Tudo Começou em Letras

28 Capítulo 28 — Clima Natalino


O dia da véspera de Natal chegou mais rápido do que Adam imaginava.

Entre provas, trabalho no sebo, ensaios de Vincent e noites que terminavam tarde demais, ele quase não teve tempo de pensar no que tinha aceitado fazer… até estar parado no meio do aeroporto, com uma mochila nas costas e uma passagem na mão.

O aeroporto de Dublin estava cheio naquela manhã, gente indo e vindo com malas, casacos pesados, crianças correndo, anúncios ecoando pelos alto-falantes. Adam olhava para tudo como se estivesse vendo aquilo pela primeira vez.

Na verdade, de certa forma, estava mesmo.

Ele puxou o zíper da jaqueta até o queixo e soltou o ar devagar.

— Eu não acredito que eu tô realmente fazendo isso.

Vincent, ao lado dele, estava muito mais tranquilo, segurando sua passagem.

— Fazendo o quê?

— Saindo do país.

Vincent virou o rosto, divertido.

— Você fala como se estivesse atravessando o oceano num barco pirata.

— Pra mim é quase isso.

Adam passou a mão pelos cabelos, nervoso.

— Eu nunca saí da Irlanda. Nunca. Nem pra passear, nem pra nada. Eu basicamente vivi numa concha.

Vincent sorriu de lado.

— Eu sei.

— E ainda por cima… — Adam continuou, abaixando a voz — eu não falo francês.

— Você arranha.

Adam olhou para ele, incrédulo.

— Eu só sei dizer bonjour, merci e umas frases básicas.

— Já é mais do que muita gente.

Adam bufou.

— Eu vou passar o Natal com a sua família. Na França. Sem falar francês.

Vincent riu baixo e colocou a mão nas costas dele, empurrando de leve na direção do portão de embarque.

— Relaxa. Eu vou estar lá.

Adam ainda parecia tenso.

Vincent continuou, mais calmo:

— E o Victor arranha no inglês. A Charlotte também fala um pouco.

Adam franziu a testa.

— Charlotte?

— A noiva.

— Ah… — Adam assentiu, absorvendo. — É verdade. Bom… espero que dê tudo certo.

Vincent sorriu.

— Vai dar tudo certo.

Chamaram o embarque pouco depois, e Adam teve a sensação estranha de que estava entrando em alguma coisa grande demais para voltar atrás. Mesmo assim, foi atrás de Vincent sem pensar muito, segurando o passaporte como se pudesse esquecer como usar a qualquer momento.

O voo foi tranquilo, mas Adam quase não dormiu.

Ficou olhando pela janela, depois para o folheto do avião, depois para Vincent, depois para a janela de novo.

Quando o avião finalmente pousou, já era de tarde.

O aeroporto era diferente, as placas estavam num outro idioma, as vozes ao redor tinham um som que Adam só conhecia de filmes ou de aula básica. Ele caminhava devagar atrás de Vincent, olhando tudo com atenção demais, como se tivesse medo de perder alguma coisa importante.

Pessoas falando rápido.

Avisos que ele não entendia.

Letras com acento em lugares estranhos.

Vincent percebeu. Ele parou por um segundo, esperando Adam alcançar.

Adam estava olhando para uma placa como se estivesse tentando decifrar um enigma.

Vincent sorriu.

— Bem-vindo à França.

Adam soltou um riso nervoso.

— Eu não tô entendendo nada.

— Você se acostuma.

Eles saíram do aeroporto e caminharam pela rua fria, com o ar cheirando a inverno e fumaça de algum lugar distante. Adam olhava as vitrines, as luzes, as fachadas diferentes, claramente tentando absorver tudo ao mesmo tempo.

De repente, ele parou.

Ele estava olhando fixamente para a vitrine de uma pequena boulangerie na esquina. O vidro estava embaçado por dentro, e atrás dele havia fileiras de pães dourados, tortas, doces e, bem na frente, uma bandeja cheia de croissants perfeitamente folhados.

Ele nem percebeu que tinha parado no meio da calçada.

Vincent voltou dois passos, acompanhando o olhar dele.

— O que foi?

Adam apontou discretamente para a vitrine, como se estivesse revelando algo importante.

— Eu sempre quis fazer isso.

Vincent franziu a testa.

— Fazer o quê?

Adam olhou para ele com a maior seriedade do mundo.

— Comer um croissant… na França.

Vincent ficou em silêncio por meio segundo, depois riu.

— Você tá falando sério?

— Tô. Muito sério.

Vincent balançou a cabeça, sorrindo.

— Tá. Vamos, então.

Eles entraram na loja, e o sino na porta fez um som leve. O cheiro de pão quente e manteiga tomou o ar imediatamente, e Adam parou um segundo só respirando, impressionado.

— Ok… — ele murmurou. — Já valeu a viagem.

Uma mulher atrás do balcão levantou a cabeça e sorriu.

— Bonjour.

Adam travou por um instante, depois respondeu, meio duro, como se estivesse lembrando uma das únicas palavras que sabia.

— Bonjour.

Vincent mordeu o lábio para não rir.

A mulher começou a falar rápido, apontando para a vitrine, perguntando alguma coisa que Adam claramente não entendeu. Ele piscou, olhou para ela, depois para Vincent, depois de novo para ela, completamente perdido.

— Uh…

Ela continuou falando, ainda simpática, mas claramente esperando uma resposta.

Adam inclinou um pouco a cabeça, tentando decifrar.

— …croissant? — arriscou, sem convicção.

Vincent percebeu na hora que ele não tinha entendido nada. Ele deu um passo à frente, ainda sorrindo e começou a falar com a atendente, realizando o pedido. Ela assentiu, já pegando os croissants e pain au chocolat.

Adam olhou para Vincent como se ele tivesse acabado de fazer um truque de mágica.

Vincent pagou, pegou o saquinho quente e eles saíram da loja. O ar frio da rua bateu no rosto deles de novo, e Adam já abriu o saco antes mesmo de terminar de descer o degrau da porta.

Ele deu uma mordida no croissant e fechou os olhos.

— Ok… isso aqui é ridiculamente bom.

Vincent riu.

— Não é?

Adam deu mais uma mordida, ainda mastigando, e depois olhou para ele com uma expressão pensativa.

— Posso falar uma coisa?

— Pode.

Adam hesitou um segundo, como se estivesse avaliando se devia mesmo dizer.

— Eu acho meio… sexy.

Vincent franziu a testa.

— O que você acha sexy?

Adam apontou para ele, ainda com o croissant na mão.

— Você falando francês.

Vincent ficou em silêncio por um segundo, surpreso. Adam percebeu o que tinha acabado de dizer e ficou vermelho na hora.

— Quer dizer, não sexy tipo… eu quis dizer… sei lá… legal. Diferente. Ah, esquece.

Vincent começou a rir.

— Não, não. Agora fala direito.

Adam virou o rosto, constrangido.

— Eu só acho… bonito, ok?

Vincent deu um passo mais perto, divertido.

— Mas eu falo francês o tempo todo e você só me diz isso agora?

— Você não fala comigo em francês.

— Quer que eu fale?

Adam levantou a mão, rápido.

— Não. Não agora.

Vincent riu de novo, balançando a cabeça, e começou a andar ao lado dele pela rua fria, ainda segurando o saquinho com os pães.

— Relaxa, mon chéri. Isso é só o começo.

Adam revirou os olhos, corado.


***


O táxi deixou os dois em uma rua tranquila, com casas pequenas, todas muito parecidas, alinhadas uma ao lado da outra. O céu estava cinza, e o frio parecia mais forte ali do que no centro da cidade. Adam olhava pela janela como se estivesse tentando memorizar cada detalhe, desde as cercas baixas até as luzes de Natal penduradas em algumas portas.

— É aqui? — ele perguntou, em voz baixa.

Vincent assentiu, sem tirar os olhos da casa à frente.

— Sim.

A casa era simples, de dois andares, com o telhado escuro e um pequeno jardim na frente. Nada chamativo, nada elegante. Só… normal. Familiar.

Adam percebeu que Vincent tinha ficado mais quieto desde que o táxi entrou naquela rua. Eles desceram, pegaram as mochilas, e por um segundo Vincent ficou parado na calçada, olhando para a porta como se estivesse tentando se preparar para alguma coisa.

Adam notou.

— Você tá bem?

Vincent respirou fundo antes de responder.

— Tô.

Mas a resposta demorou um pouco mais do que deveria.

Ele subiu os dois degraus da entrada e bateu na porta. Uma batida curta, mas firme.

Passaram-se poucos segundos até a porta se abrir.

Quem apareceu foi uma mulher loira, de rosto simpático, usando um suéter claro e um avental. Ela olhou primeiro sem reconhecer… e então os olhos se arregalaram.

— Vincent?

Ele sorriu, meio sem jeito, como se tivesse voltado a ser adolescente por um instante.

— Oui.

Ela não pensou duas vezes. Deu um passo para frente e o abraçou com força.

— Mon dieu… Vincent… tu vas bien ?

Ele riu baixo, ainda meio travado dentro do abraço.

— Oui, oui… ça va… je vais bien.

Ela se afastou só o suficiente para olhar para o rosto dele de novo, como se estivesse conferindo se era mesmo real, e então percebeu Adam parado alguns passos atrás, segurando a mochila e tentando parecer invisível.

Vincent virou o corpo um pouco, apontando para ele.

— C’est Adam.

A mulher olhou imediatamente para Adam e abriu um sorriso caloroso.

— Bonjour!

Adam demorou meio segundo para reagir, depois respondeu rápido:

— Bonjour.

Ela começou a falar, ainda sorrindo, com um francês rápido demais para ele acompanhar. Ela fez uma pergunta que ele não entendeu. Ele piscou, perdido, e olhou para Vincent como quem pede socorro sem querer pedir.

Vincent não conseguiu segurar a risada.

Ele respondeu algo para ela em francês, rápido, e ela levou a mão à boca, rindo.

— Oh! Desculpe, desculpe…

Ela olhou para Adam de novo, agora mudando para um inglês com sotaque forte.

— Oh, desculpe… eu vou falar em inglês. É mais fácil, sim?

Adam sorriu, aliviado.

— Sim. Obrigado.

— A viagem foi boa?

— Foi, sim. Tranquila. É minha primeira vez na França.

— Bom, seja bem vindo. Sou Charlotte — Ela sorriu e Adam sorriu de volta.

Vincent balançou a cabeça, divertido.

— Entrem, entrem. Está frio — Charlotte exclamou.

O cheiro de comida quente veio imediatamente quando eles entraram. A casa era pequena, mas aconchegante, com luzes de Natal na sala e uma árvore montada perto da janela.

Adam olhava tudo com cuidado, tentando não parecer curioso demais.

Da cozinha, alguém falou alguma coisa em francês, sem aparecer.

Charlotte respondeu alto algo que Adam, outra vez, não compreendeu.

Victor apareceu na porta da cozinha com um pano de prato na mão. Ele tinha farinha na camiseta e parecia estar no meio de alguma receita. Quando viu Vincent, parou por um segundo.

Depois sorriu, curto, o cumprimentando.

Vincent soltou o ar que parecia estar segurando desde que o táxi parou na rua. Eles se aproximaram, e o abraço foi rápido, meio desajeitado, mas sincero.

— Ça va ? — Victor perguntou.

— Oui… et toi ?

— Ça va.

Eles falaram mais algumas coisas em francês, rápido demais para Adam entender. Ele ficou parado perto da porta, segurando a mochila, olhando de um para o outro sem saber se devia se aproximar ou esperar.

Vincent disse algo e apontou para trás, na direção dele. Adam só conseguiu reconhecer o próprio nome no meio da frase.

Victor olhou para ele então, como se lembrasse.

— Ah.

Vincent virou para Adam.

— Eu só tava dizendo que ele já sabe quem você é, pois já te viu antes… na Irlanda.

Adam assentiu.

— Ah… sim.

Victor fez um pequeno gesto com a cabeça, o cumprimentando. Por um segundo ficou um silêncio estranho, daqueles em que ninguém sabe exatamente o que fazer com as mãos.

Vincent percebeu na hora.

Ele colocou a mão nas costas de Adam, puxando ele um pouco mais para perto.

— Relaxa… — murmurou em inglês, baixo, só para ele ouvir. — Você sobreviveu ao aeroporto, sobreviveu à boulangerie… você sobrevive à minha família também.

Adam soltou um riso nervoso.

— Ainda não tenho certeza.


***


Victor voltou para a cozinha dizendo que precisava tirar o bolo do forno antes que queimasse, e Charlotte foi atrás dele, ainda falando alguma coisa em francês que Adam não conseguiu acompanhar. A sala ficou em silêncio por um instante, só com o som baixo de louça sendo mexida na cozinha.

Vincent apoiou a mochila no chão e olhou ao redor, como se estivesse reaprendendo aquele lugar.

— Quer ver meu quarto? — perguntou.

Adam sorriu de leve.

— Claro.

Eles subiram a escada estreita que levava ao andar de cima. O piso rangia um pouco a cada passo, e o corredor era curto, com duas portas de cada lado. Vincent parou em frente à última, hesitou por um segundo quase imperceptível e então abriu.

— Aqui.

O quarto era pequeno, mas organizado. Parecia parado no tempo.

Havia uma cama de solteiro encostada na parede, uma estante cheia de livros, alguns cadernos empilhados, e vários pôsteres de música clássica colados de forma meio torta: concertos, orquestras, capas antigas. Na parede ao lado da janela, pendurado com cuidado, estava um violino dentro de um suporte.

Adam entrou devagar, olhando tudo como se estivesse visitando um museu.

— Uau…

Vincent deixou a mochila no chão, mas não falou nada.

Ele ficou parado no meio do quarto, olhando ao redor, como se estivesse vendo tudo pela primeira vez em muito tempo.

O olhar dele demorou nos pôsteres, depois nos livros, depois no violino.

Adam percebeu.

Havia alguma coisa diferente no jeito que Vincent observava as próprias coisas. Não era vergonha, nem orgulho. Era… distância. Como se aquele quarto fosse de outra pessoa.

Adam passou a mão na lombada de um dos livros da estante.

— Então foi daqui…

Vincent olhou para ele.

— Foi daqui o quê?

Adam sorriu, apoiando o ombro na estante.

— Foi daqui que saiu o famoso violinista Vincent Rivière.

Vincent soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.

— Famoso? Tomara que você esteja profetizando.

— Eu tô.

— Ótimo. Assim espero.

Eles riram, e o clima ficou mais leve por alguns segundos.

Vincent se aproximou da parede e tocou de leve no violino pendurado, passando os dedos pelo braço do instrumento com cuidado, quase automático. Ele não pegou, só encostou, como se estivesse confirmando que ainda estava ali.

Adam observava em silêncio.

Depois de um momento, Vincent virou para ele.

O sorriso agora era menor, mais sincero.

— Obrigado por ter vindo.

Adam franziu um pouco a testa, como se não entendesse por que ele estava agradecendo de novo.

— Eu falei que vinha.

— Eu sei… mas mesmo assim.

Vincent deu de ombros, procurando as palavras.

— Eu sei que não é fácil. Lugar diferente… idioma… minha família… tudo meio… estranho.

Adam cruzou os braços, encostando na mesa.

— Eu tô bem.

Vincent inclinou a cabeça.

— Tá mesmo?

Adam pensou por um segundo, depois sorriu de lado.

— Tô nervoso pra caramba.

Vincent riu baixo.

— Eu imaginei.

— Mas eu quis vir.

Vincent ficou olhando para ele por um instante, como se ainda estivesse absorvendo aquilo. Então levou a mão até o rosto de Adam, devagar, encostando os dedos na lateral do pescoço dele.

— Obrigado… de verdade.

Adam não respondeu, só segurou a manga do casaco dele, puxando um pouco mais para perto.

Vincent sorriu de leve e inclinou o rosto, beijando ele com calma, sem pressa, como se aquele quarto inteiro tivesse parado para esperar por aquele momento. O beijo foi curto, mas demorado o suficiente para dizer tudo que eles não estavam falando.


***


A tarde passou mais rápido do que Adam esperava.

Em algum momento, sem que percebesse direito como, ele já estava na cozinha junto com os outros três, com as mangas dobradas e uma colher na mão, tentando ajudar.

A cozinha era pequena para quatro pessoas, então toda hora alguém esbarrava em alguém, pedia licença, mudava de lugar. Charlotte parecia comandar tudo com naturalidade, Victor cuidava do forno e das panelas, Vincent tentava ajudar… e Adam tentava não atrapalhar.

— Não, não, assim — Charlotte disse, rindo, guiando a mão dele enquanto ele tentava cortar alguma coisa do jeito errado. — Mais devagar.

Apesar do espaço apertado, o clima ficou leve.

Adam percebeu que Charlotte sempre tentava incluir ele na conversa, perguntava sobre Dublin, sobre a Irlanda, sobre a universidade. O inglês dela não era perfeito, mas era suficiente para ser compreendido, e ela parecia realmente interessada.

Isso deixou tudo mais fácil.

Quando a comida finalmente ficou pronta, eles arrumaram a mesa na sala. Não era uma ceia enorme, nem sofisticada, mas estava bonita. Pratos simples, vinho, pão, o bolo que Victor tinha feito, e algumas velas acesas que Charlotte insistiu em colocar.

Adam olhou a mesa e sorriu.

— Ficou… muito bom.

Vincent olhou também, com um ar meio surpreso.

— Ficou mesmo.

Eles se sentaram.

No início, a conversa foi meio misturada, indo e voltando entre francês e inglês. Victor fazia esforço para falar em inglês quando lembrava, e às vezes começava certo, mas no meio da história se perdia e voltava para o francês sem perceber.

Adam não entendia as palavras, mas entendia o tom. E aquilo era curioso.

Ele achava divertido ver Vincent naquele ambiente, rindo de coisas que Adam não conhecia, respondendo rápido, falando sem pensar no idioma. Era como ver outra versão dele.

Em algum momento, Victor tentou contar uma história antiga, falando em inglês devagar, porém logo desistiu e começou a falar em francês, rápido demais.

Vincent já estava rindo antes de terminar.

Adam olhou de um para o outro, confuso, mas rindo também.

— Eu não faço ideia do que aconteceu, mas parece engraçado.

Vincent tentou explicar, ainda rindo.

— Ele tá lembrando quando eu quebrei a janela do vizinho com o arco do violino.

Adam arregalou os olhos.

— Como isso é possível?

— Te digo que é — respondeu, sorrindo.

Depois foi a vez de Vincent contar coisas de Dublin, e dessa vez ele falava em inglês, animado, gesticulando enquanto falava dos ensaios, de noites que terminavam tarde demais.

Adam percebeu que Victor escutava com atenção.

O clima estava leve.

Quase fácil.

Até que, em algum momento, Victor ficou quieto e Charlotte também. Eles trocaram um olhar rápido, como se estivessem combinando alguma coisa sem falar.

Vincent percebeu.

— O que foi?

Victor respirou fundo e apoiou os cotovelos na mesa.

— A gente… tem algo a dizer.

Vincent revirou os olhos, já adivinhando.

— Eu sei. Vocês vão se casar. Você já falou isso no telefone, lembra?

Victor balançou a cabeça.

— Não… não é isso.

Charlotte colocou a mão sobre a dele. Victor olhou para o irmão de novo, dessa vez sério de verdade.

— Ela… está esperando um bebê.

O silêncio caiu na mesa por um segundo inteiro.

Vincent piscou, como se não tivesse entendido.

— Quoi ?

Victor repetiu, agora mais devagar, em francês, e então Vincent simplesmente travou. Ele arregalou os olhos, olhou para Charlotte, depois para Victor, depois de novo para Charlotte, e começou a falar rápido em francês, cheio de exclamações.

Adam não entendeu nenhuma palavra, mas ao mesmo tempo entendeu tudo.

Victor tentava responder, Charlotte ria nervosa, Vincent passava a mão no cabelo, rindo, depois falando de novo. Não precisava de tradução nenhuma.

Adam acabou sorrindo sozinho, olhando para os três.

Quando Vincent finalmente percebeu que ele estava perdido, virou na hora para ele, ainda com a expressão completamente atônita.

— Adam… — ele disse, em inglês, ainda sem acreditar. — Eu… eu vou ser tio.

Adam abriu um sorriso grande e levantou o copo.

— Então… isso merece um brinde, não merece?

Charlotte e Victor também levantaram o copo.

Vincent ainda parecia meio fora do eixo, mas pegou o dele. Os quatro brindaram, e pela primeira vez desde que tinham chegado, Adam teve a sensação de que realmente estava fazendo parte daquilo.