Tudo Começou em Letras
17 Capítulo 17 — O Terraço
O sebo estava especialmente silencioso naquela tarde. A chuva fina do lado de fora afastava os clientes ocasionais, e o cheiro de papel antigo parecia ainda mais forte, misturado ao de café já frio esquecido no balcão. Adam estava atrás do caixa, organizando uma pequena pilha de livros recém-chegados, quando o celular vibrou no bolso do avental.
Ele não precisou nem olhar para saber quem era.
Desde aquele dia em Howth, conversar com Vincent tinha se tornado quase automático. As mensagens surgiam nos intervalos improváveis: entre um cliente e outro, durante o almoço apressado, durante e após as aulas, à noite antes de dormir. Nada explícito, nada que ultrapassasse linhas óbvias, e ainda assim, tudo parecia carregado de uma intimidade silenciosa.
Falavam de livros. Vincent tinha um gosto surpreendentemente específico: romances melancólicos, biografias de compositores, edições antigas com anotações à margem. Adam contou sobre os livros que encontrava esquecidos entre caixas empoeiradas no sebo, sobre como às vezes sentia que certas histórias escolhiam quem as leria.
Falavam de música.
Adam descobriu, aos poucos, as composições favoritas de Vincent. Algumas ele já conhecia; outras, não. Vincent explicava por que certos trechos o desmontavam, por que determinadas harmonias pareciam dizer coisas que ele não conseguia colocar em palavras. Adam passava a ouvir essas músicas no fone, enquanto trabalhava, tentando imaginar Vincent do outro lado, concentrado, imerso, vulnerável daquele jeito que só a música permitia.
O celular vibrou outra vez.
Phantom: Ouve essa
Phantom: É impossível não sentir.
Adam apertou o fone no ouvido, deu play e deixou a melodia preencher o espaço entre as estantes. Por um instante, esqueceu completamente onde estava.
— Adam.
Ele ergueu a cabeça num susto.
Laura estava apoiada no balcão, braços cruzados, observando-o com um sorriso curioso demais para ser inocente.
— Hm? — ele respondeu, tirando um dos fones.
Ela inclinou o corpo, aproximando-se o suficiente para espiar a tela do celular antes que Adam tivesse tempo de bloqueá-la.
— Phantom? — Leu em voz alta, erguendo a sobrancelha. — Esse é um nome interessante.
Adam sentiu o calor subir pelo pescoço.
— É só… um amigo — disse rápido demais.
Laura sorriu, daquele jeito que deixava claro que não acreditava em uma única palavra.
— Um amigo que te faz sorrir assim? — provocou. — Não é o cara gatinho que apareceu aqui outro dia, é?
O coração de Adam deu um pulo desconfortável.
— Não — respondeu imediatamente. — Claro que não.
Ela o encarou por mais um segundo, avaliando. Depois deu de ombros, fingindo desinteresse.
— Sei. — Pegou um livro do balcão e começou a folheá-lo. — Bom, seja lá quem for, você tá distraído hoje. Quase entregou um dicionário de francês no lugar de um romance.
Adam pigarreou.
— É… eu fiquei meio avoado.
Ultimamente, Adam estava tentando ler títulos em francês e aprender o básico da língua. Não era que tivesse planos concretos, mas a ideia de entender melhor o idioma, as músicas, os comentários soltos que Vincent às vezes mencionava, começava a parecer tentadora. Como se aprender francês pudesse ser, de alguma forma, uma maneira discreta de entender mais sobre ele.
— Aham — Laura respondeu, claramente se divertindo. — Enfim, chegou uma caixa nova lá atrás. Quando puder, dá uma olhada.
Ela se afastou, deixando para trás aquele ar de provocação leve. Adam soltou o ar.
Olhou de novo para o celular. Para o nome salvo ali.
Digitou uma resposta curta, mas sincera.
Adam: Tô ouvindo agora.
Adam: Você tem razão. Não tem como não sentir.
Guardou o aparelho no bolso e voltou ao trabalho, tentando se concentrar. Mas, entre uma estante e outra, era impossível ignorar a sensação crescente de que aquelas conversas já estavam se infiltrando na sua rotina de um jeito perigoso demais.
***
O assunto surgiu de forma quase natural, enquanto eles estavam espalhados pelo pátio do campus, sentados nos bancos de concreto ainda quentes do sol da tarde. O movimento ao redor era constante: gente passando com mochilas nas costas, risadas soltas, cartazes sendo colados nos murais anunciando a festa de humanas daquele fim de semana.
— Vocês viram? — Tyler foi o primeiro a comentar, balançando o celular no ar. — Festa conjunta de Letras, Música, Artes Visuais… tudo junto. Vai ser gigantesca.
Isabelle se inclinou para ler algo na tela dele.
— Finalmente uma festa decente — disse. — Já tava achando que essa universidade tinha esquecido como se comemora qualquer coisa.
— E melhor ainda — Tyler continuou, com um sorriso que denunciava empolgação demais —, vai ser a primeira festa que eu e o Charles vamos juntos.
Finn arqueou a sobrancelha.
— “Juntos” tipo… juntos juntos? — provocou.
— Juntos de chegar juntos, sair juntos, provavelmente passar vergonha juntos — Tyler respondeu, rindo. — Ainda não estamos namorando, antes que você comece.
Finn soltou um riso discreto, enquanto Isabelle fazia um comentário qualquer sobre como Charles parecia “perfeitamente paciente” para aguentar Tyler em ambiente social.
Adam ouvia tudo em silêncio, fingindo prestar atenção em algo no celular. A empolgação do grupo contrastava com a sensação apertada no peito que começava a se formar. Ele sabia que Vincent estaria lá. Cursos de música, festa das humanas… era inevitável. A ideia de cruzar com ele naquele ambiente cercado de gente, de olhares, de possíveis interpretações o deixava inquieto.
Finn percebeu o silêncio dele.
— Ei, você tá muito quieto — comentou. — Não tá animado?
Adam deu de ombros.
— Tô… só fico meio assim com festa grande, você sabe.
— Normal — Finn respondeu, tranquilo. — Olha, vai ter pegação, gente de par, gente sozinha, gente que só vai pela música e pela bebida barata. Nada é obrigatório.
Tyler apontou para Adam.
— Exato. Você faz o que você quiser. Só não vale sumir no meio da noite.
Adam forçou um sorriso. Por dentro, porém, sabia que aquela festa não seria só mais uma. Não quando uma presença específica já ocupava seus pensamentos.
***
No dia da festa, o clima entre eles era leve, quase elétrico. Saíram juntos do dormitório rindo alto demais para aquele horário, atravessando o campus como se o mundo estivesse, por algumas horas, reduzido àquele grupo. Tyler falava sem parar, narrando possibilidades do que poderia acontecer na festa, Isabelle comentava sobre a playlist que tinha visto no evento, Min-su caminhava ao lado, mais quieto, mas com um meio sorriso constante, e Finn fazia piadas aleatórias, arrancando risadas de todos.
O espaço da festa já estava cheio quando chegaram. Luzes coloridas iluminavam o salão improvisado, a música ecoava forte, misturando vozes, risadas e o som de copos se chocando. Adam sentiu aquele impacto familiar no peito, o misto de animação e ansiedade que lugares assim sempre lhe causavam.
No começo, tudo correu bem. Eles pegaram bebidas, se espalharam perto de uma mesa alta, conversaram sobre absolutamente nada. Adam conseguiu relaxar um pouco… até que, ao erguer o olhar por cima da multidão, viu algo que fez seu estômago dar um leve salto.
A turma de música.
Vincent estava ali, alguns metros à frente, cercado por seus colegas. Ele estava rindo de algo que alguém dizia, gesticulando com as mãos, completamente à vontade naquele espaço. Adam desviou o olhar quase no mesmo instante, fingindo interesse exagerado no copo em suas mãos.
Fingiria que não tinha visto.
Virou-se de costas para a direção deles e se aproximou mais dos amigos, forçando-se a entrar na conversa. Riu quando Finn contou uma história absurda sobre um professor, concordou com Isabelle sobre a música estar alta demais, tentou se manter presente.
Tyler, por outro lado, estava visivelmente animado demais. Já falava um pouco mais alto, os gestos mais amplos, o sorriso fácil demais.
— Charles — Finn disse, apontando para ele com o copo. — Fica de olho. Se deixar ele beber muito, você vai virar piada amanhã.
Charles riu, passando um braço pelos ombros de Tyler.
— Prometo tentar manter esse aqui minimamente funcional.
— Ei! — Tyler protestou, indignado, mas rindo. — Eu nunca faria isso. Sou uma pessoa extremamente responsável.
— Extremamente — Finn confirmou, irônico. — Dá pra ver.
As risadas se misturaram à música, e por alguns minutos Adam conseguiu esquecer tudo o que não queria pensar. Ainda assim, a sensação persistia, como se, em algum ponto do salão, alguém pudesse estar olhando de volta.
***
Adam estava encostado perto de uma das colunas do salão, o corpo acompanhando a música quase sem perceber. Não era exatamente dançar, era mais um balançar leve da cabeça, um movimento discreto. Isabelle estava ao seu lado, gesticulando enquanto falava, visivelmente mais solta do que costumava ser em sala de aula.
— Às vezes eu me vejo muito em você, sabe? — ela disse, inclinando-se um pouco para que Adam conseguisse ouvi-la melhor por cima da música. — Nesse jeito… mais calmo. Como se a sexualidade não fosse uma urgência.
Adam sorriu de leve, concordando com a cabeça.
— Sei que você agora tá pegando alguém, mas mesmo assim… eu demorei muito pra entender isso — Isabelle continuou. — Achava que tinha algo errado comigo. Todo mundo parecia sempre com pressa de sentir, de fazer, de provar alguma coisa… e eu não. Aí eu vi você, e pensei: ok, talvez só existam pessoas diferentes mesmo.
— É… — Adam respondeu, sincero. — Nem todo mundo funciona no mesmo ritmo.
Mas enquanto dizia aquilo, sentiu um aperto estranho no peito. Porque, apesar de ainda se reconhecer naquela fala, havia uma parte dele que já não cabia mais ali com tanta facilidade. Ele estava se envolvendo. Não em teoria, não em hipótese distante, mas na prática. Com alguém que tinha nome, rosto, mãos quentes e um beijo que ainda parecia recente demais em sua memória. Algo que ele nunca tinha imaginado que aconteceria daquele jeito, tão de repente.
A música mudou, mais alta, e Isabelle comentou algo sobre ir pegar alguma bebida. Adam assentiu distraído, os pensamentos longe.
Foi então que seu celular vibrou no bolso.
Ele tirou o aparelho com cuidado, como se o gesto fosse mais significativo do que realmente era. O nome na tela fez seu coração acelerar antes mesmo de ele abrir a mensagem.
Phantom: Você consegue subir até o terraço? Aquele que te levei uma vez, lembra?
Adam engoliu em seco. O som da festa pareceu se afastar por um instante. Ele levantou o olhar imediatamente, varrendo o salão, procurando por Vincent entre os corpos, os rostos conhecidos e desconhecidos, os grupos espalhados.
Nada.
Vincent não estava ali.
O convite pairou na tela do celular, silencioso e insistente, enquanto Adam sentia aquela velha hesitação se instalar, misturada, agora, com uma expectativa que ele já não sabia mais fingir que não existia.
Ele guardou o celular no bolso por um instante, ainda parado no mesmo lugar, como se precisasse se convencer do próximo passo. Seus olhos percorreram o salão quase automaticamente, pousando nos rostos familiares.
Tyler ria alto de alguma coisa que Finn tinha acabado de dizer, a cabeça jogada para trás, completamente à vontade. Min-su estava ao lado deles, sorrindo de leve, menos expansivo, mas presente. Charles encostava no balcão, conversando com alguém enquanto segurava um copo, observando Tyler de vez em quando com aquele cuidado silencioso de quem presta atenção demais. Um pouco mais afastada, Isabelle falava animada com uma garota do outro curso, gesticulando como se estivesse contando uma história longa.
Ele respirou fundo e se aproximou do grupo.
— Gente — disse, elevando um pouco a voz por cima da música —, vou ali no banheiro rapidinho.
— Boa sorte — Finn respondeu de imediato, rindo. — Se você se perder, a gente te resgata.
Tyler apenas acenou com a mão, já distraído com outra coisa, e Min-su levantou o polegar em resposta. Ninguém questionou. Estavam alegres demais, imersos demais na própria noite.
Adam se afastou, sentindo o peso diminuir e, ao mesmo tempo, uma tensão nova se instalar.
Conforme deixava o salão principal, o som da música foi ficando mais abafado. Os corredores estavam mais vazios, iluminados por luzes frias que faziam tudo parecer ligeiramente irreal. Ele diminuiu o passo, tentando se lembrar do caminho. Só tinha ido ao terraço uma vez. Lembrava de uma escada lateral, uma porta que rangia um pouco, o ar frio batendo no rosto de repente.
Virou à esquerda. Depois hesitou, voltando dois passos. Olhou ao redor, reconhecendo vagamente uma placa, uma janela aberta para o pátio interno. O coração batia um pouco mais rápido agora, não só pela expectativa, mas pelo fato de estar indo.
Quando finalmente encontrou a escada, subiu devagar, cada degrau ecoando mais alto do que deveria no silêncio. Empurrou a porta no topo com cuidado.
O vento o atingiu imediatamente, frio e familiar.
Adam saiu para o terraço, fechando a porta atrás de si, e respirou fundo, tentando se preparar para quem encontraria ali.
Vincent estava encostado perto da mureta, o corpo levemente inclinado para a frente, o cigarro aceso entre os dedos. A brasa iluminava seu rosto de forma intermitente quando ele puxava a fumaça. Ao ouvir os passos de alguém, virou-se quase no mesmo instante.
Quando viu Adam, abriu um sorriso espontâneo, daqueles que parecem acontecer antes mesmo de a pessoa pensar neles.
— Ei.
Adam parou a alguns passos de distância, sentindo o vento frio bater no rosto, tentando ignorar o fato de que o coração tinha acelerado de imediato.
— O que você tá fazendo aqui sozinho? — Adam perguntou, num tom baixo, como se não quisesse quebrar o clima.
Vincent deu de ombros, soltando a fumaça devagar para o lado, longe dele.
— Precisava de um espaço — respondeu. — Festas me cansam rápido. Muita gente, muito barulho… — fez um gesto vago com a mão. — Às vezes eu só preciso sair um pouco.
Adam assentiu quase automaticamente.
— Eu entendo. Também não é muito a minha praia — disse. — Eu até tento, mas… — deixou a frase morrer.
Vincent sorriu de novo, agora com algo mais suave no olhar, como se aquilo confirmasse alguma coisa.
Ele deu a última tragada, apagou o cigarro com cuidado no cinzeiro improvisado perto da mureta e deixou-o ali. Depois, virou-se completamente para Adam.
— Eu gosto das nossas conversas — disse, simples, direto.
O comentário pegou Adam desprevenido. Sentiu o calor subir pelo rosto antes que pudesse controlar. Desviou o olhar por um segundo, engolindo em seco, sem saber o que responder sem parecer bobo demais.
Vincent não pareceu se importar com o silêncio. Deu um passo à frente. Depois outro.
Adam sentiu antes mesmo de pensar. O corpo reagindo sozinho: o estômago se apertando, a respiração ficando curta, uma eletricidade estranha percorrendo tudo. Quando percebeu, Vincent já estava perto o suficiente para que o vento deixasse de existir entre eles.
O beijo aconteceu sem anúncio. Não foi brusco, nem totalmente contido, foi inevitável. Vincent tocou seu rosto com cuidado, e Adam correspondeu quase imediatamente, como se já estivesse esperando por aquilo desde o primeiro segundo. O mundo ao redor pareceu se afastar, o som da festa ficando distante, irrelevante.
Quando se separaram, Adam ainda estava tentando recuperar o ar quando as palavras escaparam antes que ele pudesse segurá-las.
— Eu… — começou, a voz baixa. — Eu nunca senti isso antes com ninguém.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas suficiente para o medo se instalar. Adam sentiu o peito apertar, o pensamento vindo rápido demais: falei demais. Vulnerável demais. Exposto demais.
Ele desviou o olhar, passando a língua pelos lábios, já se preparando para se retrair, para consertar o que disse sem querer.
Mas Vincent não se afastou.
Eles ficaram ali por mais alguns minutos, sem pressa. Encostados na mureta, lado a lado, observando as luzes espalhadas pelo campus, os prédios iluminados, janelas acesas aqui e ali, a música distante subindo em ondas abafadas. Às vezes não diziam nada. Às vezes trocavam palavras soltas, quase sussurradas, que se perdiam no vento.
O beijo voltava em intervalos curtos, naturais. Um toque rápido, outro mais demorado. Nada apressado, nada escondido naquele espaço suspenso, como se o terraço existisse fora do tempo da festa.
Adam sentia uma calma estranha, nova.
***
O caminho até o terraço estava quase vazio, iluminado apenas por algumas luzes distantes do campus. Tyler caminhava à frente, puxando Charles pela mão, já imaginando onde poderiam se esconder da música alta e da circulação de gente.
Ele conhecia bem aquele lugar.
Tinha escapado por ali mais vezes do que podia contar.
Foi quase por hábito que seus olhos se voltaram para a porta entreaberta no final do corredor.
E então ele viu.
Dois homens encostados na mureta, próximos demais para ser só uma conversa. Um deles estava parcialmente de costas, mas o gesto era inconfundível: a mão apoiada no rosto do outro, o corpo inclinado, a intimidade explícita.
Tyler diminuiu o passo.
O sorriso que ainda carregava nos lábios desapareceu lentamente.
Quando reconheceu Adam, seu corpo inteiro travou.
Adam Byrne.
O Adam que desviava o olhar quando alguém fazia alguma piada sexual demais.
O Adam que sempre parecia existir meio à margem dessas coisas.
O Adam que, até onde Tyler sabia, mal tinha se permitido beijar alguém na vida.
E o outro homem…
Tyler sentiu o estômago afundar quando o reconheceu também.
Vincent.
O mesmo Vincent que andava com Marcel, Laurent e Miles.
O mesmo Vincent que estivera lá naquela noite.
A imagem veio inteira, violenta: Finn chorando no meio do bar, humilhado, enquanto Miles ria. Laurent comentava algo baixo. Marcel se divertia. E Vincent, silencioso, com aquele sorrisinho discreto, observando como se fosse apenas mais um espetáculo.
O beijo no terraço era lento, intenso demais. Dava pra perceber que Adam não estava sendo puxado e nem estava hesitando. Ele correspondia.
Tyler sentiu o choque subir pelo peito como eletricidade.
Não era só surpresa. Era incredulidade.
Era como se alguém tivesse quebrado uma regra não escrita, mas sagrada.
Adam… com ele?
Charles percebeu que Tyler tinha parado completamente.
— Tyler? — perguntou, baixo. — O que foi?
Charles seguiu o olhar dele e reconheceu Adam quase de imediato. Franziu a testa, confuso, tentando entender por que aquilo parecia ter arrancado o chão debaixo dos pés de Tyler.
— O que tem de errado naquilo?
Tyler demorou um segundo a responder. A cena ainda estava ali, crua demais. Adam beijando Vincent como se nada do passado importasse. Como se Finn não existisse. Como se aquela dor nunca tivesse acontecido.
— A gente não devia estar aqui — disse por fim, a voz estranhamente controlada.
Havia algo duro ali, contido demais para alguém como Tyler.
Ele segurou o pulso de Charles, não com força, mas com urgência.
— Vamos sair daqui. Agora.
Charles abriu a boca para perguntar mais alguma coisa, mas Tyler já tinha se virado, guiando-o de volta pelo corredor. Seus passos eram rápidos, quase nervosos.
Enquanto se afastava, Tyler não conseguia tirar uma única pergunta da cabeça:
Como o Adam pôde fazer isso?
Não era só sobre beijar alguém.
Era sobre quem ele tinha escolhido.
Era sobre beijar alguém que fazia parte daquele grupo. Daquele passado.
O terraço ficou para trás, mas a imagem não.
Tyler sabia, naquele instante, que nada mais naquela noite seria simples.
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