Tudo o que custou a elas
5 A rainha que ficou
Dois guardas seguravam uma mulher vestida de negro. Ela caminhava vacilante, com a cabeça coberta por um capuz da mesma cor. Elizabeth estava atrás da multidão, por isso, precisou erguer-se numa plataforma para ver melhor a cena. A mulher havia sido posta no centro da praça e seu capuz foi retirado. No rosto dela, a rainha viu o medo de se estar diante da morte.
— Mãe. — Ela disse, mal conseguindo manter-se de pé. Em seguida, vendo a mulher ser colocada de joelhos, sentiu a fúria crescer dentro de si. — Espere, houve um engano. Liberte a prisioneira. Por ordem minha, Ana Bolena deve ser perdoada.
A multidão, no entanto, não parecia ouvi-la. Todos mantinham o olhar cheio de ódio para Ana, que exibia a mais triste das expressões, a do completo abandono. Atrás de si, o carrasco sacou a espada.
— Solte-a de uma vez. Eu disse para libertar a prisioneira, por ordem da Rainha! — Elizabeth continuou, cada vez mais alto. — Ninguém pode me ouvir?!
Então, diferente das outras vezes, o sonho mudou. A multidão e sua mãe desapareceram. Ela estava agora no Castelo de Fotheringhay, mais especificamente, do lado de fora de uma das celas com grades. Do outro lado, Lola Fleming a observava.
— Você tem mais poder do que qualquer um ao seu redor — disse a escocesa, em tom de pena. — Mas, mesmo com tanta força, sempre vai estar sozinha.
Elizabeth encarou a jovem, sem conseguir dizer qualquer coisa. Doía ouvir aquilo, pois era a verdade. A cruel e esmagadora verdade.
Mais uma vez, o sonho mudou. A rainha estava agora sozinha na sala do trono. Atrás de si, ouviu o barulho de passos. Ela queria se virar, porém não conseguiu.
— Um dia, não haverá mais conflitos — disse, após alguns minutos, uma voz ao seu lado. Era Mary, sua prima, num lindo vestido branco e jovem outra vez. — Você fez o que pôde, Elizabeth. Não se condene tanto, pois é a melhor governante que conheci enquanto estive no mundo.
A rainha, enfim, despertou. Estava suada, provavelmente pelo medo que sentira no início do sonho. Seu coração, entretanto, não estava aflito. As palavras de Mary haviam confortado sua alma. A rainha olhou para a janela e constatou que já era dia. Mary já teria sido executada? Chamou uma das criadas e perguntou-lhe que horas eram. Nove da manhã. Ainda restava uma hora.
A rainha inglesa arrumou-se rapidamente e pediu para ver James. Ela havia conversado com ele após deixar o castelo, mas o jovem estava irredutível. Elizabeth se assustava com tamanha frieza. O que eu não daria para ver minha mãe uma última vez, ela pensava, e ele, que ainda tem Mary nesse mundo, sequer vai ao seu encontro. Ela estava decidida a tentar mais uma vez, mas ninguém no palácio sabia do paradeiro de James. Do jeito que era, provavelmente estava em algum povoado pelas redondezas ou na companhia de rapazes irresponsáveis, fingindo ignorar o destino de sua mãe. Mary, eu realmente tentei.
Os minutos se passaram e a hora terrível chegou. Elizabeth pediu para ficar sozinha em seus aposentos e, das dez às onze, permaneceu de joelhos, orando para que Deus acolhesse sua prima no Céu. Foi um momento difícil e doloroso, no qual uma ponta de remorso ainda cutucou sua alma, mas ela buscou manter a serenidade. Mary a havia perdoado. Aquela execução não fora um ato verdadeiro da vontade. Ela tinha sido obrigada a concordar com a morte, graças à posição que ocupava. Ao menos sua prisão teve fim, irmã, ela refletiu mais tarde naquele dia, pois a minha durará enquanto for rainha.
Elizabeth comeu pouco e evitou encontrar-se com os lordes. Aquele era um dia triste e ela guardaria o luto por Mary. À noite, pensou que teria novos pesadelos, se o sono ao menos lhe viesse. Para sua surpresa, conseguiu dormir sem muitas dificuldades e teve uma noite quase sem sonhos.
Quase, pois pouco antes do amanhecer, Elizabeth sonhou. Ela estava no topo de uma colina, da qual podia ver a extensão do mar azul ao norte. Ao sul, havia uma floresta extensa, de um verde exuberante. Uma brisa soprou em seu rosto, fazendo-a olhar para o chão. Aos seus pés, repousava uma rosa vermelha com pétalas brancas no centro. Era o símbolo de sua casa, a rosa de Tudor.
Escócia e Inglaterra enfim unidas, como irmãs.
A rainha olhou para o céu, de onde vinha a voz. Porém, não conseguiu avistar quem dissera a frase. Viu apenas uma pomba branca voando para longe, na direção do mar. Imediatamente, soube de quem se tratava.
A alma de Mary seguia leve, pronta para descansar em paz.
Fale com o autor