Três amigas e o amor.

38 Raquel – Marcando o terreno


Raquel estava sem palavras após escutar tudo aquilo, com o seu coração apertado, as lágrimas ardiam nos seus olhos e escorreram pelo seu rosto. Nunca imaginaria uma história terrivelmente triste como aquela, aproximou-se e o envolveu em um abraço tentando minimizar sua dor e confortá-lo, com a cabeça no peito dele e ficaram assim algum tempo até o interfone tocar.

— A comida chegou – Otávio disse, afastando-se dela, limpando o rosto com a mão, nenhum dos dois não tinha mais fome nesse momento. Mesmo assim, comeram sentados no chão da sala, encostados no sofá, quase em silêncio.

— Sabe, poderíamos sair um pouco aproveitar o final do domingo. Que tal um cinema? – Otávio tentou se animar, era preciso, não podia se deixar abater, principalmente, agora que estava junto a Raquel.

— Cinema? — Raquel indagou, surpreendida com a proposta, pois há muita tempo, não ia ao cinema, muito menos com um homem — Gostei!

— Eu vou procurar um filme aqui – Otávio falou, levantando e já indo para o seu computador.

— Eu vou dar um jeito aqui e depois dou um pulo em casa, me arrumar – Ela completou, animada, levantando-se e juntando, os pratos e se dirigindo para a cozinha.

Voltando para seu apartamento, Raquel se sentindo um tanto estranha, como se dividida em duas vidas diferentes, sem saber, qual escolheria no final. Foi direto para o quarto, olhou o telefone esquecido em cima da mesinha de cabeceira, havia algumas ligações perdidas de Vitor e, por fim, uma mensagem de texto: “Saudades. V.”

Raquel sentou-se na cama, desanimada, encarando a tela do telefone e considerando o que estava fazendo com Vitor era uma traição, apesar de ele jamais ter prometido algum futuro ao lado dela, sabia que nunca assumiria essa relação nem abria mão do seu casamento vantajoso. Soltou o ar em um sonoro suspiro, e ergueu-se, aprontando-se e retornou para o apartamento ao lado.

— O que foi? – Otávio quis saber quando deparou com a expressão triste no rosto dela, pressentindo que havia algo errado.

— Isso! – Raquel mostrou a mensagem no telefone.

— Ele não quer que você o esqueça, por isso, está marcando o terreno – Otávio concluiu, com um sorriso irônico.

— Talvez, ele esteja mesmo com saudades – Raquel deduziu, querendo acreditar que Vitor realmente gostasse dela.

— Talvez – Otávio replicou — Vamos! – Não deixando margens para ela hesitar.

Durante todo aquele tempo de sua relação com Vitor, Raquel tinha esquecido de como era bom assistir um filme na telona, comendo pipoca, com alguém segurando sua mão ou a abraçando tal qual dois namorados. Também, pensou que com tanta comida chinesa, pipoca, estavam saindo do controle, precisaria voltar para dieta rígida para manter a forma, mas acabou relaxando. Depois do filme, caminharam de volta para a casa de mãos dadas, na noite agradável e fresca, até chegarem na frente das suas portas.

— Boa noite, Otávio. Foi uma noite muito legal, como há muito tempo, eu não tinha — Raquel agradeceu, feliz.

— Você não vai ficar comigo? – Otávio ficou espantado com aquela despedida.

— Não posso dormir na sua casa, todas as noites, Otávio – ela ponderou, pois aquilo estava indo depressa demais.

— Por que não? Você é solteira e eu sou divorciado, não temos que dar satisfação a ninguém – retrucou com lógica, pois, sabia que corria contra o relógio, seu tempo era limitado para conquistar Raquel.

— Isso não é verdade – Raquel tentou argumentar, querendo convencer a si mesma.

— É, sim! Você quer ser fiel a um homem que está viajando com a esposa – Otávio contra-atacou com a verdade.

— Você coloca essa história de uma maneira muito dura – era difícil para ela ser exposta assim, a verdade nua e crua.

— Mas, essa é a verdade, Raquel! Vamos, fique aqui comigo – a voz dele ficou mais macia, sedutora, ele a puxou para si, ela foi sem resistir.

— Amanhã é segunda, eu tenho que trabalhar – Ela procurou mais uma desculpa, sem muita firmeza.

— Você acorda e vai para casa se arrumar, só são poucos passos – ele sussurrou no ouvido dela, deslizando os lábios pelo pescoço dela, que percebeu que não resistiria por muito tempo – Não há nada ali para você.

— Eu fico – ela respondeu, esmorecida, nos braços dele.

Aquela segunda-feira estava atípica, Raquel chegou no escritório, atrasada, cansada, mas feliz após mais uma noite e uma manhã intensas nos braços de Otávio, reparando como a sua volta, todos pareciam bem agitados, o ar pesado e angustiante.

— O que está acontecendo aqui, hoje? – perguntou a uma colega, tentando compreender o significado daquele clima tenso.

— Você não soube? – a colega indagou, surpresa, erguendo as sobrancelhas.

— Não. O que houve? – Raquel sentiu o peito apertar, prendendo o ar.

— Vitor teve um infarto durante a viagem ontem, na Europa.

Raquel ficou pálida, seu coração disparou, sua boca estava seca, seus joelhos vacilaram, não conseguia respirar, sentou-se na cadeira mais próxima para não desabar.

— E como ele está? – Ela conseguiu perguntar, com medo da resposta.

— Eu, também, fiquei chocada, assim, como você – a outra mulher comentou, observando o estado de Raquel. — Pelo que disseram, estável. Parece que não foi muito grave. Ele fará um tal cateterismo por lá mesmo, só voltará para casa, quando estiver melhor – informou.

Raquel suspirou mais aliviada, conseguindo respirar com mais facilidade, o mundo retomou suas cores. Assim pelo resto do dia, ninguém não conseguiu se concentrar no trabalho. Principalmente ela, pois, de certa forma, sentia-se culpada e não sabia porquê. Pensou em ligar para o telefone de Vitor, mas sabia que não falaria com ele, e com o risco de ter que se explicar, inventando uma desculpa para Vera, a fim que ela não desconfiasse de nada. Como os outros, só teria notícias dele, superficiais e esporádicas.

Naquela noite, de volta para casa, Raquel não acendeu as luzes da sala, não queria que Otávio soubesse, que ela estava em casa, não podia vê-lo naquele momento, pois, simplesmente, ele não entenderia a sua preocupação e seus sentimentos de angústia e culpa.