Tudo Começou em Letras
18 Capítulo 18 — História Inacabada
O beijo ainda acontecia quando Adam foi tomado por uma súbita consciência de si mesmo.
Era intenso demais.
Ele se afastou primeiro, quase num sobressalto, o peito subindo e descendo rápido. O rosto estava quente, queimando, e ele levou a mão ao próprio pescoço como se precisasse de ar.
— A gente… — começou, mas a voz saiu falha. Engoliu em seco. — A gente precisa voltar.
Vincent não tentou puxá-lo de volta. Apenas o observou, atento, os olhos escuros carregados da mesma tensão que Adam sentia atravessar o próprio corpo.
— Sim — respondeu, depois de um instante. — Mas eu queria dizer que… isso pra mim também tá sendo… — fez uma pausa breve, procurando a palavra certa. — Intenso.
Adam levantou o olhar para ele. Não disse nada. Havia algo naquele silêncio que dizia mais do que qualquer resposta possível. Uma mistura de medo, curiosidade, desejo e uma sensação incômoda de estar atravessando uma linha invisível sem saber se conseguiria voltar.
Por alguns segundos, eles apenas ficaram ali, próximos o suficiente para sentir o calor um do outro, como se o mundo tivesse diminuído até caber naquele espaço entre seus corpos.
Então Adam deu um passo à frente.
O beijo seguinte não foi impulsivo como o primeiro. Foi mais lento, quase cuidadoso, como se ambos soubessem que aquilo precisava ser guardado. Vincent envolveu Adam com os braços, e Adam deixou-se ficar ali, o rosto encaixado no ombro dele, respirando fundo, tentando memorizar aquela sensação.
Ficaram assim por alguns minutos; abraçados, imóveis, olhando as luzes do campus ao longe, o som abafado da festa chegando como algo distante, irrelevante.
Quando Adam finalmente se afastou, foi com relutância.
— Eu preciso voltar — disse, num tom baixo.
Vincent assentiu. Não discutiu.
Adam passou por ele, e, antes de sair, lançou um último olhar rápido por cima do ombro, como se quisesse confirmar que aquilo tinha mesmo acontecido.
Então foi embora, deixando para trás o vento frio e as luzes distantes.
***
Adam voltou para o interior da festa tentando parecer normal, como se o coração não ainda batesse rápido demais e o rosto não estivesse quente. A música parecia mais alta agora, as luzes mais confusas, e por um momento ele teve a sensação de estar fora de compasso com tudo ao redor.
Demorou um pouco até encontrar alguém conhecido. Finn surgiu primeiro, encostado perto de uma mesa improvisada, já visivelmente mais solto do que no começo da noite, um copo na mão e um sorriso fácil.
— Até que enfim — disse, assim que viu Adam. — Sumiu, hein? Foi sequestrado ou só quis largar a gente mesmo?
Adam deu um meio sorriso, tentando soar casual.
— Uma amiga de outra turma me parou pra conversar — respondeu rápido, sem elaborar demais. — Quando vi, já tinha passado um tempo.
— Claro — Finn disse, alongando a palavra, claramente desconfiado, mas rindo logo em seguida. — Você some e volta como se nada tivesse acontecido.
Adam riu de leve, mais por reflexo do que por vontade, e foi então que percebeu Tyler alguns metros adiante. Ele estava sentado ao lado de Charles, o corpo inclinado para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. Diferente de antes, não gesticulava, não ria alto. O sorriso, quando surgia, era curto demais para ser o dele.
Finn também notou.
— Ih — comentou, baixinho. — O que será que deu nele agora?
Os dois se aproximaram. Finn foi o primeiro a quebrar o silêncio, no seu tom habitual de piada.
— Ué, cadê a energia? Acabou o combustível ou foi o Charles que te cansou cedo demais?
Charles riu, meio sem graça, e passou o braço em torno dos ombros de Tyler.
Tyler soltou uma risada curta.
Adam observava em silêncio. Conhecia Tyler bem o suficiente para perceber quando algo estava errado, mesmo quando ele fingia que não.
— Tá tudo bem? — perguntou, direto, a voz mais baixa. — Aconteceu alguma coisa?
Tyler levantou o olhar para ele. Por um segundo longo demais, ficou sério, como se estivesse avaliando algo que não sabia se devia dizer. O olhar se demorou em Adam mais do que o normal, carregado de uma estranheza nova.
Então deu de ombros.
— Não — respondeu, desviando os olhos. — Não foi nada.
Mas Adam soube, naquele instante, que não era verdade.
Finn franziu a testa, claramente não satisfeito com a resposta. Já estava solto demais para deixar passar algo assim sem cutucar.
— “Não foi nada” — repetiu, fazendo aspas no ar com os dedos. — Tyler, quando realmente não é nada, você não fica com essa cara de quem acabou de assistir ao final de um filme traumático.
Tyler soltou uma risada curta, sem humor, e passou a mão pelo rosto.
— Você anda dramático hoje — comentou, tentando aliviar. — Deve ser o álcool falando.
— Deve ser — Finn concordou, inclinando a cabeça. — Mas curiosamente o álcool costuma me deixar mais perceptivo, não menos.
Adam permaneceu em silêncio, observando. O corpo de Tyler estava tenso, os ombros rígidos demais para alguém que, minutos antes, parecia flutuar pela festa. Charles também havia notado a mudança; o sorriso dele se tornara cauteloso.
Tyler respirou fundo, como se tivesse tomado uma decisão.
— Tá — disse, levantando-se de repente. — Eu e o Charles vamos… dar uma saída.
Finn arqueou a sobrancelha.
— Uma saída — repetiu. — Tipo ar fresco ou tipo “não voltem antes do amanhecer”?
Tyler inclinou-se um pouco em direção a ele, o sorriso reaparecendo, agora malicioso, ensaiado demais para ser espontâneo.
— Digamos que o Charles anda precisando de atenção — respondeu, num tom sugestivo. — E eu sou uma pessoa muito generosa.
Charles engasgou com a própria risada, o rosto esquentando imediatamente.
— Tyler — murmurou, meio constrangido, meio divertido. — Você é impossível.
— Mas funcional — Tyler completou, piscando para ele enquanto pegava sua mão. — Vamos? Antes que eu resolva dar detalhes.
Finn abriu um sorriso largo, teatral.
— Vai lá, então. Não vou atrapalhar… atividades acadêmicas.
Tyler riu de verdade dessa vez, ainda que breve. Ele pegou o casaco que estava jogado sobre a cadeira e, antes de sair, lançou mais um olhar rápido para Adam. Não sorriu dessa vez. Foi um olhar breve, sério demais para alguém que tinha acabado de fazer uma piada sexual.
Adam sustentou o olhar por um segundo, sentindo um aperto estranho no peito, uma intuição incômoda que não sabia nomear.
Então Tyler se virou, puxando Charles consigo, e os dois desapareceram em meio à multidão da festa, rindo baixo, como se tudo estivesse exatamente como deveria estar.
Mas Adam permaneceu parado por um instante a mais, com a sensação persistente de que algo tinha sido dito naquele olhar.
***
A música continuou alta, as conversas se misturando num ruído constante, e Adam acabou se acomodando ao lado de Finn e Min-su como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo. Finn falava demais, gesticulava com o copo na mão, ria de coisas que talvez nem fossem tão engraçadas assim. Min-su acompanhava, mais contido, mas com aquele sorriso fácil que surgia sempre que Finn exagerava em alguma história.
Adam ria junto. Ou pelo menos tentava.
Ele se agarrava à normalidade daquela cena com uma atenção quase desesperada: o jeito como Finn inclinava a cabeça ao rir, a forma como Min-su fazia comentários secos no momento exato, o barulho dos copos batendo na mesa. Tudo parecia familiar, previsível, sólido. Era nisso que ele se apoiava.
— Você lembra daquela vez que a gente se perdeu voltando do bar? — Finn dizia, já tropeçando na própria narrativa. — Eu juro que aquela rua não existia antes.
— Existia, sim — Min-su respondeu, paciente. — Você só estava bêbado demais pra perceber.
— Mentira — Finn retrucou, apontando para Adam. — Diz pra ele, Adam. Aquela rua surgiu do nada.
Adam piscou, demorando um segundo a mais do que deveria para responder.
— Surgiu — disse, por fim, forçando um sorriso, fingindo concordar. — Absolutamente do nada.
Os dois riram, satisfeitos com a validação. Adam levou o copo aos lábios, mas mal sentiu o gosto. O corpo estava ali, presente, mas a mente insistia em voltar.
Ao terraço.
À mão de Vincent em sua cintura.
À pressão do beijo, intensa demais para algo que deveria ser simples.
Ele tentou empurrar a lembrança para longe, concentrar-se na voz de Finn, nas palavras que se atropelavam, mas era como tentar ignorar uma música que não parava de tocar dentro dele. A sensação ainda estava ali, viva, quase física; o calor, o impulso, o jeito como tudo nele tinha respondido sem pedir permissão.
Quando a festa começou a esvaziar, foi Finn quem decidiu que já era hora de ir embora.
— Vamos. Antes que eu comece a dizer verdades inconvenientes pra pessoas erradas — anunciou, levantando-se com dificuldade.
Min-su riu e se despediu ali mesmo, dizendo que ainda ficaria mais um pouco. Adam e Finn saíram juntos, o ar frio da noite atingindo-os como um choque necessário. Finn continuava falando, agora sobre absolutamente qualquer coisa: a música ruim, alguém que tinha visto dançando de forma estranha, a fome repentina.
Adam caminhava ao lado dele, assentindo, soltando pequenos sons de concordância, tentando prestar atenção de verdade. Tentando ser apenas Adam, o amigo, o colega de quarto.
Mas cada passo em direção ao dormitório parecia puxá-lo de volta para dentro de si.
O beijo voltava inteiro, insistente. O momento em que ele tinha parado, o rubor queimando no rosto, o medo misturado com algo perigosamente bom. A confissão escapada: “nunca senti isso antes”, ecoava na sua cabeça como se tivesse sido dita outra vez.
— Você tá quieto — Finn comentou de repente, diminuindo o passo. — Tá tudo bem?
Adam respirou fundo.
— Tô só cansado — respondeu, rápido demais. — A festa foi… muita coisa pra processar.
Finn assentiu, compreensivo.
— É. Também acho. — Deu um leve empurrão no ombro dele. — Ainda bem que a gente tem a gloriosa tranquilidade do nosso quarto bagunçado nos esperando.
Adam sorriu de verdade dessa vez, mesmo que fosse um sorriso cansado.
Entraram no dormitório pouco depois. Finn foi direto se jogar na cama, ainda falando algo que Adam já não acompanhava direito. Adam largou o casaco na cadeira e se sentou na própria cama, encarando o chão por alguns segundos.
Ele queria que a noite acabasse ali.
Queria dormir, acordar e descobrir que aquilo tudo tinha sido apenas uma sensação passageira.
Mas, ao fechar os olhos, foi o beijo que voltou primeiro.
***
O auditório menor estava cheio demais para uma aula que, teoricamente, exigia atenção. As cadeiras rangiam a cada movimento, mochilas ocupavam o chão e o burburinho constante denunciava que ninguém estava exatamente concentrado no tema do dia. No telão, o título do seminário já estava projetado: Literatura e Juventude: Espelhos, Fugas e Identidade.
Adam leu a frase duas vezes, sem absorver totalmente. Tinha dormido pouco. Ou melhor, tinha ficado de olhos fechados por algumas horas, enquanto a mente insistia em revisitar a noite anterior.
Ele estava sentado com Finn, Tyler, Isabelle e Min-su, formando um semicírculo meio torto de cadeiras. Isabelle folheava o caderno com atenção seletiva, Min-su mexia no celular com o semblante neutro de sempre. Finn se inclinava para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, comentando algo em voz baixa com Tyler.
— Esse tema até que é interessante — Isabelle disse. — Pelo menos não é aquele discurso batido sobre “jovens não leem mais”.
— Ainda bem — Min-su concordou. — Já ouvi isso o suficiente para uma vida inteira.
Adam assentiu, distraído, quando Tyler se virou de repente para ele, os olhos brilhando com aquela energia perigosa que sempre antecedia uma provocação.
— E aí, Adam — disse, casual demais. — Você ainda tá ficando com o cara do Tinder?
A pergunta caiu no meio do grupo como um objeto pesado.
Adam sentiu o sangue subir instantaneamente para o rosto. Tossiu, levando a mão à boca, como se tivesse sido pego desprevenido por uma crise súbita.
— O quê? — murmurou, ganhando tempo.
Tyler arqueou a sobrancelha, divertido.
— O cara do Tinder. Aquele que você disse que estava conversando. Ainda existe ou já virou lenda urbana?
— Tyler… — Isabelle começou, num tom de aviso.
Mas ele ignorou.
Adam respirou fundo.
— Não — respondeu, por fim. — Já acabou.
— Já acabou? — Tyler repetiu, interessado demais. — Mas nem faz tanto tempo assim.
— Não deu certo — Adam completou, encolhendo levemente os ombros.
Finn se virou imediatamente para ele.
— Como assim não deu certo? — perguntou, frustrado. — Você mal contou qualquer coisa. O que aconteceu?
Adam desviou o olhar, fixando-o no telão, como se o slide pudesse salvá-lo.
— Nada específico — disse. — Simplesmente… não funcionou.
— Isso não é uma explicação — Finn reclamou.
Tyler apoiou o queixo na mão, estudando Adam com atenção exagerada.
— Eu ainda não vi nem a cara do sujeito — disse. — Quero ver a foto. Você mostrou pra Finn, não mostrou?
— Não mostrei pra ninguém — Adam respondeu rápido demais.
— Suspeito — Tyler decretou. — Muito suspeito.
Adam sentiu o rosto esquentar ainda mais.
— A gente já terminou — insistiu. — Não tem por que mostrar foto agora.
Tyler sorriu, inclinando-se um pouco mais na direção dele.
— Você tá com vergonha?
Ele disse isso rindo, mas havia algo por trás do tom leve. Um interesse real, atento demais para ser só brincadeira.
— Não — Adam respondeu, talvez rápido demais. — Não é isso.
— Então mostra — Tyler provocou. — Ou o cara era tão bonito que você prefere guardar só pra você?
Isabelle balançou a cabeça, rindo de leve.
— Vocês dois são impossíveis.
Adam passou a mão pelo cabelo, sentindo o coração bater rápido demais para uma conversa tão banal. Ele pensou em Vincent. No nome salvo no celular. No beijo. No terraço.
— Depois — disse, por fim. — Eu mostro depois.
Tyler abriu um sorriso satisfeito.
— Vou cobrar.
O professor pigarreou no palco, pedindo silêncio, e a sala começou a se aquietar aos poucos. Finn ainda lançou a Adam um olhar claramente descontente com a falta de detalhes, mas acabou se virando para frente.
Adam respirou fundo, tentando se recompor enquanto a aula começava de vez, mas a sensação incômoda permanecia.
Ele sabia que aquela história não estava terminada.
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