruzaram entre os executivos.

— Primeiro: não assumir imediatamente.

Chan já ia falar—

— Deixa ele terminar — Hanna disse baixo, sem olhar pra ele.

Controle.

— Segundo: alinhar uma narrativa.

— Terceiro: preparar o público gradualmente.

— E só então… confirmar.

Pausa.

— Isso minimiza impacto.

Silêncio.

Chan recostou na cadeira.

— E quanto tempo?

— Meses.

Resposta direta.

Aquilo pesou.

Hanna desviou o olhar por um segundo.

Meses…

Depois de tudo…

Mais espera.

Chan olhou pra ela.

Depois voltou pros diretores.

— Não.

Simples.

Cortou o ar.

— Não?

— Não.

Mais firme.

— Eu não vou esconder de novo.

Agora não tinha volta.

Hanna virou o rosto pra ele.

Surpresa.

Mas não de rejeição.

De… reconhecimento.

Ele continuou:

— Eu entendo estratégia.

— Entendo risco.

— Entendo imagem.

Pausa.

— Mas eu também entendo o que acontece quando a gente adia demais.

Olhou direto.

— A gente perde.

Silêncio.

Pesado.

Real.

Um dos diretores respirou fundo.

— Então você está disposto a arcar com as consequências?

Chan respondeu sem hesitar:

— Estou.

Todos olharam para Hanna.

A decisão agora… também era dela.

Ela respirou fundo.

Olhou para a mesa.

Depois… levantou o olhar.

— Eu também.

Simples.

Sem tremor.

Sem volta.

Silêncio.

Longo.

Até que um dos responsáveis fechou o tablet.

— Então vamos ajustar o plano.

Mudança de tom.

— Se é pra assumir… vamos fazer direito.

Pausa.

— Mas saibam… Olhar firme.

— depois disso, não tem como voltar atrás.

Chan entrelaçou os dedos com os de Hanna sobre a mesa.

Dessa vez… na frente de todos.

— A gente não quer voltar.

E ali… não era mais só amor.

Era escolha.

A nota saiu às 9h17 da manhã.

Sem teaser.

Sem aviso.

Só publicada simultaneamente pelas duas empresas.

Curta.

Direta.

Fria do jeito que comunicados oficiais costumam ser.

"Olá.

Gostaríamos de informar que Bang Chan e Hanna estão em um relacionamento com sentimentos positivos.

Como ambos são artistas ativos, pedimos respeito à privacidade e apoio caloroso às escolhas pessoais dos dois.

Eles continuarão trabalhando normalmente em suas atividades e projetos.

Obrigado."

E honestamente?

Foi o suficiente pra internet explodir.

Os sites coreanos caíram em cima da notícia em minutos.

“BANG CHAN E HANNA CONFIRMAM RELACIONAMENTO.”

“LÍDER DO STRAY KIDS ESTÁ NAMORANDO.”

“RELACIONAMENTO ENTRE IDOLS PEGA FÃS DE SURPRESA.”

Mas o caos maior veio do fandom.

Porque Bang Chan não era só um idol qualquer.

Ele era Bang Chan.

Líder do Stray Kids.

Produtor.

Figura extremamente próxima dos fãs.

Alguém que passou anos construindo uma imagem quase inabalável de dedicação absoluta ao grupo.

E agora… estava apaixonado.

Assumidamente.

As redes enlouqueceram.

Comentários rápidos demais.

Vídeos antigos dos dois reaparecendo.

Entrevistas sendo analisadas quadro por quadro.

Olhares.

Momentos.

Silêncios.

— “A GENTE NÃO PERCEBEU ISSO ANTES COMO?”

— “Então era dela que ele falava?”

— “O jeito que ele olha pra ela faz sentido agora.”

— “Eu sabia.”

— “O fandom vai surtar.”

E surtou mesmo.

Parte apoiando.

Parte em choque.

Parte simplesmente incapaz de processar que Bang Chan tinha escolhido alguém publicamente.

Os jornalistas começaram a perseguir qualquer detalhe possível.

Quando começou.

Quem sabia.

Se os membros do grupo apoiavam.

Se aquilo afetaria comeback.

Turnê.

Contratos.

Enquanto isso, no dormitório do Stray Kids, o celular de Chan não parava de vibrar.

Mensagens.

Notificações.

Chamadas perdidas.

Han jogado no sofá lia comentários em voz alta, completamente incrédulo.

— “Meu Deus, tem gente analisando até a playlist do Spotify de vocês.”

Changbin soltou uma risada nasal.

— O povo doente da cabeça trabalhando em tempo integral.

Felix apareceu na porta segurando o próprio celular.

— Hyung… vocês estão nos trends mundiais.

Chan, sentado na mesa da cozinha ainda de moletom, apenas passou a mão no rosto cansado.

Mas dessa vez… não era desespero.

Era impacto.

Só impacto.

Porque no meio do caos inteiro, pela primeira vez em muito tempo… ele não precisava esconder nada.

Em seu apartamento, Hanna encarava o próprio celular enquanto via o nome dela subir nos assuntos mais comentados da Coreia.

Fotos.

Teorias.

Vídeos.

E no meio da avalanche… uma foto específica.

Ela e Chan saindo da reunião da empresa horas antes.

Mãos entrelaçadas.

Sem esconder.

Hanna ficou olhando a imagem por alguns segundos.

Então, sem perceber… sorriu.

Pequeno.

Mas livre.