Notas iniciais
"Mas eu estou tão envolvida... você sabe o quanto sou uma tola por você. Você me tem atada entre os seus dedos. Você tem que deixar isso se prolongar?" Noel Hogan/ Dolores O'Riordan

O dia ainda não havia clareado totalmente quando Hinata sentiu um cutucão nas costelas. Sasuke mantinha os olhos rigidamente sobre ela.

― Vamos embora – ele declarou.

Ela levantou-se e o seguiu, logo estava adiante dele para a completa ira de Sasuke. O segundo dia de buscas teria sido idêntico ao primeiro, se não fosse por volta das onze da manhã, Hinata encontrar algo que pareceu como um utensílio doméstico.

― Parece um tipo de talher ocidental. – ele falou ao observar o objeto ainda nas mãos dela.

De fato era um garfo dourado. Hinata mordeu a extremidade.

― É ouro maciço.

Ambos já tinham visto um daqueles em outros países por onde passaram em outras missões. Aparentemente, agora era moda entre os senhores feudais imitar alguns dos costumes ocidentais, comer com talheres metálicos era um deles, quanto mais nobre o metal, mais rico o senhor feudal era. Então se aquele era um garfo de ouro, então é provável que comerciantes muito ricos tenham passado por aquela região, já que ali não era rota e nem morada de nenhum senhor feudal, poderiam muito bem ser os comerciantes que eles procuravam. Hinata vasculhou mais a área em busca de outras pistas, mas nada encontrou. Já era azar do comerciante perder uma mercadoria cara como aquele garfo, não dava pra esperar que ele tivesse perdido mais coisas além daquilo.

Vasculharam a área por mais algumas horas e descobriram marcas quase apagadas de rodas de uma carroça, pela profundidade dos sulcos, a carroça provavelmente estava cheia quando passou por ali. Pêlos da crina de um cavalo e evidências de que uma fogueira tinha sido feita. Tudo corroborava a ideia de que os comerciantes passaram por ali, ou o desejo deles era tão forte que queria que aquelas fossem provas da passagem dos comerciantes que levaram seu filho embora, mas se essa missão tivesse outro componente, essa pessoa teria a triste tarefa de notificá-los de que aquilo não provava nada, poderia ter sido qualquer um que passou por ali e deixou aquelas marcas. Mas não queiram que pais sejam sensatos quando se trata de recuperar um filho perdido, qualquer mínimo detalhe ele consideravam como prova irrefutável e a perseguiam como suas vidas. Era esse o estado de espírito de Sasuke e de Hinata, pelo menos isso eles tinham em comum.

Vários dias se passaram naquela busca cega, correndo e vasculhando todo o local em buscas de mínimas pistas que pudessem revelar a localização de seu filho, mas era uma busca difícil e aparentemente infrutífera. Após alguns dias chegaram a um pequeno e humilde vilarejo de pescadores. Sasuke sugeriu pousarem por lá e quem sabe arrumar um barco para seguir viagem pelo rio, seria mais rápido, mas Hinata preferiu ir por terra para assim não perder mais pistas que com certeza encontrariam. Acabaram concordando em descansar ali por aquela noite e depois seguiriam a pé. Sasuke encontrou uma estalagem, que nada mais era do que a casa da esposa de um dos pescadores onde ela servia refeições e tinha alguns quartos disponíveis para pernoite. A senhora ofereceu um quarto ao belo casal, mas Sasuke rudemente exigiu dois.

Hinata pegou uma toalha que a senhora ofereceu e foi banhar-se. Sasuke fez algumas perguntas à dona da estalagem sobre a possível passagem de alguns comerciantes, mas ela não se lembrava de nada específico.

― Muita gente passa por aqui, comerciantes passam aos montes, mas não me lembro de nenhum específico que trazia uma criança.

Sasuke calou-se com a ignorância da mulher, ela não tinha culpa de não se lembrar de algo tão trivial como uma rápida visita de comerciantes. A mulher aproveitou para notificá-lo de que a noite os pescadores estavam de volta, ele poderia conseguir mais informações com eles. Sasuke assentiu e pegando uma toalha, foi banhar-se também. No corredor estreito passou por Hinata, que já saíra do banho, a pele quente e ainda molhada, os cabelos úmidos que ela tentava secar. Tentou ignorá-la, mas foi impossível, ainda mais com ela olhando diretamente para ele, aqueles olhos sedutores, na boca um meio sorriso que pareceu tão convidativo aos olhos dele. Ela fez menção de parar e falar algo com ele, mas Sasuke a empurrou com raiva o que a fez esbarrar contra a parede grosseira e arranhar-se. Um “ai” muito sentido foi ouvido, mas ele não parou para prestar solidariedade e correr o risco de cair nas teias dela mais uma vez.

Ao final do banho, Sasuke foi ver se conseguia algo para comer, já que uma refeição estava incluída no preço que pagou pela estadia. As luzes da estalagem estavam apagadas e ele ouviu vozes e risadas vindo do lado de fora. Ao sair, encontrou o que parecia ser uma de comemoração que os moradores faziam. No centro uma fogueira com grandes peixes assando, os homens conversavam, bebiam e brincavam com as crianças, enquanto as mulheres serviam caldo de legumes e arroz com o peixe assado. Ele aproximou-se e serviu-se de uma tigela. Inconscientemente procurou por Hinata, a encontrou sentada do outro lado, o braço amarrado com uma faixa no local onde ele a havia ferido acidentalmente. Ele teria sentido pena se não fosse por ela estar rodeada de rapazes que ofereciam diversas coisas para ela, comida, água, sakê, frutas, ele achou ter visto até mesmo flores no meio das oferendas. Hinata somente sorria timidamente e aceitava tudo, sem olhar diretamente nenhum dos rapazes. Sasuke ficou com raiva, pensou que a Hinata bem que merecia uma surra por agir como uma vadia enquanto o filho estava perdido no mundo. Comeu em silêncio sem parar de observá-la, aos poucos os rapazes foram se dispersando, somente um ficou tentando puxar assunto. Hinata respondia monossilabicamente, até que o rapaz disse algo que chamou verdadeiramente a atenção dela, trocaram mais algumas palavras e o rapaz levantou-se fazendo gestos para que ela a seguisse. Obviamente, Sasuke foi atrás.

Viu quando entraram em uma pequena casa mais afastada do grupo, as luzes estavam todas apagadas. Ele sentiu o estômago revirar-se por imaginar o que ela faria com aquele homem. Quando aceitou que ela o acompanhasse na missão, deixou bem claro que qualquer erro ou aborrecimento que ela causasse colocaria fim à vida dela. Oras, deitar-se com o primeiro pescador que aparecesse com certeza era um erro, então agora ele tinha passe livre para matá-la. Sorrateiramente entrou na casa, as luzes apagadas, tudo em silêncio. Ouviu vozes abafadas vindas do fundo da casa. Sasuke se segurou muito para não explodir todo o local com o seu Chidori, mas achou que seria melhor matar os dois em silêncio e fugir sem causar suspeitas. Atravessou toda a casa, e no quintal dos fundos encontrou Hinata segurando uma pequena peça de roupa, ao seu lado o jovem pescador a olhava com os olhos brilhando, totalmente encantado pela aparência dela. Hinata percebeu a presença de Sasuke e estendeu a peça para ele ver.

― Veja Sasuke! – ela disse empolgada – veja o que ele encontrou!

Sasuke olhou o rapaz de canto, que se perguntava como aquele homem tinha aparecido tão repentinamente. Das mãos de Hinata ele pegou um macacão de bebê, inteiro branco. O macacão não diria nada a ele se não fosse por uma pequena etiqueta na gola com o símbolo de Konoha bordado.

― Ele disse que um casal de comerciantes de hospedou aqui a cerca de um mês, eles tinham um bebê pequeno que usava esse macacão. Ao partirem acabaram esquecendo.

― E eu guardei para o meu sobrinho que vai nascer em alguns meses – o pescador declarou.

Então era isso. Sasuke sentiu-se ao mesmo tempo aliviado e desgostoso, queria uma desculpa para matar a Hinata, ou pelo menos espancá-la, mas ela já havia encontrado pistas importantes que acabariam por levá-lo ao Hitachi.

― E para onde eles foram? – Sasuke se dirigiu ao pescador.

― Não sei não senhor, ninguém perguntou e eles não disseram. A gente aqui não se mete na vida de ninguém não.

Sasuke olhou o rapaz com desprezo.

― Vamos embora, Hinata. Partiremos de madrugada.

Hinata fez menção de devolver a peça ao pescador, mas ele disse que podia ficar com ela, se isso fosse ajudá-la a encontrar o seu menino. Ela agradeceu ao pescador e saiu junto com Sasuke. Do lado de fora, Sasuke não pôde deixar de começar com sua implicância.

― Não posso me distrair um minuto e você já vai se metendo na casa do primeiro que aparece?

― Eu só fui lá porque ele falou que encontrou um macacão de bebê que tinha uma etiqueta com um desenho igual ao do meu hitaiate, na hora pensei que fosse algo de Konoha. Agora sabemos que pode ter sido o macacão usado pelo Hitachi.

― E como ía pagá-lo por essa pista?

― Não iria pagá-lo de nenhum jeito, nem todo mundo age querendo algo em troca.

― Mas você está sempre disposta a dar algo em troca, não é? – Sasuke queria ofendê-la de propósito.

Hinata não respondeu nada, saiu andando apressada na frente dele. Não estava a fim de arrumar uma briga com ele e comprometer o sucesso da missão que até agora estava indo muito bem. Mas Sasuke não gostou de ser deixado pra trás falando sozinho. Alcançou-a quando ela estava quase de volta à estalagem, segurando-a pelo braço já machucado, a impediu de entrar.

― Me responde quando eu falar com você! – ele exigiu.

― Me solta!

― Fala pra mim que se eu não aparecesse você já estaria na cama com aquele maldito.

Hinata olhou incrédula para ele. Sasuke a considerava uma verdadeira vadia que faria qualquer coisa com qualquer homem para conseguir o que queria e, embora ela soubesse que ela mesma não era assim, não adiantaria negar ou tentar se defender, a história que tiveram terminara de maneira muito dolorosa, não poderia esperar que ele confiasse ou sequer respeitasse ela. Com isso em mente, ela livrou-se dele com um forte puxão no braço e entrou para a hospedagem, fechando-se no seu quarto em seguida. Sasuke poderia ter deixado passar, mas a seguiu de perto. Como não havia tranca na porta, ele não teve dificuldade em entrar no quarto dela. Hinata estava sentada na cama, as mãos cobrindo o rosto, o corpo tremendo pelo nervoso.

― Quando eu te fizer uma pergunta, você me responda! – ele entrou no quarto com um chute na porta, gritando e assustando ainda mais a garota.

Hinata queria falar mas não conseguia, ela tremia de nervoso pelas acusações injustas dele e pelo tratamento desumano que estava recebendo. Sentiu uma intensa saudade de quando ele era doce e gentil em tudo o que se dizia a ela, lembrou-se desgostosa que quando ele a tratava dessa maneira, ela o ofendia e o rejeitava maldosamente, então achou que merecia mesmo o tratamento que estava recebendo, embora quisesse receber beijos ao invés de gritos e xingos. Só que já havia sido rejeitada, o divórcio estava assinado, não havia salvação para o amor que sentia por ele, então não tinha problema algum em pelo menos se defender.

― Hinata, eu estou falando com você! – Sasuke insistiu – você estaria na cama com ele se eu não tivesse aparecido?

― E se eu estivesse? – ela rebateu – você já me rejeitou e o divórcio está assinado, você não tem mais nada a ver com isso.

Com rapidez, Sasuke desembainhou a espada e colocou a ponta na garganta dela.

― Eu disse que ao menor aborrecimento, você morreria.

Hinata tremia, mas não quis demonstrar fraqueza diante dele. Manteve os olhos fixos nos dele e o desafiou.

― Faça isso, Sasuke. Se realmente quer me matar vá em frente.

Ao mesmo tempo que a rebeldia oculta da ex-esposa instigava Sasuke, isso também deixava ele nervoso. Ele não costumava ameaçar ninguém, com ele era matar sem avisar. Pensou no corpo dela sem vida, a pele branca e ensaguentada, o olhar vazio no nada. O pensamento deixou-o estranhamente excitado. Pensou que com ela morta poderia possuir o corpo dela sem culpas, mas logo afastou a ideia, absurda demais para fazer sentido.Hinata tinha outros atributos que o atraíam, o som da voz, o calor e o perfume do corpo, os movimentos graciosos e precisos. Ficou com mais raiva ainda ao constatar que a desejava apesar de tudo.

― Eu não vou matá-la... ainda. – Sasuke embainhou a espada sem a ferir. – mas assim que eu encontrar meu filho vou me livrar de você.

Hinata baixou os olhos, algumas lágrimas teimaram em escapar, mas ela não queria que ele visse que suas palavras a haviam machucado daquela maneira, ouviu os passos dele saindo e porta sendo fechada, enquanto ela se jogava na cama e permitia que aquele choro inundassem seus olhos. Não foi o que ele disse, foi como ele disse. O som da sua voz pareceu muito sincero ao pronunciar a última sentença. Ela sabia que no final ele não a mataria coisa nenhuma, mas só de pensar que ele de fato a queria morta, longe da sua vida, a deixava arrasada. Pensou que quando recuperassem Hitachi, Sasuke ficaria com a guarda do menino e tomaria outra esposa. Então a ela não seria permitido participar da vida do garoto, ela seria uma estranha, enquanto a nova esposa seria uma excelente mãe e roubaria dela os melhores anos do seu filho. Pensou em Hitachi já crescido a tratando com indiferença, com a cortesia dispensada aos conhecidos, mas nenhum sentimento caloroso e passional que os filhos costumam ter por suas mães. Para completar, imaginou Sasuke com a nova esposa, como ele a trataria com delicadeza e a amaria apaixonadamente, sentimentos que antes eram todos dela, agora seriam dados a outra mulher que aceitaria de bom grado. O gosto amargo do ciúmes preencheu sua boca. Pensar nisso deixou Hinata mais pra baixo ainda, dormiu chorando, tendo sonhos confusos e desconexos, onde em todos eles, Sasuke e Hitachi se afastavam dela.

Notas finais
Antes de tudo, gostaria de agradecer a todos que começaram a acompanhar a FIC e estão dando seu voto de confiança pra mim, mas preciso avisá-los que essa FIC será muito diferente de Ano Baka. Primeiro, não vai ter tanto hentai como em Ano Baka (ah, que pena :P ), segundo será mais curta, embora dinâmica, pois não pretendo enrolar tanto a história e, por último, eu pretendo mostrar que todos os personagens estão um pouco mais maduros, então não esperem loucuras da parte da Hinata, mas não se iludam com o Sasuke, ele continua malvado e não vai perdoá-la tão facilmente. Aguardo o review de vocês, kissu!