Tsufuru Mania
13 Capítulo XI
- BU! — disse uma voz vinda das sombras. Chiri, Purin e Keki deram um salto para trás. Por um instante pensaram que teriam de lutar contra algum monstro, mas o tal “monstro” que os assustou agora estava agachado no chão, tremendo de rir — Consegui, consegui!
Sob a luz fraca das plantas e larvas luminosas, o trio pôde ver melhor o monstro, e logo perderam o medo: parecia só uma senhora. Pequena como os tsufurujins. Andava de um lado para o outro se apoiando em seu cajado, emocionada com a pegadinha que acabara de pregar. Ela usou os dedos do pé para pegar do chão um cachimbo que deixou cair, e deu uma tragada, satisfeita. Depois andou para mais perto do trio misterioso (que nem se mexeu). “Fazia mais de vinte anos que não dava um susto em alguém”.
Keki deu uma risadinha, desconcertado, e os outros dois seguiram sua deixa. A senhora fez uma reverência para eles, lisonjeada, até que de repente ela fez uma expressão muito surpresa: “Espera, DE ONDE VOCÊS VIERAM?!”
- Lá de cima, da montanha. Na verdade, mais de cima ainda, do espaço. De um outro planeta — disse Purin — Estamos procurando abrigo, porque o tempo está bem ruim lá fora.
- O tempo É bem ruim lá fora — disse a senhora, e saiu andando para o outro lado — Mas tudo bem. Sobrou um ensopado que eu ia jogar fora, mesmo.
O trio começou a segui-la, pois achavam que ela esperava isso. “Eu sou Purin, e estes são Keki e Chiri”. A senhora se apresentou como “Konbu”. Ela também apontou para uma larva no chão e disse que se chamava Komugi.
- Aquela se chama Mochi. A outra ali atrás se chama Piko, e esta aqui é a pequena Koro — Konbu continuou dizendo o nome de todas as larvas enquanto avançavam. Logo começaram a passar sob umas criaturas penduradas no teto, que pareciam morcegos, e Konbu falou o nome de todas elas também. Esses morcegos até mesmo tinham histórias de fundo, que Konbu contava em detalhes.
- E você acha que a Puramu devia mesmo ficar com o Rakkasei? — perguntou Keki. Chiri o encarou e deu uma cotovelada.
- O coração quer o que o coração quer, Purin. É o que eu sempre digo.
- Eu sou o Purin!
Assim, Purin, Keki e Chiri seguiram Konbu montanha adentro. Enquanto avançavam, aos poucos a temperatura foi aumentando, até que quase não fazia mais frio. Não demorou muito para escutarem o crepitar de chamas, logo viram bacias de argila no chão e em suportes de pedra nas paredes, e nessas brilhavam chamas de várias cores, até que o grupo nem precisava mais de suas plantas para iluminar o caminho. Passaram por um vaso que estava apagado, mas então Konbu despejou um pó estranho dentro dele, e com seu cajado, conjurou um fogo vermelho que ficou queimando dentro do vaso. Era estranho ver plantas crescendo tão fundo em uma caverna, mas havia um bom número delas por ali, dentro de vasos ou buracos cheios de terra.
Finalmente chegaram no destino. Um grande salão redondo com vasos de chamas dispostos organizadamente pelos cantos, deixando poucos pontos mal iluminados. No meio havia banquinhos de madeira ao redor de uma fogueira apagada, sob um grande caldeirão, que pelo cheiro, certamente continha o ensopado que Konbu mencionou antes. Em um canto, havia uma estrutura de madeira com folhas e musgo dentro, e um tecido ao lado; devia ser a cama. O chão e as paredes eram um pouco mais lisas que nos túneis de onde o grupo veio, e havia mais alguns túneis também iluminados, levando a outros cômodos. Aquele lugar parecia pertencer a outro mundo, completamente diferente do caos lá fora.
Konbu foi até o caldeirão de ensopado e pegou umas tigelas para servir os convidados. Purin, Keki e Chiri estavam maravilhados com aquele lugar, e já começavam a se sentir melhor, embora ainda espirrassem bastante.
- Estão ficando com gripe, é? Ah, na verdade deve ser a radiação consumindo vocês de dentro para fora — disse Konbu, rindo como se aquilo fosse uma grande piada, enquanto o trio se entreolhou, espantado — Esse planeta está cheio disso! Na verdade, nem sei como vocês ainda estão vivos. Mas tudo bem, vou colocar um pouco mais dos meus super cogumelos mágicos anti-radiação. É minha receita secreta. Todas as minhas receitas são secretas.
Sem muita pressa, ela foi até um tronco de árvore oco e tirou de dentro alguns cogumelos, os amassou e colocou no ensopado e o mexeu, depois de reacender a fogueira. Purin e os outros se serviram. Tinha um sabor meio exótico; cremoso, meio terroso e ao mesmo tempo suave, ligeiramente apimentado e frutado. Purin e os outros teriam comido qualquer coisa, já que além da fome aquilo talvez os livrasse da radiação. Mas o ensopado estava bom.
- Cara, a gente tem que buscar os outros! — disse Keki, depois de terminar sua tigela.
- Deixa que eu vou — disse Chiri, quando os outros já iam se levantando — Vocês ainda estão com uma cara péssima. Eu volto logo.
Purin se levantou e foi até Konbu. Meio sem jeito, ele agradeceu pela comida, e mencionou os outros tsufurujins que logo estariam ali. “Espero que não seja uma problema… A gente realmente não imaginou que iriamos pousar em um lugar tão inóspito, e se puder nos ajudar com mais dessa sopa, ia ser bem… legal”. Konbu pareceu ficar aflita com o pedido. Ela andou de um lado para o outro murmurando algo — Purin teve a impressão de que ela estava ensaiando piadas — e então ela catou ingredientes para fazer mais sopa.
Uma hora depois, o lugar estava cheio de tsufurujins famintos. Konbu se manteve ocupada servindo a todos e contando piadas. Keki ajudou mexendo o caldeirão com uma colher de madeira, quando Konbu colocou mais sopa para esquentar. Razuberi também se ofereceu para ajudar lavando a louça, mas Konbu recusou, dizendo “a sopa fica melhor ainda quando tem restos da sopa anterior no prato”. Alguns tsufurujins, depois da terceira ou quarta rodada e depois depois de explorarem o ambiente, começaram a cabecear de sono, e foram levados a um outro cômodo onde havia mais folhas secas e musgo cobrindo o chão, e lá puderam dormir, depois de agradecer bastante à anfitriã.
Purin deu um longo suspiro. De vez em quando ainda pensava nas coisas ruins que aconteceram em Planta — que agora se chamava Planeta Vegeta — mas tentou afastar esses pensamentos de sua mente e se sentir apenas aliviado por um momento. Ele olhou para Chiri do outro lado do salão. A saiyajin também devia estar muito pensativa, ali olhando para as chamas da fogueira, então Purin decidiu ir falar com ela.
- Ei, você está legal?
- Essa caverna é bem maneira, né? — ela segurava um graveto e colocou uma ponta na fogueira, criando uma mini tocha, e ficou brincando com ela — Ainda bem que chegamos até aqui. Mas…
- Não se preocupe. Ainda podemos voltar — disse Purin, que descobriu no que ela estava pensando — As naves menores ainda têm algum combustível, deve ser suficiente para voltar para Planta. Lá a gente pode dar um jeito de conseguir mais combustível para a nave maior, e procurar outro planeta…
Na verdade, Purin se deu conta de que ainda não sabia o que ia acontecer. De fato, as naves esféricas tinham combustível, mas como poderiam conseguir mais em Planta, com tantos inimigos em todo canto? Além disso, Chiri, Otosu e os outros talvez não tivessem tantos motivos para encontrar outro planeta para morar, enquanto para os tsufurujins, aquele era o único caminho.
- Que bom. Quero ver meus amigos de novo — disse Chiri, apagando a tocha com a mão — e fazer um acerto de contas.
Mais tarde, a caverna voltou a ficar silenciosa, com exceção do crepitar das chamas. O caldeirão de sopa havia sido guardado, e Purin, Keki e Chiri eram os únicos convidados ainda acordados, e estavam sentados juntos no salão principal, olhando a fogueira. Konbu foi se sentar perto deles, acendeu seu cachimbo e ficou soprando anéis de fumaça colorida, relaxada.
- Vocês são pequenos igual a mim, mas comem tudo que veem pela frente! Aposto que é por isso que vieram para este planeta, porque acabou a comida no de vocês — disse Konbu, rindo.
Ninguém ali entendia muito sobre regras de etiqueta interplanetária, mas aquele comentário pareceu rude. Apesar disso, Purin e os outros já se acostumaram com o jeito dessa estranha anfitriã. Ela parecia não saber lidar muito bem com outras pessoas, mas ainda assim, às vezes dizia coisas engraçadas e até bondosas. Ficaram conversando por um bom tempo, e Purin, Keki e Chiri contaram tudo sobre como chegaram até ali. Contaram sobre como os tsufurujins e saiyajins viviam no mesmo planeta, sobre como todos prosperavam e os tsufurujins estavam evoluindo cada vez mais tecnologicamente, e se preparavam para desbravar o espaço sideral, até que houve a guerra, o extermínio dos tsufurujins, e a fuga improvisada para fora do planeta. Konbu ouviu a tudo muito séria, de vez em quando parando para murmurar para si.
- A gente não tinha planejado sair de Planta — contou Purin — No final das contas, talvez tivesse sido melhor assim, porque se tivéssemos continuado lá, poderíamos ter sido capturados de novo logo em seguida. De qualquer maneira, acho que ainda precisamos voltar, porque precisamos de mais combustível para as naves, e encontrar algum lugar para morar…
- Ora, mas aqui tem combustível. Deve ter muito, e deve funcionar para as suas naves — disse Konbu — Não aqui, mas lá na cidade. Ou no que restou da cidade.
- Tem cidades neste planeta?! — perguntou Purin.
- Isso não importa, a gente ainda precisa voltar! — interrompeu Chiri — Como poderia haver outro jeito? O Rei Vegeta destruiu a imagem de seu povo, e destruiu… bem, o seu povo inteiro. Na verdade, como você pode ter tanta certeza que não houve mais sobreviventes? Precisamos voltar e salvar o que puder ser salvo, e nos vingar de quem causou tudo isso, inclusive daquele seu amigo que te traiu.
O trio ficou discutindo, compartilhando suas opiniões, criando estratégias e previsões, especulando e tentando decidir o que fazer. Konbu ficou escutando em silêncio, perdida em seus próprios pensamentos, até que começou a chegar a uma conclusão.
- Você disse que queria voltar ao seu planeta para buscar mais combustível… Então tem outras naves espaciais lá?
- Sim, por que? — perguntou Purin.
- Ai ai… Parece que dessa vez o grande filtro não fez efeito.
- Espera, que negócio é esse de grande filtro? — perguntou Keki.
- Vocês já se perguntaram sobre o motivo de nunca ter havido nenhuma outra forma de vida alienígena visitando seu planeta?
Konbu deu uma longa tragada em seu cachimbo antes de começar a explicação. Ela soprou anéis de fumaça que voaram sobre a fogueira e assumiram diversas formas diferentes para ilustrar o que ela dizia. Alguns se transformaram em grandes esferas para ilustrar planetas, outros eram pontos brilhantes que lembravam estrelas, e alguns até criaram braços e pernas quando começaram a surgir personagens na história. Era uma apresentação com um tema sombrio e apresentada de um jeito maravilhoso, que até os morcegos voaram para perto para ouvir melhor. Na verdade Konbu ensaiou essa apresentação algumas vezes ao longo dos anos, e estava satisfeita, apesar de tudo, por finalmente ter outras pessoas para ouvi-lá. Ela falou por um bom tempo — parando apenas algumas vezes para dar bronca em algum bonequinho de fumaça que tivesse esbarrado em outro ou se confundido. A história foi assim:
“Vocês já se perguntaram quantos planetas diferentes abrigam formas de vida inteligente neste infinito universo? Milhões, bilhões, trilhões? Se é assim, a chance de ter algum ser alienígena te visitando em seu planeta devia ser gigante. Apesar disso, vocês são os primeiros alienígenas que eu vejo, bem no fim da vida do meu planeta. É claro, cruzar o espaço não é uma tarefa fácil, mas com tempo e recursos suficientes, qualquer civilização consegue desenvolver a tecnologia necessária para isso. A não ser que haja alguma barreira natural para isso, algo que em algum momento irá afetar qualquer forma de vida que se torna inteligente. Esse é o grande filtro, como dizia o meu povo. E ironicamente, nós fomos barrados pelo filtro.”
“No nosso caso, foram as guerras e o planeta ficando doente. Não entendo muito disso, porque eu só queria ficar colhendo meus cogumelos, mas meu povo estava chegando muito perto de começar a desbravar o espaço. O problema é que eles aprenderam a construir bombas bem fortes antes disso. Explosões começaram a acontecer aqui e ali, a atmosfera foi ficando cada vez mais tóxica, e logo sair do planeta se tornou mais uma questão de sobrevivência do que de curiosidade. Mas então aconteceu a erupção de um grande vulcão que cobriu todo o céu, que já era bem cinzento. Nunca mais houve um pôr do sol. A essa altura, já era tarde demais para sair do planeta, e todos morreram. Bem, quase todos. Se existe alguém além de mim, deve estar escondido em algum outro buraco. Eu sobrevivi graças a esses cogumelos. Acho que eles se alimentam de radiação, aí eu me alimento deles.”
“Mas então, pelo que vocês me contaram, o grande filtro de vocês foi apenas a guerra. Pelo menos para vocês dois, tsufurujins. Esses tais saiyajins, além da senhorita" Konbu acenou com a cabeça para Chiri, que estava concentrada na explicação. “Eles estão vivos e bem no seu planeta. Planta, não é? Os saiyajins podem não ter criado as naves espaciais, mas eles ainda têm as naves criadas pelos tsufurujins, pelo que você me disse. Então será apenas uma questão de tempo — e tempo eles têm de sobra, já que o planeta ainda é habitável — para eles descobrirem como usar as naves, e ainda como criar naves novas a partir das que eles já têm. E se esses saiyajins são tão agressivos como vocês me contaram, aposto que logo eles vão querer sair por aí dominando outros planetas. Talvez a galáxia inteira. A vizinhança está arruinada” Konbu recostou no banquinho. Estivera com o semblante sério o tempo todo, e então finalmente relaxou. Ela finalizou sua apresentação, rindo: “Bem, vocês não precisam se preocupar. Nunca que os saiyajins vão querer dominar este planeta horrível!”
O grupo ficou em silêncio por um longo tempo, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Purin estava aflito, porque concordava com o que Konbu falou: ele próprio chegou a explicar o básico sobre viagens espaciais para o Rei Vegeta, e constatou como ele era muito inteligente, em relação aos outros saiyajins. Seria só uma questão de tempo até eles começarem a viajar pelo espaço e criarem mais naves. Purin imaginou a destruição de Planta acontecendo em outros planetas também, e sabia que precisava fazer alguma coisa.
- A gente precisa voltar para Planta, agora — disse Chiri, que estava agitada, andando de um lado para o outro — Eu vou ensinar para o Rei Vegeta o que é um saiyajin de verdade. É sério, vou quebrar a cara dele. Estou ficando cada vez mais forte, e até consegui derrotar o Nappa!
- E eu ajudei! — disse Keki — Mas nem jogando um milhão de scounters eu conseguiria te ajudar contra o Vegeta. Ele é muito mais perigoso, e ele também tem muitos guarda-costas. Concordo que precisamos acabar com ele! Mas não dá para simplesmente o desafiarmos para um combate.
- É verdade. Precisamos nos vingar pelo que aconteceu em Planta, e ao mesmo tempo impedir que isso se repita em outros planetas — disse Purin — Mas, contando com Otosu, Ichigo, Orenji e Ringo, somos apenas sete contra um exército, então precisamos de um plano. Mas antes de mais nada, vamos dormir e pensar no assunto. Nem sei a quanto tempo estamos neste planeta porque a noite parece não ter fim, só sei que estou com sono.
Konbu também resolveu ir dormir, então saiu apagando as chamas. Ela também levou Purin, Keki e Chiri para suas camas. Eram camas surpreendentemente confortáveis, mas Purin levou tempo para adormecer; ficou virando de um lado para o outro, tentando pensar em um plano, mas nada vinha à sua mente. Resolveu deitar de barriga para cima e ficou olhando para o teto, tentando esvaziar a mente. Vagalumes — ou bichos que pareciam muito com vagalumes — estavam emitindo seu brilho no teto da caverna, de modo que, naquele escuro, eles pareciam estrelas. Vendo aquilo, um plano finalmente apareceu na mente de Purin, e logo em seguida ele mergulhou em um sono pesado.
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