Notas iniciais
Oi, pessoal! Aqui é a Isabela. Tudo bem? É muito legal participar de mais uma coletânea, em meio a tantos talentos! Parabéns, meninas, vocês arrasam sempre! E as que vierem em seguida vão arrasar também, com certeza! Agradeço imensamente o convite e o constante incentivo que recebo dessas pessoas maravilhosas, que conheci por conta das fics que escrevo e das que elas escrevem! ❤ Para a one-shot, eu tive a ideia de criar um thriller, sabe? Uma narrativa com uma atmosfera de suspense, intriga, crime, mistério e espionagem… Mas eu nunca escrevi um thriller na vida! E acho que vou continuar sem escrever, pois tenho a ligeira impressão (ops… certeza!) de que minha one virou uma comédia romântica… Depois vocês me dizem como vocês a classificariam, ok? Eu não planejei fazer uma songfic, mas há uma parte em que um dos diálogos é a adaptação de trechos da música "Youngblood" da banda australiana "5 Seconds of Summer", pela qual estou ligeiramente obcecada nos últimos tempos. Eis a sinopse: "A vida profissional de Katniss se resume a assassinatos intrigantes e investigações bombásticas. Envolvida demais com crimes e mistérios, não há espaço para romances, principalmente agora em que um traidor do passado, com receio de que a mentira dele seja descoberta, ameaça denunciá-la de uma infração que ele mesmo cometeu. Peeta trabalha com ela e sugere algumas mudanças… E está disposto a ajudar, especialmente na parte romântica!" Banner: Belrapunzel Classificação: livre

Youngblood — 5 Seconds of Summer

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Vestida para Matar

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— Pronto! Agora sim você está parecendo uma assassina sexy e perigosa, Katniss.

Minha irmã termina de esfumar minhas pálpebras com a sombra num tom escuro e vira a cadeira giratória em que estou sentada para que eu possa me olhar no grande espelho do quarto de hotel.

— Você acha que eu preciso usar uma peruca, Prim?

— Com um cabelo maravilhoso desses, usar uma peruca seria um crime!

Nós duas rimos com o trocadilho da frase da minha irmã com a palavra "crime".

Eu me levanto e admiro a maquiagem que Primrose fez, destacando meus olhos cinzentos. Jogo sobre os ombros os cabelos escuros que emolduram meu rosto.

Depois, avalio minha silhueta, envolta no vestido preto, com um decote generoso e uma fenda nada recatada, que avança por minha coxa esquerda.

Alguns centímetros acima da abertura lateral, está um coldre discreto e o revólver, que ficam bem ocultos, mesmo sob o tecido leve. Primrose insiste que ambos são acessórios indispensáveis pra mim na manhã de hoje.

— Você acha que eu posso ser capturada como cúmplice? – questiona Prim, esforçando-se para assumir um ar grave, ao qual é impossível dar crédito, em face do seu rosto angelical.

— Nenhuma das pistas levará até você – sussurro, ensaiando a voz sensual que a roupa que estou vestindo me inspira a usar.

— Então, será o crime perfeito! – rebate ela, em tom brincalhão.

Primrose empunha o secador de cabelos como uma arma virada para cima e eu apoio minhas costas atrás das dela, simulando uma pistola com minhas mãos unidas à frente do meu peito.

Fazemos várias poses, caras e bocas para o espelho e caímos na risada.

Depois eu fico séria, pensando no que vou encarar daqui a algumas horas.

— Nervosa? – questiona Prim.

— Sempre fico...

— Mas não é só isso, eu sei.

— Você me conhece tão bem! É verdade, não é apenas isso... Ainda tenho que pensar em como vou matar o Marvel, a minha próxima vítima. Meu prazo fatal é até novembro, acredita?

— Prazo fatal. Literalmente! Que tal... pisoteado por saltos agulha? – Prim aponta para os calçados em meus pés.

— E estragar sandálias caríssimas? Nem na ficção!

Matar alguém nunca se torna mais fácil. Na verdade, fica mais difícil a cada vez que é necessário inventar um novo método assassino. Haja criatividade!

Estou arquitetando formas de como dar cabo de Marvel durante algum tempo, mas nenhuma das minhas maquinações parece a ideal.

— Às vezes, é melhor adotar o caminho mais simples. Já pensou em um tiro nele?

— Não, isso é o básico do básico, além de ser barulhento e de fazer sujeira. Dessa vez, quero um assassinato de mãos limpas.

— Usar uma arma branca também não é uma opção, por esse último motivo... Que tal empurrá-lo de um penhasco?

Considero essa possibilidade por um momento, enquanto fecho minha maleta, certificando-me de que tudo o que preciso está dentro dela.

— A ideia é tentadora, já que adoro uma bela paisagem de fundo, mas eu já usei um artifício parecido como esse antes. A última vitima foi jogada de cima de um navio, você sabe... E, devido ao sucesso da escolha, não posso lançar mão de nada nesse estilo mais uma vez. Quero evitar ser repetitiva.

— Contratar um assassino? Isso você nunca fez.

— É muito impessoal. E não é isso o que quero. Não para este alvo em particular.

Depois de tudo o que Marvel fez e está pretendendo fazer comigo, ele merece ficar cara a cara com a verdadeira assassina e saber exatamente quem orquestrou o destino dele. E o porquê.

Marvel está ameaçando me acusar de um crime que eu não cometi.

Muito pior do que isso. Um crime que ele praticou e do qual eu fui a vítima.

— Não há nada que justifique o que ele fez, mas às vezes fico pensando que, se não fosse pelo mau caráter do Marvel, você nunca conheceria o Peeta.

— E por que a menção ao Peeta especificamente? Eu conheci muita gente depois do que o Marvel fez comigo.

— Você acha que eu não notei sua transformação, depois que o Peeta começou a entrar em contato com você por horas seguidas através de videoconferência? E olha que esse tipo de comunicação entre vocês é totalmente desnecessário, diga-se de passagem...

— Saiba que eu trato apenas de trabalho nas chamadas para o Peeta!

— Para sua completa decepção. Estou errada?

— Ainda bem que você não é a detetive dos meus casos. Se não, nenhum crime seria perfeito.

— Aqueles sorrisinhos bobos todas as vezes em que você encerra as ligações pra ele são prova suficiente.

— Prova de quê? Posso saber?

— Prova de que uma mente fria e calculista como a sua também é capaz de amar.

— Ai, Prim, como você é má!

— Aprendi com a melhor professora.

— Malvada é você, que não vai comigo até o auditório da convenção. Ainda não entendi que compromisso é esse que você tem com a Effie, justamente na hora da...

— Não tente entender! Foi uma coincidência! – Ela me corta de forma abrupta, o que é, no mínimo, suspeito. — Aqui está o restante do seu disfarce... Vai dar tudo certo! E pode deixar que eu e Effie chegaremos lá na hora exata.

Ela me estende o sobretudo verde-oliva, com a figura de um tordo bordada na manga direita. Exatamente como o de Jennifer Green, a justiceira do livro "Operação Green Mockinjay", que não tem medo algum de usar de sensualidade para obter o que quer.

Encapoto-me com a vestimenta ainda no quarto.

Prim me entrega a maleta, com aquele ar maroto que só ela tem. Respiro fundo e saio porta afora.

Não gostei muito da ideia do figurino, a princípio, mas a roupa me deixa até mais confiante.

Trilhar esse caminho é aterrorizante, mas principalmente libertador.

Se tudo der certo, esses serão os últimos instantes de K. J. Everdeen.

Quando retornar a este quarto, o que estará em evidência certamente será o meu nome: Katniss Jasmine Everdeen.

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Caminhando para o meu destino – a convenção literária de São Francisco, que está acontecendo no hotel onde estou hospedada na cidade –, não consigo me livrar da sensação de parecer uma agente secreta num daqueles filmes inspirados na série de romances de espionagem de James Bond. Sim, hoje eu sou praticamente uma Bond Girl.

A convenção é onde se reúnem durante três dias os aficionados por histórias em quadrinhos e livros de todos os estilos, desde ficção científica à chick lit. É o lugar onde anualmente os fãs acotovelam-se com os criadores de seus heróis, ou com os próprios heróis, de tantas que são as pessoas fantasiadas dos mais variados personagens literários.

O que é perfeito para executar o que planejei sem chamar muita atenção.

O hotel de luxo em que acontece o evento é o cenário ideal também – fachada espetacular, gramados verdejantes, piscinas paradisíacas e um gigantesco pavilhão, onde Effie organizou o evento, com a ajuda de Primrose.

Há pessoas de várias idades e de diversas nacionalidades por todo o canto, carregando livros e mais livros de todos os gêneros e, o que mais me favorece, inúmeros cosplayers.

Como em versões anteriores, este ano, Caesar Flickermann vai realizar alguns painéis de discussões, em que os autores serão entrevistados diante de centenas de entusiastas.

É uma experiência divertida e extasiante, na meca da cultura literária para os fãs de todo o mundo.

Ajeito a maleta em minha mão, ainda um pouco desconfortável, e sequer preciso procurar as indicações para onde devo seguir, apesar da multidão e das tantas atividades acontecendo simultaneamente.

É lá, na entrevista com Caesar Flickerman, que darei um fim a K. J. Everdeen, o que marcará o início de uma nova fase em minha vida.

— Aonde você pensa que vai? – A voz grossa do segurança se sobressai ao burburinho das pessoas ziguezagueando pelo pavilhão.

— Estou a caminho do auditório 12, para o painel com o Caesar Flickerman.

— Como assim você está a caminho de lá?

— Quer mesmo saber? É simples! Estou indo pra lá andando... Colocando um pé à frente do outro alternadamente.

— Muito engraçadinha. Estou perguntando, porque não estou vendo sua credencial.

— Mas é preciso de credencial para entrar?

— Deixe-me adivinhar. Seu cosplay é... Jennifer Green, do livro "Operação Green Mockingjay". E você adoraria assistir ao painel que acontecerá daqui a pouco. Mas você não pode entrar. Não por aqui.

— Você não está me entendendo. Eu tenho que entrar. Eu preciso estar lá dentro antes de começar.

— A organizadora do evento é a Dona Effie Trinket. E ela não autorizou a entrada de ninguém sem credencial por aqui. Ela disse que nem se esse tal de K. J. Everdeen aparecesse sem credencial eu deveria deixá-lo entrar.

— K. J. Everdeen é ela.

— Não. Não é a Dona Effie, não.

— Eu quis dizer que K. J. Everdeen é uma mulher.

E é exatamente por precisar fazer comentários como esse que estou aqui. Na sua frente! É o que eu gostaria de jogar na cara dele, mas não posso.

Se algum dos presentes descobrir minha verdadeira identidade antes da hora, as coisas podem fugir ao meu controle.

— Ah, K. J. Everdeen é uma mulher? Pois nem ela entra sem credencial.

— Você não sabe a besteira que está fazendo, seu grandalhão!

— Por quê? Você tem uma arma escondida na sua maleta misteriosa? Vou precisar revistá-la, Jennifer Green do Paraguai?

— Que desaforo! Espere só até eu falar com a Dona Effie.

Detesto quando algo sai fora do meu planejamento. Agora essa. Tudo o que eu não preciso é ficar ainda mais apreensiva.

Busco Effie nos meus contatos telefônicos e ela logo atende.

— Alô? Katniss, querida!

— Effie, querida, você pode me explicar o motivo de um brutamonte impedir minha entrada no auditório 12?

— Você está com sua credencial?

— Não.

— É esse o motivo.

— Onde eu encontro essa credencial? Você não me deu nenhuma!

— Ela chegará em suas mãos.

— Mas... – Tento argumentar, porém ela já encerrou a ligação. — Mas como?

Desligo o telefone com uma considerável petulância, que desmorona ante o olhar jocoso do segurança.

— Nada feito, hein? Hasta la vista, baby.

Dou as costas para esse ser desprezível e, infelizmente para mim, muito competente na execução das ordens dadas a ele.

Novamente de cabeça erguida, decido que é um bom momento para tomar um café. Algo de que não abro mão por nada nesse mundo.

Isso é tudo o que me lembro agora que estou dividida entre odiar Effie e me sentir culpada por odiar Effie.

Até que esse dilema interno é suplantado pela visão mais surpreendente que eu poderia ter.

Surpreendente, no pior sentido da palavra.

Diante de mim, está o enorme cartaz com o anúncio da presença de Marvel Quaid em um dos painéis de hoje, junto a uma foto recente dele.

A não ser pela professora Paylor e por Prim, ninguém sabe o que realmente aconteceu entre mim e Marvel, ou como ele me usou. Por isso, não culpo Effie por trazê-lo à convenção.

Embora eu esteja muito confusa e atordoada com a presença dele aqui, talvez seja um bom sinal.

Talvez seja o momento de resolver isso de uma vez por todas e dar um fim definitivo à tortura psicológica a que ele vem me submetendo.

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Depois de dois livros publicados terem se tornado best-sellers, e ainda um terceiro em vias de ser lançado, estou num momento de bloqueio criativo. E minha dificuldade tem nome e sobrenome. Marvel Quaid.

Nós nos conhecemos na faculdade. Ele estava um ano à minha frente e ia bem em todas as matérias, exceto em Escrita de Ficção, ministrada pela Professora Paylor.

Ele passou raspando na disciplina e se prontificou a me ajudar nas minhas aulas no semestre seguinte, quando ele começou a estudar Escrita de Ficção Avançada.

Passávamos os momentos livres escrevendo juntos, dividindo o mesmo notebook e compartilhando senhas. E, depois, dividindo o mesmo alojamento e compartilhando lençóis.

Eu ia muito bem nas aulas de Escrita de Ficção. A professora Paylor me fascinava, como me fascina até hoje.

Ela é uma escritora maravilhosa e eu havia lido todos os livros dela muito antes de me matricular em sua matéria. Desde o primeiro trabalho que apresentei – um projeto ao qual eu me dedicava desde a adolescência, quando escrevia fanfics –, ela se prontificou a me ajudar a publicá-lo.

Já Marvel não ia tão bem na disciplina da turma mais adiantada.

Ele tinha um péssimo vício, que eu costumava chamar de "maldição do conhecimento", a qual queria dizer que, quando conhecia determinado assunto, era muito difícil para Marvel imaginar o que seria para outra pessoa não saber a mesma coisa. Não ocorria a ele que os leitores não conheciam seu jargão, não podiam visualizar a cena que ele tinha em mente ou ligar todos os pontos sem que fossem dados os passos intermediários, que eram sonegados, porque ele supunha que eram óbvios demais. Por causa dessa maldição, ele não se dava ao trabalho de expor a lógica do seu raciocínio ou fornecer os detalhes concretos para a compreensão do que ele queria transmitir. A leitura ficava maçante, vazia. O leitor não se conectava.

Não nego que ele se esforçava, mas, por outro lado, não ouvia meus conselhos. Eu frisava que eram conselhos de leitora, não de escritora, pois eu era tão ou mais amadora que ele, porém Marvel era orgulhoso demais. Talvez seja ainda.

Eu o via se empenhando dia e noite para terminar seu projeto final para a classe avançada, porém, nas raras vezes em que me deixou espiar, percebi que não evoluía muito. Tanto é que ele só conseguiu terminar o texto no último dia do prazo e, por isso, não pude ajudar na revisão. Bom, isso foi o que ele me disse.

Nesse meio tempo, meus originais agradaram tanto a professora Paylor que, antes do fim do semestre, ela já havia me apresentado aos meus atuais editores.

Quando eu estava a ponto de publicar meu primeiro livro, Marvel se ofereceu para me agenciar.

Sem desconfiar das reais intenções dele, Paylor me incentivou a aceitar sua oferta, dizendo que ele podia não ser muito talentoso como escritor, mas se sairia bem como agente, por ter muitos conhecidos no meio.

Acreditando nos conselhos dele, não segui adiante com a editora indicada pela professora, mas com a editora comandada por Coriolanus Snow, opção de Marvel.

Antes da publicação do primeiro romance, temendo que garotos não se interessassem por um livro escrito por uma mulher, a editora Snow exigiu que eu utilizasse apenas duas iniciais e meu sobrenome para me identificar. A ansiedade de ver nascer um livro escrito por mim me cegou a ponto de aceitar esse absurdo.

Enquanto isso, na faculdade, de modo surpreendente, Marvel tirou nota máxima em Escrita Avançada, assim como eu no módulo básico.

Eu estava muito feliz por ter a sorte de ter ao meu lado alguém que também sonhava com uma carreira como escritor e que finalmente estava se mostrando muito promissor.

Foi quando descobri a verdade, numa manhã em que a professora Paylor me encontrou nos corredores da Universidade.

— Posso fazer uma pergunta? – questionou ela. — Bem direta?

— Sim, professora. Sem rodeios. Como todas as perguntas que a senhora faz…

A mulher sorriu ante a minha sincera constatação.

— Você ajudou Marvel Quaid no projeto final dele? – disparou Paylor e o meu primeiro impulso foi negar com a cabeça, mas ela prosseguiu, sem se abalar com o meu gestual: — O professor de Escrita de Ficção Avançada ainda não conhece os textos que você escreve, apenas os dele. Mas eu conheço os textos de ambos.

Ela tinha nas mãos a sinopse do trabalho apresentado por Marvel ao professor da outra matéria.

O título era "Intervenção Hanging Tree".

Já estranhei esse nome, quase idêntico a um dos livros que eu havia escrito, com pequenas contribuições de Marvel. O meu se chamava "Operação Hanging Tree" e era o segundo de uma série de livros de suspense policial. O primeiro, "Operação Green Mockingjay", era o livro que estava prestes a ser publicado.

Li rapidamente as frases iniciais, mas não precisei avançar muito.

Fitei o canto do teto e mordi o lábio inferior, sentindo uma onda de lágrimas subindo até meus olhos.

— Esse texto é meu. Eu escrevi essa série sem pretensões… Não sabia que algum dia seria publicada. Marvel apenas fez algumas colaborações. E, pela descrição da sinopse, transformou a heroína num herói, mudou o cenário e as datas…

— Foi o que pensei – disse a professora, gentilmente. — Eu só conseguia ler você. Encontrei características da escrita dele justamente nas piores partes.

Eu sabia bem do que ela estava falando. Os poucos trechos que Marvel me convenceu a incluir também não me agradaram muito.

— Eu… eu juro que não sabia, professora. Mas, pelo visto, ele apresentou uma obra minha. Quer dizer… Nossa.

Todo o meu corpo era tensão pura naquele momento.

— Eu sei que é praticamente sua. – A professora usava um tom calmo, sinal de que acreditava em mim. — O professor da turma de Escrita de Ficção Avançada ficou muito impressionado e me mostrou o trabalho. Percebi que o estilo do Marvel mudou um pouquinho desde o último semestre.

Quando fui confrontá-lo a respeito, Marvel me pediu desculpas e me explicou o quanto estava desesperado. Não foi fácil superar a deslealdade e, por um tempo, fui morar com a Johanna, uma colega de turma, até que, infelizmente, cedi aos seus apelos.

E ficamos juntos por tempo suficiente para eu voltar a confiar nele como meu agente.

No entanto, Marvel não parou por aí. Ele inscreveu "Intervenção Hanging Tree" em concursos. Venceu muitos e conseguiu o prêmio máximo em um deles: foi publicado.

Toda essa traição foi importante para que eu buscasse a editora que me foi apresentada pela professora Paylor e me livrasse das péssimas influências de Marvel, das garras da editora de Coriloanus Snow e da obrigatoriedade de usar apenas minhas iniciais na publicação do meu próximo livro.

No entanto, agora, Marvel quer me acusar de plágio.

Para nossa última conversa cara a cara, ele me pediu para encontrá-lo em seu escritório na editora Snow.

Assim que entrei, a secretária dele surgiu, carregando uma bandeja contendo uma jarra com água. Uma bebida nada apropriada a se oferecer para mim. Ele sabe como eu amo um café.

Marvel pegou dois copos, que encheu com o lí­quido antes de me entregar um deles. Pela minha total perda de confiança nele, esperei que ele bebesse tudo primeiro e, só então, levei meu copo à boca.

Nada foi dito durante esse momento tenso, até que finalmente quebrei o silêncio:

— Posso imaginar o que me trouxe aqui – despejei de uma só vez, circunspecta, apoiando no tampo da mesa de vidro o copo com água ainda pela metade.

— Não tenha tanta certeza – sibilou ele, altivo, e eu me mantive séria, enquanto o fitava de volta.

— Você vai me surpreender, então, e me dizer que vai me dar o devido crédito por seu livro "Intervenção Hanging Tree"? – rebati, ainda o encarando.

— De jeito nenhum – disparou, sem nem mesmo sopesar a resposta.

— Então, serei obrigada a fazer isso por conta própria?

— Está perdendo seu tempo.

— Não posso acreditar no que estou ouvindo.

Meu coração acelerou pela repugnância que sua postura me causava. Num rompante, eu me levantei.

Ele também se ergueu e caminhou até mim, envolvendo meu antebraço com seus dedos ásperos e frios.

— Você não tem ideia do que sou capaz de fazer, não é?

— Nada louvável, tenho certeza.

Foi quando seu olhar duro pareceu titubear em duas ou três piscadelas, antes de se fixar ainda mais nos meus olhos.

— Eu registrei "Intervenção Hanging Tree" antes de você pensar em registrar qualquer um dos seus livros.

— Isso não é verdade. O registro de “Operação Green Mockingjay” aconteceu antes…

— Eu era seu agente, Katniss. Eu não registrei quando você me pediu, somente depois.

Uma risada debochada escorregou por seus lábios e senti algo se contrair em meu estômago.

— Você está sugerindo que pode me acusar de plágio?

— Que eu saiba, eu não estaria fazendo nenhuma acusação infundada!

— Ah, não? Quem plagiou quem nessa história sórdida?

— Pelas datas dos registros, foi você.

Ele ainda apertava minha carne sem nenhuma delicadeza.

Num solavanco, puxei o braço e ele me soltou abruptamente. Tropecei para trás e me esquivei da sua tentativa de me escorar.

— Não vai se safar dessa assim tão facilmente, Marvel.

Ele entreabriu a boca e esboçou um sorriso falsamente ofendido.

— Eu fiz isso para o seu bem. Eu sei o que é melhor para sua carreira. Estou protegendo você, minha K. J.!

Eu mal reconhecia a criatura de pé à minha frente. Ele deu um passo em minha direção e eu recuei, mas senti a frieza do metal da cadeira em que estava sentada encostar em minha perna.

— Você é ingênua demais… Apesar de serem livros diferentes e independentes entre si, escritores têm cada um o seu estilo, um modo próprio, único e reconhecível de se exprimir.

— Chega – implorei.

Ele estava cada vez mais próximo. Sua mão forçou meu queixo para cima. Seus olhos estavam semicerrados e sua voz, ainda mais cortante.

— Você é limitada…

Foi o suficiente. Eu o empurrei para longe.

— Eu não funciono sob ameaças. Mas, ironicamente, eu as faço também, Marvel. O vilão do meu próximo livro terá o seu maldito nome. E eu vou adorar contar o motivo de ter escolhido nomear meu antagonista assim.

Essas foram minhas últimas palavras para Marvel. Palavras que estão travando minha imaginação desde então.

Por causa dele, os meses estão se passando e nem um mísero capítulo foi concluído. Não um capítulo devastador, magnético, de tirar o fôlego. As palavras não estão fluindo, mas as cobranças são como uma avalanche.

Meu segundo livro alavancou as vendas do primeiro e o mesmo está acontecendo às vésperas de publicar o terceiro. Por isso, a editora quer que o lançamento do quarto livro seja num intervalo semelhante.

Além disso, tenho um padrão a seguir, expectativas dos leitores para atender e a promessa de um novo livro com o pior dos vilões para cumprir. Uma promessa que nem foi feita por mim, mas por Rue, minha doce e desligada agente, que soltou sem querer nas redes sociais a tão esperada notícia de mais um volume para a série.

Então, além do compromisso com minha editora, é minha obrigação não decepcionar meus leitores.

Eu era feliz enquanto pensava que havia conseguido me livrar das armadilhas fabricadas por Marvel. Mas estava enganada. A sombra dele em minha vida ainda me apavora.

Ligo para minha irmã.

— Oi, Kat!

— Prim.

— O que houve? – Ela logo detecta a tristeza em minha voz.

— O Marvel estará na convenção, sendo entrevistado no mesmo auditório que eu, mesmo sabendo que estarei no palco pouco antes.

— Não pode ser, Katniss. Eu não fazia ideia… Effie deve ter incluído essa entrevista na programação de última hora. E não duvido nada que seja uma armação dele.

— Não dá pra mudar o local? Ou cancelar a minha participação?

— Nem pensar! Ele não merece isso. Se for pra cancelar, será o painel com ele.

— O que Marvel está pretendendo?

— Boa coisa não é. Mas pode deixar que vou bolar um plano.

— Okay.

Agora mesmo que eu preciso de um café. Bem forte.

Avisto uma cafeteria em meio a toda a estrutura montada para a festa literária.

Basta que eu caminhe um pouco para ser arrebatada pelo cheiro da bebida quente que recende pelo ambiente. Vou direto para lá, como se estivesse seguindo um rastro.

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Café. Açúcar. Chantili. Sorvete de baunilha. Calda de alguma coisa bem doce. Gotas de chocolate. Canela.

Acabo de ingerir todos esses ingredientes em poucas goladas.

Preciso dar um fim a esse bloqueio criativo e provar a Marvel que ele não conseguiu me intimidar, quando se deparar com o belo nome dele estampado nas páginas do meu quarto livro.

Eu me recosto na cadeira e giro a colher, rodopiando a espuma deixada no fundo da caneca. Meu bloco de notas está aberto ao lado dela.

Normalmente, o suave ruído de copos de cerâmica tinindo, o chiado de uma máquina de café expresso e o murmúrio de conversas me inspiram, mas hoje até os sons familiares não estão me ajudando em nada.

Eu quero é trucidar o grupo ruidoso de turistas que aparentemente presume que os outros clientes querem ouvir cada palavra da conversa em uma língua desconhecida.

Mas, novamente, eu teria que encontrar um método de assassinato coletivo e efetivo primeiro. Não estou conseguindo decidir uma forma de fazer isso nem com um só indivíduo, imagina com vários!

A música alta de hip-hop estridente nos fones de ouvido do adolescente que está na mesa ao lado também não me deixa muito feliz.

Eu dirijo um olhar gélido a ele. Talvez o congelamento funcione. Ou a eletrocussão. É possível mandar alguém para o além com um curto circuito no celular?

Provavelmente não. Além disso, eu também já usei altas voltagens para eliminar uma personagem.

Preciso de outra coisa. Algo único.

Suspirando, deixo cair a colher na minha caneca vazia. Necessito de um chocolate quente ou de algo com bastante cafeína e açúcar.

Ei, será que esse pode ser o método perfeito que estou procurando? É possível uma dose letal de cafeína e açúcar?

Meu celular toca antes que eu possa pedir outra bebida. Tiro o telefone da bolsa e meu humor melhora instantaneamente, quando vejo o nome no visor: Peeta Mellark.

— Alguém pode morrer de overdose de cafeína e açúcar? – pergunto, em vez de proferir um cumprimento normal.

Um momento de silêncio é filtrado pelo aparelho telefônico. Depois, chega a risada gostosa dele, que consegue me arrancar um suspiro a cada vez que ouço.

— Essa é a sua nova saudação? Bom dia pra você também.

Apesar da leve repreensão, a voz sexy de Peeta está cheia de humor.

— Bom dia – repito, de modo mais respeitoso. — Como vai meu editor favorito hoje?

— Eu ficaria envaidecido, se eu não soubesse que você só trabalha comigo como editor. Então, eu não tenho tantos competidores – graceja ele.

Engulo em seco e deixo as palavras saírem de minha boca:

— Você não tem competidores em lugar nenhum.

Peeta silencia por uns segundos.

— É melhor que seja assim, já que eu, sozinho, salvei a personagem principal em seu último livro. Graças a mim, ela calçou um par de tênis em vez de um par de…

— Eu sei, eu sei que troquei a letra “t” pela letra “p”! Um simples erro de digitação! – esbravejo.

— Ou um erro por distração?

— É. Eu queria ver se você estaria atento – ironizo. — Eu vou ter que ouvir isso até o fim dos meus dias?

— Pode apostar que sim.

Eu finjo choramingar, mas a brincadeira familiar sempre me faz sorrir. Eu tenho uma queda por homens com senso de humor e tenho, não só uma queda, mas um tombo pelos que têm talento com as palavras.

Acrescente a isso um par de olhos azuis, um sorriso matador, um ótimo conhecimento de gramática e sintaxe e… pronto! Eu já sou um caso perdido.

Pena que esse homem em particular é o meu editor, que eu nem sei se está desimpedido. Nunca consegui encontrar uma maneira eficaz de descobrir. Todas as vezes que tentei, com indiretas – ou diretas mesmo –, só consegui respostas evasivas.

Também não sei como sondar as pessoas que conhecemos em comum sem gerar suspeitas da minha paixão secreta.

Minha imaginação hiperativa sempre me apresenta um cenário em que eu envio a Peeta um e-mail com os dizeres: Você acha que eu deveria cortar o prólogo e começar com o ponto de vista da detetive? Essa sentença no início do capítulo está muito longa? Ah! E, já que estou fazendo perguntas… Você está solteiro?

Não. Fora de questão. Troco a posição do celular para o outro ouvido.

— Então, e aquela overdose de cafeína? Você acha que um homem adulto poderia morrer disso?

— Não – afirma Peeta sem hesitação.

— Como pode ter tanta certeza?

— É sério. Confie em mim. Se isso fosse possível, você já teria batido as botas naquela época em que o prazo de entrega do seu segundo manuscrito estava se esgotando. Se bem que, talvez você tenha razão, afinal… "Cafeína coloca um homem em seu cavalo e uma mulher em seu túmulo."

Oh, céus. Quem resiste? Agora ele está citando a frase do livro "O Sol também se levanta", de Ernest Hemingway.

— Ai, ai…

Tampo minha boca com a mão livre, mas não sou rápida o suficiente para encobrir meus suspiros de admiração.

— Também gosta de Hemingway? Alguns autores poderiam se inspirar no estilo marcante dele, com aquelas frases curtas e o uso restrito de descrições para relatar as ações. – Ele solta as palavras num tom arrastado.

Concentro-me no que Peeta diz nas entrelinhas. Depois de dois livros editados por ele, inúmeras videoconferências e mais e-mails do que eu posso contar, conheço Peeta bem o suficiente para detectar uma leve frustração em sua voz.

— Dia difícil?

— Apenas um prazo apertado para os originais de escritores de primeira viagem.

Já me livrei de alguns vícios de iniciantes, mas ainda sei como a edição de um livro de estreia pode ser demorada e exaustiva.

— Eu não sei como você faz isso. Estou me lembrando do meu primeiro livro. Abertura arrastada, exagero de adjetivos, despejos de informações, violações de tempos verbais e trocas equivocadas de pontos de vista… – Estremeço ao recordar meu texto amador. — Para a sua sorte, não sou como era há alguns anos atrás.

Aperto os olhos ao perceber meu deslize linguístico ao usar a última frase. Logo com ele.

— Você está sendo redundante – corrige Peeta, fazendo-me sorrir. — O advérbio "atrás" é desnecessário para indicar o passado, pois o verbo haver, conjugado como verbo impessoal, já indica tempo decorrido.

Ele é tão previsível. Previsível, mas adorável.

Até mesmo as mensagens de texto ocasionais que Peeta me envia usam gramática perfeita e pontuação corretíssima. Infelizmente, nenhuma delas termina com emojis com biquinhos de beijos e coraçõezinhos no lugar dos olhos.

— Está certo – admito meu erro. — “Há alguns anos” ou, então, “alguns anos atrás”. Pode ficar descansado comigo e se preocupar apenas com os outros escritores… Por enquanto.

— Muito bem… Mas fique tranquila, pois a maioria dos manuscritos não está tão ruim assim. Eu realmente acho muito gratificante ser mentor de nossos novatos e ajudá-los a crescer como escritores.

Isso é típico de Peeta. Ele nunca reclama ou fofoca sobre qualquer um dos escritores. Ele é o epítome do profissionalismo.

Eu admiro isso nele, mas provavelmente essa característica também pode significar que Peeta nunca cogitaria um relacionamento com uma das autoras sob sua responsabilidade.

— Então, teremos bons livros a caminho – suponho.

— De vez em quando, eu me deparo com manuscritos excelentes – acrescenta Peeta. — Mas nenhum deles é tão bom quanto os seus.

Mesmo sabendo que provavelmente pareço o Gato de Cheshire – o felino de sorriso pronunciado, personagem do livro "Alice no País das Maravilhas" —, em êxtase, eu não posso deixar de erguer os cantos da boca como se tivesse acabado de ganhar o Prêmio Pulitzer por Ficção ou o Nobel da Literatura.

— Já disse que você não tem competidores em lugar nenhum? – Eu me derreto mais uma vez.

— Talvez… Mas é sempre bom ouvir isso de você.

— É mais do que merecido.

Faço uma pausa. Estamos nos cortejando? Ou apenas brincando? Não tenho certeza. A única certeza que tenho é a de que estou sentindo alguns avanços.

Ele pigarreia. Um som de rangido atravessa o celular e imagino Peeta recostando-se na cadeira do escritório, a blusa esticada sobre os músculos bem distribuídos, como aconteceu durante a última chamada de vídeo.

Ainda bem que Peeta não suspeita que aquela imagem, não só vai inspirar a descrição física do herói do meu novo livro, como também visitou meus pensamentos algumas outras vezes.

— Então – retoma Peeta —, por que você está perguntando sobre doses letais de cafeína e açúcar? Você está exagerando de novo nesse milkshake de zilhões de calorias?

Espio a caneca vazia.

— Desde quando você me conhece tão bem?

— Você já me disse várias vezes que troca qualquer coisa por uma taça gigante dessa mistura que você chama de café, mas que, na verdade, é chantili, sorvete de baunilha, calda de caramelo, pedaços de chocolate e uma gota de café.

Suspiro, impressionada com a descrição precisa dele.

— Eu realmente estou na cafeteria da convenção literária, diante de uma caneca vazia… Mas não é por isso que estou perguntando. É para o novo livro. Estou tentando criar uma trama criativa.

— E então?

— Nada, nothing, niente, rien.

Peeta ri.

— Duvido muito.

— Tudo o que eu pensei até agora parece bobo ou eu já usei em um dos meus livros anteriores. Eu preciso de algo novo. Não quero ser uma daquelas escritoras que basicamente escreve o mesmo livro de novo e de novo.

— Certo. Pra ser sincero, eu estive pensando sobre seu novo livro também.

— Sério? Você andou pensando o quê?

Mais uma prova de que Peeta é o homem perfeito pra mim. Ele vive em um mundo imaginário povoado por pessoas fictícias, durante a maior parte do dia, e me entenderia perfeitamente quando eu começasse a rabiscar guardanapos com ideias para os livros durante nossos jantares românticos.

Já imagino nossos diálogos entusiasmados quando desvendarmos juntos os mistérios nos livros que leremos agarrados no sofá.

O que nunca tive com o Marvel, o ex-namorado ladrão de ideias.

— Claro – afirma Peeta. — Como seu editor, tenho interesse em seu sucesso.

Como meu editor? Seria realmente só isso? Eu prefiro acreditar que nós nos tornamos amigos e que Peeta quer que eu seja bem-sucedida também por motivos pessoais.

— Então, o que você sugere para meu novo livro?

— Eu amo seus mistérios… Eu realmente adoro suas tramas bem construídas e indecifráveis. Mas acho que você deveria considerar, de repente, diversificar um pouco. Talvez fazer uma trama com um pouco mais de sex appeal.

Eu me distraio por um momento com a combinação da voz de Peeta – suave, sedosa e confiante – com a expressão sex appeal. Quase perco o significado de sua frase.

— Você quer que eu escreva um… romance com romance mesmo?

Peeta solta um suspiro.

— Não faça parecer que eu pedi para escrever um romance que envolve muitas donzelas em apuros, caçando um marido e perdendo a pureza… Embora eu tenha certeza de que você escreveria bem qualquer gênero.

Começo a gargalhar. Isso é tão diferente do que eu escrevo.

Será que essa ideia partiu de algum dos chefes da editora? Estou quase com medo de perguntar.

— Eu não sei. Mesmo sem as donzelas casadoiras…

— Ah, não diga isso. Colocar um pouco de romance em seus livros não seria tão ruim assim, seria?

— Não seria tão ruim assim? – Minha voz termina em um quase grito. — Peeta, eu sou Katniss Jasmine Everdeen. Eu mato as pessoas para viver!

— No papel! Caramba, Katniss, se você continuar dizendo essas coisas em voz alta e em público, eu vou ter que tirar você da cadeia algum dia. Será que eu realmente tenho que lembrá-la do que aconteceu quando você ligou para aquela Fundação especializada em toxidade de espécies vegetais e perguntou quantas bagas de beladona eram necessárias para matar um homem de oitenta quilos?

A vermelhidão inunda meu rosto, mas não dou o braço a torcer.

— Os sites em que pesquisei tinham informações contraditórias. Eu precisava saber a dose certa do veneno para a vítima morrer em exatos trinta segundos! – explico pela milésima vez, ainda exasperada.

Assim como o pequeno acidente com a palavra “tênis”, Peeta nunca se esquecerá disso.

Espio ao redor. Vários fregueses da cafeteria estão agora olhando para mim como se eu fosse a personificação da Bruxa Má do Oeste, do livro "O mágico de Oz" e da Feiticeira Branca das "Crônicas de Nárnia", em uma só pessoa. Ótimo.

Alto o suficiente para que todos ouçam, emendo:

— Sou escritora de livros de mistério. Eu escrevo sobre assassinatos e investigações policiais. Eu não executo nada, nem ninguém. Eu não mato nem uma mosca na vida real – baixo a voz, agora falando apenas para Peeta. — Meu talento não envolve cenas com sex appeal.

— Elas são chamados de cenas de amor, não de cenas de sexo.

— É tudo a mesma coisa – resmungo.

— Não, não são a mesma coisa. As cenas de amor são uma expressão dos sentimentos dos personagens. É tudo sobre intimidade emocional e a demonstração do que sentem um pelo outro, mesmo que, de vez em quando, essa demonstração seja a descrição de um ato físico… Pode ser com uma aura de envolvimento e sedução, ou pode ser vigoroso e rápido, contra uma parede.

— Ah…

Desabotoo o botão superior do sobretudo, enquanto o calor pulsa em meu corpo. Caramba, Peeta!

A melhor parte é o divertimento na voz dele ao me dizer essas coisas. E continua:

— Enquanto que uma cena de sexo…

— Eu sei, eu sei. Sem mais descrições, por favor.

Se não interrompesse Peeta, eu iria superaquecer e meus observadores atentos na cafeteria iriam chamar uma ambulância, por acharem que estou tendo uma síncope ou algo assim.

— Além disso – prossegue Peeta —, nem todos os romances precisam ter uma cena de amor mais caliente, apesar do que algumas pessoas pensam, se é essa a razão pela qual você está tão relutante em tentar escrever algo nesse estilo.

Maravilha. Agora Peeta acha que sou uma puritana.

— Não é isso. Não mesmo. Eu não tenho nada contra sexo. Quero dizer, cenas de sexo. Ops! Cenas de amor… Droga! – Nenhum outro homem jamais conseguiu me perturbar assim sem estar no mesmo cômodo que eu. Sem nunca ter estado no mesmo cômodo que eu.

Pouco depois que decidi que Peeta seria meu editor, após longas conversas por telefone, em que descobrimos muitas afinidades, ele assumiu a chefia da filial da editora no Canadá.

Então, nós nunca nos vimos pessoalmente, apenas por videoconferência.

Mesmo assim, basta sua voz para eu me desestabilizar.

Uma risada suave atravessa a linha telefônica. O som sensual me faz corar ainda mais e eu me abano com o bloco de notas.

A essa altura, metade dos clientes da cafeteria provavelmente está ouvindo a conversa. Se alguma das pessoas equipadas com notebooks nas mesas vizinhas são colegas escritores ou, pior ainda, comediantes, estou fornecendo diálogos de primeira.

— Eu lido bem com cenas de amor – digo tão calmamente quanto posso. — É só que… Eu não sei. Romances simplesmente não são minha praia.

Peeta fica quieto por um momento.

— Na ficção ou… na vida real?

Minha boca fica seca. Durante todo o tempo em que trabalhamos juntos, ele nunca me fez uma pergunta tão pessoal.

— O que está acontecendo com você hoje?

Será que ele está apenas tentando aprofundar sua compreensão sobre a mulher por trás de K. J. Everdeen, autora de livros de mistério, ou tem um interesse pessoal na resposta?

— Desculpe-me – diz Peeta, interrompendo o raro silêncio entre nós. — Eu não deveria falar essas coisas, muito menos ter perguntado isso.

— Não, não, tudo bem.

A última coisa que quero é que Peeta pense que minha vida particular está fora dos limites. Se dependesse de mim, Peeta seria minha vida particular.

— Está mesmo tudo bem?

— Sim. Vou me explicar. Quando se trata de vida real, sou uma grande fã de romance. Evidentemente, eu não tive muito sucesso nesse departamento ultimamente. Meu último namorado… Bem, vamos apenas dizer que eu tenho minhas razões para dar o nome dele à minha próxima vítima.

Isso deveria deixar Peeta saber que estou solteira, certo? Apenas no caso de ele não ter visto a atualização do meu status nas redes sociais.

Ele ri.

— Humm. Deixe-me adivinhar… Ele vai morrer de uma maneira horrível?

— Isso é certeza. Mas eu ainda não defini os detalhes do assassinato ainda.

— Então, você está buscando uma maneira que nunca usou em seus livros? Que tal uma flecha? – sugere Peeta. — Várias flechas?

— Oooh! Isso definitivamente é uma possibilidade.

Rabisco a sugestão no bloco de notas, sublinho duas vezes e desenho um grande ponto de exclamação ao lado das palavras.

— Parece que existe uma ex que você não se importaria de eliminar na ficção também…

Peeta faz um muxoxo evasivo.

— Acho que todos temos, não é?

— É verdade.

Aguardo um pouco, mas Peeta deixa por isso mesmo. Nenhuma informação sobre se ainda está solteiro.

— Katniss…

Eu amo o jeito que meu nome soa vindo dos lábios dele.

Transformo a bolinha do ponto de exclamação em um pequeno coração, depois franzo o cenho para a folha de papel. Talvez eu deva me arriscar na escrita de um romance. No fundo, em meu peito, bate um coração repleto de coisinhas fofas e bregas.

— Sou toda ouvidos.

— Eu não quero mudar seu estilo ou convencê-la a escrever algo com o que você não se sente confortável. Se escrever um romance não é pra você, tudo bem. Isso não é o que eu estava sugerindo de qualquer maneira.

— Então, o que você estava sugerindo?

— Você já considerou livros de suspense romântico? – pergunta Peeta.

— Suspense… ro-mân-ti-co? – Debulho cada sílaba.

Outro murmúrio de Peeta. De alguma forma, ele consegue fazer até mesmo esse som indefinido de um jeito sexy.

— Sim. Você ainda pode ter um enredo de mistério, com criminosos perigosos, tensão de roer as unhas e trabalho de inteligência policial. Você apenas adicionaria uma subtrama romântica.

— Se não é tão diferente do que eu tenho escrito, por que tentar um novo gênero?

— Não é um gênero tão diferente. Seria apenas acrescentar cenas hot.

— Eu pensei que elas fossem chamadas de cenas de amor, não de cenas hot.

— Touché! – O tom de Peeta revela que ele está sorrindo.

Até esse exato momento, nunca considerei mudar o que escrevo, e não queria fazer isso agora, mas talvez Peeta esteja certo. Se eu quero manter minha escrita sempre renovada, é quase um dever pensar em me aventurar em outros gêneros.

Pode ser uma opção dar um namorado à detetive Everlark – não, eu não fui sutil na escolha do sobrenome da personagem –, pois isso a humanizaria e seria mais fácil para os leitores se identificarem com a policial workaholic, além de fornecer uma boa fonte de conflito interno.

E, se eu incluísse um pouco de romance em meus manuscritos, pelo menos seria capaz de viver algo assim através de minhas personagens, já que minha própria vida amorosa é inexistente no momento.

— Você tem talento de sobra pra isso. E muito mais.

Sorrio. Peeta nunca esconde o quanto gosta da minha escrita, distribuindo elogios e críticas construtivas. Ainda assim, é bom ouvi-lo dizer novamente.

— Eu ainda posso matar meu ex-namorado? – indago.

Peeta ri aquela risada especial dele, a que me conquistou desde a primeira vez em que nos falamos ao telefone e que sempre me faz sorrir em resposta.

— Nós poderíamos colocar esse detalhe no contrato de publicação, se você quiser. Qual o nome dele mesmo?

— Marvel. Marvel Quaid. – Finalmente revelo a ele quem é o meu ex-namorado. A risada dele para. — E não precisa fazer constar nada em contrato. Eu confio em você.

— Obrigado por confiar em mim. Sabendo quem é seu ex-namorado, isso significa muito mais do que pode imaginar – diz Peeta. Seu tom está sério agora. Ele deve conhecer a fama de desleal de Marvel. — Obrigado por me ouvir. Mesmo que você acabe não seguindo minhas sugestões, isso significa muito.

— Não precisa agradecer. É que…

Até mesmo para conversar com outras pessoas, a lembrança de Marvel bloqueia minhas palavras.

— Você não tem que decidir agora – garante Peeta, quando o silêncio se prolonga. — Pense nisso por um tempo. Podemos falar mais a respeito quando nos encontrarmos daqui a pouco.

Daqui a pouco? A mera menção envia um formigamento por meu corpo.

— Daqui a pouco? – reproduzo a pergunta que está em meus pensamentos.

— Você não vai mais participar da conferência de autores em São Francisco?

— Bom, é o que eu espero, mas fui barrada na entrada do auditório. Preciso de uma credencial, que Effie falou que vai chegar às minhas mãos…

Nem termino direito a frase. Mal consigo acreditar que vamos nos conhecer pessoalmente pela primeira vez. Depois de estar apaixonada por Peeta por quase dois anos, o pensamento de ficar face a face com ele é emocionante e aterrorizante, na mesma medida.

Reprimo um suspiro. É bem provável que eu me envergonhe diante de centenas de pessoas – incluindo meus colegas escritores, leitores beta e críticos –, confessando meu amor incondicional por meu editor, no palco onde serei entrevistada.

— Estou com sua credencial — revela ele. — Eu, Effie e Prim fizemos um suspense básico sobre esse nosso primeiro contato pessoalmente.

— Ah, então você está mancomunado com aquelas duas… E pensar que você estava escalado pra ser o herói do meu próximo livro… com romance. Agora é você que vai ser o vilão. O maldito antagonista.

— Não ficaria legal. Eu tenho um nome não muito comum e que estará no seu livro. Peeta Mellark, editor. Fica estranho um antagonista homônimo.

— Sem problemas. O nome será Pita. P. I. T. A. – soletro.

— Ai, não. Esse é o meu pesadelo. Meio mundo erra a grafia do meu nome desse jeito… Eu mereço mesmo tanto castigo?

— E como merece!

— Eu não vou reclamar mais, se você permitir que o P. I. T. A. se envolva romanticamente com uma morena fatal.

Agarro a beirada da mesa. Ele gosta de morenas! É agora ou nunca.

— Peeta… Eu estava pensando…

— Sim?

— Poderíamos, talvez… Quero dizer, você teria tempo de se reunir durante a conferência para debater comigo ideias para métodos únicos de assassinato? Vou até trazê-lo à cafeteria por minha conta. Não se preocupe que sei o que vou pedir pra você: chá, sem açúcar. Nada dos meus milkshakes de zilhões de calorias.

Não hesitando por um segundo, Peeta aceita:

— Mal posso esperar por esse nosso encontro.

Fecho a boca. Ele disse… encontro?

Não se precipite, Katniss. É apenas um modo de dizer.

Mas Peeta ganha a vida escolhendo as palavras certas para colocá-las nos lugares precisos. Ele não teria dito, se não quisesse me passar essa mensagem? Ou estou me iludindo?

O garoto da música alta escolhe esse exato momento para esbarrar em mim e derramar café gelado por todo o meu bloco de notas.

Não, não, não. Agora não!

— Oh, droga. O que você pensa que está fazendo, seu inconsequente? – berro para o moleque, ainda com o celular próximo à boca.

Por alguns momentos, nenhum som atravessa o telefone, como se Peeta tivesse parado de respirar.

— Se você prefere manter as coisas estritamente profissionais, eu entendo. – Peeta suspira. — Não vou mais tocar no assunto.

— Não! Quero dizer, sim! Eu adoraria tomar um café com você… Como um encontro, não apenas como uma reunião de trabalho!

Apenas o silêncio responde.

— Peeta? Você ainda está aí?

Sem resposta.

Afasto o celular da orelha e olho para o visor iluminado, indicando o fim da ligação.

Ótimo. Nenhum final feliz hoje.

Se eu incluísse uma subtrama romântica em um de meus livros e mantivesse os dois amantes em potencial separados por causa de um bendito adolescente desajeitado… Ele correria sério risco de vida.

Uma garçonete ruiva se aproxima, raspando pelo chão os pés das cadeiras que estão em seu caminho.

Em vez de falar alguma coisa, ela olha diretamente em meus olhos.

Eu a encaro de volta. Um rubor sobe pelo pescoço dela, mas ela não pensa duas vezes e passa a mão no meu bloco de notas, saindo em direção ao interior da cafeteria, quase correndo.

— Ei! Volta aqui! – É tudo o que consigo dizer antes que ela suma das minhas vistas.

Era só o que me faltava! Eu ainda tinha esperanças de recuperar algumas anotações, porém agora talvez nem isso eu possa mais.

Eu me levanto, tentando ignorar os olhares curiosos e disfarçar meu desalento pelas seguidas desgraças de uma única manhã.

No entanto, do mesmo jeito que sumiu, a ruiva aparece de novo à minha frente, com um pano para enxugar a mesa.

— Peço desculpas pelo mau jeito. Eu levei seu bloco para uma estufa de salgados que estava vazia lá dentro. Suas anotações devem ser um tesouro…

— Ah, obrigada.

— Eu sou sua fã. Li todos os seus livros e estou ansiosa pelos próximos.

— O fato de tentar salvar minhas anotações vai ser muito útil mesmo para eles serem publicados um dia.

— Tome este bloco aqui. Você pode ter umas ideias repentinas muito mais interessantes que os pedidos que eu anoto.

Depois que ela limpa o tampo da mesa, coloco sobre ele minha maleta e retiro de dentro dela um exemplar do meu projeto mais recente, que ainda não está nas livrarias, mas do qual foi impressa uma tiragem especial.

O título está em letras bem desenhadas: "Operação Golden Team". E, o que é mais especial para mim, o meu nome completo está na capa: Katniss Jasmine Everdeen.

— Eu trouxe esses livros para sortear durante a entrevista de lançamento. Mas um deles já é seu… Qual o seu nome?

— Annie! — Os olhos verdes dela brilham de emoção e excitação.

Com a caneta já em mãos, faço uma dedicatória e entrego a ela o exemplar, junto com um punhado de marcadores de livros.

— Espero que goste.

— Ah, eu sei que vou adorar! – Annie alisa a capa e guarda o livro com carinho no bolso frontal de seu avental. — Outra coisa. Não pude deixar de ouvir parte da sua conversa… Você deveria ligar para o Peeta, antes que ele pense que você não está interessada.

— Você teve essa impressão?

— Ah, estou na torcida pra você virar a página da história com o Marvel Quaid… Você vai ligar?

Ela prestou mesmo atenção em toda a conversa…

Fico olhando para cima e para baixo, alternando entre o rosto da garota e o telefone por mais um instante, antes de pegar o dispositivo apressadamente.

Rapidamente, aperto as teclas e levo o aparelho ao ouvido.

Toca por um bom tempo e justamente quando penso que Peeta atendeu, aquela voz sexy e familiar surge apenas na mensagem da caixa postal.

°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°

Annie começa a acomodar algumas pessoas na cafeteria e vejo pelo canto dos olhos dois homens de pé, próximos à porta, conversando com uma mulher loira. Não preciso fitá-los diretamente para saber que um deles é Peeta.

Sem olhar para o lado, através da minha visão periférica, percebo que ele se acerca.

— Oi, Katniss – cumprimenta Peeta sem entusiasmo.

Eu paro, saboreando aquela voz, mesmo desanimada, e me viro para ele. Meu estômago se embrulha.

Esses olhos azuis serão minha ruína um dia. Sinto vertigens só de olhar para eles ao vivo.

— Ah, oi, Peeta!

Quando ouve o nome dele, mesmo a algumas mesas de distância, Annie leva as mãos aos lábios, surpresa.

— Eu vou pegar outro bloco para anotar os pedidos – avisa ela, antes de sair.

Depois que ela se afasta, balbucio:

— Achei que fosse encontrá-lo no auditório. O que… o que traz você aqui à cafeteria?

— Chá, sem açúcar – responde ele com um sorriso brando, segurando o cardápio.

— Sim, claro.

Controle-se, Katniss. Ordeno a mim mesma.

O outro rapaz, que continuou conversando com a loira na porta antes de entrar, chega de repente.

— Katniss, este é meu amigo Finnick. – Peeta aponta para o cara ao lado dele.

Finnick tem cabelo cor de cobre e é bonito até não poder mais. O amigo de Peeta estende a mão para mim.

— Muito prazer, senhorita, e deixe-me dizer que sua reputação a precede. Mas você não se parece nada com a descrição que Peeta me fez. Eu esperava encontrar alguém como a Mia, do livro "O diário da princesa".

— Ah, é?

— Antes da transformação. – Ele beija as costas da minha mão, mas eu a puxo apressadamente, franzindo as sobrancelhas para ele. Finnick apenas pisca para mim e ri. — Você disse que ela era atrevida, não é, Peeta? Eu a chamaria de arredia... Apesar de estar linda como cosplayer da Jennifer Green, vou seguir o seu conselho de não me engraçar com ela.

— Não foi… Não foi bem assim, Finnick… Katniss...

Peeta cora e tropeça em algumas palavras, o que só faz seu amigo rir ainda mais.

Cruzo os braços e olho para ele, mas quem fala é Finnick:

— Ei, não me corte da sua lista tão cedo, querida. Eu só estou aqui para apoiar o meu melhor amigo, que acabou de tomar um fora. E isso é tudo o que posso fazer, pois ele não quer me dizer quem foi que fez essa maldade. – Ele bate nas costas de Peeta. — Eu só sei que não foi você, Katniss, porque ele não costuma misturar trabalho e romance… Foi aquela loirinha que você me apresentou ali na entrada, Peeta?

— Katniss, não dê ouvidos a ele. E, Finnick, é melhor esquecer esse assunto.

Será que o Finnick está se referindo ao final da minha conversa com Peeta ao telefone? Ou será que a loira da entrada é mesmo o flerte mal sucedido de Peeta?

— Peeta, talvez você não saiba que… – Tento explicar o que havia acontecido quando gritei ao telefone com ele, mas Annie retorna e gentilmente se prontifica a anotar os pedidos.

— Olá! Vocês vão querer o quê?

Finnick olha para a frente. Juro que o vejo ficar pálido e, pela primeira vez desde que chegou, ele parece sem palavras.

— Hum, ah, nós… Bem…

— Precisamos de mais algumas cadeiras para sentarmos com ela – interpõe Peeta e Annie assente, dando a Finnick um olhar confuso, antes de se virar para verificar as outras mesas.

Finnick a observa se afastar e, então, coloca a mão sobre sua camisa.

— Acalme-se, meu pobre coração… Quem é aquela criatura adorável? – pergunta ele a ninguém em particular.

— O nome dela é Annie, minha leitora e mais nova amiga, senhor Don Juan DeMarco.

Peeta ri e acena na direção de Finnick.

— Não dê atenção a ele. Finnick é inofensivo, na verdade.

Annie vai até a caixa registradora, perto de onde há algumas cadeiras vazias, e Finnick salta de seu assento.

— Eu voltarei. Preciso causar uma segunda primeira impressão na futura Sra. Odair.

Começo a argumentar com Finnick, mas é tarde demais. Annie já está presa entre ele e uma parede.

— Não se preocupe, eu vou ficar de olho nele. Ele não é mal intencionado, ele é só…

— Um conquistador barato?

— Amigável demais, era o que eu ia dizer.

Eu me sinto um pouco mais relaxada. Este é o Peeta que eu conheço – descontraído e engraçado.

Depois de alguns minutos, Finnick ajuda Annie a trazer as cadeiras.

— A Annie simpatizou muito comigo e o principal motivo foi saber que sou o responsável por essa capa aqui. – Ele aponta para o meu livro no bolso dela. — Então, obrigada, Katniss, por me escolher como designer gráfico e por me ajudar a ganhar uns pontos com a bela Annie Cresta.

— Então, é você o famoso Finn, que desenvolve essas artes maravilhosas? – elogio o trabalho de Finnick e Annie sorri ainda mais para ele.

Depois de mais alguns minutos de conversa, pagamos a conta e, de alguma forma, todo o charme e persistência de Finnick são recompensados, porque vejo Annie escrevendo um número para ele na parte de trás de um marcador de livros.

— É melhor você guardar isso bem guardado, Finnick – brinca ela.

Finnick dobra o papel em um pequeno retângulo e coloca-o no bolso da camisa.

— Já está perto do meu coração. Assim como você – sussurra ele e se inclina para beijar galantemente a mão dela.

Annie dá uma risadinha e ambos ficam entretidos um com o outro.

Peeta suspira audivelmente e se ergue da cadeira, enfiando as mãos no bolso do casaco.

Eu me levanto também e caminho ao seu lado.

— Mais uma vez, peço desculpas pelo meu amigo. Ele é brincalhão e galanteador assim desde sempre.

Eu sorrio.

— Não se preocupe com isso, como você pode ver, minha nova amiga não parece se importar com um pouco de romance.

Um silêncio constrangedor logo se segue à palavra "romance", pelo menos até Peeta me pedir licença e puxar seu telefone para fazer uma ligação.

Para não encabulá-lo ainda mais, sigo sozinha para o auditório 12.

°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°

Diante da entrada onde está o segurança mais fiel do mundo, esbarro em Johanna, minha amiga da faculdade e também escritora. Ela está vestida em suas roupas normais. Normais para ela, pelo menos, com pouquíssimo tecido, muito couro preto e tachinhas.

— Oi, Johanna! Achei que fosse encontrar você vestida de guerreira amazona.

— De onde tirou isso?

— A Effie disse que os autores deveriam vir vestidos hoje como uma das personagens de seus livros.

— Eu não recebi esse recado! E olha que eu adoraria vir fantasiada. E adoraria ver o Gloss caracterizado também. O último livro dele foi sobre um vampiro sedutor… Já imaginou?

— Eu não acredito que você o conjurou! Disfarça, mas ele está logo ali na entrada. Sem roupa de vampiro...

Fico me perguntando o motivo de terem feito eu me vestir assim.

Ela olha para trás, sem disfarçar nada, e acena. Sou obrigada a repetir o gesto na direção de Gloss. Ela gira o corpo para mim novamente.

— Só você pra cair nessa, desmiolada. É óbvio que trollaram você.

— Mas por quê?

— Eu não sei. Sei apenas que vou ficar pra ver sua entrevista... só pra descobrir.

— Obrigada pelo apoio – agradeço, desconfiada. — E como foi o seu painel?

— Prepare-se, pois o Caesar hoje está inspirado… E essa sua roupa está mesmo chamando a atenção. Aquele segurança não tira os olhos de você.

— Ah, ele! Esse grandalhão está é desconfiado de mim. Ele me barrou mais cedo.

— Como é que é? Espera aí que ele vai aprender uma lição.

Johanna se aproxima da entrada, cutucando o ombro do gigante musculoso e puxando seu crachá para ler seu nome.

— Ei, Brutus! Ela é a K. J. Everdeen. Você só tem um emprego hoje por causa dela… Por acaso, essa distinta senhorita parece uma criminosa?

— Por acaso, eu pareço alguém que quer perder o emprego? – retruca o segurança.

— Para a defesa dele, Johanna, eu me arrumei com a intenção de parecer mesmo uma criminosa… Assassina.

— Estou desconfiado dessa maleta dela. Pode conter objetos mortais.

— O único jeito de ela matar alguém aqui é com a pilha de livros que ela tem pra autografar.

— Obrigada, Johanna! Que grande ideia!

Anoto no meu novo bloco de notas: "soterrado em uma pilha de livros".

— Agora deixe a gente passar! – exige ela.

— Credenciais, por favor! – solicita Brutus.

Nós duas estendemos a ele os documentos pedidos e a nossa passagem é liberada.

— Obrigada! E parabéns por seu trabalho! – agradeço e o parabenizo. — Se não tivesse me barrado, minha manhã não teria sido a mesma, Exterminador do Futuro do Paraguai.

E ele finalmente dá um sorriso.

°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°

— Katniss, que maravilha ter você aqui! – Caesar Flickerman atravessa a porta do camarim reservado para mim, acompanhado de Peeta.

— Oi, Caesar! Muito prazer! Eu que agradeço a oportunidade – cumprimento o famoso apresentador e ele se senta ao meu lado no sofá.

Peeta fica de pé próximo a nós.

— Vamos combinar alguns tópicos antes do início da entrevista? – Caesar abre aquele sorriso reluzente, sua marca registrada.

— Ah, sim!

— Eu abordarei o novo livro, sem dúvidas. E a mudança de editora. Farei também algumas perguntas sobre seu processo criativo, sua carreira e a respeito de escrita em geral. Acho que é isso.

— Perfeito! – concordo.

— Está de acordo também, Peeta?

— Sem dúvidas – confirma o loiro.

— Ainda estou pasmo por ter aderido à brincadeira de vir vestida como sua personagem para fazer uma cena do livro no palco, Katniss… Então, sem surpresas! – comenta Caesar despreocupadamente.

Peeta dá uma risadinha ao ver meu sobressalto. Caesar, ao contrário, não percebe meu espanto e se retira, piscando para Peeta antes de sair pela porta.

— Sem surpresas, Peeta? Pelo visto, a surpresa era só pra mim. Que história é essa?

— Eu quase apostei que você não cairia nessa invenção da Effie e da sua irmã. Mas esqueci que você, apesar de muito inteligente, é uma pessoa muito pura…

— Do que está falando?

— Effie e Prim simplesmente inventaram essa história de vir vestida como personagem. Elas não queriam que viesse pra cá de calças jeans surradas e camiseta dos Smurfs.

— Ah, você sabe que eu sou apaixonada por eles…

— Por que você acha que eu vim com a minha camisa dos Smurfs? – Peeta abre o casaco para revelar a estampa de sua blusa, com várias das criaturinhas azuis contornando o planeta Terra.

— Você está envolvido nisso? – Aponto para a minha vestimenta.

— Digamos que eu não desencorajei a iniciativa delas.

Pronto! Já está claro que ele não me acha nada atraente.

— Que ingenuidade da minha parte…

— O pior não é isso. Se fosse só se vestir assim, estaria tudo bem. O problema é que essa invenção foi tomando grandes proporções. O Caesar trouxe essa ideia de encenar um trecho do livro. Effie e Prim adoraram.

— E esqueceram o importante detalhe de me contar…

— Você não concordaria.

— Talvez porque exista um bom motivo pra isso! – resmungo.

— Não tão bom quanto o delas. Você está deslumbrante.

Estou tão irada que nem mesmo esse elogio vindo dele me enternece.

— Ah, se eu pudesse encenar um pequeno trecho dos meus livros com as duas agora! E com você também! Numa daquelas cenas de assassinato! – esbravejo, enfurecida. — Se bem que… não é má ideia. Elas não estão aqui, mas você está.

Ele fica subitamente inexpressivo e, se há uma coisa que gostaria de saber fazer agora, é ler sua mente.

— Não. – Ele olha pra mim e enxerga nos meus olhos toda a minha vontade de fazê-lo subir ao palco comigo. — Não, Katniss, você não se atreveria!

— Pode contar com isso.

— Isso é uma ameaça?

— Não sou muito de fazer ameaças. Eu faço o que faço. E não são ameaças. São afirmações que antecipam as minhas futuras ações.

— Você já está falando como uma de suas personagens… Eu estou perdido. – Peeta coça a cabeça. — Caso não saiba, eu fiz teatro por cinco anos inteiros! O meu forte era o improviso.

— Justamente por isso, é um ator tão consagrado, não é? – alfineto.

— É lógico que nunca atuei com uns diálogos tão bons quanto os que você escreve…

Bufo, fazendo-me de irritada, mas a verdade é que, no fundo, estou bem satisfeita com o rumo que as coisas estão tomando.

— Hoje será sua grande oportunidade de mostrar seu dom para a atuação.

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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

— Eu não segui a carreira por falta de vontade, pois talento eu tenho.

— Isso é o que vamos ver… Rei do improviso.

°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°

— Temos a honra de receber aqui conosco a autora dos livros "Operação Green Mockingjay" e "Operação Orange Sunset", ambos já lançados e grandes sucessos de público e crítica! – Caesar anuncia minha presença e eu subo ao palco, sob os aplausos e silvos dos espectadores.

Observo de relance e identifico na plateia Finnick e Annie. Fico feliz por ele ter conseguido um convite para ela. Do outro lado, na primeira fila, vislumbro Prim, Effie, a professora Paylor, Johanna e, o que é fundamental, Peeta.

Depois dos meus cumprimentos iniciais ao apresentador, aos presentes ilustres e ao auditório, Caesar começa a entrevista comigo.

— Depois de dois sucessos arrebatadores, teremos um novo lançamento?

Ergo uma das abas da minha maleta e retiro os volumes da tiragem especial do meu novo livro.

— Sim. Operação Golden Team. Esse exemplar é seu e os outros podem ser sorteados para a plateia.

Caesar examina a capa antes de prosseguir.

— Estou notando algumas diferenças entre esse livro e os dois primeiros...

— A editora e o meu nome.

— Sim. São grandes mudanças. Então, por que resolveu revelar sua identidade a partir desse livro? – pergunta o entrevistador.

— No início da minha carreira, fui orientada... Mal orientada, melhor dizendo… A manter meu nome em sigilo, para que alguns garotos não rejeitassem meu livro, por ser escrito por uma mulher. Acontece que, se existe alguém que se recusa a ler um livro somente porque quem o escreveu é do sexo feminino, eu simplesmente não quero ter essa pessoa como leitor. E mudar de editora foi fundamental pra isso.

Respiro fundo, após meu desabafo, apenas para ver em seguida as pessoas aplaudindo as minhas colocações.

Dá tudo certo com o restante da sabatina no palco e, no geral, o painel é muito divertido. Falo sobre o início da carreira e as inspirações para os livros. Nós conversamos até mesmo sobre os meus mais recentes planos de incluir algum romance em meus textos, o que é recebido com entusiasmo pelos presentes.

Caesar é sempre muito simpático e espirituoso, sabendo extrair o melhor dos entrevistados.

Até que chega o momento que eu tanto temia…

— Seus personagens palpitam, Katniss, como se estivessem tentando pular para fora das páginas. Por isso, não foi à toa que você veio vestida de Jennifer Green, a personagem principal do livro "Operação Green Mockingjay". É verdade que você veio preparada para reproduzir uma das cenas mais marcantes da série?

Caesar me pega pela mão e me leva até o centro do tablado.

— Sim. E não sou só eu que estou preparada. Vou chamar ao palco Peeta Mellark, meu editor e ator em potencial. Ele conhece como ninguém o modo como desenvolvo os diálogos dos meus livros e pode encenar um trecho do livro tão bem quanto eu, mas o seu forte é improvisar.

Peeta cobre o rosto com as mãos, quando termino de falar, mas sobe ao palco mesmo assim, tentando esconder sua contrariedade atrás de um sorriso.

Ele fica de pé de frente pra mim.

Preciso ser rápida, de modo que faço a única coisa na qual eu consigo pensar, já que não tive como planejar nada.

Jogo a maleta no chão e abro meu sobretudo lentamente, botão por botão, arrancando assobios da plateia.

O público vibra com mais entusiasmo, depois que a peça desliza por minha silhueta e cai no solo.

A primeira coisa que acontece é Peeta ficar totalmente paralisado. Depois, ele joga a cabeça ligeiramente para trás e varre meu corpo com os olhos de um modo tão pouco discreto, que preciso passar as mãos sobre a parte superior do vestido, só para ter certeza de que não estou mostrando mais do que gostaria.

Não. Não há vestígio de pele à mostra além da conta.

Quando seu olhar se esbarra no meu e ele percebe que foi pego, vejo seu rosto corar. Eu poderia me deleitar na apreciação da sua reação inesperada, se a coisa toda não estivesse constrangedora demais para ambos os lados.

Para todos os lados, na verdade, pois há um apresentador e uma plateia ao nosso redor.

Peeta engole em seco e não sabe para onde olhar. O teto, o chão, a fenda do vestido, o meu decote profundo.

Apoio meu pé no assento da cadeira e exponho, não só toda a extensão da minha perna nua, como também o coldre fixado no alto da minha coxa.

Puxo o revólver de plástico num movimento rápido e o objeto quase escapa das minhas mãos, mas – não sei como –, consigo transformar minha atuação desajeitada num gesto bem provocante, girando a arma em meu dedo indicador.

Peeta gagueja algumas frases sem sentido.

— Pára tudo. Isso está péssimo – interrompo a encenação. — Você como ator é um ótimo editor, Peeta. Parece que esqueceu todas as falas!

— Ok. Vamos recomeçar, mas acho que vou funcionar melhor improvisando mesmo. Estou com um pouco de dificuldade de lembrar de qualquer coisa no momento.

Solto uma risada espontânea, jogando os cabelos para o lado com um movimento de cabeça, e Peeta coça a nuca, ainda meio desconcertado.

No entanto, quando empunho a arma de brinquedo, apontando-a em sua direção, ele já demonstra estar mais concentrado e estende os braços para os lados em sinal de rendição. Seu peito aberto está diante de mim.

— Eu vou me entregar. O jogo acabou. – Peeta reinicia a improvisação, bem mais seguro dessa vez.

— Ah, não. Ele está apenas começando… Cada um tem sua vez nesse seu jogo sujo. – Tento emitir uma voz empostada, mas falho terrivelmente, pois estou com uma vontade enorme de rir.

— Você já me derrotou em meu próprio jogo. O que mais você quer? – Ao contrário de mim, Peeta prossegue com o diálogo seriamente.

— Eu quero a sua morte também. – Agora sim, consigo controlar o riso e imito a circunspeção de Peeta.

— Você não quer a minha morte.

— Não querer não significa que não vai acontecer.

— Lembre-se das palavras que você me disse. Que me amaria até o dia em que eu morresse.

— Então, eu não menti. Eu amei você… até hoje.

— Diga que você me quer fora da sua vida. E eu serei mesmo um homem morto.

— Quer prova maior de que eu quero você fora da minha vida do que essa arma em sua direção?

— Recentemente, todas as nossas conversas têm terminado como se fossem o último adeus.

— Esta conversa é mesmo… a última. Adeus!

Eu me aproximo dele, fingindo apertar o gatilho, e piso em falso com as sandálias de salto agulha.

Peeta me ampara bem a tempo, espalmando suas mãos em minha cintura para me sustentar. Ele se inclina até a lateral do meu rosto e toca seus lábios em minha orelha.

— Você não sabe o efeito que causa – sussurra ele em meu ouvido e eu me arrepio.

Com sua proximidade, não resisto e roço meu nariz em seu pescoço. Sinto a suavidade e o calor do seu corpo, o cheiro da sua pele, e tudo me atrai de tal forma que levo mais tempo do que o aceitável para me distanciar.

Demoro cinco, dez segundos para me afastar e, quando finalmente o faço, permaneço com as pálpebras cerradas, absorvendo aquela sensação, até abrir os olhos e perceber que ele fazia a mesma coisa.

Sua cabeça se move de um lado para o outro, numa negação preguiçosa, e ele estende uma de suas mãos até meu rosto. Peeta a encaixa em minha mandíbula, depois abre e fecha os dedos suavemente sobre minha pele.

Seus olhos não deixam os meus, até que se desviam para um lugar na plateia, de onde surge um alarido, que vai aumentando aos poucos, como uma onda crescente de cochichos entre os espectadores.

— Katniss, é melhor pararmos por aqui, ou estarei encrencado.

As opções que minha mente lista sobre o que ele está vendo são muitas, de fato, mas certamente nenhuma delas incluía as imagens que meus olhos acabam de registrar.

Primeiro, sigo seu olhar, fixado numa linha reta que termina naquela bela loira da cafeteria. Reparo que ela está com cara de espantada. No entanto, e o que é mais desconcertante ainda, meus olhos se deparam com Marvel, no corredor entre as cadeiras do auditório. Ele é a única pessoa de pé.

— Que pa-pe-lão. – Marvel apenas move os lábios, sem fazer som algum.

Ele não precisa. Sabe que posso ler sua expressão de desprezo e compreender cada sílaba pelo simples movimento de sua boca.

E ele começa a bater palmas. Espaçadas, irônicas.

Para me salvar da humilhação, Prim fica de pé e bate palmas também, assobiando. Felizmente, os espectadores a acompanham.

Caesar assume o palco novamente, trazendo um troféu em formato de cornucópia em suas mãos.

— Katniss, isso foi sensacional! E o Peeta realmente é um ator muito promissor. No entanto, toda essa brincadeira, na verdade, foi para anunciar o mais novo prêmio que você conquistou! A Cornucópia de Ouro para livros de ficção.

Cubro a boca em sinal de surpresa e abraço Peeta, quase desmaiando de alegria. Depois, abraço Caesar também, emocionada, antes de segurar pela primeira vez o meu tão sonhado prêmio.

Peeta me auxilia a vestir novamente o sobretudo e faço um pequeno discurso de agradecimento, prometendo também autografar os livros dos meus queridos leitores.

°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°

Depois de atender a última pessoa da fila, entregando-lhe os exemplares dos livros após deixar registrado neles minha dedicatória e minha assinatura, eu me assusto, quando Marvel se materializa à minha frente.

Meu cérebro se empenha em convencer minhas pernas a se moverem para fora dali depressa.

Costuro um caminho por entre as pessoas e tento ignorar os comentários sobre minha performance no tablado, que apenas servem para aumentar minha vontade de fugir, por mais que sejam bem-intencionados.

Consigo senti-lo em meu encalço, mesmo quando estou quase chegando à porta do camarim.

— Kat… Minha K. J. – A voz soa tão humilde que me sinto tentada a me virar para fitá-lo, mas não o faço. — Aquilo que falei foi uma brincadeira… Motivada por ciúme.

Mantenho-me firme em meu objetivo de me afastar e continuo andando, até que alcanço a maçaneta. Nesse instante, Marvel segura minha mão, impedindo-me de abrir a porta e obrigando-me a encará-lo.

— Com licença? – reclamo, meus olhos cravados nos dedos dele em minha pele.

Quando olho para Marvel, eu me recordo de tudo o que conquistei, não com a ajuda dele, mas apesar dele. Sempre me senti envergonhada demais por ter permitido que ele fizesse o que fez comigo.

No entanto, não estou envergonhada aqui, no corredor, encarando-o diretamente, após ter recebido meu mais novo troféu.

Sinto raiva. Sinto-me aviltada por suas ameaças. Como se eu pudesse plagiar algo que eu mesma escrevi!

— Marvel, eu só quero paz! Você pode ficar com seus textos rebuscados e desconectados do leitor. E com todas as personagens intelectualóides com cheiro de tabaco, que infelizmente verbalizam algumas das minhas melhores frases!

— Calma. Só preciso falar com você – diz ele, com uma voz terna. — Não vai demorar.

De repente, minha horda de amigos e minha irmã nos cercam no corredor.

— Então, fale. – A voz de Johanna é mais uma ameaça do que uma permissão.

— É – diz Prim, encostada na parede. — Vai falando logo.

Marvel parece achar que vou expulsá-lo, mas estou a fim de escutar o que tem a dizer. Pondero somente sobre deixá-lo para lidar depois com Johanna, que é uma amiga maravilhosa, mas é também difícil e desagradável, especialmente quando não vai com a cara das pessoas.

— Pode falar – autorizo, soltando minha mão do aperto dele.

— Está bem… – Marvel arranha a garganta. — Eu vim dizer… dizer à Katniss… – Ele olha para mim —, que meu texto "Intervenção Hanging Tree" foi selecionado para ser publicado no concurso literário de maior prestígio entre as universidades do país… É uma honra incrível para um autor.

— Parabéns – ironizo, sentindo-me usada mais uma vez.

Marvel agradece. Cínico.

— É só que… Bem… Há um problema. A professora Paylor, ela, hum… – Ele olha ao redor do corredor, agitado, depois solta um suspiro exasperado. — Ela sabe que você me ajudou com a escrita, e achou que seria interessante se dividíssemos o crédito.

— Ah! Ela achou interessante? – pergunto.

— É um concurso importante – insiste Marvel. — Seu nome como coautora vai até aparecer primeiro, pode deixar. Vou colocar em ordem alfabética.

— Que meigo – zomba Johanna.

Marvel ri, sem graça, parecendo confuso e incomodado.

— Então, o que acha? Tudo bem? Posso dizer à Paylor que está tudo certo?

— Não sei – hesito propositalmente. — É só que… Depois de tudo, não sei se me sinto confortável.

Ele pressiona os olhos verdes de um modo nada amistoso.

— Você precisa concordar, Katniss. Essa é uma grande oportunidade. Eu quero muito isso.

— Então, vá em frente. Não precisa dividir o crédito comigo.

Marvel finge tranquilidade, mas seu maxilar se retrai ferozmente.

— Não posso – rosna ele entre dentes. — A professora Paylor disse que só será publicado, se for com os dois nomes. Por favor… Katniss, minha K. J.

O corredor fica silencioso.

Johanna olha para Marvel como se já estivesse brandindo um machado afiado no ar.

Prim dá alguns passos para ficar ao meu lado. Seu semblante emana desprezo.

Peeta, Finnick e Annie sorriem de modo encorajador pra mim.

Penso no texto que Marvel quer inscrever no concurso, revivendo tudo de mim que coloquei em sua elaboração.

Apesar disso, repudio a ideia de aparecer ao lado dele numa publicação, ou entre as prateleiras de uma livraria ou biblioteca.

— Sinto muito, mas não quero crédito nenhum. Não com você. – desdenho — A história é sua. Foi você quem registrou.

— Não acredito nisso! — irrita-se ele, cerrando os punhos. — Não posso deixar escapar essa chance.

— Você vai ter outra oportunidade. É um ótimo escritor, Marvel – digo, querendo sinceramente que fosse verdade. — Não precisa de mim.

— Já perdi minha vaga na especialização em Escrita Criativa. Cancelaram meu painel de divulgação na conferência. Tudo por sua causa!

Dou um passo para perto de Peeta.

Prim abre mais a porta do camarim, por onde Annie e Finnick entram, e Johanna passa por Marvel, esbarrando no ombro dele.

— Foi um prazer conhecê-lo – cumprimenta Peeta, de um modo nada sincero. — Mas já pode ir embora.

Marvel mantém a pose, como se ainda não estivesse convencido de que eu não aceitaria sua proposta. Quando percebe que não vou ceder, ele não contém a ira.

— Eu sempre quis proteger você. Jamais seria capaz de fazer você se vestir dessa forma. Como uma desqualificada qualquer…

É mesmo difícil de acreditar que houve um momento, um breve segundo neste dia, em que eu tenha me sentido inadequada com esse figurino.

— Eu sei quem sou, não importa o que eu esteja usando. E sei quem você é. Dentre todas as pessoas aqui, você foi quem menos me protegeu e quem mais me desrespeitou.

— Digo e repito. Você sempre foi muito ingênua. Ingênua e burra ao me dar acesso a todo o conteúdo que você escrevia.

— Você era meu namorado e meu agente! Infelizmente, eu tinha a péssima mania de confiar em você.

Nesse momento, percebo a presença de Effie, que traz consigo ninguém mais, ninguém menos que a professora Paylor, acompanhada de Haymitch Abernathy, o professor de Escrita de Ficção Avançada.

— Pelo visto, como não conseguiu roubar mais nada dela, você será o eterno autor de uma obra só. – A voz potente de Paylor faz Marvel estremecer.

Quando ele se vira e se certifica de que Haymitch Abernathy ouviu tudo também, sua face perde a cor.

— É melhor dizer autor de obra nenhuma, porque ele não escreveu nada – brada Haymitch. — Por esse motivo, vou revisar todas as suas notas e reprová-lo em minha matéria. E, se Katniss autorizar, o livro que ela escreveu será republicado em todos os meios, com as correções necessárias e crédito exclusivamente dela. Sem esquecer que você responderá criminalmente por suas ações.

— Brutus, meu fiel escudeiro, está na hora de retirar um intruso das dependências da convenção! – ordena Effie e, com muita satisfação, o segurança leva Marvel embora.

A presença dos professores da Universidade e do próprio Marvel aqui me dão a noção de que tudo o que aconteceu foi um plano arquitetado pelos meus amigos para desmascará-lo.

— Sou muito grata pela ajuda de todos. Finalmente, eu me livrei desse pesadelo – agradeço.

— Ainda terá de volta os direitos sobre o que você escreveu – comemora Paylor.

Ela e Haymitch se despedem, prometendo tomar todas as providências para reparar o prejuízo causado a mim pelo uso indevido de uma obra minha, e Effie os acompanha até a saída.

Os demais permanecem comigo. Sou a última a entrar no camarim.

— Marvel é uma página virada – murmuro, jogando-me no sofá.

— Já que é pra deixar pra lá o que aconteceu com esse indivíduo… Vamos à pergunta que não quer calar! O que foi aquela encenação lá no palco? – indaga Annie e eu sei o que está por trás de seu questionamento.

— Eu posso dar a desculpa de que colocaram alguma coisa na minha bebida na lanchonete. E você, melhor do que ninguém, poderia confirmar a versão de que eu ingeri uma boa dose de cara de pau e de desinibição.

Todos riem. Em retribuição, eu sorrio de volta e paro meu olhar na direção de Peeta.

— Você está bem? – pergunta ele.

Tão fofo. Fofo elevado à enésima potência.

— Estou ótima, melhor impossível, graças a vocês – asseguro. — Mas eu preciso ficar sozinha.

Prim ainda me mede de cima a baixo.

— Você não vai se trancar no quarto desse hotel maravilhoso, num dia lindo desses, e só vai sair de lá quando terminar um capítulo inteiro, vai?

— Não. Eu não vou conseguir me trancar. Você tem a chave da porta.

Pisco pra ela e Prim revira os olhos em réplica.

°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°

Lentamente, limpo toda a maquiagem do meu rosto e me desnudo do vestido. Tomo um banho demorado e visto a roupa mais confortável que tenho na mala.

Ligo meu notebook e fito a tela do editor de texto em branco.

Os acontecimentos de hoje me trouxeram inspiração e meu bloqueio se foi.

Disparo a escrever capítulo atrás de capítulo e, modéstia à parte, dos bons.

Eu deveria agradecer ao Marvel, talvez. Ou talvez não. Isso provavelmente seria um exagero.

Quando meus dedos já estão doloridos, posiciono o cursor no espaço cheio de pontos de interrogação, que deixei reservado para o título.

Ali, eu digito: Operação Yellow Dandelion.

De alguma forma, a lembrança de um dente-de-leão amarelo me remete a uma sensação de leveza, de segurança, de esperança. E me remete a Peeta… e a romance.

Salvo tudo o que escrevi em todos os meios digitais ao meu alcance, com uma senha bem segura, e me preparo para descansar um pouco.

Mal me deito e fecho os olhos, Prim adentra o quarto com um grupo de meninas.

— Você não apareceu no almoço que marcou com suas leitoras beta. Então, eu trouxe todas elas para um lanche com você.

Elas invadem o local numa euforia sem tamanho.

— Você está com essa roupa? – reclama Prim ao checar meu vestuário. — Eu tenho certeza de que tirei da sua mala.

— E eu recoloquei.

— Isso é pior que um pijama!

— Não é pior do que aquela fantasia que vocês me induziram a vestir.

Prim se senta na beirada da cama.

— Katniss, olha isso.

Ela me mostra em seu tablet uma dezena de vídeos com a minha performance no palco com Peeta, todos com muitas visualizações e uma enxurrada de comentários.

— Ai, eu quero sumir! – lastimo.

— Nada disso. A partir de agora, você não vai se esconder mais. Você já é Katniss Jasmine Everdeen para todas essas pessoas.

°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°

Cerca de meia hora depois que as garotas deixaram o quarto, após momentos divertidos de conversa e descontração, regado a bombas calóricas providenciadas por Annie, vindas da cafeteria, vejo Prim sussurrando ao telefone pelo quarto.

— Peeta está vindo aqui – anuncia ela, após desligar.

— O quê?

— Ele não virá sozinho, se é essa a sua preocupação. Há uma pessoa com ele que quer muito conhecer você.

Peeta realmente vem até o nosso quarto e ainda encontra as várias xícaras e canecas da cafeteria sobre a mesa.

A loira que eu vi na cafeteria e no auditório está com ele. Aff.

— Quantas xícaras de café! – espanta-se Peeta ao reparar a mesa de refeições lotada de recipientes vazios. — Você já está testando sua tese para o próximo assassinato?

— Não! Não responda, por favor, Katniss! – A loira põe as mãos sobre os ouvidos antes que eu possa abrir a boca para me apresentar a ela. — Não quero spoilers do próximo livro… Eu vou dar uma volta lá fora. Vocês podem tratar de todas as questões profissionais sobre as quais precisam conversar e, depois, podem me chamar por telefone.

A loira atravessa a porta como um raio.

— Eu também já vou indo. Sou outra que não quero spoilers — despede-se Prim, mentindo com a cara mais lavada do mundo, porque ela é sempre a primeira a me implorar por detalhes de tudo o que escrevo.

Assim que ela sai, Peeta pergunta:

— Então, se você não quer provar sua teoria, o que significa essa dezena de xícaras de café vazias?

— Um grupo de leitoras beta almoçaria comigo no restaurante do hotel, mas eu perdi a hora e Prim as trouxe para um lanche aqui no quarto mesmo. Elas se sentiram ainda mais especiais e eu não tive que colocar a cara pra fora. Só saio desse quarto rumo ao aeroporto!

— Qual o motivo disso? Os seus vídeos viralizaram, seus livros estão esgotados aqui nas lojas da convenção e tenho certeza de que em um monte de livrarias pelo país. Já há até uma fila nas lojas virtuais para a pré-venda do próximo lançamento. Você é um sucesso absoluto.

— Não posso acreditar que isso esteja acontecendo!

— E não é só isso. Eu preciso revelar algo muito importante a você.

— Pode falar – digo, antes que a frase "Pode se declarar pra mim" saia da minha boca.

— Quem acabou de sair daqui com toda aquela pressa foi a Cressida Dormer, produtora de cinema. Ela veio aqui apenas para conhecer você pessoalmente, já que mais cedo estava tudo meio confuso.

— Estava mesmo.

— Pois bem. Cressida veio trazer a proposta de que seus livros virem filmes.

A notícia é algo inesperado e eu dou um salto até Peeta.

— Por que não me disse isso antes?

— Ela acabou de pedir minha opinião a respeito… Nós nos conhecemos há pouco tempo e estamos conversando bastante desde então.

— Ah, é? – indago, agora um pouco desolada. — E pensar que obriguei você a subir ao palco e o deixei em maus lençóis com sua pretendente.

— O quê? Não…

— Ficou tudo bem entre vocês, então? Que ótimo…

— O que será que puseram nessa sua bebida, Katniss? Que conclusões são essas?

— Você me pediu pra parar a cena no palco, pois ficaria encrencado. E disse isso enquanto olhava preocupado na direção dela. Achei que houvesse algo mais entre vocês.

— Entre mim e Cressida? Não mesmo! Ela apenas será a produtora dos futuros filmes. Se você aceitar, é claro.

— Então, por que você disse que estaria encrencado?

— Eu não estaria encrencado. Eu estou. Por sua causa. Eu ouvi nitidamente a voz de Cressida, quando ela disse na plateia: “Eles são perfeitos para os papeis de protagonistas”.

— Pare de falar bobagens! – Dou risada.

— Eu juro que é verdade.

Seu semblante está tão contrito, que minha única opção é acreditar nele.

Decido, então, que a moça loira não é um obstáculo para o que necessito fazer. Abrir meu coração.

— Peeta…

— Oi? – Ele soa cauteloso.

— Sabe, quando estávamos ao telefone… no finalzinho da ligação?

— Ah, aquilo que eu falei. Você pode ignorar e fingir que não aconteceu? Não queria chatear você.

— Mas você precisa saber de um fato. Naquela hora, houve um pequeno acidente na cafeteria… Um garoto derrubou café no meu bloco de notas.

— Oh, não! O pior desastre para um escritor!

— Exatamente. Então, você ouviu a bronca que dei no menino, não era com você… Por acaso, você escutou o que eu disse depois?

— Não. A última coisa que ouvi foram seus impropérios… O que mais você disse? Pra mim, e não para o pobre garoto desastrado.

Puxo o ar, já um pouco trêmula.

— Bem, eu estava pensando em dizer que, se você quer que eu escreva um suspense romântico, vou precisar de um pouco mais de ajuda com o livro do que de costume.

— Claro. Que tipo de ajuda você precisa? – O tom dele ainda é alerta. — Brainstorming de métodos de assassinato, como você disse?

— Não. Eu posso resolver isso muito bem. Mas talvez precise de uma pequena ajuda para pesquisar a parte romântica do livro.

— Certo – confirma Peeta, depois de um tempo. — Quer dizer… é para isso que nós editores servimos, não é? Para ajudar com o que os escritores precisam.

Eu estou prestes a concordar. É mais fácil continuar me escondendo atrás de um tom alegre e desinteressado. Não posso arriscar estragar a relação profissional que tenho com Peeta.

Mas, então, faço uma pausa.

Ao contrário dos meus textos, a vida, com raras exceções, não pode ser revisada depois, se eu não acertar logo de cara. E quero acertar isso mais do que qualquer outra coisa.

— Não é só isso. Há algo mais. Um detalhe importante. Eu quero saber se estamos na mesma página…

— Espero que sim. Nós trabalhamos juntos, como editor e escritora. – Peeta abaixa os olhos.

— Não foi para o meu editor que fiz a proposta de me ajudar com a parte romântica.

As sobrancelhas dele fazem um movimento engraçado, quando ergue o rosto para mim, com uma expressão animada.

— Que bom, porque não foi seu editor que concordou em ajudá-la com o romance do seu livro.

Fico imóvel por um momento.

— Então, isso vai funcionar mais como um encontro e menos como um brainstorming do que quer que seja?

— Me desculpe se eu não fui claro: por mim, isso já é um encontro.

Uma torrente de felicidade toma conta de mim, porém não posso resistir em provocar Peeta apenas um pouquinho.

— Não deveria ser: "desculpe-me", em vez de "me desculpe"? Afinal, não se inicia uma frase com pronome oblíquo átono.

— Muito bem. Você conseguiu revidar à altura minhas chatices gramaticais.

— Eu adoro suas chatices gramaticais!

— Mas é bom que seus textos estejam impecáveis, pois eu vou pegar no seu pé.

— Saiba que meu bloqueio criativo sumiu. Consegui escrever alguns capítulos minimamente satisfatórios em uma velocidade incrível. Isso é sinônimo de muito trabalho pra você.

— E aí? Já sabe qual será o destino do P. I. T. A?

— O P. I. T. A vai se envolver romanticamente com uma morena fatal, como você sugeriu. O que acha de ser como a cena que fizemos no palco?

— Sem a parte do assassinato, né? Isso seria fundamental.

— Essa seria uma reviravolta e tanto no enredo.

— Eu adoro essas reviravoltas na ficção e… Na vida real também.

Assentindo levemente, estendo minha mão até a dele, entrelaçando nossos dedos.

— Quer dar um passeio pelo hotel? – Peeta convida.

— Sim.

— A não ser que você queira um café antes. Em doses normais. Nada letais.

— De jeito nenhum quero um café agora.

— Achei que não dispensasse uma xícara por nada nesse mundo.

— Minhas prioridades mudaram repentinamente.

Ele se aproxima e acaricia meu rosto. Olho para a pele ruborizada de Peeta, sua boca, seus cabelos claros. Preciso me lembrar de como se respira.

Essa é uma tarefa muito difícil, quando anseio para conhecer o gosto que sua boca tem, ou a forma perfeita como sei que se encaixará na minha.

Nossos lábios roçam um no outro. Ele toma uma de minhas mãos, colocando-a sobre seu peito.

Seu coração tamborila descompassado. Enquanto isso, ele sorri. Um sorriso tão lindo, tão sincero, que se estende até seus olhos.

Eu ainda tenho a mão sob a dele, sobre seu coração, quando nossas bocas se encontram outra vez, num beijo pra valer.

Num segundo, estamos no meio do quarto, no segundo seguinte, ele está me agarrando contra a parede. Seus braços envolvem meu quadril, erguendo meu corpo do chão.

Seu beijo, seu cheiro e seu toque me dão as sensações mais incríveis que já tive.

Quando sua boca deixa a minha, ofego, olhando para seu rosto. Peeta me encara com uma intensidade que faz meu peito se apertar.

— Primeira lição prática de uma cena de amor.

— Uau. Por que não me sugeriu escrever sobre romances antes?

Ele solta um meio sorriso travesso.

— Katniss… – Peeta fala contra minha pele ao me colocar novamente no chão. — Eu queria fazer isso desde o primeiro momento em que vi você.

— Peeta, embora eu não me envergonhe de ter me vestido daquele jeito mais cedo, aquela não sou eu. Eu sou assim. – Estico minha camiseta desbotada, com a estampa do Harry Potter.

— Mas eu não me referi a como você estava vestida mais cedo, mas à primeira vez em que vi você, na tela do computador. Agora que estou voltando a trabalhar na mesma cidade em que você mora, espero vê-la mais vezes… Ao vivo.

Eu me afasto um pouco, chocada.

— Sério?

— Sério… para as duas afirmações. – Ele ri baixinho. — Por que você acha que eu comecei a jogar indiretas sobre romance em seus romances?

— Eu apenas pensei que você estivesse realmente interessado em livros românticos.

Peeta sorri e beija a ponta do meu nariz.

— Não, estou apenas realmente interessado em um romance… com você.

Quanto mais eu tento esconder o sorriso, maior ele fica.

Ele olha para o relógio e me puxa pela mão para fora do quarto. Peeta me guia até uma das belas varandas do hotel, de frente para o mar.

O sol está se pondo no horizonte. Ele me abraça por trás, enquanto contemplamos o espetáculo da natureza.

Então, eu me viro para ele e Peeta pressiona os lábios nos meus. A forma como toma minha boca para si se torna mais intensa a cada segundo. A mão dele sustenta minha cabeça, emaranhando-se em meus cabelos.

É como o beijo na sacada do livro "Romeu e Julieta".

Com a respiração entrecortada, eu me esquivo um pouco para trás, por um espaço suficiente apenas para fitar seus olhos.

Sua expressão é divertida e ele tem um sorriso no olhar. Ah, o sorriso no olhar que eu tanto amo!

Levo minha cabeça até seu peito e a descanso ali, enquanto envolvo seu tronco com meus braços, sentindo a maciez do algodão de sua camisa contra minha pele.

— Lição número dois de romance. Beijos ao pôr do sol. Você pode descrever o céu, em seu tom mais bonito, alaranjado, e como o fim de tarde traz uma brisa fria, convidativa para um abraço.

— Não quero abandonar essas lições nem tão cedo. Acho que vou escrever muitos suspenses românticos.

Meu peito sobe e desce com força, enquanto tento controlar o ritmo dos meus batimentos cardíacos, mas é uma missão quase impossível.

Deveria ser motivo de preocupação para mim, mas não é.

Afinal, não existe mocinho e bandido nesse enredo. Eu sou uma escritora premiada e ele é um editor muito competente.

Duas pessoas se escondendo atrás de suas palavras, mas que podem se revelar através delas... Literalmente.

Acho que somos capazes de criar o epílogo perfeito para a nossa história. Com muito romance.

— Ora, ora, mais uma encenação de uma parte do livro? – Ouço o modo espalhafatoso de falar de Caesar Flickerman atrás de nós.

— Não, meu caro, isso é a vida real! – Peeta responde a ele e, no final, pergunta pra mim: — Verdadeiro ou falso?

— Verdadeiro – respondo, com um sorriso largo, por causa da euforia em excesso.

E, de repente, já estamos vivendo o nosso felizes para sempre!

FIM

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Notas finais
Olá! Agradeço a todos os que acompanharam a coletânea até aqui. Preciso fazer um agradecimento especial à Bel pelo banner, que muito contribuiu para que a minha comédia romântica ficasse disfarçada de thriller. E também à Belisa Mellark, por ter me ajudado com ideias e orientações sobre o funcionamento do mundo editorial. A fic foi uma singela homenagem ao universo literário. Sempre que minha memória permitiu, consegui inserir citações de livros, além de menções a personagens e autores. E não podia faltar uma alusão às autoras de fanfics! ❤ Para quem não sabe, a parte referente ao início da carreira da Katniss, tendo que ocultar o fato de ser uma mulher por trás de suas iniciais, foi baseada na história da autora da saga Harry Potter, J. K. Rowling. Algumas partes do diálogo da cena no palco é que foram adaptadas de trechos da música "Youngblood", da banda 5SOS. Enfim, espero que tenham curtido a one-shot e as homenagens… Foi um prazer escrevê-la e vai ser uma alegria maior ainda saber o que acharam dela. Por isso, não se esqueçam de deixar um feedback, por favor! E que venha a próxima! Beijos, Isabela