Tudo Começou em Letras

29 Capítulo 29 — Outros Natais


No dia anterior à véspera de natal, o pub estava cheio, como quase sempre naquela época do ano. Luzes de Natal penduradas atrás do balcão, gente falando alto, copos batendo, música baixa no fundo. Tyler, Min-su e Finn estavam sentados na mesma mesa de sempre, perto da parede, com três copos de cerveja já pela metade.

Finn girava o copo devagar entre os dedos, olhando para a espuma como se estivesse pensando em outra coisa.

— Então… — ele disse, sem olhar pra ninguém. — Onde vocês vão passar o Natal?

Min-su deu um sorriso pequeno, daqueles que já vêm meio cansados.

— Aqui mesmo.

Tyler levantou o olhar.

— Aqui?

— Não deu pra ir pra Coreia esse ano. A passagem tá absurda de cara… e… — ele deu de ombros — eu preferi mandar dinheiro pra casa. Tinha umas contas atrasadas, umas coisas que não estavam conseguindo pagar.

Finn fez uma careta leve, não de reprovação, mas de pena mesmo.

— Poxa…

— É… — Min-su tomou um gole da cerveja. — Faz parte.

Tyler ficou olhando pra ele por um momento, em silêncio, com aquela expressão que ele sempre fazia quando queria falar alguma coisa mas não sabia como.

Finn percebeu.

— Ei… isso vai passar — ele disse, mais firme. — Ano que vem você vai, ou eles vêm. As coisas vão melhorar.

Min-su soltou um riso baixo.

— Eu quero acreditar nisso.

Finn bateu de leve no copo dele com o próprio.

— Acredite.

Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, ouvindo o barulho do pub ao redor, até Finn olhar para Tyler.

— E você? Vai fazer o quê no Natal?

Tyler deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia.

— Vou ficar aqui também. Em Dublin.

Finn levantou uma sobrancelha.

— De novo?

— Sim. Igual ano passado — Assentiu, bebendo um gole antes de responder.

Ninguém comentou por um momento, mas os três sabiam o motivo. A família dele nos Estados Unidos, as discussões, os comentários, as indiretas sobre o jeito dele falar, se vestir, se comportar. Não era um assunto novo.

Min-su só murmurou:

— Melhor ficar aqui do que ouvir besteira.

Tyler deu um meio sorriso.

— Exatamente.

Finn suspirou e recostou na cadeira.

— Pelo menos a Isabelle teve mais sorte. Já tá no Brasil, né?

Min-su levantou a cabeça.

— Sério? Eu nem vi ela se despedir.

Tyler respondeu:

— Foi corrido. Ela falou que ia passar com a família… e com aquela prima dela também.

Finn franziu a testa.

— Qual prima?

— Aquela que trabalha com o Adam no sebo. A brasileira.

— Ah, tá… — Assentiu, lembrando vagamente. — Verdade.

Min-su deu um gole na cerveja e apoiou o braço na mesa.

— Falando no Adam… acho que pra ele vai ser bem diferente o Natal esse ano, né?

Finn olhou na hora.

— Diferente por quê?

Tyler respondeu antes de Min-su.

— Ele não vai estar aqui. Vai pra França.

Finn arregalou um pouco os olhos.

— França? Com… o namorado?

Tyler assentiu, tranquilo.

— Sim.

Finn encostou na cadeira, surpreso de verdade.

— Nossa… então isso tá sério mesmo, né?

Tyler deu um sorriso pequeno, mas sincero.

— Tá. Já faz um tempo.

Min-su concordou.

— Ele parece bem.

Finn ficou girando o copo de novo, pensativo. Tyler olhou pra ele por um momento, como se estivesse decidindo se falava ou não, mas acabou falando.

— Você podia voltar a falar com ele, sabe?

Finn não respondeu. Tyler continuou, com calma.

— Ele sente falta de você. E se sente culpado. Não foi por maldade.

Finn respirou fundo, olhando para a mesa.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

Finn ficou em silêncio alguns segundos antes de responder.

— Eu sei… — ele murmurou. — Eu só… não sei por onde começar.

Ninguém falou nada por um momento. O barulho do pub continuava igual, mas a mesa deles tinha ficado mais quieta.

Min-su tomou mais um gole e falou, tentando aliviar.

— Começa falando “oi”, talvez.

Tyler soltou um riso curto.

Finn também sorriu, mas sem muita convicção, ainda olhando para o próprio copo como se estivesse pensando se tinha coragem de fazer isso ou não.


***


Finn ficou alguns segundos olhando para o copo, ainda pensando no assunto, até soltar o ar de uma vez, como se tivesse tomado uma decisão ali mesmo.

— Tá, chega de ficar todo mundo deprimido — ele disse, batendo a mão de leve na mesa. — Vocês vão fazer o quê na véspera mesmo? Ficar bebendo até o bar fechar?

Tyler levantou uma sobrancelha.

— Era um plano.

Min-su riu.

— Não é o pior plano que a gente já teve.

Finn balançou a cabeça.

— Não gente, para. Vocês vão lá pra casa.

Os dois olharam pra ele ao mesmo tempo.

— Como assim? — Tyler perguntou.

— Lá pra casa. Minha mãe vai fazer jantar, vai ter minha irmã, meu pai, aquela bagunça de sempre… vocês vão. Pronto.

Min-su piscou, surpreso.

— Finn… sério?

— Sério. Minha mãe adora quando aparece gente nova. E ela vai ficar ofendida se eu disser que meus melhores amigos passaram o Natal sozinhos aqui.

Tyler apoiou o cotovelo na mesa.

— Você tem certeza que sua família não vai achar estranho?

Finn soltou uma risada curta.

— Tyler, a minha mãe já me viu chegar em casa com gente muito mais estranha que vocês.

Min-su riu.

— Isso não é exatamente reconfortante.

Finn apontou pra ele.

— Vocês vão. E acabou.

Tyler trocou um olhar com Min-su, depois deu de ombros.

— Eu topo.

Min-su sorriu.

— Eu também.

Finn levantou o copo.

— Pronto. Resolvido. Natal menos deprimente garantido.

Os três bateram os copos, e pela primeira vez naquela noite o clima ficou realmente leve.


***


No dia da véspera, a casa da família do Finn estava cheia de cheiro de comida e barulho de gente falando ao mesmo tempo. Era uma casa simples, mas acolhedora, com enfeites de Natal em todo canto e música tocando baixo na sala.

Finn estava na cozinha quando a campainha tocou.

Ele foi atender com um sorriso distraído, mas antes que abrisse totalmente a porta, alguém atrás dele falou:

— Finn, eles chegaram?

Ele virou o rosto.

— Calma, Ian.

Abriu a porta, e Tyler e Min-su estavam lá fora, usando casacos pesados.

— Finalmente — Finn disse. — Entrem logo.

Eles entraram rindo, tirando os casacos, olhando a casa com curiosidade.

Ian apareceu na sala, meio sem saber onde colocar as mãos. Era alto, cabelo castanho claro, cara simpática, mas claramente nervoso.

Finn percebeu.

— Ah, é… — ele disse, lembrando. — Gente, esse é o Ian. Meu namorado.

Tyler olhou na hora, com um sorriso de canto.

— Você tem um namorado?

Min-su também levantou a sobrancelha. Finn revirou os olhos.

— Sim, o Ian.

Ian estendeu a mão, meio tímido.

— Oi.

— Tyler — ele respondeu, apertando a mão. — Prazer.

— Min-su.

Ian sorriu, aliviado por eles parecerem normais.

— Finn falou bastante de vocês.

Finn resmungou.

— Não falei nada.

— Falou sim.

Antes que a conversa continuasse, uma mulher apareceu na porta da cozinha, limpando as mãos num pano.

— Finn, quem chegou?

Ela parou quando viu os dois.

— Oh!

Finn suspirou, já prevendo.

— Mãe, esses são o Tyler e o Min-su. Meus amigos. Pessoal, essa é Mary, minha mãe.

Ela abriu um sorriso enorme.

— Sejam muito bem-vindos! Entrem, entrem, sintam-se em casa.

O pai de Finn apareceu logo atrás, acenando com a cabeça.

— Boa noite, rapazes.

Eles foram todos pra sala, conversando, e em poucos minutos parecia que Min-su e Tyler já estavam ali há anos.

Na hora de sentar à mesa, Mary ficou olhando para Min-su com curiosidade, como se estivesse tentando lembrar de alguma coisa. Até que falou, do nada:

— Você é tão bonito… parece aqueles atores de dorama.

Min-su quase engasgou.

— Como?

Finn fechou os olhos na hora.

— Mãe…

Ela continuou, empolgada.

— Eu assisto sempre! Aqueles doramas coreanos… Tem vários!

Tyler começou a rir. Finn passou a mão no rosto.

— Ela é viciada em novela coreana.

A irmã dele, Julie, riu.

— É verdade.

Min-su, vermelho, não sabia se ria ou se agradecia.

— Obrigado… eu acho.

Mary continuou sorrindo pra ele, satisfeita.

— Muito bonito mesmo.

Tyler se inclinou na mesa.

— Ele vai ficar convencido agora.

Todo mundo riu, e a conversa foi indo, leve, com Tyler contando histórias, fazendo comentários no timing perfeito, arrancando risada até do pai do Finn, que parecia mais sério no começo.

Em pouco tempo, a mesa estava barulhenta, cheia de gente falando ao mesmo tempo, copos sendo enchidos, comida passando de mão em mão.

E Finn, olhando aquilo tudo, encostado na cadeira, percebeu que tinha sido uma boa ideia.


***


Quando a noite já estava avançada e a conversa na sala começou a morrer, Mary bateu palmas de leve.

— Ok, chega por hoje. Amanhã tem mais comida, mais conversa… todo mundo precisa dormir.

Todo mundo riu, se levantando devagar, pegando copos, juntando pratos, aquela confusão normal de fim de noite.

Finn esticou os braços, cansado, mas com um sorriso satisfeito.

— Certo, divisão dos quartos. Tyler, Min-su, vocês ficam no de hóspedes.

— Perfeito — Tyler respondeu.

— Tem uma cama de solteiro… — Finn continuou — e um colchão no chão. Se virem.

— Eu pego a cama — Tyler disse na hora.

Min-su riu.

— Claro, né?

Finn cruzou os braços.

— E nem perguntou?

— Eu sei que ele prefere o colchão — Tyler respondeu, sem cerimônia.

Finn riu e apontou pro corredor.

— Segunda porta à esquerda.

Ele então olhou para Ian, meio sem jeito, mas feliz. Passou o braço pelos ombros dele, já indo na frente em direção ao seu quarto.

— Boa noite, crianças.

— Boa noite, pai — Tyler respondeu.

— Vai dormir, Tyler.


***


O quarto de hóspedes era pequeno, mas confortável. Havia uma cama de solteiro encostada na parede, um criado-mudo, um armário antigo e um colchão dobrado no canto.

Tyler entrou primeiro, largou o casaco na cadeira e já se jogou na cama sem cerimônia.

Min-su pegou o colchão e jogou no chão com um suspiro.

— Colchão, né… tá bom. Eu sobrevivo.

Tyler riu.

— Você sobreviveu ao comentário da mãe do Finn, você sobrevive a qualquer coisa.

Min-su passou a mão no rosto, rindo.

— Eu ainda não acredito que ela falou que eu pareço ator de dorama.

— Ela tava encantada.

— Eu fiquei sem saber se agradecia ou se fugia.

Tyler virou de lado na cama, olhando pra ele.

— Você devia ter feito uma pose dramática. Ia completar a cena.

Min-su jogou o travesseiro nele.

— Idiota.

Tyler riu, segurando o travesseiro.

— Mas foi bom, vai. Melhor do que passar o Natal no pub.

Min-su assentiu, deitando no colchão.

Ficaram um tempo comentando coisas aleatórias do jantar, imitando o sotaque do pai do Finn, lembrando da cara do próprio Finn quando a mãe falou dos doramas, rindo baixo pra não acordar ninguém.

Até que a conversa foi diminuindo.

As risadas viraram silêncio.

Só dava pra ouvir o barulho distante da casa, alguém andando no andar de baixo, um cano estalando, o vento do lado de fora.

Tyler ficou olhando pro teto.

Min-su ficou olhando pro nada.

O silêncio começou a ficar longo demais.

Min-su virou de lado no colchão, como se estivesse pensando se falava ou não. Ficou assim alguns segundos, até que respirou fundo.

— Posso te falar uma coisa?

Tyler não se mexeu, mas a voz dele ficou um pouco mais tensa.

— Pode.

Outro silêncio curto.

Min-su passou a mão no próprio cabelo, nervoso, sem saber por onde começar.

— A gente… nunca falou sobre aquilo.

Tyler piscou devagar, ainda olhando pro teto.

— Sobre o quê?

Min-su soltou o ar.

— Sobre o bar… três meses atrás.

Agora Tyler ficou imóvel de vez.

Não respondeu.

Min-su continuou, atropelando um pouco as palavras.

— A gente se beijou… e depois fingiu que não aconteceu. E… eu fingi mesmo. Porque eu achei que era melhor assim.

Tyler virou o rosto, olhando pra ele pela primeira vez, mas não disse nada.

Min-su engoliu seco, claramente sem jeito.

— Eu tentei não pensar nisso. Sério. Porque… nossa amizade é importante demais pra mim. E eu não queria estragar tudo por causa de… sei lá… um momento.

Ele riu sem graça, mas o riso morreu rápido.

— Só que não foi… só um momento pra mim.

Tyler continuava quieto, só ouvindo.

Min-su apertou as mãos, olhando pro chão.

— Eu gosto de você. Não de um jeito casual. Não de um jeito de bar, ou de bebida, ou de… curiosidade. Eu gosto mesmo. Não só como amigo.

O silêncio ficou pesado no quarto.

Min-su continuou, mais baixo agora.

— E eu lutei contra isso por meses. Porque eu prefiro ter você como amigo do que não ter você de jeito nenhum. Mas… — ele respirou fundo — eu não tô conseguindo fingir mais que não sinto nada.

Ele finalmente olhou para Tyler.

— Eu… precisava falar.

Não houve nenhuma resposta, só o barulho do vento lá fora.

Min-su desviou o olhar, meio arrependido.

— Esquece… eu não devia ter—

O colchão rangeu.

Tyler se levantou da cama sem falar nada.

Min-su ficou parado, sem entender, vendo ele descer, dar dois passos… e se ajoelhar no colchão. Antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa, Tyler se inclinou, segurou o rosto dele e beijou.

Sem pressa, mas sem dúvida nenhuma. O beijo começou contido, como se os dois ainda estivessem tentando entender o que estavam fazendo… e então ficou mais forte, mais intenso, como se tudo que tinha ficado preso por meses tivesse resolvido sair de uma vez.

Quando se afastaram, os dois estavam respirando mais rápido.

Tyler encostou a testa na dele, ainda segurando o rosto dele com uma das mãos.

— Aquele beijo… — ele murmurou. — O do bar… mexeu comigo mais do que eu quis admitir.

Min-su ficou em silêncio, só olhando.

Tyler continuou, sincero, meio perdido.

— Eu não soube lidar com aquilo. Não soube mesmo. A gente sempre foi amigo, sempre foi simples… e de repente não era mais.

Ele soltou um riso baixo, nervoso.

— Então eu também fingi que não tinha acontecido. Porque era mais fácil.

Ele passou o polegar de leve pelo rosto dele.

— Mas eu também não esqueci.

O silêncio que veio depois não era pesado, era cheio.

Tyler encostou a testa na dele de novo, quase sorrindo.

— Eu acho que eu só precisava de coragem também.

Eles continuavam deitados no colchão, lado a lado, ainda perto demais depois do beijo, como se qualquer movimento em falso pudesse quebrar aquele momento. O silêncio agora não era mais pesado, mas também não era exatamente confortável. Era aquele silêncio cheio de coisas que ainda estavam sendo entendidas.

Tyler estava apoiado no cotovelo, olhando para Min-su com um meio sorriso, claramente pensando em alguma coisa.

— Posso perguntar uma coisa?

Min-su virou o rosto na direção dele, já desconfiado.

— Sim…

Tyler estreitou um pouco os olhos, curioso.

— Por que eu?

Min-su franziu a testa.

— Como assim?

— Tipo… — Tyler fez um gesto pequeno com a mão entre os dois — quando foi que você começou a gostar de mim desse jeito?

Min-su congelou na hora. Ele desviou o olhar, olhando para o teto, depois para a parede, depois para qualquer lugar que não fosse Tyler.

— Eu… não sei.

Tyler soltou um riso baixo.

— Não sabe?

— Não sei exatamente quando.

— Mas sabe o por quê?

Min-su bufou, sem graça, passando a mão no cabelo.

— Você não vai me deixar escapar, né?

— Não.

Min-su ficou alguns segundos em silêncio, claramente sem saber como falar sem morrer de vergonha.

— Eu gosto do seu jeito.

Tyler inclinou a cabeça.

— Meu jeito?

— É.

— Isso não explica nada.

Min-su respirou fundo, meio irritado, meio constrangido.

— Você faz as pessoas rirem o tempo todo. Mesmo quando tá tudo estranho, você vai lá e fala alguma coisa idiota e todo mundo se sente melhor, mesmo que seja alguma besteira.

Tyler ficou quieto, ouvindo. Min-su continuou, olhando para o teto.

— E… você é leve. Ficar perto de você é fácil. Nunca parece que eu tenho que ser outra pessoa.

Tyler piscou devagar, mas não interrompeu.

Min-su hesitou antes de continuar.

— E… você é bonito. — ele falou fechando os olhos, já arrependido. — Eu não devia ter falado isso.

Tyler começou a rir.

— Não, agora fala. Já começou.

Min-su cobriu metade do rosto com a mão.

— Você é lindo, ok? Satisfeito?

Tyler riu mais alto, tentando falar baixo pra não acordar ninguém.

— Nunca ninguém me elogiou com tanta vergonha.

— Porque eu tô com vergonha!

— Tá bom, tá bom. Continua.

Min-su suspirou, derrotado.

— Você tem esses olhos verdes ridículos, esses cabelos loiros… esse sorriso… e você age como se não tivesse ideia do efeito que tem nas pessoas.

Tyler fez uma cara falsa de ofendido.

— Eu tenho ideia, sim.

Min-su olhou pra ele, incrédulo.

— Convencido.

Tyler deu de ombros, rindo.

— Então você começou a gostar de mim porque eu sou bonito e engraçado.

Min-su virou o rosto para ele, sério.

— Eu comecei a gostar de você porque você é você.

O riso de Tyler diminuiu devagar.

Ele ficou olhando para Min-su por um segundo mais longo, como se aquela resposta tivesse acertado mais fundo do que ele esperava. Então ele se aproximou um pouco, puxando de leve a gola da camiseta dele.

— Ainda bem… — murmurou. — Porque eu não sei ser outra coisa.

Min-su nem respondeu. Tyler só inclinou o rosto e beijou ele de novo, mais devagar dessa vez, como se agora não tivesse mais motivo nenhum pra fingir que aquilo era um erro.

O beijo terminou devagar, sem pressa, como se nenhum dos dois quisesse se afastar completamente. Eles ficaram com os rostos ainda perto, respirando no mesmo ritmo, meio sem saber se riam, se falavam, ou se simplesmente ficavam ali.

Tyler foi o primeiro a quebrar o silêncio, com aquele sorriso torto de sempre.

— Então… quer dizer que eu sou lindo, loiro, dos olhos verdes…

Min-su fechou os olhos na hora.

— Para.

Tyler riu.

— …e irresistível.

— Tyler…

— E que todo mundo olha pra mim quando eu entro nos lugares.

Min-su empurrou o ombro dele, sem força.

— Eu não falei assim.

— Falou sim. Tá registrado.

Min-su virou o rosto, morrendo de vergonha, mas sorrindo. Tyler ficou olhando pra ele por um instante, com uma expressão mais suave, menos brincalhona.

— Mas você sabe que você também é bonito, né?

Min-su olhou de volta, surpreso.

— Eu?

— É.

— Claro…

Tyler assentiu, sério, mas com um sorriso no canto da boca.

— A mãe do Finn não falou à toa. Você tem cara de ator de dorama mesmo.

Min-su riu mais alto, tentando falar baixo.

— Idiota.

Tyler deu de ombros.

— Tô falando sério. Bonito, todo certinho, todo… misterioso.

Min-su levantou uma sobrancelha.

— Misterioso?

— É. E dramático.

— Eu não sou dramático.

Tyler aproximou o rosto, provocando.

— Você se declarou pra mim no chão de um quarto de hóspedes no Natal. Isso é dramático.

Min-su começou a rir, cobrindo o rosto.

— Eu odeio você.

Tyler riu junto, encostando a testa na dele.

— Mas é verdade. Você é bonito sim. Bonito tipo… ator de novela coreana. Como já falei.

Min-su ainda estava rindo, balançando a cabeça.

— A mãe do Finn te contaminou.

— Talvez sim.

Tyler deu um selinho rápido nele, quase sem pensar.

— Mas ela tem bom gosto.

Eles continuaram se beijando, primeiro devagar, depois com mais intensidade, como se estivessem compensando todo o tempo em que fingiram que nada tinha acontecido. Tyler puxou Min-su mais para perto no colchão, a mão deslizando pelas costas dele, sem muita preocupação, agindo mais por impulso do que por qualquer plano.

O beijo ficou mais quente, mais desajeitado também, os dois meio sem saber direito até onde podiam ir.

Em um desses movimentos, Tyler acabou descendo a mão sem pensar muito, e parou por um segundo quando percebeu que Min-su estava excitado… Ele levantou o olhar na mesma hora, com um sorriso que misturava surpresa e diversão.

Min-su percebeu a mudança na expressão dele e arregalou os olhos, entendendo exatamente o que tinha acontecido.

— Tyler… — ele sussurrou, já ficando vermelho. — Espera.

Tyler ainda estava sorrindo.

— O quê?

Min-su segurou o pulso dele, meio sem jeito, mas sem raiva.

— A gente… é melhor parar por aqui.

Tyler levantou uma sobrancelha, claramente achando graça da situação.

— Sério?

Min-su riu, nervoso, passando a mão no rosto.

— Sério. A gente acabou de… sei lá… eu acabei de me declarar pra você no chão de um quarto de hóspedes na casa da família do Finn.

Tyler soltou uma risada baixa, tentando não fazer barulho.

— Quando você fala assim, realmente parece caótico.

Min-su ainda segurava o pulso dele, mas agora estava sorrindo também, envergonhado.

— Eu só… não quero ir rápido demais.

Tyler ficou olhando pra ele por um segundo, depois deu de ombros, ainda divertido.

— Tá bom.

Ele se deitou de lado de novo, apoiando a cabeça na mão.

— Mas você que começou, ator de dorama.

Min-su riu, cobrindo o rosto com o travesseiro.

— Eu odeio você.

Tyler puxou o travesseiro de volta, ainda sorrindo.

— Não odeia não. Você gosta do loirinho dos olhos verdes.

Min-su não conseguiu segurar a risada.

Notas finais
Esse foi um capítulo mais focados nos outros personagens. Mas no próximo teremos Phantom e Adam de volta <3