Tudo em Um Sábado
11 Capítulo 11 - Despedida difícil
Notas iniciais
— Você não pode estar falando sério...
— Não me diga que você esqueceu! Temos que voltar na busca da pedra filosofal, lembra?! — Al disse, exaltado.
Ed precisou de um momento para colocar os pensamentos no lugar. Aí então ele percebeu o quanto estava sendo egoísta. Ele queria ficar com Winry, mas tinha se esquecido de que seu irmão ainda estava aprisionado naquela armadura, e por culpa dele. Ele não poderia ficar com Winry até cumprir a sua maior promessa: trazer o corpo do irmão de volta. Ele não conseguia acredita em si mesmo e na própria ignorância. Depois de tudo o que se passou, os momentos, as lembranças ficariam esquecidas? Ele tinha feito-a passar por todos aqueles momentos maravilhosos para arrancá-los de uma vez de junto dela e causar ainda mais dor e sofrimento à pobre mecânica? Ele não iria suportar saber que ela está sofrendo por causa dele. Ele estava entrando em pânico, mas se viu dizendo:
— Me desculpe, Al. Fui muito egoísta com respeito a você. Espero que me perdoe...
— Não esquenta com isso, nii-san, a prioridade agora é decidir como vai contar isso pra ela.
— Eu sei, eu sei... mas nada me vem à cabeça! Como vou dizer isso pra ela? Al, me dá uma ideia! — Ed estava apreensivo demais com isso. Al percebeu a aflição do irmão, mas sabia que não tinha como ajudá-lo.
— Nii-san, acredite, eu gostaria de poder ajudar, mas eu não sei como. Só acho que... — Al olhou pra ele nos olhos. — A Winry vai preferir que a despedida seja com as suas palavras, e não com as minhas.
Edward pediu licença a Al, para ficar sozinho no quarto. “Talvez sozinho, eu consiga pensar em alguma coisa inteligente...” Ele pensou e se deitou na cama, colocando o braço sobre a cabeça.
“Pense, Edward Elric, o que dizer? Winry... Nós... temos que nos separar. Não! Isso é muito frio! Winry, me desculpe, mas tenho que ir... Aaah, parece que eu estou me despedindo como quem vai num dia e volta no outro! Winry, terei que partir... Me desculpe... Droga! Não é assim que tem que ser! Deixa eu ver...” Edward se debatia nos seus pensamentos e tentava achar a melhor maneira de despedida. Ele resolveu levantar e treinar no espelho.
— Winry, me desculpe, mas não posso ficar aqui com você... — Edward se olhava nos olhos e treinava a despedida. — Nãão! Não pode ser assim! Calma, tem que ser doce, triste, e... droga, ela vai chorar! Eu sei que vai...
Ele odiava sequer cogitar a hipótese de lágrimas começarem a escorrer dos olhos azuis celestes de Winry. Apenas a mera lembrança já o deixava agoniado, pois sempre odiou vê-la chorar. Ainda mais por causa dele. Ele tentou mais algumas vezes em frente ao espelho, mas nenhuma lhe pareceu convincente o suficiente, até que, por fim, se decidiu por uma. Ela não era a melhor do mundo, mas achou que essa era a maneira de se despedir dela. A maneira mais sincera e doce possível, ao seu ver, o que na verdade não adiantaria muito, pois seria dolorida de qualquer maneira, sendo doce ou amarga. Depois, deitou na cama e novamente colocou o braço sobre a testa, cobrindo os olhos. “Como será que ela vai reagir?” Ele pensava, agoniado.
Winry estava ouvindo a voz de Ed vinda do quarto dele, e ele parecia bem aborrecido. Ela foi até lá checar o que estava acontecendo e o encontrou sentado na beirada da cama, com uma expressão aflita.
— Ed? O que foi? Você parece aborrecido — Winry disse, um pouco preocupada.
Edward levantou o braço que estava sobre sua testa e olhou para a garota, que caminhava até ele, entrando e fechando a porta do quarto. Ele se sentou e olhou para o chão. Não conseguiria encarar ela até a hora do adeus. Ela se sentou ao lado dele na cama a colocou a mão em suas costas. Ela tinha percebido que ele precisaria de apoio nessa hora, mas parecia não ter adiantado muito. Ele suspirou profundamente e olhou para ela nos olhos.
— Winry, preciso te falar uma coisa — Ele disse, em um tom triste, o que deixou Winry curiosa e preocupada ao mesmo tempo. — Mas ainda não sei como...
— Ed, você está me deixando tensa — Ela disse, um pouco até assustada com o comportamento dele. — Não me diga que você... você gosta de outra?
...?
Edward deu um pulo assustado. Isso não era o que ele queria que ela pensasse.
— Não! Não é isso! Eu gosto é de você! Não pense nada errado! — Ele disse, balançando a cabeça para afastar aquele pensamento. Winry suspirou aliviada, pois seu temor estava errado. — É que...
Ele olhou no fundo daqueles olhos azuis celestes. Estava pronto para dizer a ela.
— Winry, eu vou precisar voltar pra cidade central, pra tentar encontrar um meio de trazer o corpo do Al de volta, e... bem... não poderei mais ficar aqui com você. Pelo menos não por enquanto. Por favor, me perdoe... me perdoe... por favor... me desculpe por preocupar tanto você... por te fazer sofrer... te fazer chorar... tudo isso, acredite, dói tanto em mim quanto em você. Estou me remoendo por dentro...
— Ah... isso. Me perguntava quando você ia me dizer isso.
...??
Winry virou o rosto e olhou para o chão. Sua face estava inexpressiva e Edward não sabia o que ela poderia estar pensando naquele momento. Ele se virou para ela, sem saber o que pensar.
— Você... sabia? — Ele disse, incrédulo.
— Claro que sabia, ou você acha que eu achava que você ficaria aqui comigo pra sempre? Mas só fui pensar nisso ontem, antes de dormir. Geralmente penso em coisas assim quando estou sozinha. Tinha me esquecido novamente, hoje de manhã. Parece que sempre me esqueço quando estou junto de você... mas assim que você saiu esse pensamento me veio novamente à cabeça. Me perguntava se você também sabia, mas acho que foi preciso o Al te acordar pra realidade...
Ele olhou pra ela, surpreso. Como ela sabia que fora Al que falou isso pra ele?
— Mas... como você sabe que foi Al quem me lembrou disso?
— Eu estava passando pela sua porta, quando ouvi Al dizer a você que não poderia ficar mais comigo... parei para escutar o resto, mas só ouvi você dando pra trás e sentando. Não imaginava que você não sabia... só esperava a hora. Eu não demonstrei para que você não se preocupasse e eu pudesse te aproveitar ao máximo, antes da sua partida. — Winry deixou algumas lágrimas escorrerem ao pronunciar a palavra “partida”.
Ed olhou para Winry. Seu pior pesadelo havia se materializado: lágrimas agora escorriam daqueles olhos azuis que ele adorava.
— Win... Winry! Por favor não chore!
Ele disse, o que só fez mais lágrimas descerem pelo rosto dela.
— Me perdoe mas... não consigo não chorar nessa situação — Ela disse, entre soluços.
Edward compreendia que ela não tinha como impedir as lágrimas, mas não podia deixar de odiar vê-la chorar. Então, de súbito, ele a abraça.
— Me desculpe — Ele diz, apertando-a em seu abraço suavemente.
Ela ficou sem ação por um momento, mas logo correspondeu ao seu abraço, passando o braço por suas costas. Ela estava ainda fungando, com lágrimas descendo por seu rosto.
— Não se desculpe — Ela disse, e ele ficou ouvindo, enquanto a abraçava. — Não é sua culpa.
— É minha sim — Ele a interrompeu. — Minha culpa por ter perdido o corpo do Al, por ter nos condenado a essa busca e por fazer você sofrer... tudo minha culpa.
— Pare de se culpar agora mesmo.
Ela o soltou e olhou para ele, segurando seu rosto entre as duas mãos. Ele não compreendeu direito.
— Você sempre se culpa por tudo. Não deveria fazer isso. Talvez seja mesmo por sua causa que tudo isso está acontecendo, mas ficar remoendo isso em sua mente não vai te levar a lugar nenhum. Vá e recupere o seu corpo e o do Al, que ficarei esperando a sua volta. Apenas se levante e ande. Agora, você tem duas pernas perfeitas para andar, só precisa usá-las.
Ele olhou para ela e sorriu, e ela sorriu de volta. A determinação dela sempre foi seu ponto forte, segundo Edward. Ele colocou o rosto dela entre as suas mãos, como ela estava fazendo com ele, e começou a limpar delicadamente suas lágrimas com os polegares, e ela sorriu.
— Ei, essa frase é minha.
— Eu sei, mas precisei dela pra que você caísse na real.
— Você é má...
— Eu sei, muahahaha!
Ela riu histericamente uma risada maligna e os dois riram forte. De nada adiantaria ficar triste agora, mas sim aproveitar a presença um do outro, até que a hora chegasse. Depois de rir, Winry ouviu o estômago de Edward roncar. Ela olhou pra ele, e ele fez uma careta.
— Aaai, que fome — Ele disse, segurando a barriga. — Esqueci de tomar café...
— Vem, tem pão quentinho, manteiga, queijo, presunto, suco e acho que sobrou um pouco da torta que a gente fez no Sábado. Posso fazer café também ou fritar um ovo.
— Uaau, parece até café da manhã de hotel, minha nossa. Acho que não vou conseguir comer tudo isso — Ed disse, e Winry riu.
— Seu bobo, sabe que não vai comer tudo isso junto.
— Claro que eu sei, só estou brincando — Ele riu. — Vem, vamos tomar café.
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Eles desceram as escadas e foram até a mesa do café, que estava cheio de coisas gostosas. Queijo, pão quentinho, suco de laranja, tudo o que Winry dissera, mas só tinha um problema: só havia um pedaço de torta. Eles se sentaram e assim que o viram, olharam um para o outro indecisos. Um deles teria que ficar com o pedaço. Ed empurrou o pratinho na direção de Winry.
— Vai, pode comer.
— Não, você quer mais que eu, pode comer — Ela disse, devolvendo o pratinho à ele.
— Nada disso, eu insisto — Ele disse, empurrando novamente o pratinho para ela.
— Pode ficar! — Disse Winry, empurrando novamente o prato em direção à ele.
— Come logo! Estou tentando ser cavalheiro! — Ele disse, empurrando o pratinho e quase derrubando o pedaço de torta.
Eles ficaram nessa por um tempinho, até que Al desceu e viu os dois.
— Nii-san, Winry, não me digam que estão brigando pelo último pedaço de torta — Al disse olhando pra eles, que estavam naquele vai e volta com o pratinho de torta.
— Bom, não exatamente — Ed disse, empurrando o pratinho pra Winry. — Come de uma vez!
— Aaah, já chega! Tive uma ideia pra acabar com isso — Ela disse, pegando uma faca e cortando o pedaço ao meio — Pronto! Agora cada um fica com um.
Ed pegou o seu pratinho sem questionar, afinal queria mesmo comer a torta, mas queria que Winry comesse também, afinal essa era a torta que eles tinham feito juntos, ela, ele e Al. Ele pegou um pão que estava na cesta, cheiroso e quentinho, e cortou-o com a faca, passando manteiga e colocando queijo e presunto, e depois enchendo um copo com suco de laranja fresquinho feito por Pinako. Winry foi até a cozinha fazer um ovo.
— Quer ovo, Ed? — Ela perguntou, da cozinha.
— Claro, por favor! — Ele disse, mastigando o seu misto. Winry olhou pra ele um pouco surpresa.
— Ed... você disse por favor? Meus ouvidos me enganam? — Ela perguntou, incrédula.
— Disse sim, porque? — Ela olhou pra ela um pouco confuso, sem saber qual é o problema de pedir por favor.
Mas acontece que Edward nunca pedia por favor. Só em ocasiões como festas formais e etc ( as quais ele não frequentava nunca ) mas pedir por favor no seu cotidiano era realmente uma surpresa. Ele sempre fora do tipo “pegar sem pedir, pois sabia que ninguém iria se importar” ou do tipo “se me ofereceu pra quê pedir por favor”. Mas agora ele tinha pedido, e Winry olhava fixamente para ele como se ele fosse um estranho. Ele ficou confuso.
— É que... nada — Ela sorriu. — Nada, deixa pra lá.
Depois dela preparar o ovo, ela o partiu na metade e serviu a metade à Ed, e assim que eles terminaram de comer colocaram os pratos na pia, enquanto Winry ajudava a avó a arrumar as coisas. Pinako insistia para que ela fosse ficar com Ed antes da partida, mas ela não aceitou sair da cozinha sem ao menos lavar a louça.
Ela olhou pra Ed e sorriu, sentando ao lado dele no sofá. Ele sorriu e se encostou no sofá e abriu seu livro de alquimia, novamente voltando a ler. Ela encostou-se nele para olhar o que estava lendo.
— Isso aí... é sobre alquimia não é? — Disse Winry, curiosa.
— É sim, mas esse nível é o mais avançado, é bem capaz que você não entenda nada.
— Huum — Ela olhou para o livro, cheio de palavras mas sem nenhuma figura. — Que chato...
Ed riu do comentário que ela fez. Ela fez tão séria que fez parecer muito engraçado, e ele riu alto. Um riso puro, sem nenhum sarcasmo, que fez Winry rir também, na verdade mais de satisfação, pois adorava quando ele ria assim.
— É sim, é muito chato — Ele disse, ainda rindo um pouquinho. — Queria que tivesse outra coisa pra fazer... alguma coisa que a gente ficasse um tempinho junto antes da minha partida.
Winry ficou um pouco pensativa. Onde eles poderiam passar um tempo juntos? Ela queria que Al fosse também, para não se sentir excluído, afinal queria ficar com os dois melhores amigos. Aí uma ideia lhe veio à cabeça rapidamente. Aquele lugar era tão nostálgico... trazia lembranças gostosas do tempo em que eles brincavam juntos, quando eram criancinhas.
— Ed, já sei! Por que não vamos até o rio?
— Ótima ideia! Nossa, faz séculos que eu não vou lá... — Disse Ed, animado. — Como deve estar agora?
— Acredite, não mudou nadinha. Continua o mesmo, só que talvez um pouco mais fundo.
— Vamos logo! Estou ansioso para ver como ele está! — Disse Ed, se levantando e indo até a porta.
— Vem, Al! — Chamou Winry, também, indo em direção à porta. Al sorriu ao ver que não tinham se esquecido dele.
— Vamos! — Disse Al, levantando e indo de encontro ao irmão e à amiga.
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