Tudo o que custou a elas
4 A rainha que se foi
O sol, enfim, despontou no horizonte, despertando Mary para seu dia final. Tão logo acordou, sua mente e espírito foram novamente assaltados pelo medo e nervosismo. Como é difícil encarar a morte!, ela pensava enquanto as criadas a arrumavam. Por muitas vezes, naqueles demorados minutos, a rainha sentiu o choro vir à tona. Em todo tempo, pensava em James. Será que o verei novamente?, ela se perguntava. Gostaria de abraçá-lo, pedir perdão por não ter estado com ele ao longo dos anos, abençoá-lo para que tivesse uma vida e reinado felizes. Mas em momento algum ele apareceu. Ansiosa, não aceitou o desjejum. Após ter sido arrumada, um padre entrou no recinto para lhe ouvir a confissão. Depois de receber o perdão divino, ela sentou-se na cama e se recolheu em oração.
Então chegou o temido momento. Às dez da manhã, bateram na porta. Sem nada dizerem, quatro guardas se dispuseram na entrada da cela, esperando que a rainha saísse. Apesar do medo, Mary se manteve firme. Pegou seu antigo terço, presente que uma garotinha lhe dera muitos anos atrás, e acompanhou os homens até o lugar da execução. A rainha caminhou lentamente, mantendo a cabeça erguida enquanto os serviçais do castelo a viam passar, todos eles com expressões de sincera tristeza. As cortinas não haviam sido removidas, de modo que os corredores eram iluminados apenas pela luz das tochas. Depois do que lhe pareceram horas, Mary finalmente chegou ao ponto em que o carrasco a aguardava. Ele estava sobre uma plataforma de madeira, junto de um mensageiro real, responsável por ler a carta de execução. Dos dois lados, havia um pequeno grupo de pessoas composto por lordes e ladies ingleses, que ansiavam por sua morte. Enquanto se aproximava, Mary olhou de relance para aqueles rostos, alguns sequer escondiam seu contentamento. Perdoai-lhes, Senhor, porque eles sabem o que fazem, refletiu.
Um homem se adiantou. De seu pescoço pendia um grande crucifixo e nas mãos segurava uma bíblia. Era o padre com quem havia se confessado uma hora atrás. Ela lhe pedira, ao fim do sacramento, que tentasse encontrar James.
— Meu filho respondeu? — perguntou Mary, agarrando-se a um último fiapo de esperança.
— Recebemos resposta do próprio rei James — disse o sacerdote. — Ele não vem. E não haverá adiamento.
As palavras foram como uma espada rasgando seu peito. Ela estava a instantes da morte e nunca mais veria James. O tão desejado filho que ela aninhara nos braços com tanto amor se recusou a vê-la uma última vez. Abandonada pelo sangue do meu sangue. Este é o meu fim. Sentiu os olhos se umedecerem, mas esforçou-se para não se abalar. Precisava ser forte e manter sua postura digna até o fim. Assim, engoliu o choro, levantou a barra do vestido preto e subiu na plataforma, onde o carrasco a esperava.
A rainha Mary ouviu o som dos próprios passos ecoando na madeira. A luz do sol atravessava uma das janelas superiores, fazendo com que um pálido feixe luminoso pairasse no centro da plataforma. Mary passou por ele e se colocou diante do pequeno bloco de madeira que serviria de apoio à sua cabeça para o momento do corte. Então, esperou que o mensageiro lesse a carta de execução. Ao longo da leitura, Mary se lembrou do encontro com a prima e, principalmente, do abraço que deram. Foi um ato muito significativo para a escocesa, e era-lhe um conforto ter conhecido a mulher que existia por trás da rainha. As palavras que ordenavam sua morte não vinham, exatamente, de Elizabeth, ainda que fosse seu nome a assinar o documento. Talvez, no futuro, as pessoas se deixem governar mais por atos de amor do que pelas palavras frias dos decretos, Mary pensou, enquanto o mensageiro terminava a leitura.
Em seguida, ela se ajoelhou. Naquele momento, quase vacilou. A morte agora estava muito próxima, como um anjo maligno pronto para ceifar sua alma. Não posso chorar. Mary levantou a cabeça uma última vez, fixando os olhos num ponto indefinido à sua frente. Fez o sinal da cruz, pensando em todos que ansiava encontrar do outro lado: sua mãe, Aylee, Lola, David e, principalmente, Francis. Esteja à minha espera, meu amor, ela pensou, enquanto beijava o crucifixo. Respirou fundo mais uma vez e abaixou-se.
— Eu coloco a minha fé em você, Senhor — disse, antes de recostar a cabeça no apoio de madeira.
De olhos fechados, ouviu quando o carrasco ergueu o machado acima de si. Seu coração palpitava depressa e sua mente era um turbilhão de pensamentos. Então, veloz como um raio, o machado desceu sobre sua cabeça.
Mary, a rainha dos escoceses, havia partido.
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